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Contradição

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  Estar sempre se queixando das próprias incapacidades, muitas vezes é confundido com autocrítica, tanto quanto com impiedosa desvalorização de si mesmo. Essas queixas geralmente não passam de reclamações, de gritos de alerta, de pedidos de ajuda. O indivíduo que se queixa, em última análise, espera ser reconhecido, ajudado. A queixa, para ele, é uma maneira de dizer “estou atento, estou sendo prejudicado” . Ela é sempre o desejo falhado, não realizado. Quando assim percebida e conceituada, a queixa é uma indicação da não aceitação, da recusa sistemática da impotência, da incapacidade, da realidade. Frequentemente, ser vítima, construída por meio de queixas, bem ouvidas e auditadas (famílias, governos, até mesmo psicoterapeutas), é ocupar um lugar, e, às vezes, ter um destaque arregimentador de olhares e cuidados.    

Sobra e falta – oximoro da sobrevivência

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  Tudo que não é integrado, sobra. A superposição de interesses, a não definição de pressupostos se constitui em desviantes construídos como soluções temporárias para dificuldades persistentes, contínuas. A pobreza, a falta de recursos, em um sistema social produtivo, por exemplo, expõe o excesso, o que pode ser resumido neste oximoro: falta porque sobra. Desentendimentos nas relações afetivas, dificuldades de adaptação, também podem ser inseridas nessas evidências contraditórias. Raiva, desespero, inveja são sobras do que foi negado, do que não foi realizado. Tudo se transforma, tudo se relaciona, não são criados, não há causa, não há efeito. Existem dinâmicas, interseções, configurações que se correlacionam e transformam. Desenvolvimento de processos, protelação dos mesmos em função de outros referenciais, podem explicar e continuar. As metamorfoses de sistemas, desejos e frustrações, escurecem, colorem, harmonizam ou destroem nosso cotidiano. As viradas, as curvas, as estagnações

Entendimento, desentendimento e diálogo

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    Dialogar, conversar sobre é sempre resultado de estruturas individuais, de suas percepções, conhecimento e categorizações. Nesse sentido podemos contextualizar o diálogo nas dimensões de quem conversa e sobre o que se conversa. O outro pode estar dividido, recortado em muitos pedaços, submerso em seus medos, dúvidas, culpas, esperanças e em suas não aceitações, ou pode estar inteiro direcionado para transcender limites que são obstáculos. Os termos, os motivos do diálogo, podem se constituir em repetições, sublinhamento do que ocorre, tanto quanto no levantar de dados, configuração que possa aplanar ou intensificar divergências. Dialogar é explicitar pensamentos, é resumir percepções, assim como pode ser o “criatório de iscas” usadas para buscar alimentos, informações, caça de ideias, busca de comprometimento. Dialogar pode significar encontro, mas também pode ser busca de pontes, artifícios para restaurar o interrompido, a comunicação suspensa. Nesse sentido di

Andar devagarinho

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    Sentir muito medo, sentir-se sozinho, não ver perspectivas pois tudo é escuro é a preocupação constante na vida de certos indivíduos. Medo é omissão e isso não é um prévio, um “instinto”, uma “emoção inconsciente”. Medo é o que se sente quando nada se percebe, a não ser o nada saber, nada estar claro. É caminhar com muita dificuldade, sem apoio, sem muletas, sem lanternas, sem guias. Essa omissão, esse ser à margem do mundo é frequente nos considerados indivíduos autistas, como também é explícito na insegurança cheia de metas e propósitos dos indivíduos que não se aceitam e querem ser aceitos. Não sabem como andar, para onde ir, o que fazer, e caem na omissão. É melhor ficar parado, abrir a boca para o mundo e esperar ajuda, apoio, comida, migalhas. É a imobilidade do que não sabe o que fazer, assim como a do que tudo espera. Não cair, não tropeçar, não ter que gritar, que uivar é o que importa. Quanto mais regras, mais expectativas, mais desencontros no vácuo

Pilares contraditórios

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      “Não chame atenção, faça tudo para não causar inveja, medo, raiva”. “Brilhe, chame atenção, ocupe seu lugar, seja o melhor, o mais valorizado”.   Culturas, comunidades, famílias em geral são sustentadas e esmagadas por esses dois pilares. Desde as linhas de produção econômica, desde as defesas e conquistas territoriais, até os núcleos íntimos estruturantes das comunidades, das famílias ou ainda do indivíduo com ele próprio, os limites são essas orientações antagônicas. Evite e lute, esconda e mostre. Antagonismos básicos, crivos dilacerantes cortando em pedaços a vida desses seres. Desse modo o que se ensina é fingir, garantir o devido, não perder oportunidades. Estar sempre apto para aproveitar é “não deixar passar o cavalo selado” . Essa divisão é a cisão dos processos individualizantes. À depender de como se vivencia essas contradições, as divisões podem ser inúmeras, como podem também ficar reduzidas a quatro, duas divisões. Conflitos, desperson

Imposições

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    Geralmente o encontro funciona como imposição, seja no sentido da continuidade, seja na configuração do obstáculo que destrói ou muda as situações. É a pedra no caminho falada pelo poeta Drummond.   Mudança de rumo, descoberta de congruência, validação de motivação, enxurrada de novidades, aberturas infinitas começam com encontros. Os encontros também podem oferecer próximos passos abismais, engolidores de motivações, propósitos e verdades. O encontro sempre transforma, é como uma reação química que muda a estrutura dos corpos, das substâncias, dos elementos químicos. É a irreversibilidade, pois o ser tocado é propiciador de mudança e de descoberta. Reunifica antíteses, transforma teses, que são continuadas em outros contextos em níveis diversos. A diferença entre os valorativos: encontro bom, encontro ruim, encontro construtivo, encontro abismal, dependerá das estruturas de disponibilidade ou de compromisso que estão em jogo, que estão se deparando para

Distopia e arbitrariedade

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      A vida transformada em gincana, maratona na qual vence o melhor é pontilhada de urgências. Nada pode ser adiado, tudo precisa ocorrer do modo esperado, nada pode falhar, assim pensam os maratonistas, indivíduos transformados em objetos, títeres e mártires dos sistemas que os orientam. Urgências familiares, urgências políticas, urgências sociais, planos, objetivos, todas essas expectativas lançam a vida para depois, fazendo com que os indivíduos busquem a luz no fim do túnel. As trevas são redimidas por palavras de ordem políticas, por pregações religiosas, por promessas aliciadoras de bem-estar, por explicações espirituais e transcendentes, missões e propostas do que é o viver aqui neste planeta, nesta Terra. É o placebo, o faz de conta que estimula o corre-corre, o atropelar o outro, tudo em nome do bem ou do mal que deve ser destruído. Ter urgência é o faz de conta que tudo justifica, corrompe e destrói, pois é o acenar para o inexistente, para o que deve ser, o que precisa

Amargura

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    Frustração contínua, desejos não realizados, expectativas falhadas são os ingredientes do posicionamento, do comportamento amargurado. Tudo falhou, nada deu certo, os indivíduos sentem-se sozinhos, desesperados, correndo atrás de oportunidades, da vida que todos têm e eles não tiveram. A inveja cozinhando, cozida com lágrimas de raiva filtrada pelo que consideram injusto, é o riacho que sacia a sede. É o amargo, o desprezível, o resíduo, o bagulho que deveria ser descartado, mas foi retido pois era o único estofo concreto do cotidiano. É o famoso personagem apascentado pelo ódio que escorre nas linhas de Poe, Shakespeare e Dostoiévski. É também o estojo, o ninho onde se condicionam e nutrem víboras. O amargor é imobilizador, pois é um resíduo muito forte da não aceitação de si, do mundo e do outro. Nesse sentido, criaturas amargas estão ancoradas na depressão que tudo detém, engole e destrói, mas que para elas é causa da doçura do dia a dia, sendo seu mel resta

Poço sem fundo

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    A ganância, essa atitude ou comportamento, resulta sempre da pessoa se sentir no direito de realizar e conseguir qualquer coisa que deseje pois é capaz e privilegiada, e também por ter direito ou por se sentir injustiçada, marginalizada. “Os meios justificam os fins, querer é poder, agora é minha vez” e outros lemas espúrios, enviesados e autorreferenciados justificam seus atos. É uma atitude autorreferenciada que atinge níveis perigosos quando alicerçada em direitos identitários, atitudes de expiação, ou pretendida justiça social. “Fui explorado, agora exijo meus direitos”, “todos têm, e eu?” são gritos desesperados que orientam comportamentos ambiciosos, exclusivistas e destruidores da harmonia familiar e social. São posicionamentos pessoais, apoiados em frustrações e desejos individualizados, sem entendimento das forças antagônicas grupais, sociais atuantes sejam na família, seja na sociedade em geral, consequentemente focados apenas nas mudanças que leva

Pragmatismo inútil

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  No mundo moderno é cada vez mais comum morar só, viver distante de amigos, conhecidos ou parentes. Olhar em volta e se encontrar sozinho, saber que não se tem quem encontrar, quem ouça, é, às vezes desesperador, tanto quanto apenas é uma constatação do que acontece. Essas situações, desespero e constatação, aparentemente diferentes, são iguais quando considerados os níveis em que elas se estruturam. Perceber-se só é o que existe em comum nos dois casos, as diferenças se iniciam ao avaliar o que é sublinhado, enfatizado no que ocorre. Perceber a solidão e com isso se desesperar acontece quando a mesma é filtrada por lentes pragmáticas ou culpadas. Ter um objetivo, uma meta ou ambição e a ela se dedicar é um pragmatismo validado pelos resultados, mas que engessa as possibilidades relacionais de estar com os outros. Na culpa, tampa da impotência, tudo é justificado e a procura de perdão, redenção dos atos, explicação dos mesmos, é uma constante.   Não ter onde o