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Mostrando postagens de 2020

Pandemia e aprisionamento

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Em decorrência da pandemia da Covid-19, estar confinado para evitar contágio, em última análise, pode possibilitar vivência de aprisionamento. Esse aprisionamento faz diminuir as perspectivas de futuro, desde que as mesmas são estruturadas pela continuidade de referências e referenciais gerados na dinâmica do aqui e agora do presente.

Entre quatro paredes, as motivações, as vivências são reduzidas ao referencial constante. Nesse sentido, não há alternância de contextos. Sem a variação do Fundo, as Figuras, as percepções das mesmas são sempre constantes, iguais. Nessas condições, de forma criativa se pode estabelecer o dia do cinema, do exercício, do prazer, das leituras, etiquetando, colorindo os iguais, mas tudo isso é absorvido pelo contexto, pelo Fundo deste presente que iguala: é o confinamento que tudo permeia e tonaliza e desse modo os prolongamentos vivenciais, perceptivos sempre ancoram em limites. O que virá depois? Quando atingir o que deve ser feito? Interrogações nas quais…

Reproduções estereotipadas

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Frequentemente as pessoas explicam suas dificuldades, tanto quanto buscam entender seus acertos, considerando a ideia de que têm uma missão, que seus comportamentos são fruto de educação familiar, ou ainda, que representam resumo da aprendizagem e das regras sociais.

Pensar que suas atitudes e comportamentos dependem da aprendizagem, da profissão, dos treinamentos pode até ser verdade, mas reduzir o entendimento das próprias atitudes a esta abordagem, esgotar nela a compreensão de comportamentos e, à partir dessa visão, tudo explicar, desejar ou lamentar é uma apreciação redutora da humanidade.

O a priori, a crença em reencarnação, por exemplo, em carmas, destino ou equivalentes, também são sempre desindividualizantes. Essa perda de autonomia faz correr atrás de causas para que essas explicações possam garantir bons resultados, justificar as dificuldades ou os acertos. É uma absolutização que neutraliza a visão do relativo.

Existe uma fábula hindu antiga mas atual e interessante em sua…

Extrapolações aprisionantes

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Perceber que percebe é conhecer, é significar e ter possibilidade de relacionar vivências, fatos, situações, encontros e desencontros. Extrair implicações do dado, do acontecido pode gerar distorção, fantasia, imaginação, caso não sejam estruturadas no contexto do acontecido enquanto desenvolvimento relacional. Freadas pelo sistema autorreferenciado as constatações passam a funcionar como amálgamas simbólicos, chaves mestras para tudo agarrar ou para tudo abandonar a depender de seus próprios sistemas, de seu autorreferenciamento. Constatar é abrir caminho ou é fechá-lo, quando a constatação - a percepção da percepção - é transformada em resumo comprovador do que se deseja ou do que se teme.

Todas as vivências realizadas por meio de regras, dogmas e estereótipos criam preconceitos. Esses conceitos antecipados dividem o mundo, criando tipos, partidos, situações que ajudam ou que ameaçam. O que é bom e o que é ruim são as tônicas percebidas. Assim indexado, ou assim matizado, é fácil dec…

Sistemas de convergência - autorreferenciamento

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Perceber tudo o que ocorre a partir dos próprios referenciais e vivências e das estruturações específicas da própria história, medos e desejos - passado e futuro - é o normal, é o cabível e é também o que separa o indivíduo de seu mundo, de seus semelhantes.

Os referenciais, os contextos estruturantes das individualidades se transformam em barreiras quando entra a acronia, quando fica fora de sintonia com o que acontece. Tomar o vivenciado como base e estrutura do que se vivencia, do que ocorre, cria comparação que enseja avaliações e descompassos, além de erigir o grande avaliador, o sistema que tudo compara, julga e decide.

Estar autorreferenciado - estabelecido nos próprios parâmetros - cria afastamentos. Essas distâncias começam a ser diminuídas ou neutralizadas por pontes, ligações precárias pois se constituem em acessos a objetivos além e aquém, enfim, indiferentes a suas configurações, a seus próprios contextos. Chegar ao outro, ao mundo, por meio de pontes, de acessos traduz se…

Alavanca para o sucesso

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É cada dia mais frequente se ouvir falar em educação como remédio para os males sociais, panaceia que especialistas e leigos consideram como instrumento que irá resolver desigualdades sociais, inserção em mercados de trabalho e enfrentamento de preconceitos diversos principalmente os raciais. Por mais que acontecimentos contradigam essa abordagem - com a vigência do racismo e o vigor dos outros preconceitos, com a manutenção das estruturas de poder e privilégios - a ladainha persiste: “se eu tivesse um diploma universitário, eu estaria bem empregado”, “a educação é a única saída” etc. Apesar de todas as evidências nas quais fica claro que o processo educativo foi reduzido a diplomas e titulações, a educação continua sendo proposta como a grande solução, pois nela ancoram todos os índices de sucesso.

A educação - que é um processo de aquisição de habilidades, de ampliação de referenciais cognitivos e comunicativos - foi transformada em instrumento, em alavanca para realização de condiç…

Cortes e descobertas

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Para estar entregue a si mesmo, disponível e autônomo, é necessário se desfazer de aderências. Isso equivale à retirada de um véu - que alguma coisa encobre - tanto quanto à demolição de paredes que amparam e ainda mudam canalizações que endereçam fertilidade através de irrigações orientadoras. Esses cortes estabelecem sensações equivalentes aos que Matsuo Bashô escreveu em um belo Haikai:

Olhar, admirar folhas verdes, folhas nascendo entre a luz solar.
A vivência da constatação resultante da descoberta do não compromisso é um tapete mágico, propicia levitar e vencer até a força da gravidade. É uma vivência que transcende alguns limites quando se está entregue ao não apego, à disponibilidade do constatar e aceitar sua dependência, seu estar submetido a infinitas variáveis do processo de ser-no-mundo com os outros. Ser e aceitar fazer parte disso, faz perceber a totalidade, a finitude do existir, seu presente totalizador e integrador que destrói quaisquer outros significados e sentidos a…

Questionamento e constatação

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A continuidade dos processos terapêuticos, ou seja, os questionamentos, provocam mudanças. Inicialmente essas mudanças são vivências referenciadas nelas próprias, porém, com a continuidade, à medida em que as implicações são percebidas, novos significados surgem. Uma das primeiras diferenças é a descoberta de que tudo que aflige e é considerado problema criado pelos outros, pelo sistema etc. são problemas da própria pessoa. É a importante constatação: - se o problema do outro me atinge, o problema é meu. Chamar a si a dificuldade coloca outros olhos e boca na fisionomia que aterroriza - a sua mesma - e identifica caminhos, atalhos, resíduos, trajetórias e isso é libertador. Novas dimensões são estabelecidas. Na continuidade do processo tudo é configurado e reconfigurado. As dinâmicas estabelecidas modificam posicionamentos e da frustração, quase depressão, se atinge motivação para mudar. A reversibilidade perceptiva é infinita. Nesse cenário, a individualidade é resgatada, o indivíduo…

Tranquilidade

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Parar de se esforçar, aceitar o que está diante mesmo que isso implique em dificuldade, em processo de transformação, é dinamizador. Só quando nos dedicamos ao que percebemos, ao que nos acompanha e situa, é que podemos constatar satisfação ou insatisfação. Estar bem, estar mal decorrem dos significados que se percebe e se atribui ao que circunda. Uma cadeira que se usa diante de uma mesa, por exemplo, é um apoio, uma base para sentar. Se quisermos deitar nela, passamos a gerar transformações incômodas, criadoras de dificuldades só contornadas por meio de muitos esforços. Deitar no chão - o que está diante - pode ser mais tranquilizador.

Dizer sim, dizer não, nada dizer são passos para tranquilidade ou intranquilidade. Tudo vai depender da configuração dos processos. Em situação de afirmação e validação pode caber admissão ou questionamento, dizer sim ou dizer não são atitudes que possibilitam antíteses, tranquilizam quando indicam continuidade e criam tensão quando abruptamente imp…

Disponibilidade

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A disponibilidade só é atingida quando não há existência de propósitos e desejos a realizar, isto é, quando o determinante de vivências, participações e escolhas são estritamente em função do presente. Essa condição é difícil de acontecer, ela só é possível quando o futuro - o que está colocado para depois - se constitui em perspectiva, em continuidade do presente. Mas acontece que frequentemente o futuro, o depois é espacializado e buscado, é o lugar, o ponto do sucesso a atingir, ou o lugar a contornar, a morte a evitar.

Preso a desejos, o indivíduo transforma a disponibilidade, o estar aberto ao que acontece, em possibilidade de renúncia, em desapego. Essa colocação implica sempre em compromisso. Estar disponível não é o contrário de estar comprometido, pois as atitudes de disponibilidade são estruturadas pelos processos de aceitação do estar no mundo com os outros, de perceber possibilidades e necessidades, de enfrentar, transformar e aceitar limites.

Manter apegos é sempre agreg…

Desumanizar

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Tendo o chão que pisa destruído e ficando sem base resta ao ser humano constatar o ocorrido. Isso é feito na vertigem. Nesse vórtice descobrimos que a natureza, o verde, o ar, a água e a terra diminuíram, quase desapareceram. Valores como fraternidade e solidariedade também são escassos. Sobra a tentativa de equilíbrio, sobram desejos e impotência. Manter-se em pé com possibilidade de conseguir andar e criar caminhos é tudo que se pode almejar. Nesse contexto aparecem também invasores, criadores de outras superfícies que agem acreditando que pular sobre as cabeças dos outros, cortá-las como apoio pode trazer resultados rápidos e profícuos.

Ao perder seus referenciais humanizadores, quais sejam o mundo como realidade, a natureza mantida, o ar despoluído, o clima sem cataclismas, o outro vivo e livre com valores relacionais significativos, com autonomia e disponibilidade, ao perdê-los o indivíduo se encontra exilado de sua humanidade, só lhe restando lutar para sobreviver.

A luta pela sob…

Preservar e continuar

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Pela memória conseguimos a proeza de preservar e continuar. A memória permite manter acesas inúmeras vivências que possibilitam sequência, continuidade necessária para identificar pessoas e tornar possível a manutenção ou abandono de experiências catalogadas como agradáveis, úteis, inúteis e desagradáveis. O potencial do ato de memorizar depende fundamentalmente de quanto se vivencia o presente. Disponível e dedicado ao que se vivencia, se consegue memorizar e oportuna e contextualmente reproduzir.

Os palácios de memória elaborados por Matteo Ricci, por exemplo, eram um engenho para se conseguir memorização por meio de vivências presentificadas. O jesuíta italiano, que viveu como missionário na China a partir de 1596, impressionava os chineses com sua erudição e cultura geral, com sua capacidade de memorizar grande volume de informações. Ricci então escreveu o Tratado Sobre as Artes Mnemônicas com o intuito de difundir suas técnicas de memorização e de atrair os chineses para o cristi…

Humilhação

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Ser humilhado e sentir-se como tal implica em constatação e questionamento ao que humilha. Sem essa atitude, sem questionamento, não se vivencia a humilhação.

O indivíduo totalmente submisso a suas necessidades, vivendo em função de aplacá-las, sente por perder o que tem ou o que quer conseguir, pouco importando ser ou não humilhado - ele não tem essa vivência de ser humilhado - ele vivencia apenas o que a sua submissão lhe permite: medo, raiva, ameaça e necessidade de contornar. Na dimensão sobrevivente se vivencia o começo ou o fim, não se distingue o que humilha. O que interessa é abocanhar o que lhe é dado, o que lhe é permitido. Esses aspectos de submissão em função das próprias necessidades são o que criam o rebanho. Segue-se o condutor, não importa se bom, se mau, se benéfico ou nefasto. A questão é seguir para conseguir o que se acha que vai melhorar a vida.

Psicologicamente, sentir-se humilhado requer certa altivez, discernimento criado pelo dizer não ao que o destrói, mesmo q…

Acédia e mal-estar na atualidade

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Acédia é um estado de desânimo que frequentemente sinaliza o mal-estar gerado nas sociedades contemporâneas. Ficar deprimido, desmotivado, sem saber o que fazer caracteriza o dia a dia dos indivíduos há bastante tempo, independente das quarentenas atuais geradas pela Covid-19.

Não saber o que fazer diante do abandono, das decepções, da destruição de patrimônio, da desestruturação do país e da própria família, por exemplo, cria depressão e desmotivação. Sem perspectivas, com horizontes temporais e relacionais diminuídos, o ser humano se encolhe e desiste. Não há como resistir pois não existe porquê nem para quê.

Ficar reduzido a um presente esmagador no qual não há condição de deslocamentos exila o indivíduo da sua própria pele. Sem morada, ou confinado em quatro paredes, ele sobrevive em função do que o mantém. Isso gera acédia, desânimo.

Sem para quê, sem metas que o iludam - a cenoura na testa que o mobiliza - resta ao indivíduo os lamentos. Esse lamento é convertido em esperança e …

Encurralado

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Quando não se tem a perspectiva de futuro, quando as situações se congestionam e se pontualizam, surge a vivência do encurralamento, do estar sem saída. Nessa situação densa, a ansiedade rapidamente se transforma em pânico. Não ter para onde ir, não ter amortecedores, sentir que tudo aproxima do abismo, do final, da não saída, é desesperador.

Situações limite imobilizam quando as possibilidades de mudança, que exigem novas abordagens, não são percebidas. Os arquivos, as memórias funcionam como chaves que abrem perspectivas. Saber-se íntegro, capaz de vencer obstáculos, amplia o imediato, o estreito. Quanto maior a aceitação de si mesmo e de suas vivências, mais perspectivas são estabelecidas. Kurt Lewin tem uma interessante abordagem sobre o assunto:

“… uma mudança no comportamento se verifica quando a conexão funcional entre o nível de realidade e irrealidade é reduzida, isto é, se elimina a ligação entre fantasia e ação”.*

Nesses dias, tomando o exemplo das vivências de confinamento/qu…

“A bolsa ou a vida”

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Com o exemplo “a bolsa ou a vida” Lacan procura demonstrar o absurdo da escolha, que sempre implica em perda não apenas do que não se escolheu, mas também daquilo que pretensamente se escolheu. Escolhendo a bolsa se perde as duas, bolsa e vida, e escolhendo a vida o que se escolhe é uma vida (sem a bolsa). As obviedades ampliadas para condições paradoxais criam o faz de conta que é a escolha.

Atualmente, na pandemia da Covid-19, temos o equivalente com as pessoas que entendem a necessidade de isolamento como uma escolha e não como uma evidência que se impõe. Escolher o trabalho e o não isolamento, em última análise, é escolher a possibilidade de se contagiar e aumentar o risco de morrer. Ficar em casa é o óbvio, inelutável, sequer deveria ser pensado como passível de escolha. 

Certas situações sempre nos lembram a escolha de Sofia: com os dois filhos a seu lado exigem que ela entregue um deles para ser sacrificado, e se não o fizesse perderia os dois. Nesta situação de explicita impotê…

Insônia

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Não conseguir dormir ou ter dificuldade para dormir é uma resultante direta do estar totalmente ligado, tomado pelos acontecimentos, plugado no ir e vir das demandas. A ansiedade, o medo (omissão) e preocupação (antecipação) são seus principais pilares construtores.

Os organismos precisam descansar, relaxar, ter uma diminuição das atividades. Isso é válido para todo ser vivo e até mesmo máquinas não funcionam ininterruptamente, precisam ser paradas. Descansar ou relaxar é entrar em outro ritmo, é desligar ou arrefecer ritmos anteriores.

Desligar-se é a metáfora mais usada para se referir ao adormecimento, e sabemos que em alguns locais iluminados, para desativar a iluminação basta desligar 5 interruptores, mas em outros são necessários 50, 500 ou mais desligamentos. A vigília - a privação do sono - é como esses locais acesos. Cortar apreensões, dúvidas, medos são os diversos interruptores que precisam ser desligados. O moto contínuo de desejos e expectativas (ansiedade, inveja, gan…

Equivalências

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Corresponder situações uma à outra necessariamente implica em comparações. Comparar requer parâmetros que açambarquem similitudes a fim de que se possa estabelecer a comparação. É o clássico e matemático não poder comparar grandezas diferentes, que aqui vale ser lembrado. Redução quantitativa viabiliza tudo, tanto quanto não esgota individualidade e condições intrínsecas do existente, e nesse sentido equivalência é sempre uma redução quantitativa. Apesar dessa redução elementarista a ideia de equivalência pressupõe também a de igualdade. Assim, saber, por exemplo, que um ser humano equivale a outro ser humano e que isso acaba com qualquer diferença entre humanos é neutralizador de preconceitos e paradigmas arbitrários de superioridade e inferioridade que só permitem comparações arbitrárias, isto é, fora do sistema que as estruturou: igualdades e equivalências.

Em geral, onde há igualdade não há comparação, entretanto só aí é que podemos encontrar equivalência: comparações prévias que…

Espontaneidade comprometida

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Transformar vivências e relacionamentos em instrumento para realização de desejos e objetivos acaba com a espontaneidade do encontro, do estar com o outro. Instalado esse processo, artificialidade é o que passa a determinar a forma de se comportar e se relacionar. Os clichês, as regras de conduta, o “politicamente correto”, a sensatez e parâmetros legais (judiciais), o que se pode ou não fazer, o que é certo, o que é errado passam a ser os determinantes do comportamento. Impedida a espontaneidade, fica o convencional, o arbitrado em função da boa imagem e do que se julga ser o bom ou mal padrão comportamental. E assim, independente do que se utiliza, o que acontece é o esvaziamento dos relacionamentos: o outro passa a ser trash, um depósito de boas e más intenções - apenas um referencial que acumula e amealha atitudes. Não se sabe mais como agir, tudo tem que ser filtrado observado e julgado pelos filtros do que vale à pena ser feito. Esse processo de imagens e resultados é a solução…

Liberdade, Igualdade, Fraternidade

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A grande revolução social - a francesa - erigiu este lema: Liberdade, Igualdade, Fraternidade. A Queda da Bastilha consolida os ideais revolucionários. A liberdade se instala, já não se mantêm confinamentos e torturas destruidoras do homem. A Queda da Bastilha na prática e simbolicamente realiza o ideal dos cidadãos livres: é a prisão destruída.

No final do século XVIII, com a Revolução Francesa, a Queda da Bastilha, a consolidação da independência dos Estados Unidos rompendo com a Inglaterra, assistimos à expansão dos ideais de não submissão a governos absolutistas e a reis déspotas.

Duzentos anos depois, no século XX, não conseguimos entrar no reino da igualdade, malgrado todo esforço do socialismo soviético. Suas dachas escureceram esse ideal.

No século XXI acirram-se as contradições, a desigualdade é tão forte que ameaça a liberdade. Os indivíduos pensam apenas em sobreviver, não importa como. Tragados pelos mercados heterogeneizadores, o mundo está reduzido aos que podem comer,…

Apegos e garantias

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Querer manter o que sustenta é criar monotonia. Equivale à redução ou ampliação de espaço. Nesse sentido a satisfação de necessidades é sempre uma garantia que leva à diminuição da realização de possibilidades. Essa gangorra, essa oscilação descentraliza ao criar pendularidade. O tic-tac constante esvazia. São criadas regras, dogmas, deveres. Vive-se por e para, transformando o como em repetição. Até as crianças, que tinham uma vida caracterizada por poucos compromissos, agora têm agendas e vivem preparando o futuro. Enjaular, organizar são palavras de ordem. Tudo é organizado e sistematizado em função da aquisição de know-how, de habilidades para o futuro. O que se desenha nestes próximos 9 bilhões de habitantes é asfixiante. Galgar novos espaços é antes de mais nada criá-los, as complexidades situacionais aumentam. Estagnação é uma constante. O ser humano busca se adequar aos processos que o desumanizam. A falta de discernimento, o buscar vencer, a concorrência que se estabelece e …

Evidência e inferência, testemunho e dedução

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Toda percepção está submetida a uma relação de Figura e Fundo. Essa lei perceptiva é fundamental para explicar variações perceptivas, para explicar as distorções, tanto quanto para entender quando o testemunho, o dado perceptivo é uma apreensão das configurações existentes. Vivenciando o presente no contexto do presente, o percebido, o que ocorre, o que se mostra é a Figura e o Fundo também é o presente. Sempre se percebe a Figura, o Fundo jamais é percebido e quando ele passa a ser percebido graças à reversibilidade perceptiva, ele passa a ser Figura. Perceber um acontecimento que agora ocorre no contexto - Fundo - de desejos e expectativas cria distorção e assim o que acontece é categorizado em função de outros referenciais que não os do ocorrido. Isso gera inferência, dedução que acumula percepções às da evidência existente. Esses acréscimos causam distorções perceptivas. Não se percebe o que está ocorrendo no contexto que ocorre e sim no que se teme ou precisa que ocorra. Expecta…

Memória e pensamento

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Ter ou não ter boa memória depende de condição neurológica íntegra e isso é o básico, é a estrutura que armazena os processos perceptivos, cognitivos, desde que perceber é conhecer. Esse processo perceptivo é instantâneo, independe de elaboração dos dados sensoriais, ou seja, independe da elaboração das sensações, como se conceitua na visão causalista.
O mundo não é um caos, é organizado e assim é por nós apreendido, assim as formas (gestalten) são por nós percebidas e apreendidas. A percepção não é elaboração de sensações, como pensavam os empiristas, associacionistas. No séc.XVIII a escola empirista ditava que os sentidos (visão, audição, paladar, tato e olfato) recolhiam os dados sensoriais e a percepção os organizava e elaborava. Essa visão associacionista transforma o indivíduo em um criador de realidades. É a prática idealista que confere ao sujeito, ao indivíduo, o papel de mago criador do universo.

Os gestaltistas alemães - Koffka, Koehler e Wertheimer - quando afirmam que o…

Antíteses, questionamentos e esbarros

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Descobrir-se como ser humano é um longo processo cada vez mais comprometido e diluído nas questões sociais, econômicas e religiosas. Fazer parte de uma família, de um grupo, de uma sociedade cria marcas, rótulos identificadores que não apreendem a totalidade individual. As questões de etnia, sexualidade e nível econômico ocupam todo o espaço e geralmente são resolvidas, mas não esgotam a individualidade ao preservá-la, identificá-la nesses recortes. Romper as bases de sustentação, quebrar apoios que impedem expansão são antíteses necessárias. Perspectivas são estabelecidas, o presente, o novo se impõe: há um ser, uma pessoa, um indivíduo no mundo que tudo pode descobrir, desde que caminhe. E caminhar sem buscar, apenas seguindo a trilha pode também ser novo, posto que personalizado pelo próprio caminhar, pela autonomia. O que faz a diferença não é ser igual ou ser diferente, o que diferencia é a autonomia, base de liberdade que neutraliza circunstancialização. Quanto maior a circunst…

A possibilidade de transformação é intrínseca às contradições processuais

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Estar no mundo acorrentado, amedrontado e submetido a suas problemáticas de não aceitação é despersonalizador, esvaziador. Entretanto, quando esse processo é percebido e questionado, as transformações podem surgir. Perceber os pontos de contradição e asfixia é impossível para o próprio indivíduo. Não há condição, não há contexto, não há antítese ao seu autorrefenciamento. Ele não percebe o chão que pisa, percebe em volta e consequentemente acha que os outros são culpados e responsáveis pela sua frustração e insatisfação. As contradições constantes e sequenciais criam brechas, permitindo assim algum clarão de discernimento. Ao procurar e encontrar tratamento psicológico - uma psicoterapia - as possibilidades de transformação começam a surgir, tanto quanto o alívio dos sintomas problematizadores. Geralmente o indivíduo se satisfaz com a supressão de sintomas, mas também descobre que seus problemas são dele, por ele nutridos e mantidos. Essa descoberta é uma transformação intrínseca ao …

Impedimentos (vivência do presente)

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O que impede a vivência do presente? Os medos, a ansiedade, a ganância, o desânimo, a raiva. Esses “sentimentos” e “emoções”, esses resíduos de não aceitação e insatisfação funcionam às vezes como filtros, outras como âncoras, outras ainda como ímãs polarizadores, e assim passam a contextualizar tudo que é vivenciado, distorcendo o que é percebido, o que acontece. Os processos de distorção são responsáveis pelo acréscimo de medo, de raiva, de problema, de neurose. O ser humano geralmente vive por e para, não há o como, pois o mesmo foi substituído por estratégias pragmáticas de consecução de propósitos. Esses impedimentos criam e também aumentam o vazio existencial, apagam os outros seres, transformando-os em meros instrumentos de satisfação de necessidades e realização de tarefas. A depender das demandas criadas pela filtragem do realizado, temos indivíduos cujos comportamentos se caracterizam por raiva e ódio, outros pela ambição e ganância, e outros que buscam ajudas, reconhecimen…

Tudo se relaciona

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Tudo se relaciona e essa evidência infelizmente nem sempre é percebida ou admitida. Ainda tem gente que acha que a Terra é plana, tanto quanto existem também os que acham que tudo acontece ou pode deixar de acontecer segundo seus próprios desejos e vontades e consequentemente se frustram, crescendo a insatisfação quando os limites impedem realizar suas expectativas. No autorreferenciamento, na não aceitação é impossível aceitar limites, aceitar situações diferentes das que se deseja e espera, pois tudo é polarizado em função dos próprios referenciais.

Alguns tijolos de realidade como pedradas são despertadores. Nada melhor que as considerações sutis e filosóficas de Einstein para derrubar muros, divisões arbitrárias, atingindo percepções no atual contexto da Covid-19, por exemplo, e assim, densa e claramente, neutralizar preconceitos e autorreferenciamentos:
“O ser humano é parte de um todo chamado por nós de Universo, uma parte limitada em tempo e espaço. Ele vivencia a si mesmo, seu…

Antropomorfizações, manipulações e deslocamentos

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Dar nome aos bois, colocar cara nos fatos para sinalizar positividade ou negatividade é uma forma de antropomorfização. Cria signos, histórias, poderes e fraquezas. Quando antropomorfizamos colecionamos figuras, trazendo a motivação de completar o álbum de figurinhas, de fazer o dever de casa a fim de ter senhas para entender o que acontece. Nesse ponto abdicamos de inúmeras possibilidades de conhecimento e ficamos à mercê das informações dos supostos entendidos, comentadores, redes de TV, internet e, infelizmente, de cair nas mãos das fake news.

Só perceber o denso e por meio dele estabelecer significados é uma atitude que exila a possibilidade de perceber implicações, continuidades e contradições. O que aparece, e é, ocupa lugares e tem significados. Pensar assim é uma maneira de simplificar e negar os dados relacionais, transformando-os em posições que tudo explicam. Atingir tais posições permite condições de destaque às coisas e situações, em outras palavras estabelece perfis e,…

Esclarecimento

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Muitas vezes a tentativa de esclarecer gera o efeito oposto do que se busca: confunde. Essa contradição pode ser explicada pela superposição de contextos. Quando se busca esclarecer uma situação X ou um contexto X, utiliza-se contextos e situações A, B, C etc. Essas superposições fracionam e fragmentam. Recentemente, nas diversas explicações geradas pela situação da Covid-19 somos bombardeados por esclarecimentos que buscam determinados objetivos e assim misturam situações e não expressam o que se passa. Por exemplo: fique em casa (para não contagiar), se cuide (para não adoecer) e não entre em pânico (não se preocupe em saber que não há suficientes recursos e leitos para os inúmeros casos). São informações díspares. Esclarecimento atordoante, obscuro.

Esclarecer é colocar luz, tornar claro, isto é, já se parte de algo escuro, obscuro. A luz no fim do túnel não é o esclarecimento, geralmente é vista como saída. O facho da luz é o caminho. Farol é indicação, orienta ações. Esclarecer,…

Dedicação (vivência do presente)

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Para que qualquer nó seja desfeito é necessário que haja concentração na atividade. O estado de concentração pode ser entendido como uma resultante da dedicação. Para se dedicar a alguém ou a alguma coisa é preciso se deter na mesma. A atitude de estar dedicado só existe enquanto percepção do que está sendo percebido aqui-e-agora. Dedicação impõe vivência do presente. Viver em função de dedicações passadas ou futuras não é estar dedicado, é estar agarrado a apoios, a suportes, ou estar mantendo andaimes que farão atingir sonhos ou objetivos futuros. A dedicação se faz e se esgota no aqui-e-agora do vivenciado, consequentemente, do percebido.

Quando se coloca entre parênteses (sentido fenomenológico) os medos e expectativas, se consegue aterrissar no presente: perceber o que está acontecendo, independente dos próprios problemas. Essa vivência pode ser fugaz, rapidamente ser invadida pelas apreensões ou desejos, e assim se perde a dedicação ao vivenciado. Ao perceber que percebe, os p…

Insólito

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O inesperado, o que foge do controle, tanto quanto o que persistentemente nos acompanha, mesmo defasado ou despropositado, é sempre insólito.

As mães que cuidam de seus filhos de 25, 30 anos, por exemplo, orientando e aconselhando o que vestir, onde trabalhar, o que pensar, se constituem em companhias insólitas, presenças abusivas mesmo que requisitadas e consideradas. Esperar ou precisar ser considerado, compreendido equivale a cavar buracos em superfícies planas, buracos destinados a provocar quedas. Descontinuidades, emendas geram situações insólitas, criam dessemelhança em relação aos padrões e vivências. Situações que se adiam indefinidamente pela obstinação e necessidade de realização se constituem em fontes de vivências insólitas, pois se caracterizam por defasagens tempo-espaciais.

As atuais banalização e massificação dos processos grupais atingem também o indivíduo. Cada vez mais desumanizados, despersonalizados, os indivíduos se anulam e se afirmam por meio de performances…

Inércia

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Inércia comumente é percebida como preguiça. Esse estado de paralisação - inércia - decorre da falta de motivação, da depressão mantida ou insinuada intermitentemente.

Submeter-se à inércia é criar um tipo de movimento referenciado, circunstancializado e redutor: as ideias-fixas, a vivência do fracasso, o medo são os alimentadores, são eles que carregam e mantêm a inércia.

Atolado em suas frustrações, não há como caminhar. Essa imobilização é apenas aparente. Não se caminha, mas se movimenta em torno dos mesmos referenciais, dos mesmos pontos. Inércia é expectativa e assim os movimentos, as dinâmicas da ansiedade se instalam e como ciclones e terremotos tudo destroem.

Manter e agarrar-se à inércia é início da disparada para a depressão, para o medo e para o isolamento. Nesse sentido podemos dizer que a inércia, a recusa a participar no que ocorre, é o início da solidão e do medo - omissão.

Parar, deter o movimento é uma magia ruim, é arbitrariedade da negação que tudo destrói e ass…

Enviesamentos

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Focadas, agarradas em seus objetivos, metas e desejos a realizar, geralmente as pessoas perdem o sentido do que está em volta. Não percebem o que ocorre. Tudo é percebido em seu próprio contexto, em seu autorreferenciamento. Sem a mediação, a antítese do outro e do que acontece, os comportamentos ficam defasados e ultrapassados, as percepções são distorcidas.

O famoso “senso de ridículo” perdido é um exemplo. Preocupados em conseguir brilhar ou conquistar, indivíduos perdem a noção de como seus comportamentos estão ultrapassados e destoantes da realidade. Encapsulados nos seus desejos não viram a mudança de paisagem, de hábitos, de valores; agem como se tudo estivesse como era. Essa ultrapassagem cria enviesamentos. Negar suas frustrações, agarrar vieses do desejo traz situações risíveis. O senso do ridículo se perde. Atitudes canhestras dissimulam dificuldades. A depender de quem os observam, viram objeto de piedade ou se tornam alvos de risos abertos ou insinuados. A piedade freque…

Insistência

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Insistência depende do empenho, dedicação, esperança, tanto quanto da obstinação, teimosia, autorreferenciamento.

Querer por querer, lutar até o fim, insistir, não desistir nunca, caracterizam a obstinação, o teimar em função de metas e desejos. Essa atitude reduz as vivências a propósitos e isola o indivíduo, que assim age, de seus pares, de sua realidade. É um dos aspectos de pontualização de existência e negação do presente.

Entretanto, certas situações abrem clarões de esperança, ampliam horizontes e fazem perceber que as situações não estão perdidas, podem ser transformadas, recuperadas. São clássicos os comportamentos amorosos quando se salva alguém que já se considerava morto, por exemplo, ou ainda o que frequentemente acontece nas recuperações de drogados, deprimidos e de socialmente ilhados. Abrigar, ajudar, dialogar pode ser uma forma de insistir, de recuperar e retraçar caminhos. A tão conhecida segunda chance, é, às vezes, uma insistência benéfica e reveladora de possib…

Selfies

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Impressiona ver como preparar-se para uma foto, mais especificamente preparar-se para uma selfie, parece com o fazer pose frente ao espelho. A câmara do celular vai registrar o que se deseja mostrar e bem mostrar: deve exibir beleza, felicidade, alegria, força, enfim, bom aspecto e boa cara que prometa bons momentos.

O outro é o espelho, é a própria pessoa nele reproduzida. A cara, os gestos feitos para as selfies transformam as câmaras do celulares em seres que aplaudem ou discordam de certas poses. Esse diálogo mudo, esse monólogo, é encenado diariamente. O corpo ou o rosto que se mostra pretende ser bem visto, e antes de fotografar-se ele se insinua dentro de referenciais do suposto omisso-presente-outro que tudo confere.

Tirar selfies é rascunhar mensagens, tecer redes encarregadas de trazer bons resultados e aplausos. Quando o outro é transformado no espelho - deslocamento narcísico, ou ainda, extrapolação autorreferenciada - os processos de coisificação e massificação se insta…

Densidade, liberdade e confinamento

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Ir além de onde se está geralmente cria lugares imaginários, cria utopia - o não-lugar, o lugar que não existe.
O não existente, o utópico, se caracteriza por não estar ancorado em valores. O mundo sem valores, a vida sem sinalização de positivo ou negativo, de adequado ou inadequado, de certo ou errado é uma utopia. Buscar o não-valor é buscar sair de contingências, sair do limite demarcador.
Os marcos civilizatórios ajudam a sobreviver, ajudam a realizar individualização, aperfeiçoar capacidades, tanto quanto, ao estabelecer limites, criam valores e aprisionamento. Viver sem valor - que sempre é aderência ao que é configurado - seria libertador. Imaginar as sociedades sem dinheiro, regidas pelo escambo - troca do que é necessário a uns e outros - é imaginar um universo onde prevalece o denso, o que significa, independente de sua simbolização. É apenas o perceber, independente do perceber que percebe.
O perceber é dinamizado pela criação de continuidades repetidas, nas quais as pró…