Thursday, October 12

Utilização de referenciais




Utilizar referenciais existentes para apresentar outros diferentes, embora congêneres, é uma maneira de confundir, tanto quanto de enganar. No comércio, inúmeros produtos e lojas utilizam marcas, grifes, fama sancionada pelo uso e se apresentam como idênticos. Explorando a semelhança gerada pela proximidade lingüistica, que pode levar a closuras, se aproveitam e assim iludem e angariam consumidores.

Esse processo também está presente na vida universitária, no dia a dia das academias esportivas, das aulas de meditação e dos centros de saúde e aperfeiçoamento. É o ser igual a, é o fazer como o bem sucedido faz. É a montagem de peças com modelos arbitrários que a tudo recorre. Colagens, deturpações, correntes para encaixe, tudo é permitido quando se quer lograr o cume dos resultados e vantagens e quando se precisa do outro, enganando e mentindo. Este “boa noite Cinderela” coloca indivíduos onde se deseja que eles fiquem, para assim estabelecer e conseguir bons resultados.

Comércio e organizações religiosas, nesse sentido, se assemelham, são redes mantidas para conseguir consumo e prosélitos, concentrando assim, participantes e contribuintes. Contribuindo para Deus se compra o reino dos céus!

Quanta mistura para iludir e capitalizar a confluência de angustias, desejos e vontades!


Thursday, October 5

Cinismo

"Diogenes" de Jean-Léon Gérôme (1824-1904) 


Com o passar do tempo o sentido das palavras muda e algumas vezes pode adquirir significados opostos aos de sua origem. Cinismo é um exemplo disso. Em sua origem era postura filosófica caracterizada pela busca de uma vida simples e voltada para a natureza, vivenciada por meio de atitude crítica e de rejeição de todas as convenções sociais, das boas-maneiras, das famílias, casamentos, moradias e valores como pudor ou decência - entendidos pelos cínicos como hipocrisia social. Também pregavam a valorização da virtude encontrada em uma vida ideal e na honestidade. Seu maior expoente, Diogenes, vivia nas ruas de Atenas, levando sua lógica ao extremo, indiferente aos valores e confortos sociais (costumes, convenções, riqueza, fama, poder, bem-estar etc.). O cínico era, em última instância, um homem honesto, um crítico da hipocrisia social.

Nos tempos modernos, cinismo está associado a uma descrença nos valores éticos, na sinceridade e na bondade como motivações ou possibilidades humanas. O cínico moderno não busca o homem honesto como Diogenes fazia, ele exerce a desonestidade de forma insolente e atrevida.

A desconsideração do que ocorre, das manifestações elucidativas das questões, estrutura atitudes cínicas. Ser cínico, é, por exemplo, além de fazer de conta que não tem problemas, que nada aconteceu esclarecendo e evidenciando as direções congestionadas, afirmar-se como defensor e protetor do que foi por ele mesmo destruído.

Cinismo e demagogia geralmente andam juntos, desde que são maneiras de impor ao outro, pontos de vista sem suporte, sem consistência. Na política são frequentes as atitudes cínicas, desde o consagrado "Vossa Excelência, prezado Deputado, é um incompetente, corrupto", até o "meu filho, por amor de Deus, vou ter que lhe bater para manter unida nossa família".

Cinismo é sempre atitude que expressa contradições explícitas entre o que se vivencia e o que se quer demonstrar vivenciar. Essa criação de abismo, de descontinuidade abriga e suporta explicações paradoxais, como: "por amor se mata", "em defesa da honra, se corrompe" etc. Nas vivências das próprias problemáticas expressas no contexto de psicoterapia, assim como no cotidiano, cinismo é fazer o "mea-culpa", é negar atitudes, postulando outras a elas contrárias.

Ironia, mordacidade, cinismo às vezes são sinonimizados, chegando a se confundir. Em realidade, as situações são tão diversas quanto o são ângulos de 90º, 45º ou 0º - todos são ângulos, mas sequer são parecidos, não passam de encontros com superfíceis -, não passam de encontros ou de situações nas quais o fazer de conta, o exibir isto ou negar isto são apresentados. A ironia requer um mínimo de lucidez, a mordacidade implica sempre em questionamento, enquanto o cinismo é caracterizado por mentira e engano.

Cinismo é um adiamento da constatação, da decisão, utilizando situações que podem confundir o outro.