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Distorções que estruturam o autorreferenciamento

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  As distorções decorrem da não apreensão da totalidade do que está diante de si. Colocando-se como centro, como ponto de confluência, o indivíduo pensa que o que ocorre deveria ajudá-lo e não prejudicá-lo, e que tudo sempre o maleficia. "Tudo tem que estar ao meu favor, não contra mim", "nada comigo dá certo" , diz o exilado do presente.  Retirar-se do que ocorre, do presente, e resguardar-se em gaiolas passadas ou foguetes propulsores do futuro almejado é lesivo. Retira da vida, do mundo, da convivência com um outro que ainda não foi transformado em objeto temível ou desejado para consecução de desejos. Ser cativo dos próprios referenciais - o autorreferenciamento - é o polarizante de isolamento, consequentemente de distorções. Assim, os acontecimentos são traduzidos pelos referenciais desse indivíduo que se acha o alfa e ômega dos processos. A culpa é sempre do outro, o outro não é confiável, o prejudicou ou tinha que ajudá-lo, assisti-lo, tinha que dividir rique

Superação e neurose - não aceitação do presente

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  O desejo de superar dificuldades, assim como de superar condições consideradas ruins para o desenvolvimento da própria vida, engendra metas. Tudo que é estabelecido e frutificado nos desejos decorre de não aceitações. Querer superar o que falta, conseguir o que não teve, preencher carências é o propósito, o motivo que lança o indivíduo para o futuro, estabelecendo, desse modo, o conquistador vitorioso ou o ressentido fracassado. Nesse contexto, ir além do próprio limite negando-o constrói as motivações para superação dos problemas e dificuldades. O que limita deve ser vencido, ultrapassado, integrado, absorvido, absolvido no próprio processo do estar no mundo. É como apreender as coisas, aprender a falar, aprender a ler, adquirir técnicas que promovam mudanças da realidade, que determinam aptidão e escolhas profissionais. É fruto do embate, do que está determinado, do que limita. Quando os processos vitais e relacionais são transformados em etapas a serem vencidas, a luta pelo poder

Questionamento e dedicação

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  Vivenciar o presente requer dedicação ao mesmo. É pela consideração aos limites, aos prazeres, aos medos e dificuldades que se estrutura a dedicação e a disciplina, tanto quanto a fruição ou expurgo do que acontece. Andar exige, inicialmente, por os pés no chão e em seguida estabelecer direção. Essa sinalização de caminhos é orientação e dinâmica, tanto quanto limite e repetição sistemática que automatiza. Toda vivência pressupõe encontro, determinação, escape, incerteza. Ao considerar apenas aspectos das vivências, se desestrutura totalidades, se desestrutura o que presentifica. A vivência do presente é a única que existe, embora seja também o anestesiante que apaga o que existe. Quando o presente se constitui em pensar para lembrar do que passou, ou antecipar, torcer pelo que se quer que aconteça ele se constitui em pântano, sumidouro de vivências, realidades e limites. Dedicar-se ao sonho, ao que se almeja, ao que não existe é negador da própria configuração existente. Os problema

Engenhosidade

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  A capacidade de tentar superar obstáculos criando apoios é exemplar como característica humana capaz de contornar e vencer dificuldades. Da descoberta do fogo, passando por colheres e panelas e chegando às naves espaciais, do enfrentamento de intempéries à adaptação e superação de doenças, a vida humana se caracteriza por criar e inovar. As mudanças biológicas, tecnológicas e sociais são uma resposta às dificuldades que foram enfrentadas e consequentemente mudadas. A neurose, o oportunismo, o uso e abuso do outro também se inserem nesse delineamento. Esse uso do outro - neurose, coisificação - é sempre construção, artefato, substituição, bengala para suprir deficiências, medos, incapacidades. Por exemplo, o desejo sexual por crianças - a pedofilia - geralmente resulta da tentativa de driblar a impotência, a dificuldade e medo diante do outro. Da mesma forma, a exploração do trabalho alheio, mais-valia e plágios intelectuais e profissionais, atestam a engenhosidade e também o autorre

Valor e afeto

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  A trajetória humana se desenrola, geralmente, em torno de valorizar e ser afetado. Uma das implicações desse processo é situar o indivíduo, o ser humano, como receptáculo, como reagente. Nada é próprio, nada é legítimo. Apenas cadeias e circuitos são continuados. Os causalismos deterministas aristotélicos, tanto quanto as quimeras platônicas povoam esse universo, são as balizas que se deve seguir. As orientações criam expectativas e metas; é sempre um além do dado, além do que acontece. Não se está solto, desencadeado, descontínuo. Família, comunidade, país, época representam valores que situam, apoiam e significam.  Ir além do valor, ir além do situante, buscar novos referenciais é criar antíteses libertadoras e também aprisionadoras, mas é o que possibilita andar, descobrir, ser livre para novos valores e novos afetos. As contingências são limitadoras, pois visam apenas satisfazer necessidades e manter compromissos. Nesse sentido, a liberdade é sempre ilusão, visto que estar solto

O insurgente transformado em bode expiatório

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    Frequentemente, nas famílias, nas comunidades e até mesmo na sociedade surgem situações nas quais se deseja o desaparecimento de indivíduos ou grupos para trazer bem estar, calma e prosperidade. O filho drogado, delinquente, que rouba, que agride irmãos, avós e pais, que quebra objetos em casa, quando oferecido como vítima propiciatória e é morto pela prepotência policial, por exemplo, gera alívio, bem estar e tranquilidade. Nos grupos de trabalho ou nas escolas, às vezes tem alguém que reage contra injustiças, contra prepotências do patrão ou arbitrariedade de professores e essa reação o isola fazendo com que ele seja considerado ameaçador quando punições ao grupo são esboçadas. Inicialmente a reação contra opressão e injustiça é aplaudida, entretanto, à medida que surgem ameaças que a todos atingem, como corte de salários, demissões, corte de água e luz das casas etc. aparecem também pressões dentro do grupo para que o insurgente se desculpe e se redima. A vítima, o injustiçado e

Mecanização, vazio e desespero

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" Sangro, logo sou " * Lendo Byung-Chul Han encontrei o seguinte: " Como quer que o chamemos, Ritzen, cutting ou o ato de se cortar é algo que se tornou hoje um fenômeno de massa entre os adolescentes. Milhões de adolescentes na Alemanha mutilam-se a si mesmos. De modo proposital se flagelam, causando feridas para sentir um alívio profundo. O método mais comum é se cortar com uma gilete. O ato de se cortar se desenvolve até se tornar um autêntico vício. Tal como ocorre com qualquer outro vício, o intervalo entre os atos de se cortar se torna cada vez menor, assim como as doses cada vez maiores. Assim, os cortes ficam cada vez mais profundos, sente-se "uma urgência de se cortar" ." * A descrição acima nos impõe uma série de constatações. A alienação, a coisificação estruturada pelos sistemas sociais e econômicos é de tal ordem que o indivíduo só sobrevive ao se transformar em máquina. As proposições familiares, que poderiam ser antíteses aos processos cois

Atordoar

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  A descoberta de limites sempre estabelece referenciais, sempre cria possibilidades e impossibilidades, que, por sua vez, se transformam em novos limites e também em caminhos frequentemente limitadores e/ou libertários. A circularidade de propósitos configura uma rotação em volta do mesmo ponto. A expectativa ilude e a mudança não acontece. Repetição é manutenção, tornando-se assim o "caminho da humanidade". O que faz mudar, então? - O que leva à mudança é o sair do círculo. Como ultrapassar o estabelecido, o circunscrito? - Só se descomprometendo, não buscando resultados ou soluções para o que desespera; só assim se permite a mudança. Não é renunciar, não é abrir mão ou desistir, é apenas ir além do limitante, é a quebra de compromisso com o que vai resolver, com o que vai mudar; é essa atitude que dá lugar à mudança. A mudança não é síntese, não é resultante, ela é a outra perna, o outro lado, o aspecto não vislumbrado, consequentemente, o não limitante, desde que configur

Entre verdades e mentiras, entre acertos e erros

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Como saber o que é verdade e o que é mentira hoje em dia? Essa pergunta faz imediatamente pensar em fake news . Como distinguir o que é falso? Como distinguir o que é errado? Recorrer a referenciais sociais, políticos, científicos permitem essa distinção, basta procurá-los. Na pandemia da Covid-19 por exemplo, era muito fácil verificar os abusos feitos em nome da ciência e da realidade, embora essa verificação se transformasse em missão impossível para os que se situavam apenas em bem e mal, acreditando em narrativas baseadas nesse maniqueísmo. Verdades e mentiras também remetem às noções de certo e errado, de cabível e incabível. Nesse contexto as motivações individuais precisam ser questionadas. É por meio desse questionamento que as respostas são encontradas. "Sair do armário", por exemplo, no que se refere à realização de motivações sexuais, é uma questão de ser fiel aos próprios desejos, tanto quanto implica questionamento da razão de negá-los. E assim, uma imensidão de

Saltos e piruetas

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  Ter objetivos definidos, desejos de superação de dificuldades e propósitos determinados, frequentemente funcionam como molas propulsoras. Esse estímulo constante faz com que se caminhe, se busque realizar desejos de complementar o que falta. Assim, propulsão constante, avidez e ganância funcionam como engolidores, neutralizadores da caminhada. Não se sabe como caminhar, não se vê como andar, mas se sabe onde se quer chegar. Todo relacionamento cria mudanças e a anulação de caminhos, o apagar de direções faz surgir novas posturas. Saltos e piruetas ilustram bem esse processo. Do caminhar em pé, bípede, descobre-se um jeito de cortar caminho, diminuindo dificuldades ao fazer piruetas. Enrolar-se em si mesmo para pisar-voar é a maneira, às vezes, de atingir objetivos impossíveis para o contínuo desenrolar de atitudes. Pular etapas roubando, por exemplo, mentindo, sugestionando, implorando, usando o outro é uma forma de atingir o que se deseja. Vitórias conquistadas pelo oportunismo cria