Thursday, May 18

Vazio e ambição




Preocupados em atingir, em conseguir o que não têm, os indivíduos que não aceitam seus limites, suas histórias e vivências, disparam para realizar objetivos e desejos, disparam para realizar metas. Viver em expectativa é viver no depois, no futuro; é não viver no presente, é reduzí-lo a pequenos pontos onde os pés tocam. Perder espaço é perder o tempo. A não vivência do presente, estando o mesmo pontualizado nos apoios sobreviventes, deixa o indivíduo exaurido pela ansiedade. Nessas condições é preciso ter sempre alguma coisa para lutar, para conseguir ou para esperar. A ansiedade tem que ser alimentada. Sem a luta e a espera, o vazio se instala, surgindo, assim, o medo de morrer, de não conseguir chegar onde tem que chegar, medo de perder “o trem da história”, o “cavalo selado” da boa oportunidade. Pessoas vazias são ansiosas, medrosas e se mantêm pelo faz de conta. A mentira estabelece perfis, performances nas quais tudo fica resolvido. A incapacidade, a variação de atitude, o ir e voltar atrás no que faz e diz, constitui seu dia a dia. Pôr os pés no chão, aceitar limite e dificuldade é a única maneira de transformar a pontualização em continuidade, é o não queimar de etapas, é o entender que não é ao pular que se atinge cumes, mas sim, vivenciando pari passu os processos diários de enfrentar dificuldades e limites.


Thursday, May 11

Prudência




Infelizmente, a prudência, um dos bons aspectos configuradores de autonomia, ou seja, a percepção de limites, dificuldades, flexibilidade e rigidez, pode ser transformada em medo, em desconfiança. Muitos indivíduos se sentem prudentes por amealhar (dinheiro, poder), por esconder recursos, por despistar, esconder do outro, que é sempre visto como diferente, como estranho. Ser prudente é ser autônomo, é ser capaz de perceber limites, não os negar para que possa aceitá-los ou transformá-los. Nos indivíduos autorreferenciados, a vivência de suas não aceitações e conflitos - gerados por compromissos e projetos frustrados - transforma a prudência em ferramenta de verificação, utilidade e sucesso. Prudência passa a ser entendida como cuidado, como desconfiança, como não ter disponibilidade, espontaneidade, como estar sempre com o “pé atrás” para ter recursos e não cair em armadilhas. Prudente, então, não é mais o que constata e se relaciona com limites, prudente é o que antecipa, se resguardando, se cuidando, evitando encontros, evitando o novo. Esta maneira de perceber os outros e a si mesmo, este autorreferenciamento, transforma a prudência em medo - omissão - criador de isolamento, de solidão. O exercício constante deste isolamento faz com que as expectativas invadam o cotidiano. Sem participação surge ansiedade e consequentemente a depressão: são constantes o vazio e a solidão.


Thursday, May 4

Aprisionamentos doentios




Diante de muitas vicissitudes, doenças constantes e inúmeras, por exemplo, o ser humano se sente incapaz, prejudicado, doente, sozinho. Permanecesse neste sentimento, questionasse este momento, muito seria transformado. Acontece que quando se chega neste estado, geralmente ocorre não aceitação do mesmo. Começam a surgir deslocamentos, caracterizados principalmente pelo medo, pela carência, pela necessidade de ser aceito e cuidado pelos outros mais próximos, como familiares e amigos. Exigir cuidados constantes para justificar as próprias doenças, mazelas e impedimentos cria um contínuo estado de vitimização. Não pode haver melhora neste processo aguilhoante. Mais cuidados, mais amargura, mais desespero. Compreender que a realidade da doença aí está, que a mesma tem que ser suportada e que existem outras coisas saudáveis e válidas, é uma verdade. Esta reação é bem-vinda, causa tranquilidade, mas para ser mantida exige um mínimo de aceitação das situações limitadoras. Exatamente aí recomeçam as queixas, a vitimização, pois a não aceitação, de limites, de estar sozinho, de não ter alguém que cuide, é ameaçadora, e assim, neste contexto costumam pensar: foi tão fácil se sentir bem apesar de doente, que não deve ser difícil conseguir ficar bem novamente. É um novo dilema que surge, ancorado na velha questão da falta de autonomia, da não aceitação do limite. As novas justificativas agora são vivenciadas sobre outra base: o controle do que limita precisa ser aceito e não pode magicamente desaparecer, isto é, a doença existe, tanto quando a vida que deverá ser exercida de forma autônoma ao lidar com a doença, mas a pessoa teme falhar, ser abandonada, morrer. Começar a vivenciar os limites que a situam é exatamente tudo o que ela não quis ao abrir mão da própria autonomia.