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Depressão, ansiedade e pandemia - Perspectivas de vida diante de impasses

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O futuro, o que está por acontecer é sempre uma decorrência do que está acontecendo, do presente, que por sua vez é continuidade do que aconteceu, do passado. A vivência, a percepção do inesperado decorre de percepções, de constatações descontinuadas, isto é, continuadas em outras dimensões, direções, decorrências. A decorrência de A é sempre A', A'', A'''... An. Nada está isolado. As combinações e arranjos que fazemos estabelecem outras continuidades e descontinuidades. Vivenciar o que está acontecendo como promessa, insinuação, possibilidade do que está por vir é ampliador de vivências, de constatações e possibilidades. Quando as vivências se esgotam em si mesmas, quando não apontam para nada, os limites são estabelecidos. Esses inesperados são vitalizadores ou desvitalizadores. O que esmaga, o que oprime, também explicita potenciais de mudança. Definidos os limites, as perspectivas de vida podem diminuir ou desaparecer, tanto quanto pela insurgência, pela rev

Percepção do Outro - Deus percebido como o outro X

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  A vivência do mágico, do irreal, do absoluto, com frequência é o faz de conta para tudo remediar. Estar impotente, sem saída, desesperado, tanto quanto esperançoso, tendo jogado todas as fichas no depois, no futuro, em alguém, absolutiza o relativo, cria deuses e Deus. É o faz de conta que as coisas vão se resolver. "A esperança é a última que morre", "a esperança ilumina e sustenta a vida", "os bons vencem, Deus ajuda", enfim, existe um infinito arsenal de conforto. São os equivalentes de drogas lisérgicas, lícitas e ilícitas que reconfortam, fazem esquecer o estar no mundo com o outro. Esse esquecimento custa caro. Ele aliena e isola, resume todas as distâncias que se faz em relação a não aceitação do outro como semelhante, a não o perceber e consequentemente se pontualizar. A ideia ou sensação de Deus desafia, complementa, seda, anima, protege, escraviza, divide e nega os limites da realidade. Deus pode ser pensado como transcendência, jamais como o o

Percepção do Outro - o outro percebido como plateia IX

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  A expectativa de resultados, o constante evitar de fracassos e críticas transformam o cotidiano em uma grande maratona. Juízes, comentadores e adversários estão sempre perto. Tudo fazer para desempenhar bem os papéis é a regra de ouro para o comportamento de quem depende de aplausos, de aceitação, e de evitar críticas ou rejeições. Essa atitude transforma a vida em constante busca de ser aplaudido, instalando também variações de humor e de motivações. O outro é o índice, é o que assinala se está bem ou mal. Quando aceito, elogiado, tudo caminha bem, caso contrário a vida encalha, arrastando consigo o torvelinho de fracassos, falhas e medo. Vive para  cuidar da aparência, e estar sempre bem vestido por exemplo, é a chave que abre mundos e caminhos. É também uma maneira de estar virando produto no grande mercado mundial. Assim as peças usadas significam, os detalhes revelam muito, a vida pode transcorrer sem problemas quando se acerta com a boa fantasia, a vestimenta que talvez o inclu

Percepção do Outro - o outro percebido como eu mesmo VIII

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  "O outro sou eu" - essa divisão - implica em autorreferenciamento. Os níveis do autorreferenciamento chegam a tal ponto de fragmentação que não existe mais questionamento ou comunicação. Como ilhas, nada esbarra, nada questiona. O outro é a própria pessoa. Nas vivências delirantes, nas alucinações psicóticas, no desejo de explorar, de se dar bem, de utilizar o outro - seja filho, parente, amigo ou inimigo para consumação dos próprios desejos - esse processo de autorreferenciamento é encontradiço. "O outro sou eu próprio". Esse é o artifício que exila qualquer possibilidade de reconhecimento e questionamento.  Reduzir tudo a si mesmo, pontualizar a existência é um desejo desesperado de ter um ponto de atuação, um ponto de gravitação a partir do qual as situações se estruturem e se definam. Uma vez pontualizado, só por meio da recriação de retas que se encontram e desaparecem é que se pode recriar processos. No processo psicoterapêutico é frequente encontrar essas e

Percepção do Outro - o outro percebido como fonte de exploração VII

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  Escravidão ou escravização, esse processo que utiliza o outro para exploração, existe em vários níveis: desde a mãe explorada para cuidar dos filhos deixando de ter vida própria ou para ajudar o marido cuidando da família com segurança sem maiores ônus econômico-sociais, até a mão de obra mal paga ou não paga. Usar o outro para satisfazer desejos, dos sexuais aos sociais, intelectuais ou econômicos é também uma forma de escravização.  Toda vez que alguém é submetido, essa submissão serve a algum propósito no qual apenas o dominador lucra e tem autonomia. Necessariamente, em todo processo de exploração ou escravização existe a perda de autonomia do dominado. Virar marionete, ser títere é uma maneira de desumanizar-se. Muitas pessoas só sobrevivem explorando, outras submetendo-se. O engano, o disfarce são formas aparentemente mais suaves de exploração, de submissão, mas são também muito prejudiciais, pois amarram o outro a mentiras, a enganos exploradores. Quantas mães alienam e destro

Percepção do Outro - o outro percebido como proteção (insegurança) VI

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  Transformar o outro em muralha protetora, em cobertura que ampara é algo gerado pela insegurança, pela verificação do que se precisa de apoios, de boas bases de sustentabilidade para realizar o que se quer. Transformando e dando continuidade às relações familiares que existiam ou que não existam, como por exemplo pai e mãe protetores, reais ou imaginários, os indivíduos reduzem o grande mundo, os grandes espaços às dimensões de seus impasses, de seus propósitos. Precisar atingir ou quebrar limites e para tanto utilizar ou contar com o próximo é transformar o outro em peça da engrenagem a ser mantida, é também descaracterizá-lo pois seu modelo estruturante é o das figuras parentais ou os de casas e bunkers protetores. É infantilizador transformar as parceiras em mães, os parceiros em pais, tanto quanto o mestre, o professor e auxiliares em amigos. Relacionamentos calcados na busca e realização de proteção são, por definição, esvaziadores. O outro não é o que é, é o que se precisa que

Percepção do Outro - o outro percebido como o que traz novidade V

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  Quando tudo é percebido como igual, como monótono, é preciso novidade, acabar com a mesmice que desencadeia o tédio desagradável. Os processos de não aceitação transformam o cotidiano em uma vivência homogeneizante. Nada acontece. Tudo é igual. É necessário que alguém apareça trazendo boas novas. O mensageiro da nova ordem, da nova vida é aguardado. Tudo se resolveria caso aparecesse alguém com recursos, com motivação. Ter uma companhia, alguém que ajude, oriente, participe, tudo ao mesmo tempo, ou não, é o que se deseja. Não conseguir se motivar por não aceitar seu presente cria expectativas. Vive-se esperando que alguém mude a carência, o vazio. Esse deslocamento decorre da não aceitação de si e de sua realidade. Esperar que o outro divirta, que crie novidade, é esperar o príncipe encantado ou a fada que tudo resolverá. Adiar a vida, delegando ao outro e às circunstâncias as dinamizações do que se descontinua é adiar desejos não realizados, cristalizando frustrações. O outro é espe

Percepção do Outro - o outro percebido como complemento (satisfação de necessidades) IV

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  "As metades da laranja" que se encontram, as almas gêmeas, o reencontro, todas essas ideias animam a busca por satisfação de necessidades e realização de projetos de vida por meio do outro, ou seja, com ajuda, participação do outro. É a ideia de reencontro que valida o encontro, mas esse prévio invalida a vivencia presentificada. Nessa distorção sempre tem que haver uma base, uma plataforma identitária comum para que se processe a convivência. O prévio justifica e antecede o acontecimento. Isso é a contravenção total em função dos desejos de realização.  O outro como complemento é também a expectativa que justifica o querer o outro para realizar o que não se tem condição. As próprias incapacidades e dificuldades serão sanadas pelo parceiro rico, por exemplo, ou em certos contextos os acessos serão atingidos pelo outro acostumado a sobreviver com feras ou com despossuídos, situações nas quais acessar as quadrilhas ou os grandes salões e corporações, se torna viável quando o

Percepção do Outro - o outro percebido como desafio III

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  O outro como desafio é o motivador, é a meta a ser atingida. Ter os conhecimentos e habilidade do amigo, conseguir vencer na vida como o vizinho e o patrão conseguiram, tirar do caminho o colega que está em cargo hierarquicamente mais alto são apenas alguns exemplos do outro percebido como desafio. Podemos também lembrar o desafio cotidiano que consiste em querer conquistar, pelo matrimônio, o colega, a colega que são ricos e poderosos. A vida parece ficar resolvida se fizer parte de significativo clã. O chegar lá, o se igualar aos que possuem muito - habilidade, inteligência, bons relacionamentos ou dinheiro, fama e sucesso - são posições constantemente desejadas. Para alcançar metas, vale tudo, até tirar do caminho o padre guardião de direitos das comunidades menos favorecidas, por exemplo, e isso é muito comum quando se planeja ganhar com uma situação engendrada e se percebe o outro como muralha que atrapalha escaladas. "Ou eu ou ela", "ou eu ou ele" são frases

Percepção do Outro - o outro percebido como ameaça II

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  Frequentemente o outro, o que está fora das esferas familiares, das esferas conhecidas e consideradas social, cultural e economicamente iguais, é percebido como diferente. Ser diferente é não possuir pontos de congruência, consequentemente de compatibilidade. Abismos educacionais, o não haver linguagem em comum, enfim, inúmeras situações fazem com que se exclua, rejeite e estabeleça restrições. Assim fazendo, uma multidão de estranhos é criada. Tudo pode ameaçar. O fazer parte de outra ordem econômico-social ameaça. Os ricos se sentem ameaçados, os pobres também. O diferente é sempre suspeito. Faltam padrões comparativos. A busca desse padrão gera a tentativa de estabelecer confiança entre os que processam a mesma fé, como por exemplo os da mesma religião ou os torcedores do mesmo clube; são fatores aglutinantes que geram familiaridade. O ser adepto de uma mesma coisa diminui a ameaça. Entre as famílias, e também entre bandidos, isso é verdade. Busca-se o apoio do sobrenome, assim co