Postagens

Featured Post

Enviesamentos

Imagem
Focadas, agarradas em seus objetivos, metas e desejos a realizar, geralmente as pessoas perdem o sentido do que está em volta. Não percebem o que ocorre. Tudo é percebido em seu próprio contexto, em seu autorreferenciamento. Sem a mediação, a antítese do outro e do que acontece, os comportamentos ficam defasados e ultrapassados, as percepções são distorcidas.

O famoso “senso de ridículo” perdido é um exemplo. Preocupados em conseguir brilhar ou conquistar, indivíduos perdem a noção de como seus comportamentos estão ultrapassados e destoantes da realidade. Encapsulados nos seus desejos não viram a mudança de paisagem, de hábitos, de valores; agem como se tudo estivesse como era. Essa ultrapassagem cria enviesamentos. Negar suas frustrações, agarrar vieses do desejo traz situações risíveis. O senso do ridículo se perde. Atitudes canhestras dissimulam dificuldades. A depender de quem os observam, viram objeto de piedade ou se tornam alvos de risos abertos ou insinuados. A piedade freque…

Insistência

Imagem
Insistência depende do empenho, dedicação, esperança, tanto quanto da obstinação, teimosia, autorreferenciamento.

Querer por querer, lutar até o fim, insistir, não desistir nunca, caracterizam a obstinação, o teimar em função de metas e desejos. Essa atitude reduz as vivências a propósitos e isola o indivíduo, que assim age, de seus pares, de sua realidade. É um dos aspectos de pontualização de existência e negação do presente.

Entretanto, certas situações abrem clarões de esperança, ampliam horizontes e fazem perceber que as situações não estão perdidas, podem ser transformadas, recuperadas. São clássicos os comportamentos amorosos quando se salva alguém que já se considerava morto, por exemplo, ou ainda o que frequentemente acontece nas recuperações de drogados, deprimidos e de socialmente ilhados. Abrigar, ajudar, dialogar pode ser uma forma de insistir, de recuperar e retraçar caminhos. A tão conhecida segunda chance, é, às vezes, uma insistência benéfica e reveladora de possib…

Selfies

Imagem
Impressiona ver como preparar-se para uma foto, mais especificamente preparar-se para uma selfie, parece com o fazer pose frente ao espelho. A câmara do celular vai registrar o que se deseja mostrar e bem mostrar: deve exibir beleza, felicidade, alegria, força, enfim, bom aspecto e boa cara que prometa bons momentos.

O outro é o espelho, é a própria pessoa nele reproduzida. A cara, os gestos feitos para as selfies transformam as câmaras do celulares em seres que aplaudem ou discordam de certas poses. Esse diálogo mudo, esse monólogo, é encenado diariamente. O corpo ou o rosto que se mostra pretende ser bem visto, e antes de fotografar-se ele se insinua dentro de referenciais do suposto omisso-presente-outro que tudo confere.

Tirar selfies é rascunhar mensagens, tecer redes encarregadas de trazer bons resultados e aplausos. Quando o outro é transformado no espelho - deslocamento narcísico, ou ainda, extrapolação autorreferenciada - os processos de coisificação e massificação se insta…

Densidade, liberdade e confinamento

Imagem
Ir além de onde se está geralmente cria lugares imaginários, cria utopia - o não-lugar, o lugar que não existe.
O não existente, o utópico, se caracteriza por não estar ancorado em valores. O mundo sem valores, a vida sem sinalização de positivo ou negativo, de adequado ou inadequado, de certo ou errado é uma utopia. Buscar o não-valor é buscar sair de contingências, sair do limite demarcador.
Os marcos civilizatórios ajudam a sobreviver, ajudam a realizar individualização, aperfeiçoar capacidades, tanto quanto, ao estabelecer limites, criam valores e aprisionamento. Viver sem valor - que sempre é aderência ao que é configurado - seria libertador. Imaginar as sociedades sem dinheiro, regidas pelo escambo - troca do que é necessário a uns e outros - é imaginar um universo onde prevalece o denso, o que significa, independente de sua simbolização. É apenas o perceber, independente do perceber que percebe.
O perceber é dinamizado pela criação de continuidades repetidas, nas quais as pró…

Abdicar

Imagem
Para inúmeras mulheres que querem filhos, ter o maior desejo realizado pode se converter em fonte de medo e culpa. Ser mãe e não ter como sustentar o próprio filho cria medo e gera insegurança. Esse drama na maioria das vezes é o início de grande culpa. A mãe se sente responsável pelo futuro do filho e não quer que o mesmo sofra pela sua irresponsabilidade de colocá-lo no mundo sem condições de criá-lo. Essa justificativa é, sem dúvida, uma realidade, mas é também uma maneira de neutralizar a impotência.

Assumindo-se culpada, sai da impotência e busca alguém que cuide do filho, entendendo a doação como ato de amor, como ato de salvação. Dá o filho, não para se livrar dele, mas para colocá-lo no caminho da sobrevivência e do sucesso. Às vezes esse processo é também acompanhado da vontade de satisfazer necessidades e aí a ideia de vender o filho, de ganhar dinheiro, aparece.

Mães culpadas conseguem abrir mão dos filhos porque a renúncia como gesto para melhorar o outro, no caso o filh…

Caridade, solidariedade, amor

Imagem
Ir além de si mesmo é condição básica para estar no mundo, para perceber o outro como algo diferente de objeto útil, de apoio necessário, de refrigério buscado, de ameaça ou perigo estabelecidos. Quanto maior o limite, quanto mais amarras e menor espaço, menos se tem condição de ir além de si mesmo. O que se disputa e valoriza é mais ar, mais espaço para sobreviver ou para relaxar. Ter que conseguir tudo para melhorar as condições de sobrevivência estrutura processos autorreferenciados. Sempre garantir, manter mais espaço, salvar a própria pele cria total impossibilidade de convívio com o outro, independente de vantagens ou desvantagens que ele pode trazer, criar ou resolver. Não há solidariedade, não há empatia, pois não se vai além de si mesmo.

Acontece que grupos, sociedades, só se mantêm por meio de participação, de estabelecimento de limites, direitos e deveres. Esses referenciais passam a ser os prolongamentos dos próprios desejos e motivações, e assim contingenciados os espaç…

Ânimo e desânimo

Imagem
Quando se está tranquilo e satisfeito é por estar vivenciando o presente, a realidade enquanto ela própria. Assim, o que acontece é o que contextualiza a vivência, não há acréscimo valorativo. O bem-estar, o mal-estar são tranquilamente vivenciados pois são situantes, e é isso que permite aceitar, transformar ou suportar o cotidiano.

Dificilmente as pessoas se sentem tranquilas, pois frequentemente elas não vivenciam o presente, não vivenciam a sua realidade como pregnante. A não aceitação do que acontece cria frustração, irritação, desânimo. Geralmente elas preferem ocultar, superar ou ultrapassar as situações de não aceitação e frustração por meio de sonhos, metas e negação do que está ocorrendo. Esse processo obscurece o presente, joga o indivíduo para um depois não existente, tornando impossível estar situado vivenciando o real.

A negação da realidade, do pé no chão, da convivência com o que ocorre cria insegurança, gera omissão, medos responsáveis por constante ansiedade. Lidar…

“A beleza é uma prótese”

Imagem
Esta frase anônima - “A beleza é uma prótese” - é aparentemente estapafúrdia, desconexa, pois beleza sempre está associada a harmonia e elegância, enquanto prótese remete a doença, falha e incapacidade. Caso nos detenhamos no significado fundamental de aparência e imagem perceberemos significados que unificam esses conceitos, encontraremos conexões harmônicas e não mais situações desconexas.

As próteses existem para compor, para corrigir. Esse criar de funcionalidades neutraliza impedimentos, harmoniza e deixa fluir condições comprometidas, e portanto, pensar a beleza como prótese implica em considerá-la apenas como uma imagem, uma máscara funcional.

Acontece que a beleza é intrínseca, é uma resultante harmônica de diversas configurações e nesse sentido jamais uma prótese. Quando se pensa nela como imagem ou prótese é por transformá-la em cópia, em soma de partes privilegiadas e segmentos compostos para totalizar o que alguns entendem como beleza, resultando em processos como: colo…

“Tenho tudo, não preciso de nada e nada me deixa feliz”

Imagem
“Tenho tudo, não preciso de nada e nada me deixa feliz, minha vida é vazia” é um desabafo que aparenta ser vazio e tédio, mas concluir isso é ilusório, incongruente. Jamais tédio e vazio  resultam de avaliação. A consistência da avaliação, ou seja, o enumerar possibilidades e neutralizar conflitos é a medida, o peso que tudo determina e contabiliza. Fazer a conta, pesar, medir, avaliar é estabelecer recursos, etiquetas e rótulos. Preencher espaços jamais enseja vazio e tédio.

Nada ver, nada deter, nada sentir, esvazia e entedia, mas avaliar é um procedimento que obriga sempre a completar e quando isso ocorre não há o que fazer, a não ser renovar o processo, destruir e buscar complementar, enfim, iniciar novas avaliações que permitam constatar e não ter o que fazer, apenas manter o conseguido. Essa constante repetição é como Sísifo ainda na esperança de conseguir libertação. Como aconteceu com Sísifo, tudo foi entendido. Ficou claro que sua vida é fazer e refazer, mas ir além disso, c…

Utilizar, enganar, exibir

Imagem
Nas diversas dificuldades comportamentais, nas impossibilidades de convívio social, familiar e de trabalho, quando se deixa de lado as problemáticas, as não aceitações que definem e caracterizam o viver, nessas situações frequentemente é estabelecido um vazio, a despersonalização. Não se sabe o que fazer, salvo se entregar ao medo, à depressão, à inveja, à raiva e ao desespero. Nesse quadro, quando surgem pequenas melhoras de ânimo, os indivíduos resolvem disfarçar suas histórias, suas vergonhas, suas características. É o clássico ir à loja e comprar muito, para dissimular; é o clássico copiar e editar perfis, frases e comportamentos alheios. Não há critério para as utilizações, tampouco para os objetivos de enganar - o que se quer é ser diferente, exibir nova fácies, novo aspecto: cultura, riqueza, status. Mas viver tentando ser diferente do que se é, ocultando as próprias dificuldades, é índice revelador de problemas. As apropriações criam mais problemas. Não se sustentam, fenecem …