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Tranquilidade

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Parar de se esforçar, aceitar o que está diante mesmo que isso implique em dificuldade, em processo de transformação, é dinamizador. Só quando nos dedicamos ao que percebemos, ao que nos acompanha e situa, é que podemos constatar satisfação ou insatisfação. Estar bem, estar mal decorrem dos significados que se percebe e se atribui ao que circunda. Uma cadeira que se usa diante de uma mesa, por exemplo, é um apoio, uma base para sentar. Se quisermos deitar nela, passamos a gerar transformações incômodas, criadoras de dificuldades só contornadas por meio de muitos esforços. Deitar no chão - o que está diante - pode ser mais tranquilizador.

Dizer sim, dizer não, nada dizer são passos para tranquilidade ou intranquilidade. Tudo vai depender da configuração dos processos. Em situação de afirmação e validação pode caber admissão ou questionamento, dizer sim ou dizer não são atitudes que possibilitam antíteses, tranquilizam quando indicam continuidade e criam tensão quando abruptamente imp…

Disponibilidade

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A disponibilidade só é atingida quando não há existência de propósitos e desejos a realizar, isto é, quando o determinante de vivências, participações e escolhas são estritamente em função do presente. Essa condição é difícil de acontecer, ela só é possível quando o futuro - o que está colocado para depois - se constitui em perspectiva, em continuidade do presente. Mas acontece que frequentemente o futuro, o depois é espacializado e buscado, é o lugar, o ponto do sucesso a atingir, ou o lugar a contornar, a morte a evitar.

Preso a desejos, o indivíduo transforma a disponibilidade, o estar aberto ao que acontece, em possibilidade de renúncia, em desapego. Essa colocação implica sempre em compromisso. Estar disponível não é o contrário de estar comprometido, pois as atitudes de disponibilidade são estruturadas pelos processos de aceitação do estar no mundo com os outros, de perceber possibilidades e necessidades, de enfrentar, transformar e aceitar limites.

Manter apegos é sempre agreg…

Desumanizar

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Tendo o chão que pisa destruído e ficando sem base resta ao ser humano constatar o ocorrido. Isso é feito na vertigem. Nesse vórtice descobrimos que a natureza, o verde, o ar, a água e a terra diminuíram, quase desapareceram. Valores como fraternidade e solidariedade também são escassos. Sobra a tentativa de equilíbrio, sobram desejos e impotência. Manter-se em pé com possibilidade de conseguir andar e criar caminhos é tudo que se pode almejar. Nesse contexto aparecem também invasores, criadores de outras superfícies que agem acreditando que pular sobre as cabeças dos outros, cortá-las como apoio pode trazer resultados rápidos e profícuos.

Ao perder seus referenciais humanizadores, quais sejam o mundo como realidade, a natureza mantida, o ar despoluído, o clima sem cataclismas, o outro vivo e livre com valores relacionais significativos, com autonomia e disponibilidade, ao perdê-los o indivíduo se encontra exilado de sua humanidade, só lhe restando lutar para sobreviver.

A luta pela sob…

Preservar e continuar

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Pela memória conseguimos a proeza de preservar e continuar. A memória permite manter acesas inúmeras vivências que possibilitam sequência, continuidade necessária para identificar pessoas e tornar possível a manutenção ou abandono de experiências catalogadas como agradáveis, úteis, inúteis e desagradáveis. O potencial do ato de memorizar depende fundamentalmente de quanto se vivencia o presente. Disponível e dedicado ao que se vivencia, se consegue memorizar e oportuna e contextualmente reproduzir.

Os palácios de memória elaborados por Matteo Ricci, por exemplo, eram um engenho para se conseguir memorização por meio de vivências presentificadas. O jesuíta italiano, que viveu como missionário na China a partir de 1596, impressionava os chineses com sua erudição e cultura geral, com sua capacidade de memorizar grande volume de informações. Ricci então escreveu o Tratado Sobre as Artes Mnemônicas com o intuito de difundir suas técnicas de memorização e de atrair os chineses para o cristi…

Humilhação

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Ser humilhado e sentir-se como tal implica em constatação e questionamento ao que humilha. Sem essa atitude, sem questionamento, não se vivencia a humilhação.

O indivíduo totalmente submisso a suas necessidades, vivendo em função de aplacá-las, sente por perder o que tem ou o que quer conseguir, pouco importando ser ou não humilhado - ele não tem essa vivência de ser humilhado - ele vivencia apenas o que a sua submissão lhe permite: medo, raiva, ameaça e necessidade de contornar. Na dimensão sobrevivente se vivencia o começo ou o fim, não se distingue o que humilha. O que interessa é abocanhar o que lhe é dado, o que lhe é permitido. Esses aspectos de submissão em função das próprias necessidades são o que criam o rebanho. Segue-se o condutor, não importa se bom, se mau, se benéfico ou nefasto. A questão é seguir para conseguir o que se acha que vai melhorar a vida.

Psicologicamente, sentir-se humilhado requer certa altivez, discernimento criado pelo dizer não ao que o destrói, mesmo q…

Acédia e mal-estar na atualidade

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Acédia é um estado de desânimo que frequentemente sinaliza o mal-estar gerado nas sociedades contemporâneas. Ficar deprimido, desmotivado, sem saber o que fazer caracteriza o dia a dia dos indivíduos há bastante tempo, independente das quarentenas atuais geradas pela Covid-19.

Não saber o que fazer diante do abandono, das decepções, da destruição de patrimônio, da desestruturação do país e da própria família, por exemplo, cria depressão e desmotivação. Sem perspectivas, com horizontes temporais e relacionais diminuídos, o ser humano se encolhe e desiste. Não há como resistir pois não existe porquê nem para quê.

Ficar reduzido a um presente esmagador no qual não há condição de deslocamentos exila o indivíduo da sua própria pele. Sem morada, ou confinado em quatro paredes, ele sobrevive em função do que o mantém. Isso gera acédia, desânimo.

Sem para quê, sem metas que o iludam - a cenoura na testa que o mobiliza - resta ao indivíduo os lamentos. Esse lamento é convertido em esperança e …

Encurralado

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Quando não se tem a perspectiva de futuro, quando as situações se congestionam e se pontualizam, surge a vivência do encurralamento, do estar sem saída. Nessa situação densa, a ansiedade rapidamente se transforma em pânico. Não ter para onde ir, não ter amortecedores, sentir que tudo aproxima do abismo, do final, da não saída, é desesperador.

Situações limite imobilizam quando as possibilidades de mudança, que exigem novas abordagens, não são percebidas. Os arquivos, as memórias funcionam como chaves que abrem perspectivas. Saber-se íntegro, capaz de vencer obstáculos, amplia o imediato, o estreito. Quanto maior a aceitação de si mesmo e de suas vivências, mais perspectivas são estabelecidas. Kurt Lewin tem uma interessante abordagem sobre o assunto:

“… uma mudança no comportamento se verifica quando a conexão funcional entre o nível de realidade e irrealidade é reduzida, isto é, se elimina a ligação entre fantasia e ação”.*

Nesses dias, tomando o exemplo das vivências de confinamento/qu…

“A bolsa ou a vida”

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Com o exemplo “a bolsa ou a vida” Lacan procura demonstrar o absurdo da escolha, que sempre implica em perda não apenas do que não se escolheu, mas também daquilo que pretensamente se escolheu. Escolhendo a bolsa se perde as duas, bolsa e vida, e escolhendo a vida o que se escolhe é uma vida (sem a bolsa). As obviedades ampliadas para condições paradoxais criam o faz de conta que é a escolha.

Atualmente, na pandemia da Covid-19, temos o equivalente com as pessoas que entendem a necessidade de isolamento como uma escolha e não como uma evidência que se impõe. Escolher o trabalho e o não isolamento, em última análise, é escolher a possibilidade de se contagiar e aumentar o risco de morrer. Ficar em casa é o óbvio, inelutável, sequer deveria ser pensado como passível de escolha. 

Certas situações sempre nos lembram a escolha de Sofia: com os dois filhos a seu lado exigem que ela entregue um deles para ser sacrificado, e se não o fizesse perderia os dois. Nesta situação de explicita impotê…

Insônia

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Não conseguir dormir ou ter dificuldade para dormir é uma resultante direta do estar totalmente ligado, tomado pelos acontecimentos, plugado no ir e vir das demandas. A ansiedade, o medo (omissão) e preocupação (antecipação) são seus principais pilares construtores.

Os organismos precisam descansar, relaxar, ter uma diminuição das atividades. Isso é válido para todo ser vivo e até mesmo máquinas não funcionam ininterruptamente, precisam ser paradas. Descansar ou relaxar é entrar em outro ritmo, é desligar ou arrefecer ritmos anteriores.

Desligar-se é a metáfora mais usada para se referir ao adormecimento, e sabemos que em alguns locais iluminados, para desativar a iluminação basta desligar 5 interruptores, mas em outros são necessários 50, 500 ou mais desligamentos. A vigília - a privação do sono - é como esses locais acesos. Cortar apreensões, dúvidas, medos são os diversos interruptores que precisam ser desligados. O moto contínuo de desejos e expectativas (ansiedade, inveja, gan…

Equivalências

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Corresponder situações uma à outra necessariamente implica em comparações. Comparar requer parâmetros que açambarquem similitudes a fim de que se possa estabelecer a comparação. É o clássico e matemático não poder comparar grandezas diferentes, que aqui vale ser lembrado. Redução quantitativa viabiliza tudo, tanto quanto não esgota individualidade e condições intrínsecas do existente, e nesse sentido equivalência é sempre uma redução quantitativa. Apesar dessa redução elementarista a ideia de equivalência pressupõe também a de igualdade. Assim, saber, por exemplo, que um ser humano equivale a outro ser humano e que isso acaba com qualquer diferença entre humanos é neutralizador de preconceitos e paradigmas arbitrários de superioridade e inferioridade que só permitem comparações arbitrárias, isto é, fora do sistema que as estruturou: igualdades e equivalências.

Em geral, onde há igualdade não há comparação, entretanto só aí é que podemos encontrar equivalência: comparações prévias que…