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Antropomorfizações, manipulações e deslocamentos

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Dar nome aos bois, colocar cara nos fatos para sinalizar positividade ou negatividade é uma forma de antropomorfização. Cria signos, histórias, poderes e fraquezas. Quando antropomorfizamos colecionamos figuras, trazendo a motivação de completar o álbum de figurinhas, de fazer o dever de casa a fim de ter senhas para entender o que acontece. Nesse ponto abdicamos de inúmeras possibilidades de conhecimento e ficamos à mercê das informações dos supostos entendidos, comentadores, redes de TV, internet e, infelizmente, de cair nas mãos das fake news.

Só perceber o denso e por meio dele estabelecer significados é uma atitude que exila a possibilidade de perceber implicações, continuidades e contradições. O que aparece, e é, ocupa lugares e tem significados. Pensar assim é uma maneira de simplificar e negar os dados relacionais, transformando-os em posições que tudo explicam. Atingir tais posições permite condições de destaque às coisas e situações, em outras palavras estabelece perfis e,…

Esclarecimento

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Muitas vezes a tentativa de esclarecer gera o efeito oposto do que se busca: confunde. Essa contradição pode ser explicada pela superposição de contextos. Quando se busca esclarecer uma situação X ou um contexto X, utiliza-se contextos e situações A, B, C etc. Essas superposições fracionam e fragmentam. Recentemente, nas diversas explicações geradas pela situação do COVID-19 somos bombardeados por esclarecimentos que buscam determinados objetivos e assim misturam situações e não expressam o que se passa. Por exemplo: fique em casa (para não contagiar), se cuide (para não adoecer) e não entre em pânico (não se preocupe em saber que não há suficientes recursos e leitos para os inúmeros casos). São informações díspares. Esclarecimento atordoante, obscuro.

Esclarecer é colocar luz, tornar claro, isto é, já se parte de algo escuro, obscuro. A luz no fim do túnel não é o esclarecimento, geralmente é vista como saída. O facho da luz é o caminho. Farol é indicação, orienta ações. Esclarecer,…

Dedicação (vivência do presente)

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Para que qualquer nó seja desfeito é necessário que haja concentração na atividade. O estado de concentração pode ser entendido como uma resultante da dedicação. Para se dedicar a alguém ou a alguma coisa é preciso se deter na mesma. A atitude de estar dedicado só existe enquanto percepção do que está sendo percebido aqui-e-agora. Dedicação impõe vivência do presente. Viver em função de dedicações passadas ou futuras não é estar dedicado, é estar agarrado a apoios, a suportes, ou estar mantendo andaimes que farão atingir sonhos ou objetivos futuros. A dedicação se faz e se esgota no aqui-e-agora do vivenciado, consequentemente, do percebido.

Quando se coloca entre parênteses (sentido fenomenológico) os medos e expectativas, se consegue aterrissar no presente: perceber o que está acontecendo, independente dos próprios problemas. Essa vivência pode ser fugaz, rapidamente ser invadida pelas apreensões ou desejos, e assim se perde a dedicação ao vivenciado. Ao perceber que percebe, os p…

Insólito

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O inesperado, o que foge do controle, tanto quanto o que persistentemente nos acompanha, mesmo defasado ou despropositado, é sempre insólito.

As mães que cuidam de seus filhos de 25, 30 anos, por exemplo, orientando e aconselhando o que vestir, onde trabalhar, o que pensar, se constituem em companhias insólitas, presenças abusivas mesmo que requisitadas e consideradas. Esperar ou precisar ser considerado, compreendido equivale a cavar buracos em superfícies planas, buracos destinados a provocar quedas. Descontinuidades, emendas geram situações insólitas, criam dessemelhança em relação aos padrões e vivências. Situações que se adiam indefinidamente pela obstinação e necessidade de realização se constituem em fontes de vivências insólitas, pois se caracterizam por defasagens tempo-espaciais.

As atuais banalização e massificação dos processos grupais atingem também o indivíduo. Cada vez mais desumanizados, despersonalizados, os indivíduos se anulam e se afirmam por meio de performances…

Inércia

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Inércia comumente é percebida como preguiça. Esse estado de paralisação - inércia - decorre da falta de motivação, da depressão mantida ou insinuada intermitentemente.

Submeter-se à inércia é criar um tipo de movimento referenciado, circunstancializado e redutor: as ideias-fixas, a vivência do fracasso, o medo são os alimentadores, são eles que carregam e mantêm a inércia.

Atolado em suas frustrações, não há como caminhar. Essa imobilização é apenas aparente. Não se caminha, mas se movimenta em torno dos mesmos referenciais, dos mesmos pontos. Inércia é expectativa e assim os movimentos, as dinâmicas da ansiedade se instalam e como ciclones e terremotos tudo destroem.

Manter e agarrar-se à inércia é início da disparada para a depressão, para o medo e para o isolamento. Nesse sentido podemos dizer que a inércia, a recusa a participar no que ocorre, é o início da solidão e do medo - omissão.

Parar, deter o movimento é uma magia ruim, é arbitrariedade da negação que tudo destrói e ass…

Enviesamentos

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Focadas, agarradas em seus objetivos, metas e desejos a realizar, geralmente as pessoas perdem o sentido do que está em volta. Não percebem o que ocorre. Tudo é percebido em seu próprio contexto, em seu autorreferenciamento. Sem a mediação, a antítese do outro e do que acontece, os comportamentos ficam defasados e ultrapassados, as percepções são distorcidas.

O famoso “senso de ridículo” perdido é um exemplo. Preocupados em conseguir brilhar ou conquistar, indivíduos perdem a noção de como seus comportamentos estão ultrapassados e destoantes da realidade. Encapsulados nos seus desejos não viram a mudança de paisagem, de hábitos, de valores; agem como se tudo estivesse como era. Essa ultrapassagem cria enviesamentos. Negar suas frustrações, agarrar vieses do desejo traz situações risíveis. O senso do ridículo se perde. Atitudes canhestras dissimulam dificuldades. A depender de quem os observam, viram objeto de piedade ou se tornam alvos de risos abertos ou insinuados. A piedade freque…

Insistência

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Insistência depende do empenho, dedicação, esperança, tanto quanto da obstinação, teimosia, autorreferenciamento.

Querer por querer, lutar até o fim, insistir, não desistir nunca, caracterizam a obstinação, o teimar em função de metas e desejos. Essa atitude reduz as vivências a propósitos e isola o indivíduo, que assim age, de seus pares, de sua realidade. É um dos aspectos de pontualização de existência e negação do presente.

Entretanto, certas situações abrem clarões de esperança, ampliam horizontes e fazem perceber que as situações não estão perdidas, podem ser transformadas, recuperadas. São clássicos os comportamentos amorosos quando se salva alguém que já se considerava morto, por exemplo, ou ainda o que frequentemente acontece nas recuperações de drogados, deprimidos e de socialmente ilhados. Abrigar, ajudar, dialogar pode ser uma forma de insistir, de recuperar e retraçar caminhos. A tão conhecida segunda chance, é, às vezes, uma insistência benéfica e reveladora de possib…

Selfies

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Impressiona ver como preparar-se para uma foto, mais especificamente preparar-se para uma selfie, parece com o fazer pose frente ao espelho. A câmara do celular vai registrar o que se deseja mostrar e bem mostrar: deve exibir beleza, felicidade, alegria, força, enfim, bom aspecto e boa cara que prometa bons momentos.

O outro é o espelho, é a própria pessoa nele reproduzida. A cara, os gestos feitos para as selfies transformam as câmaras do celulares em seres que aplaudem ou discordam de certas poses. Esse diálogo mudo, esse monólogo, é encenado diariamente. O corpo ou o rosto que se mostra pretende ser bem visto, e antes de fotografar-se ele se insinua dentro de referenciais do suposto omisso-presente-outro que tudo confere.

Tirar selfies é rascunhar mensagens, tecer redes encarregadas de trazer bons resultados e aplausos. Quando o outro é transformado no espelho - deslocamento narcísico, ou ainda, extrapolação autorreferenciada - os processos de coisificação e massificação se insta…

Densidade, liberdade e confinamento

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Ir além de onde se está geralmente cria lugares imaginários, cria utopia - o não-lugar, o lugar que não existe.
O não existente, o utópico, se caracteriza por não estar ancorado em valores. O mundo sem valores, a vida sem sinalização de positivo ou negativo, de adequado ou inadequado, de certo ou errado é uma utopia. Buscar o não-valor é buscar sair de contingências, sair do limite demarcador.
Os marcos civilizatórios ajudam a sobreviver, ajudam a realizar individualização, aperfeiçoar capacidades, tanto quanto, ao estabelecer limites, criam valores e aprisionamento. Viver sem valor - que sempre é aderência ao que é configurado - seria libertador. Imaginar as sociedades sem dinheiro, regidas pelo escambo - troca do que é necessário a uns e outros - é imaginar um universo onde prevalece o denso, o que significa, independente de sua simbolização. É apenas o perceber, independente do perceber que percebe.
O perceber é dinamizado pela criação de continuidades repetidas, nas quais as pró…

Abdicar

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Para inúmeras mulheres que querem filhos, ter o maior desejo realizado pode se converter em fonte de medo e culpa. Ser mãe e não ter como sustentar o próprio filho cria medo e gera insegurança. Esse drama na maioria das vezes é o início de grande culpa. A mãe se sente responsável pelo futuro do filho e não quer que o mesmo sofra pela sua irresponsabilidade de colocá-lo no mundo sem condições de criá-lo. Essa justificativa é, sem dúvida, uma realidade, mas é também uma maneira de neutralizar a impotência.

Assumindo-se culpada, sai da impotência e busca alguém que cuide do filho, entendendo a doação como ato de amor, como ato de salvação. Dá o filho, não para se livrar dele, mas para colocá-lo no caminho da sobrevivência e do sucesso. Às vezes esse processo é também acompanhado da vontade de satisfazer necessidades e aí a ideia de vender o filho, de ganhar dinheiro, aparece.

Mães culpadas conseguem abrir mão dos filhos porque a renúncia como gesto para melhorar o outro, no caso o filh…