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Nó Górdio

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No centro da atual Turquia, próximo a Ankara, ficava a antiga cidade mais importante da Frígia: Gordion. Pouco se sabe da história da Frígia além dos mitos que envolvem seus reis Górdio e Midas. Em um desses mitos a linhagem dos dois reis é contada a partir de Górdio, o camponês que virou rei. O antigo rei da Frígia não tinha herdeiros e quando morreu o Oráculo disse que o rei sucessor chegaria em um carro de bois. Quando um camponês, chamado Górdio, chegou à cidade em seu carro de bois, foi coroado rei, e em seguida colocou a sua carroça no templo de Zeus amarrada com um nó forte. Esse nó ficou famoso por ser muito difícil, até impossível de ser desatado, ficando conhecido como o nó górdio. Górdio teve apenas um filho, chamado Midas, que o sucedeu no trono, mas que, por sua vez, não teve filhos, não deixou sucessores. Consultando novamente o Oráculo ficou estabelecido que quem conseguisse desatar o nó de Górdio seria o próximo rei e dominaria todo o mundo. Séculos se passaram sem qu…

Descobertas

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“Duas linhas são iguais se elas coincidem” é um dos enunciados da geometria de Euclides.
Isso parece óbvio, mas não é quando tentamos entender o que significa igualdade. Parâmetros e instrumentos são necessários para essa verificação. Medir, comparar são formas de verificar.

Caso não se lance mão de outro parâmetro além das linhas em questão, como compará-las? Considerando o enunciado do próprio Euclides: pela coincidência. Essa redução das duas linhas a elas próprias implica encontro, nada mais que isso. Assim, a igualdade surge, ou seja, é igual pela absorção, quando uma linha encontra a outra e nela se perde, se completa. O diferente é o mesmo, o duplo, agora, é a unidade.
Essa possibilidade de integração é o que norteia e determina a trajetória do humano quando percebe o outro. Essa integração decorrente do encontro, essa coincidência, não é muito frequente, pois a fragmentação dos processos quebra a continuidade e estabelece óbices, os pontos de dificuldade e de quebra, e assim…

Insinuação de presença

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A insinuação de presença - outro dado e contexto - é realizada pela transformação da parte em todo, por meio da closura, fechamento e complementação do percebido, que colocado em seus contextos anteriores recupera totalidades. A complementação do insinuado, apresentado e percebido, é feita com auxílio da memória, de outra Gestalt, outra forma, outro contexto que alavanca e cria novas direções, completando o vazio, a ausência do que não se mostra, do que não aparece. Percepção de ausências, senhas para continuidade, pinceladas reconstrutoras, como por exemplo ver o sapatinho do filho no meio da casa, desencadeia medos e apreensões. A foto que ilustra este artigo, retirada do livro O Destino da Africa*, faz perceber a tristeza do pai ao ver o que restou de sua filha, reconstituindo-a para nós. Existe apenas o resíduo - a mão e o pé da criança - demonstrativo de todo o horror desumanizador exercido pelo rei Leopoldo no Congo.
A reconstrução do todo por meio de suas partes é frequente, é…

Voltar e sair

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Às vezes a única saída é voltar. Quando se está preso ao percebido como irremovível é difícil sair, é difícil se movimentar. A constatação desse limite permite soluções, perceber, por exemplo, que a única maneira de sair do impedimento é a ele voltar. O deslocamento realizado pelas saídas prováveis ou não existentes é uma forma de se afastar a fim de conseguir realizar a quebra dos impedimentos. O medo imobilizador, a omissão que impede movimentos é resolvida quando se configura a realização do que é necessário fazer para cumprir as obrigações e eliminar os limites impeditivos.

Voltar, consertar falhas, suprir dificuldades é o que permite sair das mesmas. Recuperar os indivíduos dos fracassos admitidos permite ações liberadoras. Admitir os problemas é uma maneira de aceitá-los e, assim, começar a transformá-los. Voltar ao que se quer largar, entendido como responsabilidades não aceitas, permite saída. É a constatação da impotência que ocasiona possibilidade de mudança.

Situações limi…

“É milagre ou ciência?”

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“We are not sure if this is a miracle, a science, or what. All the thirteen Wild Boars are now out of the cave” - Royal Thai Navy
(“Não temos certeza se isso é um milagre, se é ciência ou o quê. Todos os treze Javalis Selvagens estão agora fora da caverna”)

Foi assim que o Comandante da Royal Thai Navy anunciou o fim do resgate bem sucedido do time de futebol juvenil tailandês, 12 crianças e seu técnico, que passaram 18 dias presos em uma caverna, em condições extremamente adversas, sem alimentação, sem água potável, sem luz solar, sem saída.
Esse espanto é a consideração significativa, a constatação do surpreendente e inesperado, da alegria diante das vidas salvas, tanto quanto é o deslumbramento pela resistência das crianças e admiração pela tecnologia, a engenharia utilizada para salvá-las. Abrir caminho na caverna inundada e vedada por lama e água, transportar oxigênio em completa escuridão por aberturas tão estreitas que mal permitem a passagem de um adulto é estarrecedor, foi um…

Orar, acreditar e esperar

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Quando se sente impotente ou acuado e quer uma saída, amplia o desejo de solução rezando e esperando. É tão intenso o deslocamento das impossibilidades que os cascalhos ou resíduos da tensão construirão caminhos para solução dos impasses. Assim, rezar, fazer promessas para conseguir o emprego, dá a certeza que o emprego virá.  É instalado o universo mágico no qual a espera é solidificadora, pois tudo virá a seu tempo. Não há ansiedade, ela é substituída pela fé e os rituais (compulsões) que a entronizam.
A transformação do desejo, sustentada pela impotência, cria, por meio do deslocamento, a esperança e o otimismo. A fé é o pilar que tudo sustenta e este outro mundo criado, aos poucos é corroído pelas areias e pedras da realidade. Os suportes dessa crença, dessa fé decorrente do deslocamento da impotência, é sustentado pela alienação e medo, portanto, quanto mais se humilha, mais vitimização e necessidades nutrem seus sonhos e desejos. Jogar os desejos na infinitude da espera e da es…

Mistério e obviedade

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Outro dia li no Brihadaranyaka Upanishad4.2.2: “The Gods, it seems, love mistery and hates the obvious” (“Os Deuses, aparentemente, amam o mistério e detestam o óbvio”).

Não se pode, não se deve amar o óbvio? O explícito é desprezível? O simples deve ser descartado? O raso, o superficial é bobo? Só é dignificado o trabalhoso? O misterioso? O que não se dá e não se oferece?

Sempre surgem planos diferentes do que está aí. O aqui-agora fracionado é um ângulo para manter dualidades. O misterioso, o incrível, o indecifrável, o instigante caracterizam o suposto mundo dos deuses. Mistério é o que envolve essa realidade.

Não há outro mundo salvo o que percebemos e vivenciamos aqui e agora.

O que se apresenta na evidência do encontro é o outro. Perceber é conhecer, conhecer é aproximar, constatar, integrar - amar. Mistério é o suposto, o desconhecido ou imaginado como deslocamento do existente insatisfatório, incompleto e incongruente.

Como amar o inexistente? Como amar o não conhecido? Por …

Adivinhação

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Quando eventos, desejos ou projetos são estabelecidos em função de resultados a expectativa do que vai ocorrer, a expectativa do final cria ansiedade, medo, desejos e insegurança. Antecipar o resultado por meio de adivinhação diminui a ansiedade, reciclando-a, deslocando-a para outros níveis.
As pequenas adivinhações como, por exemplo, estabelecer que se o primeiro carro que passar for vermelho significa que tudo vai dar certo, o sim ou não respondido pelo mal me quer/bem me quer, Tarot, Jogo de Runas, Jogo de Búzios etc. funcionam como aplacadores, que supostamente garantem o resultado e escoram a ansiedade, mas também geram dúvidas, reeditando a ansiedade de outros modos.
Sistemas de adivinhação são encontrados em várias culturas e se lança mão desses dispositivos em inúmeras situações. Antecipar resultados é uma maneira de exercer controle, de ficar tranquilo esperando a certeza, a comprovação do antecipado. Um exemplo atual de previsão, que mobilizou inúmeras pessoas, começou co…

Solidão e suas implicações

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Solidão é o tema preferido dos talk shows, programas de autoajuda, reuniões de amigos, reuniões de apoio à terceira idade etc. Ter que evitar a solidão ou se preparar para ela ou descobrir os encantos da mesma é o leitmotiv de inúmeras pessoas.
Somos seres em relação, nunca estamos sozinhos, tanto quanto por sermos enquanto relacionamento, sempre estamos sós. A questão da solidão só se coloca na dimensão espacial e aí sempre somos sós: a matéria não ocupa o mesmo lugar no espaço.
Vivencialmente - enquanto temporalidade - nunca estamos sós. O outro, os outros sempre estão conosco seja no presente, seja no passado pela memória, ou no futuro pela antecipação do que vai se realizar ou complementação do que se realiza.

Estar só é estar sem malhas relacionais, é uma abstração que não subsiste. Não existe solidão, sempre estamos com o outro, com os outros participando, omitindo, amando, odiando.
Estar entregue a si mesmo é quase um desprendimento, um artifício, como pôr entre parêntese tod…

Omissões e conveniências

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Certas contradições, quando não enfrentadas, banalizam o paradoxal. Como não enfrentar o marido que espanca? O patrão que sonega direitos? O colega que humilha? A conveniência, o levar alguma vantagem funciona como impermeabilizadora do conflito, da contradição, transformando ângulos em retas. Nada acontece, tudo é igual. Essa não diferenciação, essa homogeneização de atitudes cria espaços infinitos que permitem deslocar os problemas. Não é o disfarce, o não perceber, é o não agir por conveniência, uma omissão que tenta adiar o inadiável, negar o evidente e explícito. Tais contorcionismos geram tensão, dores em todo o corpo além de pressões responsáveis por desejos, raiva, inveja etc.
Omissão por conveniência estabelece condições para ampliação da não aceitação de si mesmo, aumentando também a necessidade de deslocamentos, desde o abrir mão de direitos para escamoteamento de atitudes, até o chorar e suplicar, como mendicante, por melhores dias, melhores condições, cuidado e apoio.
No…