Postagens

Featured Post

Caridade, solidariedade, amor

Imagem
Ir além de si mesmo é condição básica para estar no mundo, para perceber o outro como algo diferente de objeto útil, de apoio necessário, de refrigério buscado, de ameaça ou perigo estabelecidos. Quanto maior o limite, quanto mais amarras e menor espaço, menos se tem condição de ir além de si mesmo. O que se disputa e valoriza é mais ar, mais espaço para sobreviver ou para relaxar. Ter que conseguir tudo para melhorar as condições de sobrevivência estrutura processos autorreferenciados. Sempre garantir, manter mais espaço, salvar a própria pele cria total impossibilidade de convívio com o outro, independente de vantagens ou desvantagens que ele pode trazer, criar ou resolver. Não há solidariedade, não há empatia, pois não se vai além de si mesmo.

Acontece que grupos, sociedades, só se mantêm por meio de participação, de estabelecimento de limites, direitos e deveres. Esses referenciais passam a ser os prolongamentos dos próprios desejos e motivações, e assim contingenciados os espaç…

Ânimo e desânimo

Imagem
Quando se está tranquilo e satisfeito é por estar vivenciando o presente, a realidade enquanto ela própria. Assim, o que acontece é o que contextualiza a vivência, não há acréscimo valorativo. O bem-estar, o mal-estar são tranquilamente vivenciados pois são situantes, e é isso que permite aceitar, transformar ou suportar o cotidiano.

Dificilmente as pessoas se sentem tranquilas, pois frequentemente elas não vivenciam o presente, não vivenciam a sua realidade como pregnante. A não aceitação do que acontece cria frustração, irritação, desânimo. Geralmente elas preferem ocultar, superar ou ultrapassar as situações de não aceitação e frustração por meio de sonhos, metas e negação do que está ocorrendo. Esse processo obscurece o presente, joga o indivíduo para um depois não existente, tornando impossível estar situado vivenciando o real.

A negação da realidade, do pé no chão, da convivência com o que ocorre cria insegurança, gera omissão, medos responsáveis por constante ansiedade. Lidar…

“A beleza é uma prótese”

Imagem
Esta frase anônima - “A beleza é uma prótese” - é aparentemente estapafúrdia, desconexa, pois beleza sempre está associada a harmonia e elegância, enquanto prótese remete a doença, falha e incapacidade. Caso nos detenhamos no significado fundamental de aparência e imagem perceberemos significados que unificam esses conceitos, encontraremos conexões harmônicas e não mais situações desconexas.

As próteses existem para compor, para corrigir. Esse criar de funcionalidades neutraliza impedimentos, harmoniza e deixa fluir condições comprometidas, e portanto, pensar a beleza como prótese implica em considerá-la apenas como uma imagem, uma máscara funcional.

Acontece que a beleza é intrínseca, é uma resultante harmônica de diversas configurações e nesse sentido jamais uma prótese. Quando se pensa nela como imagem ou prótese é por transformá-la em cópia, em soma de partes privilegiadas e segmentos compostos para totalizar o que alguns entendem como beleza, resultando em processos como: colo…

“Tenho tudo, não preciso de nada e nada me deixa feliz”

Imagem
“Tenho tudo, não preciso de nada e nada me deixa feliz, minha vida é vazia” é um desabafo que aparenta ser vazio e tédio, mas concluir isso é ilusório, incongruente. Jamais tédio e vazio  resultam de avaliação. A consistência da avaliação, ou seja, o enumerar possibilidades e neutralizar conflitos é a medida, o peso que tudo determina e contabiliza. Fazer a conta, pesar, medir, avaliar é estabelecer recursos, etiquetas e rótulos. Preencher espaços jamais enseja vazio e tédio.

Nada ver, nada deter, nada sentir, esvazia e entedia, mas avaliar é um procedimento que obriga sempre a completar e quando isso ocorre não há o que fazer, a não ser renovar o processo, destruir e buscar complementar, enfim, iniciar novas avaliações que permitam constatar e não ter o que fazer, apenas manter o conseguido. Essa constante repetição é como Sísifo ainda na esperança de conseguir libertação. Como aconteceu com Sísifo, tudo foi entendido. Ficou claro que sua vida é fazer e refazer, mas ir além disso, c…

Utilizar, enganar, exibir

Imagem
Nas diversas dificuldades comportamentais, nas impossibilidades de convívio social, familiar e de trabalho, quando se deixa de lado as problemáticas, as não aceitações que definem e caracterizam o viver, nessas situações frequentemente é estabelecido um vazio, a despersonalização. Não se sabe o que fazer, salvo se entregar ao medo, à depressão, à inveja, à raiva e ao desespero. Nesse quadro, quando surgem pequenas melhoras de ânimo, os indivíduos resolvem disfarçar suas histórias, suas vergonhas, suas características. É o clássico ir à loja e comprar muito, para dissimular; é o clássico copiar e editar perfis, frases e comportamentos alheios. Não há critério para as utilizações, tampouco para os objetivos de enganar - o que se quer é ser diferente, exibir nova fácies, novo aspecto: cultura, riqueza, status. Mas viver tentando ser diferente do que se é, ocultando as próprias dificuldades, é índice revelador de problemas. As apropriações criam mais problemas. Não se sustentam, fenecem …

Receios e cautelas

Imagem
Quando a vivência do futuro, a expectativa do que vai acontecer preside e organiza o cotidiano, o nível de insegurança aumenta. Tudo ameaça. Nenhum recurso pode ser esperdiçado. Para essas pessoas, viver é preparar o depois para quando não se consegue mais ter condições de agir. O medo de deixar filhos desamparados, a preocupação de ter uma velhice solitária ou sem ninguém ajudando, antecipa as próprias dificuldades temidas, que sequer são percebidas pois o indivíduo está instalado em seu futuro temido, ou almejado.
Viver para, ou viver por, aliena, desestrutura, tira o chão, faz perder significado, pois tudo é colorido por amargura e medo. Não sabe o que fazer a não ser juntar dinheiro, amizades e condições para o futuro, por exemplo.
Negar a própria vida e a própria realidade é uma maneira mágica de esperar recuperá-la mais tarde. Virar zumbi para conseguir sobreviver é um passo desesperado. Tudo evitar, tudo conseguir, tudo cuidar para ter condição mais tarde, é uma preocupação q…

Credibilidade

Imagem
O que é crível, passível de ser acreditado, depende da facticidade respeitada, depende do que se constata e observa, tanto quanto depende também de quem e de como se veicula essas constatações e observações.
As narrativas são as malhas que sustentam e amparam as constatações. Apenas constatar nada significa pois o relato das mesmas, o diálogo em torno do observado é invadido por outros referenciais, principalmente os que situam quem relata, quem reproduz os fatos, quando isso é feito e a quem é feito. Narrar um acontecimento é validado em função do narrador; sua importância, dificuldade, compromisso e disponibilidade o transformam em pessoa que pode ser acreditada, que é confiável ou que é alguém que apenas amealha desconfiança, não é pessoa de se acreditar, não tem credibilidade.
A questão das coisas não significarem enquanto elas próprias é intrínseca - é a estrutura dos próprios processos. O símbolo invade o real, o real também se camufla no simbólico. Este vai e vem ocasiona di…

“Eu fui o erro que ele cometeu”

Imagem
“Eu fui o erro que ele cometeu” é uma frase que pode ser entendida como uma autocrítica, crítica, acusação ou constatação vitoriosa. Ter decepcionado, não ter preenchido as expectativas do outro, deixa clara a escolha errada, o convívio errado e falho.
Insinuar-se para conseguir o que quer, desviando o outro de seus propósitos, trabalho e raízes para depois execrá-lo, sentir-se vitoriosa por destruir o outro é exemplificador de ganância, violência e maldade.
Em algumas situações, perceber que o encontro com o outro se constitui em erro gera autocrítica por perceber como utilizou a confiança e crença do outro para consecução de objetivos próprios. A crítica ao outro pela escolha feita reside em tê-lo enganado.
Buscar o outro para realizar objetivos e desejos, enganando, é mentir para conseguir viabilizar propósitos e no fim usar e destruir quem confiou e acreditou. De qualquer forma, se personalizar por meio do erro cometido pelo outro é muito comum nas situações nas quais existem d…

O herói

Imagem
O desespero resultante de suportar, de viver e escorregar na mesmice do indiferenciado, homogeneíza pela neutralização de contradições que são vivenciadas como necessidade de sedativos, de amortecedores ou criadores de bem-estar.

Quanto maior o apaziguamento - a negação do que infelicita - por meio de crenças e esperança de melhoria, maior o desespero, maior a imobilização no que esmaga e tritura. No aclamado filme Coringa as sequências vivenciadas pelo personagem central são bons exemplos dessa situação. Na fragmentação, vivendo de sobras, resíduos de afetos mentirosos, o Coringa é comprimido e esmagado; entretanto algum alento, algo humano sobra. Tecendo impossíveis cordas para evadir-se, o personagem enlouquece e nesse processo descobre outros alienados também esmagados por submissão às máquinas trituradoras representadas pelos sistemas sócio-econômicos vigentes. Seus gritos e passos de revolta o transformam em herói. É o predestinado, quase o Messias, o milagroso que todos esper…

Humanidade

Imagem
Uma de nossas características mais marcantes é a possibilidade de perceber e categorizar e assim entender quem somos e como agimos, entender os acontecimentos e organizar nossa convivência, nossas vidas em comum. Criamos as regras, nos adaptamos aos valores e enfrentamos disputas, conflitos diversos, desvios, ameaças às definições que assumimos como definidoras de nossa humanidade. A capacidade de se sensibilizar com o outro é um desses pilares definidores. Ser afetado pelo outro não só demonstra que o percebemos, mas também que nos envolvemos com ele, nos dirigimos a ele, o cercamos, implicamos nossas vidas mutuamente, enfim. Que outro fundamento poderia definir melhor “humanidade”? Afinal não é ao conjunto, à vivência em comum, que esta palavra se refere? Mas conjuntos são abstrações conceituais e a humanidade é, supostamente, formada por seres humanos, por indivíduos. O indivíduo, para ser reconhecido como humano, precisa exercer, atualizar os valores que definem sua humanidade, s…