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Mostrando postagens de 2020

O inefável

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Em todas as vivências relacionais existe interstícios que também são dados e vivências relacionais mas que sempre permanecem como Fundo. Essa permanência é um contexto inalterado. É sempre Fundo não revertido como Figura daí nunca ser percebido e assim passa a ser o inefável, o sutil, o que não aparece embora explique tudo. Em termos humanos isso é configurado como confiança no outro, fé nas infinitas possibilidades do estar no mundo, certeza da própria isenção, da própria disponibilidade. Perceber essa dinâmica é também perceber os entraves e dispersores das certezas e das constatações. O se deter nas constatações, aparente restrição vivencial e fragmentadora, é totalmente amplificador, pois recria a cada segundo as infinitas variáveis responsáveis pelo instante, pela vivência que se tem. É quase uma mágica a desconstrução do denso, do enfático, do proposto. Apenas o que é, é. Este desnudamento é a revelação das essências configuradoras dos relacionamentos: é o amor, é a decepção, é a

Permanência, abandono e entusiasmo

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Quanto mais voltado para o futuro, mais manutenção do esforço e consequentemente a busca de permanência, de estabelecimento e adaptação nos relacionamentos são uma constante. Na continuidade surge o abandono como solução para o que é conflituosamente vivenciado. A permanência no que se pretende transpor é um paradoxo que se acredita levar à consecução de objetivos. Frequentemente encontramos pessoas que mantêm relacionamentos, casamentos, acordos e acertos, em uma permanência paradoxal pois sabem que resultará em corte. Apesar das inúmeras justificativas que acumulam, a utilização e aproveitamento das situações são incontestáveis.  A atitude de abandono resulta da catalogação do que é adequado ou inadequado. Vivenciar algo como superado após tudo ser extraído da situação, evidencia sempre atitudes predatórias seja no relacionamento, seja na relação com o cotidiano, com recursos naturais ou com familiares. No abandono se evidencia a utilização do outro, a utilização de situações em funç

Desapego

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  Aconselhamentos religiosos e orientações espiritualistas propõem desapego como neutralização de sofrimentos baseando-se na ideia de estar protegido e definido por algo além de si que justifica o sacrifício de deixar, de largar o que se tem afeição, libertando-se para um caminho direcionado a metas espirituais. Nesse contexto, buscar o desapego é negar afetos e condição material como características humanas, e assim, a busca do desapego torna-se mais um elemento de pressão e repressão, gerador de culpa e medo. Desapegar-se, nessas visões, implica sempre em ir além deste mundo, buscando outros considerados paradisíacos que redimem culpas e dificuldades.  O desapego é também muito frequente nos estados depressivos: nada interessa, nada significa, não existe sentido na continuidade, tampouco nas novidades e surpresas. Apoios, segurança e significados entravam processos graças às polarizações, às confluências realizadas por sonhos, desejos e propósitos. Viver é lutar, viver é superar, viv

Adequação transformadora

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  Saber que se é o que se é traz tranquilidade e motiva para continuidade de vivências, de sentir-se apto e capaz de estar no mundo consigo mesmo e com os outros, transcendendo os limites das circunstâncias. Essa transcendência polariza energia e motiva para a apreensão das contradições que desnorteiam. Entregue a si mesmo em questionamentos e descobertas o indivíduo atinge novas dimensões, renova constatações, aumentando suas crenças nas próprias possibilidades, pois ao abandonar caminhos endereçados, contingências e circunstâncias, ele realiza o caminho enquanto possibilidade e expressão de sua individualidade, de suas motivações. É o ir além dele próprio determinado pelas suas próprias motivações. Esse processo, esse ir além, só é possível enquanto autonomia, ou seja, autonomia é um processo que exila expectativas e no qual, consequentemente, não há ansiedade. O predomínio da tranquilidade, da aceitação do que ocorre, do que se é, do que se tem, descortina horizontes de infinitas po

Oscilações

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Satisfeito e insatisfeito em suas demandas e desejos o indivíduo se modifica. Os processos de verificação o transformam em padrão, em régua medidora e avaliadora do que ocorre. A avaliação direciona o que pensa, sente e decide em função de referenciais que o situam, adaptam ou desadaptam. Este processo de desumanização exila o tempo, o conhecimento e o presente das vivências humanas. Tudo é feito por ou para alguma coisa. Quando isso falha, quando não existe ou quando se repete vem o vazio, o desencanto, o não saber o que fazer. Neste momento a necessidade de repetir é gerada seja pelo esquecimento, alienação ou dependência. Álcool e outras drogas, às vezes sexo, são estimulantes, ajudam a colorir o branco vivenciado. Esse descolorido significado como medo é sempre depressor. Alguma coisa tem que acontecer, algo que faça a diferença, que acalme, que faça esquecer. Qualquer sistema que ofereça diferenciação serve. Está assim criado o campo de manipulação. Dogmas, regras, perguntas, ex

Risos e prantos

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  Perceber sempre o que falta transforma o indivíduo em queixoso, revoltado, ou em excelente lutador para conseguir o que lhe falta, o que precisa. As constantes verificações do que é necessário ser feito estabelece o útil e o necessário como maneira de troca e como fundamental para vivenciar os relacionamentos com os outros, com a sociedade, com o cotidiano. Surge assim a escalada para resultados, para o que se precisa conseguir. A ideia de que tudo pode ser adquirido, a ideia de que a luta, o esforço de melhorar vai trazer bons resultados, é o algo a mais adquirido na educação, seja ela familiar ou escolar. A máxima “lute, se esforce que você melhora” é um engano que neurotiza. Criado para o depois, para o futuro, para sobreviver, o indivíduo se aliena e pode passar a negar as dinâmicas existenciais nas quais o fundamento é o presente, é o outro, é o estar concentrado no que se vivencia, podendo, por meio dessa experiência, transcender e atingir outras relações configuradoras do est

Comportamentos esquemáticos

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Seguir um esquema é procurar seguir uma receita, é procurar ter bons resultados. Esse comportamento é sempre deficitário, pois estruturado em outros contextos funciona como encaixe rapidamente transformado em quebra-cabeça ou acerto de figurinhas que se parecem. Assistir os esforços das mães querendo educar os filhos de acordo com tudo que é preconizado por psicopedagogos e psicólogos é exemplificador dessa atitude. A agenda recreativa, lúdica, cultural e esportiva é movimentada, tudo é dado, menos o contato direto com os pais, única possibilidade de amor e de carinho. É um caminho que valoriza ganhos e sucesso e a questão do ganhar dinheiro, do exercício profissional, que sempre cria outras demandas e variáveis. As dietas, a fixação em alimentação saudável é outro exemplo de comportamento esquemático. O esforço inviabiliza a espontaneidade. Se dedicar a fazer o que é necessário, o que é considerado bom, é sempre ruim pois busca realizar metas ou propósitos. As barras de proteção, o qu

Individualidade e grupo

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Como sobreviver sem o grupo? Sem a família, sem sociedade, sem instituições? São perguntas constantes e implícitas em todo desenvolvimento individual. O semelhante, o outro é o duplo. O primeiro grupo social é o que o indivíduo forma com ele próprio por meio de posicionamentos representativos de conjuntos e sistemas que o identificam. Ser de uma família, um extrato social, um país são determinantes explicativos de seus limites e poderes. Essa demarcação é indicativa de limites, de compromissos e também de liberdade, possibilidades de transformação. Já nascemos situados, consequentemente imbricados em todos os sistemas que nos configuram, definem, apoiam e oprimem. São as engrenagens que comprometem, tanto quanto protegem, adaptam e isolam. Essas bolhas sofrem impactos. Inúmeras variáveis, como guerras e intempéries, criam mudanças. Dos acontecimentos político-econômicos aos climáticos a dinâmica determina e aprimora. Os estáveis são questionados e dinamizados. Das tradicionais configur

Vantagens

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Medir, contar são frutos da atitude de avaliação. Quando a pessoa não vivencia o presente, seu dia a dia é um espaço em branco, tempo sem lei pontuado por medos, insegurança e desejo de coisas a realizar e também a evitar. Tudo é aferido. Não se suporta o que se vivencia, caso isso não aponte para alguma conveniência, alguma vantagem ou superação do que se quer esconder. Desde cuidar da aparência - mudança de cor de cabelo, plásticas rejuvenescedoras, uso de roupas de marcas famosas, coleção de amigos influentes e poderosos - até um cotidiano de aplausos e estímulos para manter o que de bom e significativo foi conseguido, o indivíduo vive como máquina que registra, amealha e cuida. Cuidar que um futuro bom aconteça, evitar que as coisas ruins apareçam são os parâmetros, são barreiras a destruir. Nesse referencial, o indivíduo coleciona ansiedade, angústia, inveja e medo. Não se suporta sozinho, pois sem apoio não tem onde se agarrar ou se sustentar para os pulos que podem permitir apro

Paradoxo e simplificação

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Estabelecer paradoxo é uma maneira de manter opostos. Simplificando, paradoxo é um problema cuja solução é outro paradoxo, ou ainda, paradoxo é a contradição do estabelecido, do posto.    O inesperado é paradoxal. Quebrar certezas hauridas de regularidade e frequência cria paradoxo. Saber que qualquer coisa estéril frutificou, por exemplo, é também paradoxal, caso não se considere a possibilidade de enxertos. Saber que uma mulher dependente e espancada por anos foi à Delegacia após meses sem ser seviciada, é paradoxal, caso não se considere o tempo de construção da lucidez, gerado por visitas de agentes sociais ou por outras intervenções. Enfim, paradoxal é tudo aquilo que rompe uma cadeia de referências situantes das constatações que estão sendo consideradas paradoxais. Na esfera moral é na família que se vivencia os maiores paradoxos. A mãe que se recusa a aceitar que a filha tenha uma vida sexual, quando ela mesma não esconde seus inúmeros relacionamentos sexuais; o pai que ameaça c

Rotina

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  Se tudo fosse igual, nada seria diferente. Igualdade e diferença são conceitos que não subsistem sem outros parâmetros que permitam configurar comparações a fim de que possa surgir o igual e o diferente. As vivências de monotonia e tédio, por exemplo, pressupõem sempre insatisfações, frustrações, fracassos vivenciados e não admitidos, não aceitos. Entender os despropósitos das vivências rotineiras só é possível quando consideramos os níveis de aspiração, os desejos frustrados, as vivências de submissão e medo responsáveis por desânimo, insatisfação e ansiedade. Viver o presente como se fosse uma passagem, uma ponte, um trem bala correndo célere para atingir o paraíso sonhado cria ansiedade. Nas vivências ansiosas, nada se percebe enquanto está acontecendo, tudo é imantado, polarizado como sinal de que o futuro, os sonhos estão sendo nutridos ou esquecidos. A ansiedade é uma vivência similar ao bate estacas, aos barulhos iguais, aos espaços constantes no que se está construindo e dese

Referenciais operacionais

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Selecionar pessoas, objetos ou situações é sempre um processo, uma atitude comprometida com outros objetivos, com critérios que transformam os indivíduos, por exemplo, em anônimos aptos a ganhar sinais identificatórios, facilmente resumidos em aptos/inaptos/capazes/incapazes. A escolha de bom, medio e ruim é variável, muda em função de regras flutuantes, vemos isso claramente quando se trata de objetos: ter muitos livros, estocar vinis ou CDs, manter porcelanas e pratarias foram fundamentais em séculos passados, mas hoje em dia, antes de qualquer coisa, se constituem em objetos difíceis de serem mantidos, precisa-se de museus, mansões colossais, ou ainda, ativação de etiquetas tais como: desuso, recordação, coisas usadas no séc.XX etc. Selecionar é colocar em função de outros critérios que não os da situação enquanto ela própria. O critério que possibilita a seleção é o mesmo que determina as destruições. Lembremos de Hegel quando afirma que o possível é intrinsecamente contraditório,

Vencedores e vencidos - bloqueio de possibilidades

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Sair da mediocridade, da mesmice, equacionar suas frustrações e transformá-las em trampolim para o sucesso é uma saída, um sonho, uma meta frequentemente vivenciada como sinônimo de superação. A ideia de vida como sonho, análoga à competição, redundando sempre em vitória ou fracasso é uma constante em nosso povoado horizonte de quase 8 bilhões de pessoas. Ficar para trás, estar no meio, ou ir adiante é o resumo que se faz quando a plataforma ou pódio se instala. Resumir tudo que nos rodeia a pistas, mares e ares que suportam nossa trajetória é, no mínimo, danoso, é a redução da infinitude à contingência. Desse processo também resulta criação de poucas categorias para açambarcar, para roteirizar processos: vencedores e vencidos. Essa é a única dinâmica permitida por estas plataformas nas quais perder ou não competir é dinamizado pela luta, é o ser vencido. Enrijecidos nestes pódios e não pódios os indivíduos ostentam rótulos, etiquetas, marcas que viralizam roteiros, suportam empregos e

Universalidade

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Hegel dizia que “o universal é a alma do concreto, ao qual é imanente, sem investimento e igual a si mesmo na multiplicidade e diversidade dele” . Universo é matéria, consequentemente é o mundo, tanto quanto, estendendo o conceito, podemos dizer que é o homem, é o ser humano. O indivíduo é a individualização do humano, desta especificidade material universal. Aspectos quantitativos nada mudam na imanência. Ser-no-mundo encerra em si aspectos quantitativos que explicitam a universalidade enquanto “alma do concreto”. A alma do concreto não é quantificável, tudo é ela nas suas explicitações que permitem multiplicidade, diversidade que continua a identificá-la, pois sua imanência relacional constitutiva permanece: é a possibilidade de ser que configura a mudança. É a presença que sempre permite configurar sua imanência. Ser humano é a possibilidade de relacionamento. Quando coisificada, transformada em robot , desvitalizada, a pessoa se desindividualiza e é também desindividualizada. Nesse

Pandemia e aprisionamento

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   Em decorrência da pandemia da Covid-19, estar confinado para evitar contágio, em última análise, pode possibilitar vivência de aprisionamento. Esse aprisionamento faz diminuir as perspectivas de futuro, desde que as mesmas são estruturadas pela continuidade de referências e referenciais gerados na dinâmica do aqui e agora do presente. Entre quatro paredes, as motivações, as vivências são reduzidas ao referencial constante. Nesse sentido, não há alternância de contextos. Sem a variação do Fundo, as Figuras, as percepções das mesmas são sempre constantes, iguais. Nessas condições, de forma criativa se pode estabelecer o dia do cinema, do exercício, do prazer, das leituras, etiquetando, colorindo os iguais, mas tudo isso é absorvido pelo contexto, pelo Fundo deste presente que iguala: é o confinamento que tudo permeia e tonaliza e desse modo os prolongamentos vivenciais, perceptivos sempre ancoram em limites. O que virá depois? Quando atingir o que deve ser feito? Interrogações nas qua

Reproduções estereotipadas

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Frequentemente as pessoas explicam suas dificuldades, tanto quanto buscam entender seus acertos, considerando a ideia de que têm uma missão, que seus comportamentos são fruto de educação familiar, ou ainda, que representam resumo da aprendizagem e das regras sociais. Pensar que suas atitudes e comportamentos dependem da aprendizagem, da profissão, dos treinamentos pode até ser verdade, mas reduzir o entendimento das próprias atitudes a esta abordagem, esgotar nela a compreensão de comportamentos e, à partir dessa visão, tudo explicar, desejar ou lamentar é uma apreciação redutora da humanidade. O a priori , a crença em reencarnação, por exemplo, em carmas, destino ou equivalentes, também são sempre desindividualizantes. Essa perda de autonomia faz correr atrás de causas para que essas explicações possam garantir bons resultados, justificar as dificuldades ou os acertos. É uma absolutização que neutraliza a visão do relativo. Existe uma fábula hindu antiga mas atual e interessante em su

Extrapolações aprisionantes

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Perceber que percebe é conhecer, é significar e ter possibilidade de relacionar vivências, fatos, situações, encontros e desencontros. Extrair implicações do dado, do acontecido pode gerar distorção, fantasia, imaginação, caso não sejam estruturadas no contexto do acontecido enquanto desenvolvimento relacional. Freadas pelo sistema autorreferenciado as constatações passam a funcionar como amálgamas simbólicos, chaves mestras para tudo agarrar ou para tudo abandonar a depender de seus próprios sistemas, de seu autorreferenciamento. Constatar é abrir caminho ou é fechá-lo, quando a constatação - a percepção da percepção - é transformada em resumo comprovador do que se deseja ou do que se teme. Todas as vivências realizadas por meio de regras, dogmas e estereótipos criam preconceitos. Esses conceitos antecipados dividem o mundo, criando tipos, partidos, situações que ajudam ou que ameaçam. O que é bom e o que é ruim são as tônicas percebidas. Assim indexado, ou assim matizado, é fácil dec

Sistemas de convergência - autorreferenciamento

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Perceber tudo o que ocorre a partir dos próprios referenciais e vivências e das estruturações específicas da própria história, medos e desejos - passado e futuro - é o normal, é o cabível e é também o que separa o indivíduo de seu mundo, de seus semelhantes. Os referenciais, os contextos estruturantes das individualidades se transformam em barreiras quando entra a acronia, quando fica fora de sintonia com o que acontece. Tomar o vivenciado como base e estrutura do que se vivencia, do que ocorre, cria comparação que enseja avaliações e descompassos, além de erigir o grande avaliador, o sistema que tudo compara, julga e decide. Estar autorreferenciado - estabelecido nos próprios parâmetros - cria afastamentos. Essas distâncias começam a ser diminuídas ou neutralizadas por pontes, ligações precárias pois se constituem em acessos a objetivos além e aquém, enfim, indiferentes a suas configurações, a seus próprios contextos. Chegar ao outro, ao mundo, por meio de pontes, de acessos traduz se

Alavanca para o sucesso

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É cada dia mais frequente se ouvir falar em educação como remédio para os males sociais, panaceia que especialistas e leigos consideram como instrumento que irá resolver desigualdades sociais, inserção em mercados de trabalho e enfrentamento de preconceitos diversos principalmente os raciais. Por mais que acontecimentos contradigam essa abordagem - com a vigência do racismo e o vigor dos outros preconceitos, com a manutenção das estruturas de poder e privilégios - a ladainha persiste: “se eu tivesse um diploma universitário, eu estaria bem empregado” , “a educação é a única saída” etc. Apesar de todas as evidências nas quais fica claro que o processo educativo foi reduzido a diplomas e titulações, a educação continua sendo proposta como a grande solução, pois nela ancoram todos os índices de sucesso. A educação - que é um processo de aquisição de habilidades, de ampliação de referenciais cognitivos e comunicativos - foi transformada em instrumento, em alavanca para realização de condi

Cortes e descobertas

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Para estar entregue a si mesmo, disponível e autônomo, é necessário se desfazer de aderências. Isso equivale à retirada de um véu - que alguma coisa encobre - tanto quanto à demolição de paredes que amparam e ainda mudam canalizações que endereçam fertilidade através de irrigações orientadoras. Esses cortes estabelecem sensações equivalentes aos que Matsuo Bashô escreveu em um belo Haikai : Olhar, admirar folhas verdes, folhas nascendo entre a luz solar. A vivência da constatação resultante da descoberta do não compromisso é um tapete mágico, propicia levitar e vencer até a força da gravidade. É uma vivência que transcende alguns limites quando se está entregue ao não apego, à disponibilidade do constatar e aceitar sua dependência, seu estar submetido a infinitas variáveis do processo de ser-no-mundo com os outros. Ser e aceitar fazer parte disso, faz perceber a totalidade, a finitude do existir, seu presente totalizador e integrador que destrói quaisquer outros signif

Questionamento e constatação

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A continuidade dos processos terapêuticos, ou seja, os questionamentos, provocam mudanças. Inicialmente essas mudanças são vivências referenciadas nelas próprias, porém, com a continuidade, à medida em que as implicações são percebidas, novos significados surgem. Uma das primeiras diferenças é a descoberta de que tudo que aflige e é considerado problema criado pelos outros, pelo sistema etc. são problemas da própria pessoa. É a importante constatação: - se o problema do outro me atinge, o problema é meu. Chamar a si a dificuldade coloca outros olhos e boca na fisionomia que aterroriza - a sua mesma - e identifica caminhos, atalhos, resíduos, trajetórias e isso é libertador. Novas dimensões são estabelecidas. Na continuidade do processo tudo é configurado e reconfigurado. As dinâmicas estabelecidas modificam posicionamentos e da frustração, quase depressão, se atinge motivação para mudar. A reversibilidade perceptiva é infinita. Nesse cenário, a individualidade é resgatada, o indiví

Tranquilidade

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Parar de se esforçar, aceitar o que está diante mesmo que isso implique em dificuldade, em processo de transformação, é dinamizador. Só quando nos dedicamos ao que percebemos, ao que nos acompanha e situa, é que podemos constatar satisfação ou insatisfação. Estar bem, estar mal decorrem dos significados que se percebe e se atribui ao que circunda. Uma cadeira que se usa diante de uma mesa, por exemplo, é um apoio, uma base para sentar. Se quisermos deitar nela, passamos a gerar transformações incômodas, criadoras de dificuldades só contornadas por meio de muitos esforços. Deitar no chão - o que está diante - pode ser mais tranquilizador. Dizer sim, dizer não, nada dizer são passos para tranquilidade ou intranquilidade. Tudo vai depender da configuração dos processos. Em situação de afirmação e validação pode caber admissão ou questionamento, dizer sim ou dizer não são atitudes que possibilitam antíteses, tranquilizam quando indicam continuidade e criam tensão quando abruptame

Disponibilidade

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A disponibilidade só é atingida quando não há existência de propósitos e desejos a realizar, isto é, quando o determinante de vivências, participações e escolhas são estritamente em função do presente. Essa condição é difícil de acontecer, ela só é possível quando o futuro - o que está colocado para depois - se constitui em perspectiva, em continuidade do presente. Mas acontece que frequentemente o futuro, o depois é espacializado e buscado, é o lugar, o ponto do sucesso a atingir, ou o lugar a contornar, a morte a evitar. Preso a desejos, o indivíduo transforma a disponibilidade, o estar aberto ao que acontece, em possibilidade de renúncia, em desapego. Essa colocação implica sempre em compromisso. Estar disponível não é o contrário de estar comprometido, pois as atitudes de disponibilidade são estruturadas pelos processos de aceitação do estar no mundo com os outros, de perceber possibilidades e necessidades, de enfrentar, transformar e aceitar limites. Manter apegos é semp

Desumanizar

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Tendo o chão que pisa destruído e ficando sem base resta ao ser humano constatar o ocorrido. Isso é feito na vertigem. Nesse vórtice descobrimos que a natureza, o verde, o ar, a água e a terra diminuíram, quase desapareceram. Valores como fraternidade e solidariedade também são escassos. Sobra a tentativa de equilíbrio, sobram desejos e impotência. Manter-se em pé com possibilidade de conseguir andar e criar caminhos é tudo que se pode almejar. Nesse contexto aparecem também invasores, criadores de outras superfícies que agem acreditando que pular sobre as cabeças dos outros, cortá-las como apoio pode trazer resultados rápidos e profícuos. Ao perder seus referenciais humanizadores, quais sejam o mundo como realidade, a natureza mantida, o ar despoluído, o clima sem cataclismas, o outro vivo e livre com valores relacionais significativos, com autonomia e disponibilidade, ao perdê-los o indivíduo se encontra exilado de sua humanidade, só lhe restando lutar para sobreviver. A luta pela so

Preservar e continuar

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Pela memória conseguimos a proeza de preservar e continuar. A memória permite manter acesas inúmeras vivências que possibilitam sequência, continuidade necessária para identificar pessoas e tornar possível a manutenção ou abandono de experiências catalogadas como agradáveis, úteis, inúteis e desagradáveis. O potencial do ato de memorizar depende fundamentalmente de quanto se vivencia o presente. Disponível e dedicado ao que se vivencia, se consegue memorizar e oportuna e contextualmente reproduzir. Os palácios de memória elaborados por Matteo Ricci, por exemplo, eram um engenho para se conseguir memorização por meio de vivências presentificadas. O jesuíta italiano, que viveu como missionário na China a partir de 1596, impressionava os chineses com sua erudição e cultura geral, com sua capacidade de memorizar grande volume de informações. Ricci então escreveu o Tratado Sobre as Artes Mnemônicas com o intuito de difundir suas técnicas de memorização e de atrair os chineses para o

Humilhação

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Ser humilhado e sentir-se como tal implica em constatação e questionamento ao que humilha. Sem essa atitude, sem questionamento, não se vivencia a humilhação. O indivíduo totalmente submisso a suas necessidades, vivendo em função de aplacá-las, sente por perder o que tem ou o que quer conseguir, pouco importando ser ou não humilhado - ele não tem essa vivência de ser humilhado - ele vivencia apenas o que a sua submissão lhe permite: medo, raiva, ameaça e necessidade de contornar. Na dimensão sobrevivente se vivencia o começo ou o fim, não se distingue o que humilha. O que interessa é abocanhar o que lhe é dado, o que lhe é permitido. Esses aspectos de submissão em função das próprias necessidades são o que criam o rebanho. Segue-se o condutor, não importa se bom, se mau, se benéfico ou nefasto. A questão é seguir para conseguir o que se acha que vai melhorar a vida. Psicologicamente, sentir-se humilhado requer certa altivez, discernimento criado pelo dizer não ao que o destrói, mes

Acédia e mal-estar na atualidade

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Acédia é um estado de desânimo que frequentemente sinaliza o mal-estar gerado nas sociedades contemporâneas. Ficar deprimido, desmotivado, sem saber o que fazer caracteriza o dia a dia dos indivíduos há bastante tempo, independente das quarentenas atuais geradas pela Covid-19. Não saber o que fazer diante do abandono, das decepções, da destruição de patrimônio, da desestruturação do país e da própria família, por exemplo, cria depressão e desmotivação. Sem perspectivas, com horizontes temporais e relacionais diminuídos, o ser humano se encolhe e desiste. Não há como resistir pois não existe porquê nem para quê. Ficar reduzido a um presente esmagador no qual não há condição de deslocamentos exila o indivíduo da sua própria pele. Sem morada, ou confinado em quatro paredes, ele sobrevive em função do que o mantém. Isso gera acédia, desânimo. Sem para quê, sem metas que o iludam - a cenoura na testa que o mobiliza - resta ao indivíduo os lamentos. Esse lamento é convertido em esperança e e

Encurralado

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Quando não se tem a perspectiva de futuro, quando as situações se congestionam e se pontualizam, surge a vivência do encurralamento, do estar sem saída. Nessa situação densa, a ansiedade rapidamente se transforma em pânico. Não ter para onde ir, não ter amortecedores, sentir que tudo aproxima do abismo, do final, da não saída, é desesperador. Situações limite imobilizam quando as possibilidades de mudança, que exigem novas abordagens, não são percebidas. Os arquivos, as memórias funcionam como chaves que abrem perspectivas. Saber-se íntegro, capaz de vencer obstáculos, amplia o imediato, o estreito. Quanto maior a aceitação de si mesmo e de suas vivências, mais perspectivas são estabelecidas. Kurt Lewin tem uma interessante abordagem sobre o assunto: “… uma mudança no comportamento se verifica quando a conexão funcional entre o nível de realidade e irrealidade é reduzida, isto é, se elimina a ligação entre fantasia e ação”. * Nesses dias, tomando o exemplo das vivências de confinament

“A bolsa ou a vida”

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Com o exemplo “a bolsa ou a vida” Lacan procura demonstrar o absurdo da escolha, que sempre implica em perda não apenas do que não se escolheu, mas também daquilo que pretensamente se escolheu. Escolhendo a bolsa se perde as duas, bolsa e vida, e escolhendo a vida o que se escolhe é uma vida (sem a bolsa). As obviedades ampliadas para condições paradoxais criam o faz de conta que é a escolha. Atualmente, na pandemia da Covid-19, temos o equivalente com as pessoas que entendem a necessidade de isolamento como uma escolha e não como uma evidência que se impõe. Escolher o trabalho e o não isolamento, em última análise, é escolher a possibilidade de se contagiar e aumentar o risco de morrer. Ficar em casa é o óbvio, inelutável, sequer deveria ser pensado como passível de escolha.  Certas situações sempre nos lembram a escolha de Sofia: com os dois filhos a seu lado exigem que ela entregue um deles para ser sacrificado, e se não o fizesse perderia os dois. Nesta situação de explicita impot

Insônia

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Não conseguir dormir ou ter dificuldade para dormir é uma resultante direta do estar totalmente ligado, tomado pelos acontecimentos, plugado no ir e vir das demandas. A ansiedade, o medo (omissão) e preocupação (antecipação) são seus principais pilares construtores. Os organismos precisam descansar, relaxar, ter uma diminuição das atividades. Isso é válido para todo ser vivo e até mesmo máquinas não funcionam ininterruptamente, precisam ser paradas. Descansar ou relaxar é entrar em outro ritmo, é desligar ou arrefecer ritmos anteriores. Desligar-se é a metáfora mais usada para se referir ao adormecimento, e sabemos que em alguns locais iluminados, para desativar a iluminação basta desligar 5 interruptores, mas em outros são necessários 50, 500 ou mais desligamentos. A vigília - a privação do sono - é como esses locais acesos. Cortar apreensões, dúvidas, medos são os diversos interruptores que precisam ser desligados. O moto contínuo de desejos e expectativas (ansiedade, inv

Equivalências

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Corresponder situações uma à outra necessariamente implica em comparações. Comparar requer parâmetros que açambarquem similitudes a fim de que se possa estabelecer a comparação. É o clássico e matemático não poder comparar grandezas diferentes, que aqui vale ser lembrado. Redução quantitativa viabiliza tudo, tanto quanto não esgota individualidade e condições intrínsecas do existente, e nesse sentido equivalência é sempre uma redução quantitativa. Apesar dessa redução elementarista a ideia de equivalência pressupõe também a de igualdade. Assim, saber, por exemplo, que um ser humano equivale a outro ser humano e que isso acaba com qualquer diferença entre humanos é neutralizador de preconceitos e paradigmas arbitrários de superioridade e inferioridade que só permitem comparações arbitrárias, isto é, fora do sistema que as estruturou: igualdades e equivalências. Em geral, onde há igualdade não há comparação, entretanto só aí é que podemos encontrar equivalência: comparações pré

Espontaneidade comprometida

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Transformar vivências e relacionamentos em instrumento para realização de desejos e objetivos acaba com a espontaneidade do encontro, do estar com o outro. Instalado esse processo, artificialidade é o que passa a determinar a forma de se comportar e se relacionar. Os clichês, as regras de conduta, o “politicamente correto” , a sensatez e parâmetros legais (judiciais), o que se pode ou não fazer, o que é certo, o que é errado passam a ser os determinantes do comportamento. Impedida a espontaneidade, fica o convencional, o arbitrado em função da boa imagem e do que se julga ser o bom ou mal padrão comportamental. E assim, independente do que se utiliza, o que acontece é o esvaziamento dos relacionamentos: o outro passa a ser trash , um depósito de boas e más intenções - apenas um referencial que acumula e amealha atitudes. Não se sabe mais como agir, tudo tem que ser filtrado observado e julgado pelos filtros do que vale à pena ser feito. Esse processo de imagens e resultados é a

Liberdade, Igualdade, Fraternidade

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“A Tomada da Bastilha” por Jean-Pierre Houël (1789) A grande revolução social - a francesa - erigiu este lema: Liberdade, Igualdade, Fraternidade. A Queda da Bastilha consolida os ideais revolucionários. A liberdade se instala, já não se mantêm confinamentos e torturas destruidoras do homem. A Queda da Bastilha na prática e simbolicamente realiza o ideal dos cidadãos livres: é a prisão destruída. No final do século XVIII, com a Revolução Francesa, a Queda da Bastilha, a consolidação da independência dos Estados Unidos rompendo com a Inglaterra, assistimos à expansão dos ideais de não submissão a governos absolutistas e a reis déspotas. Duzentos anos depois, no século XX, não conseguimos entrar no reino da igualdade, malgrado todo esforço do socialismo soviético. Suas dachas escureceram esse ideal. No século XXI acirram-se as contradições, a desigualdade é tão forte que ameaça a liberdade. Os indivíduos pensam apenas em sobreviver, não importa como. Tragados pelos mercad

Apegos e garantias

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Querer manter o que sustenta é criar monotonia. Equivale à redução ou ampliação de espaço. Nesse sentido a satisfação de necessidades é sempre uma garantia que leva à diminuição da realização de possibilidades. Essa gangorra, essa oscilação descentraliza ao criar pendularidade. O tic-tac constante esvazia. São criadas regras, dogmas, deveres. Vive-se por e para , transformando o como em repetição. Até as crianças, que tinham uma vida caracterizada por poucos compromissos, agora têm agendas e vivem preparando o futuro. Enjaular, organizar são palavras de ordem. Tudo é organizado e sistematizado em função da aquisição de know-how , de habilidades para o futuro. O que se desenha nestes próximos 9 bilhões de habitantes é asfixiante. Galgar novos espaços é antes de mais nada criá-los, as complexidades situacionais aumentam. Estagnação é uma constante. O ser humano busca se adequar aos processos que o desumanizam. A falta de discernimento, o buscar vencer, a concorrência que se es

Evidência e inferência, testemunho e dedução

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Toda percepção está submetida a uma relação de Figura e Fundo. Essa lei perceptiva é fundamental para explicar variações perceptivas, para explicar as distorções, tanto quanto para entender quando o testemunho, o dado perceptivo é uma apreensão das configurações existentes. Vivenciando o presente no contexto do presente, o percebido, o que ocorre, o que se mostra é a Figura e o Fundo também é o presente. Sempre se percebe a Figura, o Fundo jamais é percebido e quando ele passa a ser percebido graças à reversibilidade perceptiva, ele passa a ser Figura. Perceber um acontecimento que agora ocorre no contexto - Fundo - de desejos e expectativas cria distorção e assim o que acontece é categorizado em função de outros referenciais que não os do ocorrido. Isso gera inferência, dedução que acumula percepções às da evidência existente. Esses acréscimos causam distorções perceptivas. Não se percebe o que está ocorrendo no contexto que ocorre e sim no que se teme ou precisa que ocorra. E