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Humanidade

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Uma de nossas características mais marcantes é a possibilidade de perceber e categorizar e assim entender quem somos e como agimos, entender os acontecimentos e organizar nossa convivência, nossas vidas em comum. Criamos as regras, nos adaptamos aos valores e enfrentamos disputas, conflitos diversos, desvios, ameaças às definições que assumimos como definidoras de nossa humanidade. A capacidade de se sensibilizar com o outro é um desses pilares definidores. Ser afetado pelo outro não só demonstra que o percebemos, mas também que nos envolvemos com ele, nos dirigimos a ele, o cercamos, implicamos nossas vidas mutuamente, enfim. Que outro fundamento poderia definir melhor “humanidade”? Afinal não é ao conjunto, à vivência em comum, que esta palavra se refere? Mas conjuntos são abstrações conceituais e a humanidade é, supostamente, formada por seres humanos, por indivíduos. O indivíduo, para ser reconhecido como humano, precisa exercer, atualizar os valores que definem sua humanidade, s…

Desejos - ausência de questionamento

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Cada vez é mais constante correr atrás da cenoura na testa, os incentivos, a exacerbação gananciosa como maneira de justificar, realizar e se sentir feliz por estar vivo. No sistema atual, o mais desejado é ter dinheiro, ser rico, ter segurança econômica para tudo realizar e fazer. Todos em função de ganhar dinheiro. Só se olha nessa direção, para cima. Não se enxerga o que está do lado, e assim todos se sentem iguais: buscam o mesmo objetivo. Querer a melhoria, querer ser rico, iguala. Todos estão irmanados em vencer ou vencer. Essa polarização unifica pessoas e situações díspares. Nessas motivações as diferenças sociais e econômicas pouco significam. Qualquer um pode enriquecer: modelos, jogadores de futebol, empresários, ganhadores de loterias, enfim, tudo depende da realização do que se deseja, do polarizante atingido. A meta de ganhar dinheiro, unifica a todos. Não se considera nenhuma especificidade, companhia ou área de trabalho responsável por isso, o que se considera são aca…

A dor

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Geralmente todo corte abrupto é sem anestésico. Psicologicamente, a vivência da dor, da falta de alguém, por exemplo, ou do medo ou traição causada pelo próximo cria paroxismos dolorosos. A continuidade dessa vivência gera hábitos como maneira de suportar o vivenciado de deixar de sofrer ou de ter dores, mas é ficar na expectativa do inesperado que pode ser mais doloroso. Apanhar dia sim, dia não, seja do pai, da mãe, do marido ou do amante cria regra. Frequência que passa a modular pelos seus intervalos: as intermitências preparam os momentos para apanhar. Conviver com o que maltrata ou destrói é, muitas vezes, viciante.

Na sociedade, as explicações econômicas e as atitudes dos exploradores passam a ser bem esperadas pois trazem pão, água e às vezes afagos. Come-se o pão que o diabo amassa para se chegar ao alívio da fome ou até para se chegar a Deus. Assim, o conformismo é muito oportuno, é pela submissão que se sobrevive e continua sendo alimentado e mantido. “O homem é o aprendi…

Exílio e esquecimento

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Ser exilado da própria terra, do lugar onde se nasceu e vive, seja por guerras, fome ou perseguição político-ideológica deixa marcas, resíduos não superados. A expectativa do não mais sofrer torturas nem abusos, como aconteceu aos presos políticos da ditadura brasileira de 1964; o ter se salvado dos campos de extermínio nazistas por fração de minuto na saída de um trem de prisioneiros, são vivências que marcam e dificultam flexibilidade e disponibilidade. Imaginar que poderia ser aprisionado, ver que milhões de outros foram exterminados ou torturados são referenciais que causam tristeza, desesperança, medo e mágoa.

A construção de novas vidas supõe quase um apagar das anteriores. É uma transformação, às vezes uma violência que se exige. Tem que desaprender, esquecer, deslembrar, como dizia Fernando Pessoa. Parir-se de si mesmo e por si mesmo é um acontecimento que ultrapassa todas as identidades construídas e adquiridas. Mas a terra nova apesar de estranha é também familiar, pois é a…

Legalidade e legitimidade

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Legalidade não significa legitimidade. Discussões em torno do que é próprio, adquirido, legítimo, natural, em geral se constituem em divagações sobre as realidades discutidas ou questionadas. Essa técnica ou essa síntese das contradições pode legalizar, mas não legitima. O legítimo dispensa construções em torno. Luypen, fenomenólogo, já escrevia: “quando se trata de direito, não há legitimidade”. Não se discute a legitimidade da fala, embora se possa discutir sobre o direito de falar, proibindo ou permitindo.

As relações configuradoras de legitimidade são intrínsecas ao legitimado, enquanto as relações configuradoras de legalidade sempre são extrínsecas ao legalizado. Esta questão sobre ser intrínseco ou extrínseco é fundamental, pois estabelece direções e cria também distopias. O legítimo não impõe, nem resulta de processos, é o próprio configurador de estruturas, de situações. Quando se tenta julgar ou afirmar legitimidade, já se incorre em complexidades, pois afirmar legitimidade …

Estratégias

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Estratégias são constantes como maneiras de atingir objetivos. Nem sempre os objetivos significam realizações materiais, às vezes eles significam camuflagens e como tal não deixam de ser uma realização enquanto ação com o único objetivo de esconder.

As imagens fabricadas decorrentes dos processos de não aceitação de si, das origens familiares e realidade sócio-econômica levam as pessoas a inúmeros disfarces, a criar infinitas estratégias. Compensar, dissimular fracassos, ou o que se quer evitar que seja descoberto, é constante.

Nosso sistema sanciona e incentiva as estratégias: das plásticas rejuvenescedoras, às atitudes pseudo generosas e solidárias - por tabela - quando se quer demonstrar boa formação social e humanista.

A política é um campo fértil para estabelecer estratégias: o sorriso amoroso, o abraço afetuoso em crianças,  as visitas e o tempo gasto nas periferias das cidades, e exibido pelo marketing, são poderosos ingredientes de vários articulações.

O disfarce, o atalho…

Às apalpadelas

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De esbarrão em esbarrão se consegue descobrir o que evitar e por onde andar, assim como consagrar a experiência como uma chave que tudo abre e ilumina.
Sem apreender as relações que constituem os fenômenos, a totalidade do que aparece se parcializa, dicotomizando o vivenciado. O todo não é a soma de suas partes, ele é o qualitativo que tudo esclarece, daí ser apreendido por meio de insights - apreensões súbitas de suas relações constituintes. As distorções na percepção da totalidade descaracterizam o vivenciado enquanto presente, pois o que se percebe é inserido em outros contextos. A conhecida parábola do elefante e dos homens cegos é  emblemática: um grupo de homens cegos, que nunca se depararam com um elefante antes, tentam defini-lo tocando partes de seu enorme corpo. Cada cego sente uma parte do corpo do elefante, mas só uma parte, como um pedaço de uma pata por exemplo, ou a trompa, ou a orelha. Então, cada cego descreve o que percebe, baseando-se em suas experiências localizad…

Escapatórias

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Diante de impasses ou opressões os indivíduos buscam espaço para respirar e sobreviver. É o deslocamento. Densificar esse anseio é necessário e assim amuletos e preces surgem. Alguém vai ajudar, alguém vai libertar. Fórmulas mágicas podem criar super heróis, Hulks, Golems que tudo resolvem.
O que foi criado não obedece ao seu criador desde que ele é fruto de desesperos e impasses, ele é apenas uma quimera. Um sonho. O príncipe encantado que vai tirar da pobreza, o bem amado que vai surgir para acalentar e acompanhar as noites vazias são esperas constantes. Vive-se para realizar o sonho. Tanta dedicação ao não existente cria cogitações, fantasias e assim o que se necessita que apareça começa a povoar sonhos e delírios. Exigências de fidelidade, provas de crença são frequentes. O dia a dia é preenchido pelas preocupações de quando o eleito aparecer, “quando o carnaval chegar”, quando o mundo mudar. Desde a constante espera da noite feliz de natal até o regozijo pelas eternas esperanças…

Rejeições sistemáticas e apropriações indébitas

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Rejeições sistemáticas e apropriações indébitas - esse é o processo vivenciado por certos indivíduos em relação aos pais quando são continuamente rejeitados, nunca aceitos pelo que são e submetidos a constantes sugestões, como: “fique melhor, faça alguma coisa, deixe de ser assim, me ajude, cuide de mim”. Esse processo cria submissos, sobreviventes e insatisfeitos, dedicados a conseguir um lugar ao sol, uma mão amiga ou algo significativo que valide sua existência. Ser um grande médico, um cientista que salve a humanidade, um artista maravilhoso seria redentor. Este lugar dos sonhos, se atingido, é mais esvaziante, pois não significa enquanto o que é, significa pelo que deve ser. É mais um elo da escravidão, mais uma garantia para preencher os temores da rejeição. No entanto, na velocidade e dinâmica de novos processos, o indivíduo sucumbe ou seu trabalho, sua trajetória pode trazer outras dimensões, um novo espelho no qual se percebe. Surge mudança, ele vê sua capacidade, se vê como…

Transformando resistências

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Enfrentar ou cortar o que atrapalha e impede é uma maneira eficiente de abrir perspectivas, tanto quanto de transformar situações. Geralmente o que se erradica e enfrenta em determinados contextos permanece indene em outros. A continuidade do que atrapalha é preservada numa ilha de vazio. Ao longo das jornadas tudo fica renovado, porém sem questionamentos à suas estruturações originantes. É o amor exigido da mãe que se abandonou após longo desentendimento, por exemplo; são também situações de renúncia que se caracterizam pela dificuldade assumida. Quando permanecem resíduos, quando o corte não remove tudo, começam a surgir bloqueios e desvios causados pelos remanescentes. Nesse processo podem ocorrer deslocamentos responsáveis por comprometimentos imprevisíveis: angústia diante do sorriso de uma criança, choro repentino por um canto de pássaro, impossibilidade de criar o próximo cenário da peça na qual se trabalha, incapacidade de criar. A angústia gerada pela constatação das impossi…