Thursday, June 22

Dúvidas e medos - como são reconfigurados



Estar sempre em dúvida faz com que se busque referenciais que funcionem como pontos de apoio, pontos de segurança. É examente aí que são criados os sistemas e métodos de avaliação.

Avaliar faz estacionar o desequilíbrio. Não se cai mais para um ou outro lado, cessam as dúvidas e, consequentemente, os medos decorrentes de cogitações. Consegue-se um ponto de equilíbrio que mais tarde se transforma no posicionamento autorreferenciado, responsável pela informação do que vai ser bom, do que vai ser ruim, do que vale à pena ou não. O que está à volta existe em função dos critérios avaliadores. Engloba-se o circundante e assim se cria capacidade, potência, eficácia, tanto quanto se constata as fragilidades e ineficiências.

A partir desse ponto, as vivências de dúvida são engessadas pela propriedade da eficácia, pelos resultados que trazem boas novas, boas colheitas assegurando paz e bem-estar. Não há medo, tudo está regularizado, funcionando, tanto quanto as desconfianças foram abrigadas. O inesperado que pode ocorrer é um fantasma que volta e meia requer cuidados, supõe espreitas. Ser cauteloso, não abusar da sorte, desconfiar do existente, estabiliza, permite controles, checagens.

Novas sofisticações, novos patamares surgem nos sistemas de avaliação. Cuidar do em volta garante certeza, exila dúvidas e traz sossego. Não há mais medo, só o de - de repente - morrer e tudo perder. Essa vivência de inevitabilidade provoca desespero, gera dúvidas, cria medos, agora decorrentes de certezas. As situações foram tão deslocadas que atingiram um ponto de não deslocamento. Esse bater contra o muro encontra o inevitável: a morte. É uma certeza responsável por gerar medo. O medo de morrer, de acabar, substitui todas as dúvidas, não há mais o que verificar, o que avaliar: já se sabe o desfecho final do processo. Não aceitar isso cria novas mágicas, tentativas de negar limites e realidade. A questão agora é o final intrínseco ao processo vital: adiar a morte. Nesse momento as verificações e avaliações de saúde, de saudabilidade, de controle da morbosidade passam a ser constantes.

As dúvidas e medos, como atitudes básicas em relação ao mundo, ao outro e a si mesmo, foram transformadas em certezas criadoras do extenso painel, do arsenal de verificação, de avaliação do que permite enfrentar doenças, fracassos, abandonos e morte.

… e assim, acorrentado ao que segura, o indivíduo realiza sua trajetória de camuflar dificuldades e realidades.

Apenas quando percebe que é de sua condição humana o limite e a finitude é que surge a libertação. Acabam dúvidas, medos, avaliações, certezas, verificações. Acaba o aprisionamento, já não se precisa de portas e janelas. O caminho, a saída está aos e sob os próprios pés. 


Thursday, June 15

Concentração de frustrações




Toda submissão é estruturada pelo medo, pela omissão. As extensões desse processo tonalizam incapacidades representadas por inveja, por exemplo. Desejar ser o outro, ou ter o que o outro tem, é, para o submisso, uma carga excessiva. Pontualizado pela sua submissão, tendo sido, ao longo da vida, reduzido a posicionamentos expectantes e autorreferenciados, qualquer situação além dele próprio é extenuante. Neste sentido é fácil entender como a inveja é vivenciada como aquilo que mata. Não ter conseguido o que o outro conseguiu estabelece uma concentração de frustrações e decepções que são disfarçadas e engolidas. Ser o outro, invejá-lo é uma maneira de ressuscitar, e esse nascer de novo é redentor. Todas as vivências e desejos de transformação ilustram esse drenar da não aceitação. Invejar é desejar ser o que não se é. Paradoxo e impasse absolutos. Como ser quando não se é? Exatamente aí, nesse pântano, cresce a inveja. Este alguma coisa, já não é o diferente, é alguma coisa, é o ser algo, ser alguém. Os desejos estruturantes da inveja, quando não realizados, são matéria-prima para a vingança. Trolagem, hoje em dia nas redes sociais, é um exemplo desse processo. Destruir o que não se conseguiu, vingar-se, é uma forma de afirmação, de realização. Sacrifícios sobre-humanos, provocar a própria morte, é, às vezes, uma maneira de se vingar, de cobrar tudo que lhe foi negado, de tentar recuperar o que foi tomado, o suposto merecido que não lhe foi dado.