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Sequências

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    As ordens estabelecidas nas instituições de transmissão do conhecimento não são limitadas pelo tempo embora o reflitam. O professor que ensina outro professor é um elo de uma corrente contínua. De diferentes maneiras são repetidas as mesmas coisas. Essa atemporalidade é o que recria e mantém o tempo. Este aparente paradoxo é estabelecido pela doxa , pelas opiniões que se superpõem, e que mesmo que variem são iguais enquanto resumo de ordens, regras e palavras. Assim são formadas as instituições e assim são transmitidos valores que sequencialmente criam conjuntos: humanidade por exemplo. Quebra de sequências surgem quando valores são transmutados, transformados. Essa é a grande ameaça que se desenha com os processos de alienação e desumanização. O ser humano poderá vir a ser ingerido como proteína capaz de alimentar famintos? O descrédito na humanidade ensejará sua superação? As quebras de sequências básicas são sempre mutações atordoantes no mundo biológico e também no psicológico.

Percepção de si e do outro

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A percepção de si e do outro é uma temática relevante em psicologia. As abordagens a este tema fundamentam psicoterapias. Freud achava que o outro era percebido em função de desejos, medos e anseios, era a projeção de demandas do inconsciente, e isso era o que lhe dava significado. Nesse sentido, na psicanálise a percepção do outro é uma projeção de motivações e comportamentos inconscientes. Diversamente, para mim, perceber o outro é uma consequência de estar no mundo. Esse simples fato, entretanto, pode ser uma resultante condensadora de inúmeras contextualizações. A variedade de contextos à partir dos quais o outro é percebido é imensa, embora possam ser significadas, condensadas em seus estruturantes: o outro é percebido como prolongamento de autorreferenciamento ou como presença que expressa outras relações e significados. O outro é o que está aí, diante. É o destacado que será significado enquanto ser, enquanto surpresa implícita, ou visualizado como coisa cujas funções são mantid

Ir além dos significados

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  Ir além do que acontece só é possível quando acontecimentos são considerados contextos, paisagens. É como estar viajando em um trem onde os trilhos, a estrada, os caminhos nada significam salvo direção percorrida. Essa objetivação de propósitos é a transcendência que possibilita ampliação. Não importa com quem se está, ou onde se esteja, o importante é que se está ouvindo, vendo, considerando, e isso sempre significa discernimento. Esse discernimento, o perceber que percebe, o conhecimento, tudo ultrapassa. Não é setorizado, não é dicotomizado por conveniências ou inconveniências. Tudo se sente, tudo se sabe. As possibilidades de vivência - ditas emoções, considerados pensamentos - caracterizam o humano. É a vivência do estar no mundo com os outros que realiza humanidade, que a torna contingenciada e sincrônica com os que convive, com os outros que encontra. Estar aberto e disponível é característica da humanização e permite transcender limites de bom, ruim, certo, errado, útil e inú

Avaliação e vazio

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  Verificar tudo que se tem e que não se tem, a condição e falta de condição para realização de objetivos, gera, entre outras coisas, atitude pragmática. Nesse horizonte, o principal é avaliar o lucro e o prejuízo para que se possa evitá-lo. É uma maneira de preencher o vazio. É o contar e recontar, é ver se armazena para somar, enriquecer, atingir bem-estar na vida, em um mundo considerado ameaçador e perigoso. Transformado em autômato - desde criança quando o que importava era a boa nota no boletim escolar, o não quebrar coisas e não criar problemas - o indivíduo se endereça para obter a chave do que considera válido e útil, cuidando também que ninguém o atrapalhe e prejudique. De tanto fazer conta, descobre que nada serve. O que vale é que não corra risco, ou ainda, tudo aproveitar. Transformar situação de gasto em situação de lucro é uma arte, um malabarismo diariamente por ele praticado. Essa magia acaba extenuando e colapsa. Buscando lucro está sempre no prejuízo, não sabe o que

Arbitrariedade e prepotência - fura-filas de vacinas em Manaus

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  Furar filas de vacinação, em Manaus e em todo o Brasil, é o absurdo que acontece e é totalmente previsível - além de tolerado - nas estruturas caóticas estabelecidas pela lei do mais forte e das “carteiradas” dos poderosos. É o que é tão falado neste país: “manda quem pode, obedece quem tem juízo”. A capacidade de esconder incapacidades, de realizar desejos satisfazendo ganâncias e aproveitando-se das situações é oportunismo. Vivemos uma crise sanitária sem precedentes, de abrangência mundial. O drama da Covid-19, ainda sem tratamento, ameaça, adoece e mata milhares, e transformar essa catástrofe em “balcão de negócios”, em oportunidade para ganhar dinheiro, é criminoso. O que assistimos no Brasil, com o próprio Governo Federal e Ministério da Saúde apresentando um Aplicativo que induz à prescrição de tratamento duvidoso e não comprovado, em verdade até desaconselhado por organismos nacionais e internacionais de saúde, é um exemplo macabro de oportunismo e aproveitamento do caos gera

Desespero e impotência - falta de oxigênio em Manaus

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  Saber, imaginar ou atribuir que uma situação pode ser mudada, que, por exemplo, uma vida pode ser salva caso exista o que falta, e saber que não se dispõe disso gera impotência. Vivenciar a impotência diante de limite excruciante - a morte do ente querido - destrói toda possibilidade de solução. Essa destruição de possibilidades é a matéria prima do desespero. Tenta-se qualquer coisa, paga-se qualquer preço, se faz do impossível, o possível. Essas vivências reconfortam, pois escondem os limites ao criar possíveis soluções e amortecedores. Não questionar o que causou o desespero, a impotência, o querer resolver de qualquer forma o que aflige, é não ver todos no mesmo barco afundando. É o estouro da boiada, é a saída desenfreada do cinema em fogo, é a busca de salvação a qualquer preço, é o "humano, demasiado humano" como falava Nietzsche. É compreensível, apesar de ilusória, uma ação imediata, quase um reflexo para sobreviver, para respirar. Atitudes apoiadas em ilusões apla

Igualdade e diversidade - alfabetos e leituras

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  Tudo é o que é. Tudo é igual. O que é igual em tudo é a imanência do ser e estar. A diferença - que é o uso dessa igualdade - é feita segundo padrões, percepção individualizada. O indivíduo não cria o mundo, mas ele o costumiza segundo sua própria dimensão. Alfabeto específico, tomando sempre as mesmas imagens, as mesmas palavras, sob formas, sob ícones desfigurados. Mensagens padronizadas que só podem ser lidas por decifradores ou construtores de suas chaves. Pensar igual, escrever diferente. Sentir do mesmo modo e perceber, expressar de modos diferentes é uma transmutação, uma transliteração mágica e divisória. Preencher o vácuo criando nova forma alenta e destrói identidade. A diversificação é a magia constante do encontro, é resultante afirmativa deste. Esse paradoxo se revive na homogeneização cultural. Jamais o todo é a soma de partes. Não há como explicar, por mecanismos redutores, o estar no mundo com os outros. Encontro é configuração de variações, rede sistêmica que ultrapa

Obviedade e contingência

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Bastava perceber o que estava em volta para compreender o próprio mundo, o próprio universo. Essa era a regra, a verdade cotidiana de nossa infância - era o que caracterizava ser criança. Quando o em volta é ameno, a calma é estabelecida. Atualmente essa ideia é precária, quase não significa desde que predominam crianças invadidas pela fome, pelo abuso sexual, pelas guerras. Nos ambientes de constante tensão, os agressores surgem, são trazidos por outros contextos, quebrando o em volta. Viver na rua, pedir abrigo na periferia, catar migalhas é o contexto que esmaga, é onde se pisa e é pisado. Na continuidade, o em volta é transformado em campo de batalha onde não sucumbir, não morrer é o objetivo diário. Não mais interessa o como ou o porquê, o que se exige está relacionado com o para quê, com o depois.  Essa transformação - o presente da criança voltado para sobrevivência - mais tarde é estabelecida como objetivo e meta. A vida é orientada para segurança e salvação. Essa é a constante

O inefável

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Em todas as vivências relacionais existe interstícios que também são dados e vivências relacionais mas que sempre permanecem como Fundo. Essa permanência é um contexto inalterado. É sempre Fundo não revertido como Figura daí nunca ser percebido e assim passa a ser o inefável, o sutil, o que não aparece embora explique tudo. Em termos humanos isso é configurado como confiança no outro, fé nas infinitas possibilidades do estar no mundo, certeza da própria isenção, da própria disponibilidade. Perceber essa dinâmica é também perceber os entraves e dispersores das certezas e das constatações. O se deter nas constatações, aparente restrição vivencial e fragmentadora, é totalmente amplificador, pois recria a cada segundo as infinitas variáveis responsáveis pelo instante, pela vivência que se tem. É quase uma mágica a desconstrução do denso, do enfático, do proposto. Apenas o que é, é. Este desnudamento é a revelação das essências configuradoras dos relacionamentos: é o amor, é a decepção, é a

Permanência, abandono e entusiasmo

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Quanto mais voltado para o futuro, mais manutenção do esforço e consequentemente a busca de permanência, de estabelecimento e adaptação nos relacionamentos são uma constante. Na continuidade surge o abandono como solução para o que é conflituosamente vivenciado. A permanência no que se pretende transpor é um paradoxo que se acredita levar à consecução de objetivos. Frequentemente encontramos pessoas que mantêm relacionamentos, casamentos, acordos e acertos, em uma permanência paradoxal pois sabem que resultará em corte. Apesar das inúmeras justificativas que acumulam, a utilização e aproveitamento das situações são incontestáveis.  A atitude de abandono resulta da catalogação do que é adequado ou inadequado. Vivenciar algo como superado após tudo ser extraído da situação, evidencia sempre atitudes predatórias seja no relacionamento, seja na relação com o cotidiano, com recursos naturais ou com familiares. No abandono se evidencia a utilização do outro, a utilização de situações em funç