Thursday, November 23

“Tanto pior para os fatos”




Não há o bem ou o mal, há todo um processo que configura acerto, erro, que explica a catastrófica queda do avião, por exemplo, ou o ruir das organizações políticas, a depressão, a debacle econômica.

O fato não traz em si sua lei, ele nada mais é que um epifenômeno, não muda em nada o processo. Entretanto, é a partir dos fatos que são estruturados novos processos, ou seja, o fato é o desabrochar de contradições que, quando colhidas e enfrentadas, estruturam outros processos, permitindo contradições e mudanças. Parcializar, se deter no fato é negar vida, é negar movimento. Mesmo a morte, fato irreversível na vida de um indivíduo, é um processo, está sempre esclarecendo ou apontando para inúmeras variáveis. A individualidade, a essência de cada indivíduo, sua história, afetos, desafetos não se esgotam na sua morte, embora a partir dela ele não mais signifique como processo, movimento, vida.

Quando se explica fenômenos, acontecimentos, com conceituações causalistas, se soma os acontecimentos, são somas agregadas à tessitura dos mesmos. São justaposições, aposições, aderências, regras, tentando explicação.

Tanto pior para os fatos”, assim Hegel se referia à injunção dos processos, às dinâmicas, à dialética que, como uma torrente incontrolável, mudava, negava e ampliava o horizonte do factível, do ocorrido.


Thursday, November 16

Interesse e motivação - diferenças estruturais



A continuidade da existência implica em encontrar obstáculos que quando não são enfrentados e ultrapassados podem descontinuar por meio de fragmentações. Assim são gerados os posicionamentos, as problematizações e também os sistemas de divergência e de convergência.

Nas estruturas descontínuas prepondera o interesse substituindo a motivação, desde que foram criadas impermeabilizações. Não se vivencia o presente enquanto presente, mas sim em função de estruturas passadas, situações a manter e defender ou desejos futuros a realizar. Nesses casos, pelas polarizações insistentes na superação e realização de objetivos, surge o interesse. A conduta é rígida, persistente e unilateral.

Quando se enfrenta e ultrapassa obstáculos tudo motiva enquanto configuração presente, é o perceber em volta, o perceber o outro, que configura a motivação. Flexibilidade, liberdade e disponibilidade caracterizam esses comportamentos. Estar motivado é dinamizador, faz atingir novas configurações, enquanto o estar interessado, cada vez é mais limitante, criando, inclusive, obcecados. A ideia fixa de trabalho, de ter prazer, de ganhar dinheiro, são interesses típicos de indivíduos posicionados em suas necessidades. Quanto mais divididos, mais ilhados, mais pontualizações, mais fragmentações existem e podem até explicar a compulsão, a crueldade, a utilização do outro e a sonegação de fatos, tudo para atingir o que se deseja.

A motivação implica sempre em disponibilidade, é nela estruturada, uma vez que é vivência presentificada. Ao passo que o interesse - a motivação posicionada - coagula, determina a impermeabilidade, o compromisso, o propósito de superação ou de realização. A sobrevivência impõe uma série de interesses como forma de ultrapassar limites e satisfazer necessidades, transforma as motivações “em jogo de cartas marcadas”, em sinalização para otimizar a vida.