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Ignorado

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  Sentir-se ignorado, desprezado é uma das reconfigurações de dinâmicas psicológicas criadas por novos posicionamentos. A avaliação de vivências, seus resultados, faz com que algumas pessoas sintam ter "passado ou estar a passar a vida em brancas nuvens". Essa é a constatação dos sonhos falhados, de não ter nada construído, de não ter significado. Achar que é necessário ter sucesso, ser proeminente, enfim, fazer alguma coisa para justificar a vida cria os ávidos pesquisadores do que vai dar IBOPE, cliques e likes. É a vida voltada para o resultado, é o constante amealhar de elogios e comentários que funcionam como gorjetas ou propinas. Receber o óbolo, a gorjeta que aplaca é antes de tudo se colocar como expectante. O contínuo exercício dessa posição neutraliza expectativas. O que se recebe é sempre insuficiente, então é preciso mais. Vem a desonestidade, a contravenção, o ir até onde pode ganhar mais e receber o suborno, ajudas para viabilizar desejos, sonhos e metas. O desp

A vítima

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  Sentir-se vítima é uma das reconfigurações de dinâmicas psicológicas criadas por novos posicionamentos. Omitir-se diante do que ocorre, não enfrentar conflitos, esgueirar-se de contradições, "ficar em cima do muro" quando sequer há equivalentes de esconderijos faz surgir sulcos, descontinuidades. Esses vazios no decorrer dos processos relacionais estruturam posicionamento a fim de justificar e diminuir constatações lesivas para a própria imagem do indivíduo diante de si e dos outros. É frequente sentir-se culpado quando constata que se estivesse mais presente alguns acontecimentos poderiam ser evitados. Conviver com a constatação diária da falha, do erro, que quando não aceito é desagradável, cria culpa. A culpa, em certo sentido, é benéfica, pois justifica e desloca o sentir-se impotente diante do que acontece. Essa aparente vantagem da culpa como minimizadora de conflitos é ilusória. As dinâmicas existem, as situações não se resolvem por estarem escondidas, ou ainda, tudo

Compactação e contingência

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Reduzido aos estímulos do ambiente que o cerca o indivíduo constrói suas redes protetoras. Tudo é junção e encaminhamento de pontos, interseção de motivações, variação de narrativas e propósitos. Aos poucos suas motivações são transformadas em respostas pontualizadas ao que acontece. Guiado pelas circunstâncias, pelas contingências, ele ri ou chora conforme tambores agudos ou címbalos discretos. Quando a motivação é transformada em resposta estruturada pelas contingências, ela não é mais a pergunta que tece redes, que rascunha caminhos e decisões. Seguir a própria marcha, manter-se coeso e determinado pode ser alienador, pois pode decorrer de uma deliberação prévia: como sobreviver. Qualquer prévio, qualquer pergunta que busque resposta como definidora de caminhos, está comprometida. O compromisso organiza, mas é também o preto e branco entediante, é o sistema sobrepondo-se ao sistematizado, a família sobrepondo-se ao indivíduo, o grupo sobrepondo-se à unidade, o esperado sobrepondo-se

Irrecuperável

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    Ao constatar a falta de possibilidade em recuperar o que foi estragado, o que é desejado ou o que foi perdido surge a vivência de irremediabilidade. Nada mais pode ser feito e o que se fez é o que causou a impossibilidade. Contradição e antagonismo de tanto atritarem criaram fossos, buracos e vazios. São dois pedaços, não há comunicação, salvo as de memória e desejo. Não suportando essa vivência e não questionando seus referenciais de contradição, as divisões proliferam. De um lado a pessoa boa que tudo possibilita, de outro, a mesma pessoa que é a que tudo dificulta e atrapalha. Não se constatando as divisões arbitrariamente realizadas, não se enxerga o abismo relacional configurado. Melanie Klein já falava no desespero e na culpa da criança que entra em crise ao descobrir que o "seio bom e o seio mau" fazem parte da mesma pessoa: da mãe. Chamo atenção para esse exemplo da psicanálise kleiniana apenas para corporificar, exemplificar a questão. Na realidade a culpa não de

A coisa mais retrógrada...

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  A coisa mais retrógrada em um dado momento pode ser aquela pela qual se luta. Para entender essa afirmação é necessário perceber as defasagens do tempo. O que passou não mais existe e o que ainda não aconteceu, tampouco. Só existe o presente, no caso só existe a luta. Entretanto, muitas vezes os objetivos que fundamentam a luta não existem, não estão presentes. Lutar pelo que não existe é quimera, sonho, ilusão. No âmbito afetivo relacional querer recuperar afetos perdidos com considerações desgastadas é ilusão, é um faz de contas negador dos desgastes e erros por exemplo, assim como no âmbito político social querer levar os menos privilegiados a recuperar direitos pode ser apenas desejo de realização do próprio sonho. Vida é movimento, é processo. Novos contextos, novas redes, novas configurações relacionais. O direito de ontem, não é mais o de hoje, nem será o de amanhã. A luta, muito próxima do desejo, se confunde com ambição, perseverança, ganância e nesse sentido impermeabiliza

Entraves e bloqueios

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    À parte as pessoas com lesões cerebrais ou nervosas identificadas, a dificuldade de expressão - principalmente de diálogo - na fala, na exposição de pensamentos é, frequentemente, entendida como "déficit cognitivo" ou "bloqueio emocional" . Essa particularização, situando os problemas de expressão e de fala na esfera cognitiva ou emocional, é precária pois decorre de visões elementaristas dos fatos psicológicos. Não são as funções cognitivas - de conhecimento - nem são as emoções os iniciantes ou deflagradores de problemas. Não existem essas particularizações. O que existe é um indivíduo no seu mundo, que reduzido às funções de obedecer, por exemplo, de não criar problemas e se controlar desenvolve bloqueios. Assim ele é educado, assim cresce e se percebe só, sem o outro que o encontre, que o situe. São referenciais, são regras, deveres que, quando obedecidos não geram conflito, mas que ao contrário, quando não obedecidos geram reclamações. Seguir a linha, não

Ignorância

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  Não conhecer, não discriminar, ou seja, a ignorância é a responsável pelo posicionamento. Isolar-se nos próprios referenciais e traduzir o mundo a partir dos mesmos é falar uma língua, desenhar direções, estabelecer critérios impossíveis de compartilhamento. Posicionado em seus referenciais e critérios o ser humano se isola e então precisa estar sempre pendurado em redes que o identifiquem e protejam. Desse modo ele é um apoiador ou um contraditor. Ele é rótulo, e também rotulado. É vítima e é agente. Não conhecer resulta de não questionar, não ampliar referenciais e assim só se pode viver em locais conhecidos, determinados e rotulados. O ignorante é o que se candidata às aflições e desespero humano que vemos no auto-sacrifício, no egoísmo, no apego, no poder e sucesso, na aversão e no medo da morte. Ignorante é o que não se percebe como ser humano com possibilidades e necessidades. Ignorante é o que acha que ao satisfazer as próprias necessidades tudo estará resolvido, isto é, se re

O medo da morte

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  Ao antecipar o futuro, ao continuar as implicações do que ocorre caminha-se para abismos, pois não há terra onde caminhar. No seu processo de vida o indivíduo descobre que existem finais. A morte, o cessar da vida é um desses finais comuns a todos os humanos. Esse conhecimento é tão simples e completo quanto saber que se é um corpo, um organismo constituído de células, tecidos, órgãos, que se mora em uma cidade, que se tem uma família. É uma informação, um referencial. Certos acontecimentos, e o passar do tempo, tornam relevante e pregnante a constituição finita do humano. A dramaticidade ou não dessa pregnância depende de quem, como e quando é vivenciada. Os limites, a doença, a idade, a época, a pandemia, a guerra, tornam muito próximo esse referencial, sempre percebido como condição humana, embora distante. Quanto mais próxima a possibilidade de morrer, maior a aceitação ou a não aceitação, menor ou maior o medo da morte. A morte quando vista como decorrência do processo de vida,

Aversão

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  Toda vez que alguma coisa ou alguém é excluído de uma situação ou sistema podemos dizer que a aversão, o não suportar, o detestar, o não querer conviver com aquela pessoa ou situação foram os responsáveis pelo comportamento de exclusão. De uma maneira geral podemos resumir a aversão em dois grandes grupos: as resultantes dos a priori ou preconceitos, e as resultantes de dor, sensação intolerável. Os preconceitos existem nas diversas culturas e sociedades e criam comportamentos de aversão: evitar o diferente (etnia, posição profissional, posição social e econômica); a discriminação aos fisicamente deficientes (lesados ou portadores de comprometimento francamente visíveis , assim como os que não são considerados belos, bem vestidos); e acontece também evitar o familiar, pois o mesmo pode desmascarar projetos, pode saber "o caminho das pedras" e assim pôr tudo a perder. É comum o novo rico odiar encontrar os vizinhos da comunidade onde passou a infância. É comovente ver o dese

Perdido em função das circunstâncias

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  Quando o indivíduo se define e situa pelo que o apoia, sustenta, anima e satisfaz, ele se contingencia. Estar em função das circunstâncias, variando segundo flutuações obriga a ter barcos, bússolas e outros instrumentos para estabilizar o percurso. Não se bastar, estar definido pela família, pelo dinheiro, pelas instituições religiosas, acadêmicas e outras que o abrigam e molduram é sempre despersonalizador. Não se sabe como viver sem ajuda financeira da família, não sabe como abrir mão do caudal de benesses conseguidas via universidades, organizações partidárias, comissões de cargos vitalícios etc. A dependência é uma constante na vida desses guardiões de vantagens e conveniências. Pensões sempre transferidas, cargos que se perpetuam, "golpes de baú", benefícios conferidos pela instrumentalização da beleza, ou da inteligência criadora de diferenciais, mesmo que engolidos por sistemas comercializadores, tudo isso é sempre valorizado quando há apego ao que propicia as conven