Postagens

Mostrando postagens de 2020

Acédia e mal-estar na atualidade

Imagem
Acédia é um estado de desânimo que frequentemente sinaliza o mal-estar gerado nas sociedades contemporâneas. Ficar deprimido, desmotivado, sem saber o que fazer caracteriza o dia a dia dos indivíduos há bastante tempo, independente das quarentenas atuais geradas pela Covid-19.

Não saber o que fazer diante do abandono, das decepções, da destruição de patrimônio, da desestruturação do país e da própria família, por exemplo, cria depressão e desmotivação. Sem perspectivas, com horizontes temporais e relacionais diminuídos, o ser humano se encolhe e desiste. Não há como resistir pois não existe porquê nem para quê.

Ficar reduzido a um presente esmagador no qual não há condição de deslocamentos exila o indivíduo da sua própria pele. Sem morada, ou confinado em quatro paredes, ele sobrevive em função do que o mantém. Isso gera acédia, desânimo.

Sem para quê, sem metas que o iludam - a cenoura na testa que o mobiliza - resta ao indivíduo os lamentos. Esse lamento é convertido em esperança e …

Encurralado

Imagem
Quando não se tem a perspectiva de futuro, quando as situações se congestionam e se pontualizam, surge a vivência do encurralamento, do estar sem saída. Nessa situação densa, a ansiedade rapidamente se transforma em pânico. Não ter para onde ir, não ter amortecedores, sentir que tudo aproxima do abismo, do final, da não saída, é desesperador.

Situações limite imobilizam quando as possibilidades de mudança, que exigem novas abordagens, não são percebidas. Os arquivos, as memórias funcionam como chaves que abrem perspectivas. Saber-se íntegro, capaz de vencer obstáculos, amplia o imediato, o estreito. Quanto maior a aceitação de si mesmo e de suas vivências, mais perspectivas são estabelecidas. Kurt Lewin tem uma interessante abordagem sobre o assunto:

“… uma mudança no comportamento se verifica quando a conexão funcional entre o nível de realidade e irrealidade é reduzida, isto é, se elimina a ligação entre fantasia e ação”.*

Nesses dias, tomando o exemplo das vivências de confinamento/qu…

“Ou a bolsa ou a vida”

Imagem
Com o exemplo “ou a bolsa ou a vida” Lacan procura demonstrar o absurdo da escolha, que sempre implica em perda não apenas do que não se escolheu, mas também daquilo que pretensamente se escolheu. Escolhendo a bolsa se perde as duas, bolsa e vida, e escolhendo a vida o que se escolhe é uma vida (sem a bolsa). As obviedades ampliadas para condições paradoxais criam o faz de conta que é a escolha.

Atualmente, na pandemia da Covid-19, temos o equivalente com as pessoas que entendem a necessidade de isolamento como uma escolha e não como uma evidência que se impõe. Escolher o trabalho e o não isolamento, em última análise, é escolher a possibilidade de se contagiar e aumentar o risco de morrer. Ficar em casa é o óbvio, inelutável, sequer deveria ser pensado como passível de escolha. 

Certas situações sempre nos lembram a escolha de Sofia: com os dois filhos a seu lado exigem que ela entregue um deles para ser sacrificado, e se não o fizesse perderia os dois. Nesta situação de explicita imp…

Insônia

Imagem
Não conseguir dormir ou ter dificuldade para dormir é uma resultante direta do estar totalmente ligado, tomado pelos acontecimentos, plugado no ir e vir das demandas. A ansiedade, o medo (omissão) e preocupação (antecipação) são seus principais pilares construtores.

Os organismos precisam descansar, relaxar, ter uma diminuição das atividades. Isso é válido para todo ser vivo e até mesmo máquinas não funcionam ininterruptamente, precisam ser paradas. Descansar ou relaxar é entrar em outro ritmo, é desligar ou arrefecer ritmos anteriores.

Desligar-se é a metáfora mais usada para se referir ao adormecimento, e sabemos que em alguns locais iluminados, para desativar a iluminação basta desligar 5 interruptores, mas em outros são necessários 50, 500 ou mais desligamentos. A vigília - a privação do sono - é como esses locais acesos. Cortar apreensões, dúvidas, medos são os diversos interruptores que precisam ser desligados. O moto contínuo de desejos e expectativas (ansiedade, inveja, gan…

Equivalências

Imagem
Corresponder situações uma à outra necessariamente implica em comparações. Comparar requer parâmetros que açambarquem similitudes a fim de que se possa estabelecer a comparação. É o clássico e matemático não poder comparar grandezas diferentes, que aqui vale ser lembrado. Redução quantitativa viabiliza tudo, tanto quanto não esgota individualidade e condições intrínsecas do existente, e nesse sentido equivalência é sempre uma redução quantitativa. Apesar dessa redução elementarista a ideia de equivalência pressupõe também a de igualdade. Assim, saber, por exemplo, que um ser humano equivale a outro ser humano e que isso acaba com qualquer diferença entre humanos é neutralizador de preconceitos e paradigmas arbitrários de superioridade e inferioridade que só permitem comparações arbitrárias, isto é, fora do sistema que as estruturou: igualdades e equivalências.

Em geral, onde há igualdade não há comparação, entretanto só aí é que podemos encontrar equivalência: comparações prévias que…

Espontaneidade comprometida

Imagem
Transformar vivências e relacionamentos em instrumento para realização de desejos e objetivos acaba com a espontaneidade do encontro, do estar com o outro. Instalado esse processo, artificialidade é o que passa a determinar a forma de se comportar e se relacionar. Os clichês, as regras de conduta, o “politicamente correto”, a sensatez e parâmetros legais (judiciais), o que se pode ou não fazer, o que é certo, o que é errado passam a ser os determinantes do comportamento. Impedida a espontaneidade, fica o convencional, o arbitrado em função da boa imagem e do que se julga ser o bom ou mal padrão comportamental. E assim, independente do que se utiliza, o que acontece é o esvaziamento dos relacionamentos: o outro passa a ser trash, um depósito de boas e más intenções - apenas um referencial que acumula e amealha atitudes. Não se sabe mais como agir, tudo tem que ser filtrado observado e julgado pelos filtros do que vale à pena ser feito. Esse processo de imagens e resultados é a solução…

Liberdade, Igualdade, Fraternidade

Imagem
A grande revolução social - a francesa - erigiu este lema: Liberdade, Igualdade, Fraternidade. A Queda da Bastilha consolida os ideais revolucionários. A liberdade se instala, já não se mantêm confinamentos e torturas destruidoras do homem. A Queda da Bastilha na prática e simbolicamente realiza o ideal dos cidadãos livres: é a prisão destruída.

No final do século XVIII, com a Revolução Francesa, a Queda da Bastilha, a consolidação da independência dos Estados Unidos rompendo com a Inglaterra, assistimos à expansão dos ideais de não submissão a governos absolutistas e a reis déspotas.

Duzentos anos depois, no século XX, não conseguimos entrar no reino da igualdade, malgrado todo esforço do socialismo soviético. Suas dachas escureceram esse ideal.

No século XXI acirram-se as contradições, a desigualdade é tão forte que ameaça a liberdade. Os indivíduos pensam apenas em sobreviver, não importa como. Tragados pelos mercados heterogeneizadores, o mundo está reduzido aos que podem comer,…

Apegos e garantias

Imagem
Querer manter o que sustenta é criar monotonia. Equivale à redução ou ampliação de espaço. Nesse sentido a satisfação de necessidades é sempre uma garantia que leva à diminuição da realização de possibilidades. Essa gangorra, essa oscilação descentraliza ao criar pendularidade. O tic-tac constante esvazia. São criadas regras, dogmas, deveres. Vive-se por e para, transformando o como em repetição. Até as crianças, que tinham uma vida caracterizada por poucos compromissos, agora têm agendas e vivem preparando o futuro. Enjaular, organizar são palavras de ordem. Tudo é organizado e sistematizado em função da aquisição de know-how, de habilidades para o futuro. O que se desenha nestes próximos 9 bilhões de habitantes é asfixiante. Galgar novos espaços é antes de mais nada criá-los, as complexidades situacionais aumentam. Estagnação é uma constante. O ser humano busca se adequar aos processos que o desumanizam. A falta de discernimento, o buscar vencer, a concorrência que se estabelece e …

Evidência e inferência, testemunho e dedução

Imagem
Toda percepção está submetida a uma relação de Figura e Fundo. Essa lei perceptiva é fundamental para explicar variações perceptivas, para explicar as distorções, tanto quanto para entender quando o testemunho, o dado perceptivo é uma apreensão das configurações existentes. Vivenciando o presente no contexto do presente, o percebido, o que ocorre, o que se mostra é a Figura e o Fundo também é o presente. Sempre se percebe a Figura, o Fundo jamais é percebido e quando ele passa a ser percebido graças à reversibilidade perceptiva, ele passa a ser Figura. Perceber um acontecimento que agora ocorre no contexto - Fundo - de desejos e expectativas cria distorção e assim o que acontece é categorizado em função de outros referenciais que não os do ocorrido. Isso gera inferência, dedução que acumula percepções às da evidência existente. Esses acréscimos causam distorções perceptivas. Não se percebe o que está ocorrendo no contexto que ocorre e sim no que se teme ou precisa que ocorra. Expecta…

Memória e pensamento

Imagem
Ter ou não ter boa memória depende de condição neurológica íntegra e isso é o básico, é a estrutura que armazena os processos perceptivos, cognitivos, desde que perceber é conhecer. Esse processo perceptivo é instantâneo, independe de elaboração dos dados sensoriais, ou seja, independe da elaboração das sensações, como se conceitua na visão causalista.
O mundo não é um caos, é organizado e assim é por nós apreendido, assim as formas (gestalten) são por nós percebidas e apreendidas. A percepção não é elaboração de sensações, como pensavam os empiristas, associacionistas. No séc.XVIII a escola empirista ditava que os sentidos (visão, audição, paladar, tato e olfato) recolhiam os dados sensoriais e a percepção os organizava e elaborava. Essa visão associacionista transforma o indivíduo em um criador de realidades. É a prática idealista que confere ao sujeito, ao indivíduo, o papel de mago criador do universo.

Os gestaltistas alemães - Koffka, Koehler e Wertheimer - quando afirmam que o…

Antíteses, questionamentos e esbarros

Imagem
Descobrir-se como ser humano é um longo processo cada vez mais comprometido e diluído nas questões sociais, econômicas e religiosas. Fazer parte de uma família, de um grupo, de uma sociedade cria marcas, rótulos identificadores que não apreendem a totalidade individual. As questões de etnia, sexualidade e nível econômico ocupam todo o espaço e geralmente são resolvidas, mas não esgotam a individualidade ao preservá-la, identificá-la nesses recortes. Romper as bases de sustentação, quebrar apoios que impedem expansão são antíteses necessárias. Perspectivas são estabelecidas, o presente, o novo se impõe: há um ser, uma pessoa, um indivíduo no mundo que tudo pode descobrir, desde que caminhe. E caminhar sem buscar, apenas seguindo a trilha pode também ser novo, posto que personalizado pelo próprio caminhar, pela autonomia. O que faz a diferença não é ser igual ou ser diferente, o que diferencia é a autonomia, base de liberdade que neutraliza circunstancialização. Quanto maior a circunst…

A possibilidade de transformação é intrínseca às contradições processuais

Imagem
Estar no mundo acorrentado, amedrontado e submetido a suas problemáticas de não aceitação é despersonalizador, esvaziador. Entretanto, quando esse processo é percebido e questionado, as transformações podem surgir. Perceber os pontos de contradição e asfixia é impossível para o próprio indivíduo. Não há condição, não há contexto, não há antítese ao seu autorrefenciamento. Ele não percebe o chão que pisa, percebe em volta e consequentemente acha que os outros são culpados e responsáveis pela sua frustração e insatisfação. As contradições constantes e sequenciais criam brechas, permitindo assim algum clarão de discernimento. Ao procurar e encontrar tratamento psicológico - uma psicoterapia - as possibilidades de transformação começam a surgir, tanto quanto o alívio dos sintomas problematizadores. Geralmente o indivíduo se satisfaz com a supressão de sintomas, mas também descobre que seus problemas são dele, por ele nutridos e mantidos. Essa descoberta é uma transformação intrínseca ao …

Impedimentos (vivência do presente)

Imagem
O que impede a vivência do presente? Os medos, a ansiedade, a ganância, o desânimo, a raiva. Esses “sentimentos” e “emoções”, esses resíduos de não aceitação e insatisfação funcionam às vezes como filtros, outras como âncoras, outras ainda como ímãs polarizadores, e assim passam a contextualizar tudo que é vivenciado, distorcendo o que é percebido, o que acontece. Os processos de distorção são responsáveis pelo acréscimo de medo, de raiva, de problema, de neurose. O ser humano geralmente vive por e para, não há o como, pois o mesmo foi substituído por estratégias pragmáticas de consecução de propósitos. Esses impedimentos criam e também aumentam o vazio existencial, apagam os outros seres, transformando-os em meros instrumentos de satisfação de necessidades e realização de tarefas. A depender das demandas criadas pela filtragem do realizado, temos indivíduos cujos comportamentos se caracterizam por raiva e ódio, outros pela ambição e ganância, e outros que buscam ajudas, reconhecimen…

Tudo se relaciona

Imagem
Tudo se relaciona e essa evidência infelizmente nem sempre é percebida ou admitida. Ainda tem gente que acha que a Terra é plana, tanto quanto existem também os que acham que tudo acontece ou pode deixar de acontecer segundo seus próprios desejos e vontades e consequentemente se frustram, crescendo a insatisfação quando os limites impedem realizar suas expectativas. No autorreferenciamento, na não aceitação é impossível aceitar limites, aceitar situações diferentes das que se deseja e espera, pois tudo é polarizado em função dos próprios referenciais.

Alguns tijolos de realidade como pedradas são despertadores. Nada melhor que as considerações sutis e filosóficas de Einstein para derrubar muros, divisões arbitrárias, atingindo percepções no atual contexto da COVID-19, por exemplo, e assim, densa e claramente, neutralizar preconceitos e autorreferenciamentos:
“O ser humano é parte de um todo chamado por nós de Universo, uma parte limitada em tempo e espaço. Ele vivencia a si mesmo, seu…

Antropomorfizações, manipulações e deslocamentos

Imagem
Dar nome aos bois, colocar cara nos fatos para sinalizar positividade ou negatividade é uma forma de antropomorfização. Cria signos, histórias, poderes e fraquezas. Quando antropomorfizamos colecionamos figuras, trazendo a motivação de completar o álbum de figurinhas, de fazer o dever de casa a fim de ter senhas para entender o que acontece. Nesse ponto abdicamos de inúmeras possibilidades de conhecimento e ficamos à mercê das informações dos supostos entendidos, comentadores, redes de TV, internet e, infelizmente, de cair nas mãos das fake news.

Só perceber o denso e por meio dele estabelecer significados é uma atitude que exila a possibilidade de perceber implicações, continuidades e contradições. O que aparece, e é, ocupa lugares e tem significados. Pensar assim é uma maneira de simplificar e negar os dados relacionais, transformando-os em posições que tudo explicam. Atingir tais posições permite condições de destaque às coisas e situações, em outras palavras estabelece perfis e,…

Esclarecimento

Imagem
Muitas vezes a tentativa de esclarecer gera o efeito oposto do que se busca: confunde. Essa contradição pode ser explicada pela superposição de contextos. Quando se busca esclarecer uma situação X ou um contexto X, utiliza-se contextos e situações A, B, C etc. Essas superposições fracionam e fragmentam. Recentemente, nas diversas explicações geradas pela situação do COVID-19 somos bombardeados por esclarecimentos que buscam determinados objetivos e assim misturam situações e não expressam o que se passa. Por exemplo: fique em casa (para não contagiar), se cuide (para não adoecer) e não entre em pânico (não se preocupe em saber que não há suficientes recursos e leitos para os inúmeros casos). São informações díspares. Esclarecimento atordoante, obscuro.

Esclarecer é colocar luz, tornar claro, isto é, já se parte de algo escuro, obscuro. A luz no fim do túnel não é o esclarecimento, geralmente é vista como saída. O facho da luz é o caminho. Farol é indicação, orienta ações. Esclarecer,…

Dedicação (vivência do presente)

Imagem
Para que qualquer nó seja desfeito é necessário que haja concentração na atividade. O estado de concentração pode ser entendido como uma resultante da dedicação. Para se dedicar a alguém ou a alguma coisa é preciso se deter na mesma. A atitude de estar dedicado só existe enquanto percepção do que está sendo percebido aqui-e-agora. Dedicação impõe vivência do presente. Viver em função de dedicações passadas ou futuras não é estar dedicado, é estar agarrado a apoios, a suportes, ou estar mantendo andaimes que farão atingir sonhos ou objetivos futuros. A dedicação se faz e se esgota no aqui-e-agora do vivenciado, consequentemente, do percebido.

Quando se coloca entre parênteses (sentido fenomenológico) os medos e expectativas, se consegue aterrissar no presente: perceber o que está acontecendo, independente dos próprios problemas. Essa vivência pode ser fugaz, rapidamente ser invadida pelas apreensões ou desejos, e assim se perde a dedicação ao vivenciado. Ao perceber que percebe, os p…

Insólito

Imagem
O inesperado, o que foge do controle, tanto quanto o que persistentemente nos acompanha, mesmo defasado ou despropositado, é sempre insólito.

As mães que cuidam de seus filhos de 25, 30 anos, por exemplo, orientando e aconselhando o que vestir, onde trabalhar, o que pensar, se constituem em companhias insólitas, presenças abusivas mesmo que requisitadas e consideradas. Esperar ou precisar ser considerado, compreendido equivale a cavar buracos em superfícies planas, buracos destinados a provocar quedas. Descontinuidades, emendas geram situações insólitas, criam dessemelhança em relação aos padrões e vivências. Situações que se adiam indefinidamente pela obstinação e necessidade de realização se constituem em fontes de vivências insólitas, pois se caracterizam por defasagens tempo-espaciais.

As atuais banalização e massificação dos processos grupais atingem também o indivíduo. Cada vez mais desumanizados, despersonalizados, os indivíduos se anulam e se afirmam por meio de performances…

Inércia

Imagem
Inércia comumente é percebida como preguiça. Esse estado de paralisação - inércia - decorre da falta de motivação, da depressão mantida ou insinuada intermitentemente.

Submeter-se à inércia é criar um tipo de movimento referenciado, circunstancializado e redutor: as ideias-fixas, a vivência do fracasso, o medo são os alimentadores, são eles que carregam e mantêm a inércia.

Atolado em suas frustrações, não há como caminhar. Essa imobilização é apenas aparente. Não se caminha, mas se movimenta em torno dos mesmos referenciais, dos mesmos pontos. Inércia é expectativa e assim os movimentos, as dinâmicas da ansiedade se instalam e como ciclones e terremotos tudo destroem.

Manter e agarrar-se à inércia é início da disparada para a depressão, para o medo e para o isolamento. Nesse sentido podemos dizer que a inércia, a recusa a participar no que ocorre, é o início da solidão e do medo - omissão.

Parar, deter o movimento é uma magia ruim, é arbitrariedade da negação que tudo destrói e ass…

Enviesamentos

Imagem
Focadas, agarradas em seus objetivos, metas e desejos a realizar, geralmente as pessoas perdem o sentido do que está em volta. Não percebem o que ocorre. Tudo é percebido em seu próprio contexto, em seu autorreferenciamento. Sem a mediação, a antítese do outro e do que acontece, os comportamentos ficam defasados e ultrapassados, as percepções são distorcidas.

O famoso “senso de ridículo” perdido é um exemplo. Preocupados em conseguir brilhar ou conquistar, indivíduos perdem a noção de como seus comportamentos estão ultrapassados e destoantes da realidade. Encapsulados nos seus desejos não viram a mudança de paisagem, de hábitos, de valores; agem como se tudo estivesse como era. Essa ultrapassagem cria enviesamentos. Negar suas frustrações, agarrar vieses do desejo traz situações risíveis. O senso do ridículo se perde. Atitudes canhestras dissimulam dificuldades. A depender de quem os observam, viram objeto de piedade ou se tornam alvos de risos abertos ou insinuados. A piedade freque…

Insistência

Imagem
Insistência depende do empenho, dedicação, esperança, tanto quanto da obstinação, teimosia, autorreferenciamento.

Querer por querer, lutar até o fim, insistir, não desistir nunca, caracterizam a obstinação, o teimar em função de metas e desejos. Essa atitude reduz as vivências a propósitos e isola o indivíduo, que assim age, de seus pares, de sua realidade. É um dos aspectos de pontualização de existência e negação do presente.

Entretanto, certas situações abrem clarões de esperança, ampliam horizontes e fazem perceber que as situações não estão perdidas, podem ser transformadas, recuperadas. São clássicos os comportamentos amorosos quando se salva alguém que já se considerava morto, por exemplo, ou ainda o que frequentemente acontece nas recuperações de drogados, deprimidos e de socialmente ilhados. Abrigar, ajudar, dialogar pode ser uma forma de insistir, de recuperar e retraçar caminhos. A tão conhecida segunda chance, é, às vezes, uma insistência benéfica e reveladora de possib…

Selfies

Imagem
Impressiona ver como preparar-se para uma foto, mais especificamente preparar-se para uma selfie, parece com o fazer pose frente ao espelho. A câmara do celular vai registrar o que se deseja mostrar e bem mostrar: deve exibir beleza, felicidade, alegria, força, enfim, bom aspecto e boa cara que prometa bons momentos.

O outro é o espelho, é a própria pessoa nele reproduzida. A cara, os gestos feitos para as selfies transformam as câmaras do celulares em seres que aplaudem ou discordam de certas poses. Esse diálogo mudo, esse monólogo, é encenado diariamente. O corpo ou o rosto que se mostra pretende ser bem visto, e antes de fotografar-se ele se insinua dentro de referenciais do suposto omisso-presente-outro que tudo confere.

Tirar selfies é rascunhar mensagens, tecer redes encarregadas de trazer bons resultados e aplausos. Quando o outro é transformado no espelho - deslocamento narcísico, ou ainda, extrapolação autorreferenciada - os processos de coisificação e massificação se insta…

Densidade, liberdade e confinamento

Imagem
Ir além de onde se está geralmente cria lugares imaginários, cria utopia - o não-lugar, o lugar que não existe.
O não existente, o utópico, se caracteriza por não estar ancorado em valores. O mundo sem valores, a vida sem sinalização de positivo ou negativo, de adequado ou inadequado, de certo ou errado é uma utopia. Buscar o não-valor é buscar sair de contingências, sair do limite demarcador.
Os marcos civilizatórios ajudam a sobreviver, ajudam a realizar individualização, aperfeiçoar capacidades, tanto quanto, ao estabelecer limites, criam valores e aprisionamento. Viver sem valor - que sempre é aderência ao que é configurado - seria libertador. Imaginar as sociedades sem dinheiro, regidas pelo escambo - troca do que é necessário a uns e outros - é imaginar um universo onde prevalece o denso, o que significa, independente de sua simbolização. É apenas o perceber, independente do perceber que percebe.
O perceber é dinamizado pela criação de continuidades repetidas, nas quais as pró…

Abdicar

Imagem
Para inúmeras mulheres que querem filhos, ter o maior desejo realizado pode se converter em fonte de medo e culpa. Ser mãe e não ter como sustentar o próprio filho cria medo e gera insegurança. Esse drama na maioria das vezes é o início de grande culpa. A mãe se sente responsável pelo futuro do filho e não quer que o mesmo sofra pela sua irresponsabilidade de colocá-lo no mundo sem condições de criá-lo. Essa justificativa é, sem dúvida, uma realidade, mas é também uma maneira de neutralizar a impotência.

Assumindo-se culpada, sai da impotência e busca alguém que cuide do filho, entendendo a doação como ato de amor, como ato de salvação. Dá o filho, não para se livrar dele, mas para colocá-lo no caminho da sobrevivência e do sucesso. Às vezes esse processo é também acompanhado da vontade de satisfazer necessidades e aí a ideia de vender o filho, de ganhar dinheiro, aparece.

Mães culpadas conseguem abrir mão dos filhos porque a renúncia como gesto para melhorar o outro, no caso o filh…

Caridade, solidariedade, amor

Imagem
Ir além de si mesmo é condição básica para estar no mundo, para perceber o outro como algo diferente de objeto útil, de apoio necessário, de refrigério buscado, de ameaça ou perigo estabelecidos. Quanto maior o limite, quanto mais amarras e menor espaço, menos se tem condição de ir além de si mesmo. O que se disputa e valoriza é mais ar, mais espaço para sobreviver ou para relaxar. Ter que conseguir tudo para melhorar as condições de sobrevivência estrutura processos autorreferenciados. Sempre garantir, manter mais espaço, salvar a própria pele cria total impossibilidade de convívio com o outro, independente de vantagens ou desvantagens que ele pode trazer, criar ou resolver. Não há solidariedade, não há empatia, pois não se vai além de si mesmo.

Acontece que grupos, sociedades, só se mantêm por meio de participação, de estabelecimento de limites, direitos e deveres. Esses referenciais passam a ser os prolongamentos dos próprios desejos e motivações, e assim contingenciados os espaç…

Ânimo e desânimo

Imagem
Quando se está tranquilo e satisfeito é por estar vivenciando o presente, a realidade enquanto ela própria. Assim, o que acontece é o que contextualiza a vivência, não há acréscimo valorativo. O bem-estar, o mal-estar são tranquilamente vivenciados pois são situantes, e é isso que permite aceitar, transformar ou suportar o cotidiano.

Dificilmente as pessoas se sentem tranquilas, pois frequentemente elas não vivenciam o presente, não vivenciam a sua realidade como pregnante. A não aceitação do que acontece cria frustração, irritação, desânimo. Geralmente elas preferem ocultar, superar ou ultrapassar as situações de não aceitação e frustração por meio de sonhos, metas e negação do que está ocorrendo. Esse processo obscurece o presente, joga o indivíduo para um depois não existente, tornando impossível estar situado vivenciando o real.

A negação da realidade, do pé no chão, da convivência com o que ocorre cria insegurança, gera omissão, medos responsáveis por constante ansiedade. Lidar…

“A beleza é uma prótese”

Imagem
Esta frase anônima - “A beleza é uma prótese” - é aparentemente estapafúrdia, desconexa, pois beleza sempre está associada a harmonia e elegância, enquanto prótese remete a doença, falha e incapacidade. Caso nos detenhamos no significado fundamental de aparência e imagem perceberemos significados que unificam esses conceitos, encontraremos conexões harmônicas e não mais situações desconexas.

As próteses existem para compor, para corrigir. Esse criar de funcionalidades neutraliza impedimentos, harmoniza e deixa fluir condições comprometidas, e portanto, pensar a beleza como prótese implica em considerá-la apenas como uma imagem, uma máscara funcional.

Acontece que a beleza é intrínseca, é uma resultante harmônica de diversas configurações e nesse sentido jamais uma prótese. Quando se pensa nela como imagem ou prótese é por transformá-la em cópia, em soma de partes privilegiadas e segmentos compostos para totalizar o que alguns entendem como beleza, resultando em processos como: colo…