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Igualdade e diversidade - alfabetos e leituras

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  Tudo é o que é. Tudo é igual. O que é igual em tudo é a imanência do ser e estar. A diferença - que é o uso dessa igualdade - é feita segundo padrões, percepção individualizada. O indivíduo não cria o mundo, mas ele o costumiza segundo sua própria dimensão. Alfabeto específico, tomando sempre as mesmas imagens, as mesmas palavras, sob formas, sob ícones desfigurados. Mensagens padronizadas que só podem ser lidas por decifradores ou construtores de suas chaves. Pensar igual, escrever diferente. Sentir do mesmo modo e perceber, expressar de modos diferentes é uma transmutação, uma transliteração mágica e divisória. Preencher o vácuo criando nova forma alenta e destrói identidade. A diversificação é a magia constante do encontro, é resultante afirmativa deste. Esse paradoxo se revive na homogeneização cultural. Jamais o todo é a soma de partes. Não há como explicar, por mecanismos redutores, o estar no mundo com os outros. Encontro é configuração de variações, rede sistêmica que ultrapa

Obviedade e contingência

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Bastava perceber o que estava em volta para compreender o próprio mundo, o próprio universo. Essa era a regra, a verdade cotidiana de nossa infância - era o que caracterizava ser criança. Quando o em volta é ameno, a calma é estabelecida. Atualmente essa ideia é precária, quase não significa desde que predominam crianças invadidas pela fome, pelo abuso sexual, pelas guerras. Nos ambientes de constante tensão, os agressores surgem, são trazidos por outros contextos, quebrando o em volta. Viver na rua, pedir abrigo na periferia, catar migalhas é o contexto que esmaga, é onde se pisa e é pisado. Na continuidade, o em volta é transformado em campo de batalha onde não sucumbir, não morrer é o objetivo diário. Não mais interessa o como ou o porquê, o que se exige está relacionado com o para quê, com o depois.  Essa transformação - o presente da criança voltado para sobrevivência - mais tarde é estabelecida como objetivo e meta. A vida é orientada para segurança e salvação. Essa é a constante

O inefável

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Em todas as vivências relacionais existe interstícios que também são dados e vivências relacionais mas que sempre permanecem como Fundo. Essa permanência é um contexto inalterado. É sempre Fundo não revertido como Figura daí nunca ser percebido e assim passa a ser o inefável, o sutil, o que não aparece embora explique tudo. Em termos humanos isso é configurado como confiança no outro, fé nas infinitas possibilidades do estar no mundo, certeza da própria isenção, da própria disponibilidade. Perceber essa dinâmica é também perceber os entraves e dispersores das certezas e das constatações. O se deter nas constatações, aparente restrição vivencial e fragmentadora, é totalmente amplificador, pois recria a cada segundo as infinitas variáveis responsáveis pelo instante, pela vivência que se tem. É quase uma mágica a desconstrução do denso, do enfático, do proposto. Apenas o que é, é. Este desnudamento é a revelação das essências configuradoras dos relacionamentos: é o amor, é a decepção, é a

Permanência, abandono e entusiasmo

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Quanto mais voltado para o futuro, mais manutenção do esforço e consequentemente a busca de permanência, de estabelecimento e adaptação nos relacionamentos são uma constante. Na continuidade surge o abandono como solução para o que é conflituosamente vivenciado. A permanência no que se pretende transpor é um paradoxo que se acredita levar à consecução de objetivos. Frequentemente encontramos pessoas que mantêm relacionamentos, casamentos, acordos e acertos, em uma permanência paradoxal pois sabem que resultará em corte. Apesar das inúmeras justificativas que acumulam, a utilização e aproveitamento das situações são incontestáveis.  A atitude de abandono resulta da catalogação do que é adequado ou inadequado. Vivenciar algo como superado após tudo ser extraído da situação, evidencia sempre atitudes predatórias seja no relacionamento, seja na relação com o cotidiano, com recursos naturais ou com familiares. No abandono se evidencia a utilização do outro, a utilização de situações em funç

Desapego

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  Aconselhamentos religiosos e orientações espiritualistas propõem desapego como neutralização de sofrimentos baseando-se na ideia de estar protegido e definido por algo além de si que justifica o sacrifício de deixar, de largar o que se tem afeição, libertando-se para um caminho direcionado a metas espirituais. Nesse contexto, buscar o desapego é negar afetos e condição material como características humanas, e assim, a busca do desapego torna-se mais um elemento de pressão e repressão, gerador de culpa e medo. Desapegar-se, nessas visões, implica sempre em ir além deste mundo, buscando outros considerados paradisíacos que redimem culpas e dificuldades.  O desapego é também muito frequente nos estados depressivos: nada interessa, nada significa, não existe sentido na continuidade, tampouco nas novidades e surpresas. Apoios, segurança e significados entravam processos graças às polarizações, às confluências realizadas por sonhos, desejos e propósitos. Viver é lutar, viver é superar, viv

Adequação transformadora

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  Saber que se é o que se é traz tranquilidade e motiva para continuidade de vivências, de sentir-se apto e capaz de estar no mundo consigo mesmo e com os outros, transcendendo os limites das circunstâncias. Essa transcendência polariza energia e motiva para a apreensão das contradições que desnorteiam. Entregue a si mesmo em questionamentos e descobertas o indivíduo atinge novas dimensões, renova constatações, aumentando suas crenças nas próprias possibilidades, pois ao abandonar caminhos endereçados, contingências e circunstâncias, ele realiza o caminho enquanto possibilidade e expressão de sua individualidade, de suas motivações. É o ir além dele próprio determinado pelas suas próprias motivações. Esse processo, esse ir além, só é possível enquanto autonomia, ou seja, autonomia é um processo que exila expectativas e no qual, consequentemente, não há ansiedade. O predomínio da tranquilidade, da aceitação do que ocorre, do que se é, do que se tem, descortina horizontes de infinitas po

Oscilações

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Satisfeito e insatisfeito em suas demandas e desejos o indivíduo se modifica. Os processos de verificação o transformam em padrão, em régua medidora e avaliadora do que ocorre. A avaliação direciona o que pensa, sente e decide em função de referenciais que o situam, adaptam ou desadaptam. Este processo de desumanização exila o tempo, o conhecimento e o presente das vivências humanas. Tudo é feito por ou para alguma coisa. Quando isso falha, quando não existe ou quando se repete vem o vazio, o desencanto, o não saber o que fazer. Neste momento a necessidade de repetir é gerada seja pelo esquecimento, alienação ou dependência. Álcool e outras drogas, às vezes sexo, são estimulantes, ajudam a colorir o branco vivenciado. Esse descolorido significado como medo é sempre depressor. Alguma coisa tem que acontecer, algo que faça a diferença, que acalme, que faça esquecer. Qualquer sistema que ofereça diferenciação serve. Está assim criado o campo de manipulação. Dogmas, regras, perguntas, ex

Risos e prantos

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  Perceber sempre o que falta transforma o indivíduo em queixoso, revoltado, ou em excelente lutador para conseguir o que lhe falta, o que precisa. As constantes verificações do que é necessário ser feito estabelece o útil e o necessário como maneira de troca e como fundamental para vivenciar os relacionamentos com os outros, com a sociedade, com o cotidiano. Surge assim a escalada para resultados, para o que se precisa conseguir. A ideia de que tudo pode ser adquirido, a ideia de que a luta, o esforço de melhorar vai trazer bons resultados, é o algo a mais adquirido na educação, seja ela familiar ou escolar. A máxima “lute, se esforce que você melhora” é um engano que neurotiza. Criado para o depois, para o futuro, para sobreviver, o indivíduo se aliena e pode passar a negar as dinâmicas existenciais nas quais o fundamento é o presente, é o outro, é o estar concentrado no que se vivencia, podendo, por meio dessa experiência, transcender e atingir outras relações configuradoras do est

Comportamentos esquemáticos

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Seguir um esquema é procurar seguir uma receita, é procurar ter bons resultados. Esse comportamento é sempre deficitário, pois estruturado em outros contextos funciona como encaixe rapidamente transformado em quebra-cabeça ou acerto de figurinhas que se parecem. Assistir os esforços das mães querendo educar os filhos de acordo com tudo que é preconizado por psicopedagogos e psicólogos é exemplificador dessa atitude. A agenda recreativa, lúdica, cultural e esportiva é movimentada, tudo é dado, menos o contato direto com os pais, única possibilidade de amor e de carinho. É um caminho que valoriza ganhos e sucesso e a questão do ganhar dinheiro, do exercício profissional, que sempre cria outras demandas e variáveis. As dietas, a fixação em alimentação saudável é outro exemplo de comportamento esquemático. O esforço inviabiliza a espontaneidade. Se dedicar a fazer o que é necessário, o que é considerado bom, é sempre ruim pois busca realizar metas ou propósitos. As barras de proteção, o qu

Individualidade e grupo

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Como sobreviver sem o grupo? Sem a família, sem sociedade, sem instituições? São perguntas constantes e implícitas em todo desenvolvimento individual. O semelhante, o outro é o duplo. O primeiro grupo social é o que o indivíduo forma com ele próprio por meio de posicionamentos representativos de conjuntos e sistemas que o identificam. Ser de uma família, um extrato social, um país são determinantes explicativos de seus limites e poderes. Essa demarcação é indicativa de limites, de compromissos e também de liberdade, possibilidades de transformação. Já nascemos situados, consequentemente imbricados em todos os sistemas que nos configuram, definem, apoiam e oprimem. São as engrenagens que comprometem, tanto quanto protegem, adaptam e isolam. Essas bolhas sofrem impactos. Inúmeras variáveis, como guerras e intempéries, criam mudanças. Dos acontecimentos político-econômicos aos climáticos a dinâmica determina e aprimora. Os estáveis são questionados e dinamizados. Das tradicionais configur