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O descartável é definitivo

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O resíduo cria novas realidades e congestiona processos. Freud foi eloquente quando mostrou a pressão exercida pelo dispensado, o descartado, o recalcado. Seu constructum - o inconsciente - permitia abrigar tudo e, quase por entendimento/contradição, era também um resíduo que tudo abrigava. Oximoro polêmico e responsável pela alienação na visualização dos processos psicológicos, na apreensão do humano, mas que foi muito útil como lata de lixo, como trash fundamental a todo sistema.
O trabalho escravo, o trabalho não remunerado ou mal remunerado (exercido principalmente por mulheres) é também um resíduo que suporta e mantém o sistema capitalista. Ganha-se muito mais do que se paga a empregados, e além disso se exerce controle, incentivando, por exemplo, instituições religiosas que permitem salvação, acenando com a vida eterna, pois isso é um descartável que configura densidade e apoio para os sobreviventes submetidos às pressões alienadoras e exploradoras. Assim, quanto mais se joga …

Artificialidade

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Quando alienado e transformado em produto, o ser humano aspira ser compreendido, considerado e aceito. Ser aceito se constitui em uma armadilha, pois não se aceitando e querendo ser aceito, o indivíduo já espera, quer do outro o que ele próprio não consegue: se aceitar. Testes e experiências são feitas para conseguir a validade da aceitação recebida, tanto quanto cada vez é mais artificial o contato estabelecido, pois tudo é realizado por meio de outros parâmetros, outras realidades, surgindo assim, a realização construída em outros referenciais.
Escamotear, seduzir, apresentar credenciais e vantagens são os trunfos utilizados para competições, para o processo de aceitação. Quanto mais aceito, mais artificial, pois foi reduzido ao que funciona como aceitável. O líquido dispersa-se, o construído tem que ser mantido e isso custa empenho, engano e disfarce. Cada vez é mais caro manter o fabricado, o artificial. Cansaço e tensão aparecem. É o que é atualmente chamado de Síndrome de Burno…

Desvarios

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Para algumas pessoas, aceitar limites é se sentir condenado à mesmice. Acham que se curvando ao que está diante delas, à sua realidade, vão ficar sem saída, apequenadas. Essa ganância, avaliação e desespero, quando vivenciadas enquanto prepotência criam os dedicados a metas, projetos e desejos que solidificam suas buscas desenfreadas. Pensam: “a única maneira de encontrar os limites do possível é buscá-lo no impossível”. Inventam, sinalizam o que é possível e impossível em função dos próprios desejos, das próprias frustrações. Querer ser rico, por exemplo, quando não se tem contexto e quando se tem ambição, meta e desejo de sê-lo, faz com que se estabeleçam as regras de tudo conquistar e para isso não há limites, pode roubar, enganar, matar, corromper, ser corrompido. O desejo de ter alguém, quando se sente sozinho, cria modus vivendi caracterizado pelos enganos, seduções e utilização do que pensa ser necessário para consecução do objetivo.
Desvios ou atalhos são considerados a menor…

Aspectos que desmascaram

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Neurose é o processo gerado pela não aceitação de si, da própria estrutura familiar, social e econômica. Não aceitando as próprias características biológicas (aspecto físico, sexo, cor de pele, tamanho das orelhas, cor dos cabelos etc.), não aceitando a família pobre ou a família rica com seus consequentes limites e características socioeconômicas, sendo percebido pelos pais, ou substitutos, como entraves, o indivíduo não se sente aceito pelo que é, mas sim pelo que pode ser, fazer ou realizar.
Ao não se aceitar, não ser aceito, o indivíduo busca atingir o que é aceito pela sua família e pelo sistema social que o situa. Estabelece metas, objetivos a partir dos quais, se atingi-los, será vencedor. Essas metas nem sempre são atingidas, surgindo os frustrados, os despersonalizados, os desumanizados. Quando as metas são atingidas surge o vencedor, o realizado, o que conseguiu chegar onde queria - venceu. É rico, é pobre, despoja-se do supérfluo que envergonhava sua família corrupta, por …

Reconhecimento e encontro

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Identificações provocam encontros estruturados em expectativas. Desde Platão que se pensava em andróginos que se completam, atualmente resumidos nas metades que se encontram. Descobrir o par é um milagre, encontrá-lo depende de buscas persistentes.
Focado na meta, no desejo de complementação, os seres realizam seus propósitos, tanto quanto conhecem enganos e decepções. Encaixar peças, complementar quebra-cabeças e ver o vento tudo levar, causa desespero, tristeza. As circunstâncias, as contingências esclarecem sobre a fragilidade das construções, dos castelos de areia.
Nada precisa ser construído ou reconhecido quando há integração. Esse processo tudo engloba, novas realidades surgem e a vivência do despertar, do descobrir são contínuas. O outro é o duplo que tudo evidencia, esclarece e motiva. O encontro dispensa o reconhecimento, não há preexistência, tudo é novo. Exatamente por isso, fica claro que não adianta buscar o complemento, não adianta investir na companhia, não é preciso …

Atrito

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Se todo dia tivéssemos que entender, que começar e estabelecer o que fazer com nós próprios, com o outro e o que está em volta, tudo seria impossível. Continuidade é fundamental. Não ter interrupção, não ter marcas de início e final, não ter caminhos impedidos, cancelas e portas limitadoras é o que possibilita fluir e realizar. Montar esquemas, criar palcos, começar, recomeçar estabelece limites arbitrários que funcionam como demarcadores.
Girar uma válvula e ter água, abrir a porta da geladeira e encontrar alimentação, olhar o espelho e se reconhecer é continuar, é estar apto a realizar as próprias possibilidades. Ter que recriar-se, descobrir onde começa o fio d’água que enche a latinha nocauteia ao criar limites exíguos. Pouco espaço, atrito constante, dificuldade para circular entre tiros, manutenção do ritual do encolher-se para não ser visto pelo amigo que grita e agride, evitar os freios abruptos dos circulantes cria esquemas, regras tensionantes. Tudo que quebra a continuidad…

Aproveitamento e recortes

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Qualquer dado subjacente ao vivenciado cria defasagem, posiciona um contexto - o Fundo - que, imobilizado, passa a ser a base de percepção para tudo que ocorre. A Figura - o que ocorre - é, assim, sempre percebida em um Fundo, o do anteriormente percebido, o do que ocorreu. O posicionamento dessa dinâmica é responsável por infinitas distorções causadas pelo posicionamento imobilizador da dinâmica.
Querer ser aceito, querer ser poderoso e considerado, querer significar alguma coisa, vencer concorrências e competições, estabelece os obcecados, os buscadores insaciáveis do poder e da fama. Assim posicionado, só o que interessa é brilhar, conseguir, triunfar, alcançar objetivos que aumentam seu preço, seu poder de barganha, sedução e catequese. Apostam em plágios, imitações, imagens que denotem boa colocação, que criam boa pontuação. Mesmo quando se expõem ou relatam descobertas, consequentemente tratando de situações inéditas, os indivíduos posicionados em meta, em ganância de consegui…

Surpresa e flagelos

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Nestes tempos de absurdos e ameaças, vale recorrer a uma reflexão de Camus em seu livro “A Peste”, no qual ele escreve:

“A palavra “peste” acabava de ser pronunciada pela primeira vez. Neste ponto da narrativa, com Bernard Rieux atrás da janela, permitir-se-á ao narrador que justifique a incerteza e o espanto do médico, já que, com algumas variações, sua reação foi a da maior parte dos nossos concidadãos. Os flagelos, na verdade, são uma coisa comum, mas é difícil acreditar neles quando se abatem sobre nós. Houve no mundo igual número de pestes e de guerras. E contudo as pestes, como as guerras, encontram sempre as pessoas igualmente desprevenidas. Rieux estava desprevenido, assim como os nossos concidadãos; é necessário compreender assim as duas hesitações. Por isso é preciso compreender, também, que ele estivesse dividido entre a inquietação e a confiança. Quando estoura uma guerra, as pessoas dizem: “Não vai durar muito, seria estúpido.” Sem dúvida, uma guerra é uma tolice, o que …

Polarização e Asno de Buridan

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Representar impasses como a dificuldade de decisão, como a indecisão que implica em impossibilidade de realizar, constitui o paradoxo representado pela polarização. Certos impasses sociais e filosóficos podem ser considerados tomando o asno, o burro como metáfora inspiradora.
Na fábula dos Burros Espertos, os dois atados por uma curta corda avistam dois molhos de feno em lados opostos e tentando comê-los permanecem paralisados pela corda estirada, puxando-a pelas extremidades a que estão amarrados - cada qual deseja realizar suas motivações, saciar sua fome. Buscando atingir o feno, o capim, brigam sem atingir, sem perceber que estão amarrados no mesmo laço, na mesma corda. Encontram a solução indo juntos a um molho de feno.

Compromisso gerador de polarização, conflitos e lutas que só podem ser resolvidas quando os nós são desatados, quando o que prende e separa é removido. Estar livre é poder seguir os próprios caminhos e não ser induzido, manipulado pela fome, pelas necessida…

Distribuição - Representantes, representados e democracia

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É próprio da distribuição a existência de um centro ou uma pessoa ou um distribuidor. Processos de distribuição sempre inscrevem ou estabelecem responsáveis.
A ideia de república (regulada por leis-constituição) é a busca de ancorar responsáveis em leis normativas. A coisa pública - a república - só pode sobreviver se regida por democracia (poder dos representados por meio de seus expoentes escolhidos). Representar, essa duplicação, essa contenção de iguais diante de iguais é sempre problemática, desde que resulta de compactuações desiguais. É um processo que cria os filtros, os locais, as posições, os partidos, os representantes da vontade da população. Representar é simbolizar, indicar, sugerir e em qualquer dessas condições representar é distorcer, pois estabelece o outro (o diferente), a outra coisa, para representar o mesmo. É como um game, um jogo de semelhanças, dessemelhanças que sempre provoca ambiguidade mesmo quando sincroniza, ou seja, quando um vira o outro. A identidad…