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“Os asnos preferem o feno ao ouro”

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  É atribuída a Heráclito a frase “os asnos preferem o feno ao ouro” . Essa frase pode ser pensada como uma máxima filosófica usada quando se quer resumir o que é imanente ou aderente ao humano. É também uma maneira de explicar os valores enquanto circunstâncias ou atribuição contingente. O feno, a fonte de alimento, é o básico. É o que permite sobreviver: basta ser mastigado, engolido, comido. O ouro pode permitir compra dos alimentos, mas por meio de instrumentos indiretos que destroem convergências naturais.   Valorizar o ouro mais que qualquer coisa causou a morte de Midas, que tendo seu desejo atendido pelos deuses, tudo que pegava virava ouro.   Perder de vista o que é imanente, estruturante do viver, gera deslocamentos. Faz com que o indivíduo seja inserido em um universo, um sistema de valores extrínsecos e aderentes. A grande transformação humana acontece quando o valor, o significado atribuído passa a situar e dividir comportamentos. Não é mais gostar ...

Panis et circensis

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  Perceber que o lúdico prepondera nas aspirações e desejos humanos foi decisivo para que estruturas estatais, governamentais e ditatoriais lidassem com os objetivos de domínio e submissão. Desde os tiranos romanos isso é uma constante. Reduzidos à satisfação de suas necessidades básicas biológicas de fome, sede, sono e atividade sexual, o vazio, a insatisfação se apodera dos homens. Viver para comer reduz suas possibilidades. Buscar comer um pouco mais é transformar sua vida em luta contínua para sobreviver, para caçar alimentos.    Esquecer essa submissão limitadora e despersonalizadora faz buscar diversões, leva a descobrir o lúdico como o que abre perspectivas e muda o jogo opressor. É a fantasia, a ilusão e a esperança, mas é também a perspectiva que humaniza. Adquirir perspectiva é uma maneira de, ao questionar limites, transformá-los, uma maneira de neutralizar os anestésicos, a dopagem realizada pelos sistemas despersonalizadores. Criar a próp...

Surpresas esmagadoras

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    Assistindo ao filme Norueguês Valor Sentimental , exemplar em descrever questões vivenciais geradas pela descontinuidade, perdas abruptas e não contextualizadas, pensei no impacto de acontecimentos avassaladores e imprevistos.   Surpresas são percebidas como esmagadoras quando quebram referenciais, levando o indivíduo a se sentir perdido, apartado do que o definia e situava. Essa vivência é abismal. Dificilmente recupera-se desse inesperado.   É comum, na infância, o desespero decorrente da morte dos pais ou de um dos pais. A terra treme e não há explicação para o súbito acontecimento. O desespero passa a ser frequente. Se perde a crença no que está diante, nada significa, pois a qualquer momento tudo pode sumir, desaparecer. Guerras, calamidades, perda do emprego do pai, enfim, transformações sociais, cataclismos climáticos e infinitos acontecimentos psicológicos descontinuam a vivência do estar no mundo com o outro. Essa descontinuidade gera medo, r...

Ser humano - IV

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      Ao longo dos séculos foi desesperador lidar com o que se entendia como a “horda humana”, desde os raptos tribais às matanças rituais, assim como às guerras fratricidas e de conquista territorial.   Estados, leis, regras foram criados para organizar e controlar os seres humanos reduzidos à sobrevivência. Entretanto, o espírito das leis, a criação de valores universais, os pilares religiosos aumentaram os níveis de sobrevivência, de despersonalização ao desenvolverem esses valores e normas, pois as medidas de avaliação do humano passaram a substituir o avaliado. A máscara, o invólucro tornaram-se definidores. Valores e regras são geradores de medo, raiva e apoio. Ter o que estabiliza, fazer parte do que brilha e apoia é o que se deseja. Quando a filiação às regras por outros ditadas é o básico vive-se em função de resultados, abrindo mão, atropelando o presente, o que existe. O Estado, a Igreja, a defesa do privado são constantes no espírito das leis, e, ...

Ser humano - III

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  No nível de sobrevivência os seres humanos são detidos na satisfação das próprias necessidades entendidas como propósitos, objetivos e contingências a realizar ou evitar. O outro, o semelhante é percebido como o que atrapalha ou como o que ajuda, o que tem que ser evitado ou cuidado. Sobreviver é sempre preponderante. A história das civilizações e culturas nos mostra isso, mas também mostra o ir além disso. Transcender esses limites é uma constante ao longo de nosso estar no mundo como seres humanos. Pontualizados na sobrevivência, passamos a ser manipulados pelos sistemas que nos permitem sobreviver. É o ciclo vicioso instalado. É a dialética do senhor-escravo de Hegel e as explicações do Estado e luta de classes de Marx, ou, ainda, é o que diariamente encontramos como desumanização, medo, insatisfação, angústias, raiva e violência. Gritos de socorro, guerras povoando nosso cotidiano. Perceber o outro é a solução e para isso é necessário deixar de olhar para o...

Ser humano - II

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      A vivência do presente, enquanto ocorrência, fato, realidade e consistência é o que nos possibilita diálogo, encontro. Quando se busca resultados, quando se utiliza o que acontece como matéria prima para realização de desejos, planos e metas, tudo que acontece é transformado em jogo, corrida de obstáculos ou varinha mágica facilitadora de propósitos.   Estar no mundo com o outro é um processo sempre cooptado por um viés utilitarista, isto é, a sobrevivência, pois a palavra de ordem, o objetivo básico do viver é sobreviver. Quando chegamos a essa evidência, viver para sobreviver, deixamos de ser os mais evoluídos animais da escala zoológica, ficamos iguais a todas as outras espécies e sobreviver é a regra, o objetivo. Nesse ponto, vêm as explicações deterministas do comportamento humano, assim como as explicações mágicas fundamentadas em Deus, seres supremos e superiores ou em reencarnações.   Transformado em sobrevivente, o outro existe para ser ...

Ser humano - I

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      O homem, antes de qualquer coisa, é um ser humano. Essa afirmação o classifica na escala dos seres vivos como humano. Seres vivos compreendem Homo sapiens , animais, vegetais e micro organismos tais como bactérias, algas e fungos. Na escala zoológica, o ser vivo mais desenvolvido é o humano. É a complexidade de suas células, agrupadas sob forma de tecidos e órgãos, que lhe possibilita estar nessa posição. Graças a sua estrutura biológica, ele dispõe de maiores condições de relacionamento, alcançando e realizando uma série de possibilidades.   Ele se configura e define por sua possibilidade de relacionamento, e essa abrangência lhe permite vivências amplas. Em uma analogia geométrica, pela verticalidade realiza vivências temporais, e pela horizontalidade exerce o estar no mundo constituído como ponto de encontro de inúmeras coordenadas, de infinitos dados relacionais. Estar no mundo se caracteriza por incontáveis aspectos que podem ser entendidos como iman...

Aletheia – verdade, revelação

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      Do ponto de vista da etimologia podemos lidar com a palavra aletheia não apenas como verdade, seu significado na filosofia pré-socrática, mas também como revelação do que existe. Nesse sentido, o prefixo a é a negação e lethe é o esquecimento. Portanto, aletheia , verdade, poder ser entendida como “não esquecido” ou “o que não está escondido”. Na filosofia grega era a resposta ao desvelamento da descoberta entre ser e realidade.   Freud e Heidegger muito exploraram essa ideia, transformando o significado de verdade em praticamente sinônimo da trajetória que consiste em sair do ocultamento: explicitado no inconsciente em Freud e entendido como o desvelamento do ser em Heidegger.   Saindo da polaridade descrita acima, da dualidade entre ser e parecer, realidade e ilusão ou objetividade e subjetividade, dizemos que verdade é o que se explicita. É o enunciado. Ela está sempre contextualizada no diálogo entre indivíduos, no que a...

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