Thursday, January 18

Incontornável




Nas vivências fragmentadas, resultantes das polarizações autorreferenciadas, as possibilidades de globalização e expressão tornam-se impossíveis. Clichês e refrões substituem as expressões espontâneas do que se percebe. Sempre preocupados com os efeitos que podem causar, as avaliações são constantes para esses indivíduos, são uma faca afiada para tudo cortar, dividir e separar.

Contornos decorrem de flexibilidade e sempre implicam em desprendimento de ideias fixas e verdades religiosas, por exemplo.

Quando rigidamente fincados nos alvos, nos propósitos e objetivos, qualquer flutuação é vivenciada como ameaça. Descumprir um acordo, mudar horários ou desistir de programas são vivenciados como obstáculos incontornáveis, pois é por meio das ideias fixas que se organiza o mundo fragmentado. Buscar ímãs aglutinadores é um dos objetivos dessas pessoas. Fanatismo é o que lhes dá sequência e estabelece identidade.

Viver em ambientes nos quais tudo é vivenciado como última oportunidade cria tensão, medo, pânico e ambição. Querer ser o ditador de regras e o dono do poder significa ter domínio, ditar normas e leis. As impotências são equacionadas criando valores e regras dogmáticas nas quais só vale o que é determinado pelo autor das mesmas. Perceber o outro, apreender mutabilidade e diversificação é entendido como desvirtuamento de propósitos. Para esses indivíduos, transformar o outro em objeto de uso é atingir tranquilidade, é bem-estar, pois tudo depende de apertar botões, fazer movimentos precisos, lidar com situações garantidas.


Thursday, January 11

Chantagem




Quando o indivíduo se dedica a conseguir realizar suas metas e desejos, nada o detém. A própria estrutura voltada para o futuro, para o depois, faz com que ele fique imune a qualquer vivência da realidade. Os tijolos e pedradas do real, a obviedade contundente, não o atinge, ele está impermeabilizado, seus planos e estratégias o blindaram, tanto quanto o seu cinismo, a sua maldade e o não comprometimento com nada além de seus interesses e objetivos. Viver para o futuro a fim de superar situações que considera limitadoras e desagradáveis, utilizar o outro, oportunidades institucionais e falhas descobertas, municia esses indivíduos, lhes confere grande poder de destruição.

Ir ao ponto certo, atingir alvos e assim comprometer pessoas ou instituições cria os chantagistas, os que tudo podem e conseguem ao se alimentar dos medos, apreensões e inseguranças de suas vítimas e de seus objetivos de conquista. Ser vítima de chantagem é uma possibilidade quando se tem metas e medos, coisas a conseguir, coisas a esconder e a omitir. A ação malévola de chantagistas, atuando sobre indivíduos cujas motivações são divididas e fragmentadas por interesses e conveniências, cria espectros de respeitabilidade. Esses fantasmas só existem pela manipulação diária e constante, são protegidos pelas mentiras, despistes e encenações de pseudo disponibilidade e honradez. Assistimos isso desde as escrituras que garantem as terras griladas ou usurpadas, até a imunidade das funções parlamentares ou os funcionários das diversas instituições que esquecem ou escondem papéis, processos ou atualizações de rotina a fim de contornar e criar novos recursos. Toda vez que ocorrem ataques, toda vez que se estabelece chantagem, implodem-se reputações, exacerba-se prerrogativas e o vale tudo de explicações e justificativas constrói novas barreiras e novas bandeiras de luta e reivindicação.

Chantagear é aproveitar os resíduos de fragmentações compactadas pelas molduras institucionais, familiares e políticas e assim criar títeres e vilões. É querer transformar o outro em um ser despersonalizado, que vive para manter posições à medida que satisfaz e realiza expectativas e desejos do outro. Aceitar a chantagem é aceitar a própria destruição, é antecipar a morte em vida, isto é, omitir-se, fazer-se cúmplice, e geralmente, atingindo também outras pessoas.


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