Thursday, December 25

Vínculos

Tudo é relação e psicologicamente isto pode ser traduzido como estabelecimento de vínculos. Estar em relação é estar vinculado e quando isto ocorre em relação a A, deixa de ocorrer em relação a B. Não há sobreposição, ou sempre que tal pareça ocorrer, surgem fragmentações. Estar, por exemplo, em relação com uma pessoa ou situação, em função de outra, é uma transposição que desvincula, pois na sobreposição os elos se quebram. Quebrar e colar é uma constante quando o outro é percebido como objeto de desejo, como meta, como resultado de avaliação: tem a ver comigo, não tem, me é conveniente ou inconveniente, etc.

Quando digo que tudo é relação, que através da relação perceptiva se estruturam sujeito e objeto, tanto quanto se categorizam as dimensões temporal e espacial, estou afirmando que a percepção é o estrururante relacional. Ao perceber, sou sujeito que percebe objetos; ao perceber que percebo, sou objeto e o sujeito é a minha percepção. O perceber que percebe é o reconhecimento, a constatação, a vivência de memória, o pensamento; em situações cotidianas, é a divisão existencial. O contexto do fenômeno perceptivo é a essência humana, ou seja, a possibilidade de relacionamento. 

Perceber o outro sem apriori, estabelece um vínculo, seja de amor, de ódio ou simpatia. Estes vínculos são as trajetórias relacionais, arquivadas pela memória, pelos dados do passado atualizados quando presentes. Viver em função de manter vínculos ou de alcançar novos vínculos, é alienador, pois o que se torna pregnante e importante é a manutenção, é o alcançar, e consequentemente, os vínculos desaparecem ao tornarem-se hábitos ou premências a serem atendidas.

Vínculos permitem continuidade, tanto quanto aprisionamento quando transformados em posições, regras e compromissos à partir dos quais o mundo é percebido; eles configuram as possibilidades de vida, e quando reduzidos à satisfação de necessidades criam dependentes, sobreviventes escorados nas possibilidades, transformando a dinâmica em alternância pendular, medida por fases e ritmos.




- “O Pintassilgo” de Donna Tartt

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Thursday, December 18

Subterfúgios legitimados

Cada vez é mais frequente e necessário estabelecer critérios e preferências através de situações validadoras. Isto permite operacionalização, escolhas e garantias.

Em um sistema, em uma sociedade que privilegia resultados, inúmeros parâmetros são estabelecidos e essas bitolas permitem separar o adequado do inadequado, o útil do inútil. Valoriza-se títulos institucionalizados que garantem legitimidade de operação. Acontece que quando se arbitra o que é legítimo ou ilegítimo, nega-se processos, pois legítimo é o intrínseco, não pode ser padronizado, e quando o é, por meio de artifícios como as transformações ou as molduras adquiridas pela institucionalização, por exemplo, legitimidade se transforma em selo de garantia, consequentemente, em aderência padronizada e hierarquizadora.

Fazer parte de uma instituição não garante ter condições nem habilidades para o que é construído e criado pela instituição. Instituições também sofrem desgastes em seus processos e quanto mais se firmam e significam, mais são ampliadas no sentido de proteger e garantir os que nela se escoram. Vemos esta distorção nos prêmios e concursos literários, assim como no Oscar, no Nobel, lembrando também das Academias, instituições de pesquisa e escolas. Geralmente, premiações e títulos são concedidos e são necessários em função de estratégias políticas, estratégias comerciais, que ultrapassam e derrubam o conceito estabelecedor das instituições.

Ser incapaz, e mesmo assim, ser abrigado em uma destas instituições, é uma maneira de exercer legitimamente o que não se tem condições, mas, se tem autorização. Ancorados em posicionamentos residuais, funcionam cada vez mais à mercê do arbitrário, das manipulações políticas e do mercado. Nesta atmosfera, as garantias institucionalizadas se transformam em polarizantes acobertadores de insuficiências e inadequação.

Desse processo surgem a impunidade, o autoritarismo e também distorções responsáveis por imensos preconceitos na esfera individual, na qual o correto, o legítimo, passa a ser sinônimo de institucionalizado, gerando a atitude de verificar os sinais, as molduras, percebendo, cada vez menos, o que está emoldurado. Basta uma boa moldura e garatujas são compradas como arte abstrata, por exemplo, e assim por diante segue esse processo de distorção, de transformação da parte em todo, que permite admirar o escuso legitimado.





- “Memórias do Subsolo” de Fiódor Dostoiévski

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Thursday, December 11

Impossibilidade do possível

Perder a vez, não ter conseguido aproveitar o que foi possibilitado, gera constatação de incapacidade, entretanto, nem sempre isto é assim vivenciado. Frequentemente se atribui várias causas, explicações, que vão desde o azar até a interferência do outro pela inveja, etc, tanto quanto pode surgir culpa gerada por deslocamento de não aceitação, onde o indivíduo se sente incapaz, frustrado e prejudicado. Crítica, agressão, desespero, medo e ansiedade são resultantes deste processo de não aceitar perder a vez. O processo de não aceitação de si mesmo, cada vez mais, vai se estruturar em função do que foi perdido, não aproveitado, não recebido.

Perder o “grande amor” por medo de enfrentar situações ou, em certas situações, não perceber que a mudança de cidade era o caminho para o enriquecimento em um novo emprego, cria frustrações, verdadeiros quistos esvaziadores de perspectivas e disponibilidade, de vivências de impossibilidade. Impossível é tudo que não foi percebido, que não foi vivenciado ou que é percebido através de contextos, categorias e tipificações alheias, anteriores, que sobrepõem o percebido com significados aderentes à sua imanência, sua estrutura constitucional.

Nas vivências resultantes destes esvaziamentos, gostar de uma flor, por exemplo, é percebê-la no contexto das avaliações e contingências: vê-la como cara, exótica; uma sobreposição de questões extrínsecas à flor, dela circundantes, não intrínsecas à mesma.

Tudo que é percebido é possível, são os dados relacionais, entretanto, se for apropriado enquanto significado circunstancial, fica destituido de sua configuração (gestalt), de sua totalidade e passa a receber aposições que o desconfiguram; é o possível costurado, coberto, manuseável, mas cada vez mais impossível de ser percebido enquanto ele próprio.

Possíveis transformam-se em impossíveis, e vice-versa, pela maneira como lidamos com eles. Esconder, estigmatizar, utilizar o possível gera sua impossibilidade e de tanto querer não perder a vez, o ser humano vira objeto de manobra, objeto de si mesmo, se divide, se perde e quebra a unidade de estar no mundo aberto a infinitas possibilidades, enfim, esgota-se em necessidades sobreviventes, perdendo a vez.





- “As Núpcias de Cadmo e Harmonia” de Roberto Calasso


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Thursday, December 4

Lutas e acomodações

Toda revolta, toda proposta de mudança, toda aceitação, enfim, qualquer comportamento está estruturado em um contexto à partir do qual as situações são percebidas.

Perceber o que acontece, perceber o que se deseja, tanto quanto perceber qualquer coisa, implica em um Fundo, em um contexto estruturante*. Neste sentido, as motivações individuais criam as diferenças e tonalizam os graus de firmeza ou fraqueza nas adesões, nas ações reivindicatórias. Tomemos como exemplo os movimentos grevistas: médicos em greve, todos reivindicam melhoria de condições de trabalho e salário, mas com contextos e atitudes individuais diferentes, que vão da acomodação à revolta, atitudes estas, que determinam cooptação ou oposição.

As reivindicações sempre estão comprometidas com a divisão do contexto, com as pressões do que apoia/oprime. O patrão que explora é o mesmo que sustenta, a família que apoia é a mesma que limita e assim por diante. Nestes contextos, a flexibilização, a contemporização são amortecedores constantes do que é reivindicado.

Reivindicar é tentar transformar submissão em atividade e geralmente se consegue que alguma coisa seja transformada, mas sempre dentro de limites, de regras e concessões. Criam-se novos patamares para que os processos se desenvolvam, no entanto, as relações apoio/opressão continuam; tem sido assim com a luta de classes, por exemplo, algumas mudanças se observam, leis de proteção, etc, mas a questão é a mesma: explorados e exploradores permanecem, o paradigma não foi mudado.

Nas relações afetivas dentro e fora da família, pais e filhos, marido e mulher, amantes, amigos, os discordantes também são cooptados quando os processos reivindicatórios se constituem em contexto fundamental de realização das demandas motivacionais específicas. O reivindicante não questiona, ele demanda, busca soluções. Esperar, compreender, aceitar o limite imposto pelo outro sem questionamento transformador, estrutura empecilhos e impedimentos à integração e harmonia. Quanto mais “pistas de obstáculos” são construidas, mais necessidade de regras, habilidades e reivindicações surgem, transformando as possibilidades de relacionamento humano em prisões, em limites, e assim, através de reivindicações, melhorias são atendidas e necessidades são minoradas, tanto quanto o ser humano fica limitado às suas necessidades, opressões e desejos de liberdade e mudança.

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* - A organização perceptiva obedece a leis (Gestalt Psychology) cujo princípio básico é o de que toda percepção se dá em termos de Figura e Fundo; percebemos o elemento figural e o Fundo nunca é percebido embora seja estruturante da percepção. Existe sempre uma reversibilidade entre Figura e Fundo, o que é Figura transforma-se em Fundo e vice-versa. Quando percebemos um carro trafegando na rua, por exemplo, esta Figura, o carro, está estruturada em um Fundo, a rua; modificações na rua, modificam a percepção do carro e se chamamos a atenção para a rua, esta passa a ser Figura e o carro passa a ser Fundo do percebido.




- “O Sujeito Selvagem - Pequena Poética do Novo Mundo” de Christian Kiening


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Thursday, November 27

Submissão

Submissão é desumanização, processo paulatinamente criado ao longo de vivências familiares e sociais. Não sendo questionada, a submissão cria máquinas pensantes, máquinas que agem, que preparam a vida insatisfatória e violenta, é a alienação consentida.

Cuidadas e mantidas por outros, em função dos objetivos destes, as pessoas são endereçadas, são transformadas em vale-realização, vale-promessa dos desejos e interesses de seus mantenedores. De uma maneira geral, as famílias, pais e mães, cuidam e mantêm seus filhos, em função de objetivos próprios, desde os mais amorosos, como “assistir ao seu sucesso e felicidade”, até os mais utilitários, como “alguém que acompanhe e nos assista na velhice”.

A submissão a regras, desejos, vontades e interesses do outro, sejam indivíduos, sistemas ou empresas é impeditiva, pois metrifica, avalia, decide e corta, sempre a partir de critérios que não os da pessoa que está à mercê, à margem dos processos.

O que apoia, oprime, consequentemente, estar submetido é estar dividido. Não se sentir aceito, não ter direitos, salvo quando determinados deveres são cumpridos, cria um processo de submissão despersonalizador. O indivíduo percebe que vale pelo que faz, pelo que não faz, adquirindo também um instrumental que permite avaliação, regulação e decisão. Aprende a ter lucro ao exercer as ações corretas, desejadas pelo sistema que o submete, que o apoia, que o incentiva.

Em situações-limite, submissão às regras e autoridades, sempre gera crueldade: deixar morrer um filho para salvar outro; ter mais um dia de vida em Treblinka; o cotidiano despistar de traições, para não atrapalhar a festa de formatura do filho; a omissão que se transforma em cumplicidade ao fazer de conta que não presenciou violências, indevidos e ilícitos; a submissão cria seres-autômatos que apenas seguem e obedecem o que lhes é imposto.

Virar a mesa, buscar a chave e abrir a porta, são pequenos atos, geralmente percebidos como impossíveis: não se tem a mesa, perdeu-se a chave, mas, quando a submissão é percebida e considerada em sua dinâmica, propicia imenso insight responsável por mudança, enfrentamento e soerguimento, início do processo de questionamento à submissão avassaladora, destruidora da identidade.




- “A escolha de Sofia” de William Styron


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Thursday, November 20

Ampliar e restringir

Quando regras e limites são estabelecidos, temos ampliação e restrição. O desenvolvimento motor e psicológico do ser humano exemplifica este processo paradoxal.

Saindo do restrito espaço familiar, alcançando outros ambientes, outros contextos, a percepção de si, do outro, do próprio espaço é ampliada, tanto quanto se estrutura a percepção de impotência, de medos e inadequações. Este cruzamento de vivências, esta interseção, pontualiza e fragmenta, causando restrições rapidamente qualificadas como familiar, meu e estranho, seu, outro. Este filtro é o referencial que cada vez mais amplia domínios e interesses, tanto quanto padroniza, setoriza vivências.

Os contextos relacionais motivantes podem extrapolar, superar regras e limites. O outro já não é visto como semelhante ou diferente, mas sim, como presença, atualidade, independente de comparação. Estes encontros desencadeiam novos processos: é apredizagem, é transcendência onde realmente as vivências são ampliadoras, não são restritas aos próprios referenciais de desejos e necessidades.

Todo processo relacional é ampliador quando ultrapassa seus estruturantes e é limitador quando os situa, quando os posiciona. Adaptação requer estabelecimentos posicionantes, desde que, por definição, adaptação é dependência, é repetir, é aprender o “caminho das coisas”, é gravar e criar kits de sobrevivência e resolução. Estas salvações, à mão, facilitam, tanto quanto dificultam as mudanças, a criatividade. É importante saber que toda repetição obriga a encaixes e este aparar de arestas é sempre desvitalizador, seja dos porcessos motivacionais, seja do encontrado, do descoberto.

O consumo desenfreado, o tédio, a insatisfação resultam dessas transposições uma vez adequadas e depois repetidas até tornarem-se obsoletas. Inovar, percebendo o outro e a si mesmo, vai depender de disponibilidade, de não estar amarrado, posicionado em situações de poder, de frustração, de conforto, de ajuste, de satisfação ou insatisfação ou quaisquer outros posicionantes condutores de vivências de memória em substituição a vivências presentificadas.

















- “Minhas viagens com Heródoto” de Ryszard Kapuscinski
- “Sobre os espelhos” de Umberto Eco

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Thursday, November 13

Reversibilidade perceptiva

Tudo muda, desde que nosso contexto de inserção é o movimento, é a dinâmica que existe em tudo e entre todos. O movimento, o processo, a mudança são constantes.

No nível perceptivo, tudo que é percebido é passível de reversibilidade, pois também está submetido ao movimento. A relação Figura-Fundo, que define o processo perceptivo, é a própria reversibilidade. Percebemos X no contexto Z; tanto quanto, percebemos Z no contexto X. É exatamente esta reversibilidade que cria contradições à necessidade de constância e regularidade.

Deter o impermanente, estabelecendo regras e dogmas, é querer dominar o que é aberto, o que é fluido. Este desejo decorre do autorreferenciamento polarizado em conforto/desconforto, à partir do qual tudo é percebido. É uma maneira de se sentir seguro, tranquilo para conviver com a reversibilidade, a fugacidade do presente, tanto quanto, se constitui em obstáculo para o que ocorre. São sistemas de avaliação do que vale a pena e do que deve ser evitado, que funcionam como uma mediação impermeabilizadora entre tudo que ocorre e o que é percebido. Os acontecimentos são contextualizados assim. Por exemplo, alguém que constrói uma imagem para ser considerado e aceito, desenvolve medos de ser visto como inadequado; tudo o ameaça, não suporta ironias, brincadeiras são percebidas como denúncias. Quanto maior o autorreferenciamento, maior o posicionamento no que está sob o próprio controle. Achar que tudo deve dar certo - expectativas -, tanto quanto, sofrer com fracassos, ilustram estas vivências autorreferenciadas, onde o indivíduo se sente isolado, abandonado.

Vida psicológica é vida perceptiva. Ficar diante do mundo, não integra-lo, cria a vivência do sujeito separado do objeto. Estas distorções são frequentes, tanto em indivíduos, quanto nos conceitos construtores de filosofias e ciências responsáveis pela configuração do humano. Não estamos diante do mundo, nem do outro, estamos no mundo em relação com o outro. Não há como separar, destacar o intrínseco relacional, embora se possa perceber enquistamentos causadores de isolamento e determinantes de autorreferenciamento. A rigidez perceptiva, a falta de antíteses, cria uma parede, um anteparo através do qual tudo é percebido, gerando isolamento, automatismos, fragmentações, sofrimentos e quando se busca a psicoterapia é fundamental perceber que não se tem problemas, mas sim, que se é o problema, que a solução só pode ser atingida quando o problema é questionado e percebido de outra forma - perceber que não é aderência, por exemplo -, enfim, a solução só é atingida quando se recupera o movimento, saindo da estaticidade do autorreferenciamento. Assim pensando, a reversibilidade, a dinâmica se instala e as contradições são enfrentradas.


- “Terra e Ouro são Iguais” de Vera Felicidade de Almeida Campos


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Thursday, November 6

Vitimização e reivindicações

A manutenção de qualquer sistema - orgânico ou inorgânico - necessita de entrada e saída, input-output. Sistemas necessitam de um escoadouro, de uma porta onde colocar o resíduo, o lixo. Tanto alimentação, quanto descarte de resíduos, são uma imposição. Sistemas de poder, por exemplo, para manterem-se, necessitam de antítese ao esvaziamento resultante de suas atuações: desenvolvem arremedos de ações comunitárias que aliciam grupos, populações inteiras como massa de manobra e assim evitam a estagnação. A ideia de justiça, que na Inquisição foi abalada pela Igreja, foi também salva através do sacrifício das bruxas. Nas ditaduras, os mesmos que redigem lemas para a segurança nacional são os que torturam, aprisionando, excluíndo, e nesses contextos, vítimas são bode expiatórios, senhas para manter a ordem imposta. Da mesma forma, na dinâmica dos relacionamentos individuais, com infinitas situações e demandas, com níveis de sobrevivência e de existência, os sistemas mediadores são pregnantes (família, escola, trabalho, status, desejos e propósitos): indivíduos precisam de respiradouros e a fragmentação, o deslocamento passa a ser o canal de acesso a essas estruturas. Automatizando-se pelas demandas de sobrevivência, apoiam-se em conveniências necessárias à manutenção de suas vidas e propósitos.

Ser um ponto de confluência de abusos, de usos e desconsiderações, cria as vítimas, os sacrificados, os humilhados. Vitimizar-se é também assinar embaixo e concordar com a própria incapacidade de continuar o movimento de contradições relacionais. Nesse sentido, a vítima é o ponto de fuga, é o tentar qualquer coisa para negar a sua impotência e incapacidade. Perdendo-se em generalizações, o indivíduo continua a coisificação despersonalizante do sobreviver. Sem questionamento, vem a alienação, o desejo de ser cuidado e protegido, vêm os enganos, consequentemente, a infinita criação de bodes expiatórios, saídas residuais dos sistemas.

Vitimizar-se é aguardar e esperar melhoria ou redenção dos próprios atos. Submeter-se aos processos alienantes transforma o indivíduo em um receptáculo de expectativas, deixando-o posicionado, apto a receber todo o resíduo, tudo que sobra ou é demais.

Posicionar-se como ponto final de processos é alcançar - recebendo sobras - um sentido de vida, mesmo que seja o de vítima. Essa submissão, essa passividade é negar-se como ser no mundo, é transformar-se no que recebe, tanto quanto no que sofre, é a vitimização. Vitimização essa, necessária à sobrevivência dos sistemas de poder, criadores de seres coisificados, objetos à disposição de configurações alienantes e massacrantes, que os alimentam e suportam. Nesse contexto, engrossam as fileiras dos que se vitimizam: os delatores, os torturadores os empenhados em buscar melhores condições para sobreviver, enfim, os que contribuem para manutenção de sistemas despersonalizantes. Reivindicar é tentar transformar submissão em atividade, consequentemente é uma maneira de amplificar os contextos apassivadores, os arremedos de ações sociais e afetivas.

















- “Anti-Dühring” de Friedrich Engels
- “Um passo em frente, dois passos atrás” de Vladimir Ilitch Ulianov Lenin

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Thursday, October 30

Derivações

A reversibilidade, a impermanência, sempre criam separações e exatamente neste processo é que se realiza a honestidade, a desonestidade, a coerência e a incoerência. Posicionados e flutuantes, criamos quimeras, construímos artefatos, que resumem situações e processos. Ao perder de vista estas transposições, perdemos discernimentos; ao não entender, não perceber estas construções, lamentamos ou nos agarramos em seus resíduos, frequentemente ruínas que exibem tentativas e até mesmo outros referenciais de comunicação. Nietzsche escreveu, em 1873, sobre verdade e mentira no sentido extra-moral: “O que é a verdade, portanto? Um batalhão móvel de metáforas, metonímias, antropomorfismos, enfim, uma soma de relações humanas, que foram enfatizadas poética e retoricamente, transpostas, enfeitadas, e que, após longo uso, parecem a um povo sólidas, canônicas e obrigatórias: as verdades são ilusões, das quais se esqueceu o que são, metáforas que se tornaram gastas e sem força sensível, moedas que perderam sua efígie e agora só entram em consideração como metal, não mais como moedas.”

Isso nos leva a pensar no que é importante. É a matéria-prima metal, ou são as moedas? A utilidade, o pragmatismo, leva a objetivos outros além do existente. A necessidade de trocas e manutenções, cria novas verdades, que já não significam. Se tomarmos a verdade como intrínseca, imanente ao evidenciado, ela aparece como metal e não como moeda. A moeda, a utilidade é a mentira criada pela invasão significativa e utilitária. Pensar verdade como metal esvazia o sentido contingente de sua utilidade (moeda). Tudo que é utilitário é contingente. A circunstância está sempre impregnada de funcionamento, de valores, enquanto seus constituintes intrínsecos, a matéria-prima que a estrutura, que a constitue, não tem função, consequentemente, resiste às circunstâncias, por exemplo: o metal faz moedas, faz jóias, faz barras de proteção e grades aprisionantes, nenhum uso o define, portanto, ultrapassa os valores que o contingenciam. Verdade é o intrínseco, mentira é toda aderência; verdades são os dados relacionais, mentiras podem ser tudo ao que eles se referem.




- “Obras In-Completas” de Friedrich Nietzsche

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Thursday, October 23

Esgotamento

Acuado por todo um processo de sobrevivência aniquiladora e frustrante, o indivíduo se agarra em qualquer apoio, desde que isto signifique sobrevivência, signifique dissimulação necessária para se sentir considerado, adequado, não importa em que parâmetros. Os julgamentos não são feitos em função de verdades, mentiras, honestidade, desonestidade, ao contrário, as conclusões são sempre no sentido do que o deixa bem, com necessidades satisfeitas ou encobrindo carências e falhas vivenciais fragmentadamente expostas.

Todo este deslocamento realizado em função da sobrevivência, cria hábitos, marcas, fisionomias, configurações definidoras. É o vício, o que anda sozinho, no automático, sem questionamento ou busca de discernimento dos determinantes das atitudes. O vício é o que identifica. Seja o hábito viciante, seja o conforto da carta marcada que vence o jogo, seja a imagem construída para esconder não aceitações, a identidade estruturada pelo vício é definidora do vazio, isto é, de buscas recicladas para que seja construído algo, consequentemente, nada mais que repetição dos automatismos vivenciados. Um vazio que se completa é o paradoxo estruturado. Esta antropomorfização coisifica, cria solidão, isola. A imagem é o accessório que permite oxigenar o devastado. Quando o indivíduo é definido, identificado pelo vício, ele é transformado em suporte de demandas, um ponto de encontro de contradições por ele transformadas em aleatórias e não significativas, desde que nada que o atinge tem sentido.

Negar a continuidade, a contradição, é negar a própria vida, é cada vez mais se alienar em função de posições e imobilidades estranhas aos processos vitais. Consertar o desvitalizado é como criar golems*, instrumentos para realização de metas, desejos e ajustes. O processo de criar imagens aceitáveis vicia e neutraliza a capacidade de mudança, pois que só na repetição se obtém satisfação das próprias necessidades.

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* Golem - na tradição cabalística, era uma maneira mágica de vitalizar seres inanimados.
















- "Ian Curtis - Tocando a distância - Joy Division" de Deborah Curtis
- "Dioniso a céu aberto" de Marcel Detienne

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Thursday, October 16

Malabarismos

Todos que lidam com a fé, o medo, os desejos e frustrações, sabem como enviesar ângulos para criar distorções responsáveis pelo estabelecimento de confiança, certezas e crenças em relação a mediadores de situações a atingir; agem como prestidigitadores, mágicos para exercer sedução e enganos.

Fazer tudo convergir para o que se percebe ser o desejo do outro é uma das maneiras mais eficazes de criar novas configurações responsáveis por inseguranças, tanto quanto, por certezas enganadoras.

Distorcer, às vezes, cria ilusões responsáveis por enganos, que viram certezas, verdades inquestionáveis. Neste universo são costuradas mentiras e fabricadas lendas à salvo de qualquer teste verificador/esvaziador; não importa o que é, mas sim, o que se pensa ser, tanto quanto, pouco significa estar enganando ou iludido, o que vale é sonhar, ter esperança - um dos pilares onde malabarismos e trapaças se desenvolvem. Dos heróis nacionais aos apoiadores individuais, da proliferação de religiões às aspirações sociais de grupos reivindicadores, são inúmeros os exemplos.

Tudo alcançar é um ideário onde grandes frustrações são ancoradas e assim, trapaceando, iludindo-se e iludindo se adquire hábitos mantenedores destes propósitos, o esforço legitima as ações, pensa-se que as dificuldades serão resolvidas, o ânimo é inquebrantável.

A consistência e persistência do presente, a nitidez do vivenciado é transformada em horizontes dúbios. Nas nebulosas escorregadias, só o malabarismo, a trapaça se mantém; ela não cria discordância, não estabelece conflitos, pois está ancorada em dubiedades. Ao sabor das ondas, em função destas instabilidades, a necessidade de apoios é constante. Estabelecer sistemas de proteção e apoio é o que importa. Dependências, apegos, impasses, tudo conflui para o estabelecimento de poder, ferramenta necessária para "fincar o pé" no conquistado, na fluidez domada.

Transformar o engano em verdade, o dito em não dito, o esperado em conseguido, é a grande transformação que aliena ao criar poderosos chefões, seja do crime, da política ou da vida familiar e afetiva.
















- "Uma relação tão delicada" de Domenica Ruta
- "Modernidade e ambivalência" de Zygmunt Bauman


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Thursday, October 9

Regras e modas

Sentir-se bem por estar dentro dos parâmetros, regras e modas vigentes, é uma maneira de se sentir aceito e satisfeito. Exatamente por isto, a questão da aparência é bastante importante, tanto quanto, o consenso demonstrado pela aceitação do grupo.

A insegurança, a convicção de ter coisas a esconder, o medo de ter problemas expostos, cria regras e demandas para o disfarce. Conseguir ser aceito pela aparência, pelo que se demonstra e exibe ser, é uma vivência aderente, que não estrutura autonomia, pois resulta sempre do esforço para manipular, agradar e se inserir nas faixas modais de frequência e sintonia expressas por demandas circunstanciais.

Manter-se dentro das normas aceitáveis cria adequação, ajuste, assim como medo, fingimento e incerteza. Se por um lado, determina modos de coexistência, por outro, estabelece despistes e mentiras fraudadoras do relacionamento, da comunicação com o outro.

Em sistemas, sociedades, situações, onde o esperado é o cumprimento de regras e papéis assinalados, pouco importam as motivações individuais. Vive-se para conseguir realizar papéis e funções e isto só é possível à medida que os mesmos não sejam questionados. Executar o determinado é o que valida e leva à aprovação, criadora de bem-estar e de aderências alienantes.

Aplacar as não aceitações psicológicas, as questões existenciais e viver através de acordos e compatibilizações com o que traz aprovação, é danoso para a estruturação de autonomia e coerência. Isto impede a vivência do presente, do que está aqui e agora acontecendo, gera ansiedade, que é sempre utilizada para avaliar, para verificar se deu certo. O bem-estar se instala ao ser aprovada a performance, a aparência-imagem, as tentativas de verdades e mentiras configuradoras de opiniões, de expressões e inserções relacionais.

Quando o bem-estar é o resultado final de esforços, ele nada mais é que a tentativa de somar, ajustar pedaços, partes fragmentadas da totalidade ser-no-mundo com os outros.

Quando o bem-estar é resultado de aceitação, ele é o estado de disponibilidade que permite a continuidade de apreensões, configurações relacionais integradoras, não subtraídas pelo faz de conta da aparência, da aderência resultante de justaposições anômalas, arbitrárias, modais e descontínuas.

Ser com o outro traz aceitação. Esconder-se do outro, cobrindo-se com aparências aceitáveis, pode trazer lucros, que mesmo valiosos, geram sempre insegurança, criando constante solidão que, por sua vez, também deve ser escondida, neutralizada pelo procurado bem-estar das drogas e outros vícios.




- "O homem duplo" de Philip K. Dick

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Thursday, October 2

O acaso

O acaso pode ser, às vezes, reconfigurador de situações. Tudo que está neutralizado por tensões iguais e constantes é facilmente desequilibrado, modificado.

Ser motivado pelo novo, pelo inesperado é um exemplo de acaso como reconfigurador de situações. Acontecimentos súbitos podem desarticular o anteriormente estabelecido: acidentes, mortes trágicas e imprevistas subvertem o existente ao criar novos contextos. Da mesma maneira, encontros inopinados, paixões arrebatam, descontextualizam, transformam situações estáveis, gerando mudanças dinamizadoras ou estagnadoras.

A superação do existente frequentemente gera conflitos, que se transformam em obstáculos, tanto quanto em dispersores do novo. Motivação e aversão criam soluções e resistências determinantes de novos comportamentos. No desenvolvimento das relações, atinge-se pontos imobilizadores ou transformadores. Deparar-se com casualidades, perceber o novo, impõe mudança de atitude, entretanto, essa reconfiguração pode negar convicções, negar certezas e gerar insegurança, fazendo com que a percepção do que, até então, era familiar, se torne estranha. Desespero, dúvidas, coragem se impõem. Não saber o que fazer diante do novo, do acaso reconfigurador, é um esforço para negar o que ocorre, é a tentativa de deter a impermanência, de manter o que já mudou.

"Ao visualizar a imprevisibilidade somos remetidos ao acaso. Lidar com o acaso como interseção de probabilidades e possibilidades, espacializa-o, conferindo-lhe assim, condições de previsibilidade, desde que abrangidas todas as variáveis dependentes, independentes e intervenientes que o configuram. Pensar no acaso como um ponto, privando-o de sua malha constituinte, liberta-o de qualquer previsibilidade; abstraído de seus constituintes, ele se afirma como Figura (sentido gestásltico da palavra) contextualizada no limite, pois ao afirmar-se como acaso, deixa de ser continuidade de probabilidades, de possibilidades. Metafisicamente, o acaso pode ser compreendido como emergência desvinculada de qualquer realidade processual. Fenomenologicamente, descritivamente, o acaso é percebido como facticidade, evidência. Popularmente, o acaso é percebido como fatalidade em sua acepção ampla de bem ou de mal. Independente de critérios valorativos, o acaso é o inevitável."*

O acaso geralmente é reconfigurador, entretanto, a nova situação pode ser utilizada como fator de manutenção do que foi negado e quando isso ocorre, incompatibilidades e divisões são frequentes: o antes não combina com o depois; a passagem de situações, o novo sobrevivente ao velho, criam descontinuidade, dúvidas e desadaptações; a motivação é vivenciada enquanto necessidade, conveniência, compromisso, imagens etc. É a parcialização despersonalizadora, é ajustar-se na impotência desumanizadora, geradora de omissões (medos) e impasses.

O acaso é esclarecedor ao trazer reconfiguração, transformação do dado, apontando para possibilidades, que podem ser vivenciadas como limites ou como aberturas, embora sempre modificadoras do estabelecido, antes vivenciado como permanência definidora.

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* em "Relacionamento trajétória do humano", pag. 50, de Vera Felicidade de Almeida Campos




- "A melancolia diante do espelho - Três leituras de Baudelaire"  de Jean Starobinski


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Thursday, September 25

Escuridão

O todo não é a soma das partes, conhecimento não é acumulação, não é errando que se aprende (ensaio e erro). Achar que tudo depende de significados acumulados, pouco a pouco descobertos, gera ilusão, cria os processos de distorção perceptiva, de ignorância, escurece o mundo.

É por apreensão das configurações que se estruturam clareza e nitidez responsáveis por compreensão, decisão e comunicação.

Não globalizar o que ocorre, não entender, não perceber seus contextos configuradores gera percepções fragmentadas e parcializadas dos eventos. Sem discernimento, sendo apenas atingido pelo que lhe toca, o indivíduo gerencia os processos às apalpadelas. Pouco a pouco vai diferenciando significados, as conclusões são realizadas pelo somatório de elementos que o atingiram e que só assim significam. Esbarrando, tateando vai descobrindo o que acontece. Neste processo, algumas situações são apoios necessários para permitir entendimento dos acontecimentos. Acredita que amealhar dados vivenciais, somar referências, experiências, permitirá estabelecer códigos e verdades para a vida. O acúmulo das pequenas experiências, a parcialização é gerenciada para conclusões orientadoras, que surgem sem globalização, apenas somando vivências, que passam a servir de normas, de referências para a vida.

Decidir, escolher e resolver, em função da satisfação de necessidades sobreviventes, é a norma do comportamento parcializado, autorreferenciado. No escuro das necessidades, segue-se a promessa que acene satisfazer necessidades, não se enxerga atitudes, não se percebe implicações, tampouco as configurações do que ocorre ou do que é prometido. Na escuridão, segue-se o que leva para alguma direção, só se enxerga saídas e impedimentos. Tudo é homogeneizado em função do que se busca. Esbarrões e tropeços servem como indicação do procurado e assim, através de tentativas, se esboçam caminhos, decisões - a partir de parcializações - que direcionam a escolha de situações cotidianas, de relacionamentos, de profissão, de governantes e até o que vai definir e dar sentido à própria vida.




- "A morte de Empédocles" de Friedrich Hölderlin

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Thursday, September 18

Demagogia e ilusão

Assistir os programas de propaganda eleitoral é assistir manipulação das necessidades e urgências das populações e cidades, transformadas em promessas. Todos falam em melhorias na saúde, educação, segurança, transporte de qualidade, geração de empregos. A transformação do que é necessário, das necessidades intrínsecas ao desenvolvimento social, em "projeto eleitoreiro", equivale ao que acalenta sonhos e ilusões - quando se quer usar e enganar amigos, familiares e amantes - têm os mesmos denominadores.

Ao transformar as necessidades em plataforma política, as estratégias marqueteiras alimentam a alienação; abdica-se da reflexão em prol da manipulação para o alcance ou manutenção do poder. Nas não aceitações das impotências individuais se transforma problemas em justificativas, criando motivações alienantes, tanto quanto, se constrói os salvadores da pátria e dos sonhos.

Medos, dúvidas e incapacidades no lidar com o cotidiano, no fazer frente ao que aliena e explora, criam polarização e busca de mediações redutoras. Quem salvará? Quem mudará este país? O que é a salvação? Perguntas respondidas ao aderir às promessas. Os "santinhos eleitoreiros" passam a ser indicativos do guardião, do governo, ou melhor, da pessoa que mediará e resolverá dificuldades. Os ouvidos atentos da publicidade e mídia, constroem escudos artificiais, que são verdadeiras portas de emergência para o escape de multidões atordoadas, da mesma forma que, na vida individual, o sedutor realiza os acalentados e antigos, quase desgastados, sonhos de felicidade e realização.

Apreender as dificuldades, auscultar demandas é eficiente quando se quer criar caminhos convergentes para realização dos próprios objetivos. O candidato que luta pelo povo, que conhece a pobreza, que sabe da riqueza, cria plataformas redutoras e transformadoras das motivações. Insinua-se como restaurador, quando na verdade, quer manutenção de privilégios, compromissos e acordos.

A melhor maneira de enganar é acenar, prometer resolver o que é fundamental. Manipular o cidadão cooptado pelo que necessita, gera ilusões. Atmosferas democráticas não são construídas com satisfação de necessidades individuais, não é a comida a mais no prato que as resolve; a atitude de prover se esgota em si mesma, é atendimento funcional que nada constrói, salvo dependências e expectativas de manutenção. Assistencialismo não produz riqueza, é como o apoio terapêutico, que nada transforma, apenas mantém. Mudar implica em se deter nos problemas, apreender seus estruturantes. Buscar soluções, saindo do universo das estruturas problemáticas, significa negar os problemas, transformá-los em pressão propulsora, em desejos de mudança que são criadores de novos problemas. Esperar a realização do prometido, não contribui para a criação e estabelecimento de atmosferas democráticas e consequentes melhorias socias, apenas cria submissos. Lembrando Nietzsche… "nossa inteira sociologia não conhece nenhum outro instinto senão o do rebanho, isto é, dos zeros somados -, onde cada zero tem 'direitos iguais' onde é virtuoso ser zero…"

Denominadores comuns são abrangentes, paradoxalmente redutores, desde que ao condensar, igualar, ultrapassam especificidades. O que sobra destas operações é o resíduo, cada vez maior, dos descontentes e frustrados que resumem os humilhados, ofendidos e enganados, seja no público ou no privado. Na esfera pública, o tudo fazer para manter o poder, transforma os cidadãos em peças de um jogo para realização de interesses do poder; na esfera privada utiliza-se o outro para realização de objetivos, desejos e metas individuais.

















- "Nunca lhe prometi um jardim de rosas" de Hannah Green
- "Humilhados e ofendidos" de Fiodor Dostoievski


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Thursday, September 11

Confrontos

Perceber que os outros têm satisfação e conseguem sucesso, geralmente causa inveja, quando não aceitações e metas determinam o dia a dia. Viver comparando e verificando que não consegue o que os outros conseguem, caracteriza o cotidiano dos sobreviventes posicionados em resultados.

Decidir que merece mais e que significa além dos padrões estabelecidos, cria expectativas dificilmente realizáveis. Viver em função de realizações gera ansiedade, que por sua vez, impede concentração, impede continuidade, cria vivência fragmentada - consequentemente o presente não é vivenciado -, dificultando atividades onde tanto concentração, quanto continuidade são necessárias. Por exemplo, não se consegue ler ou quando lê, não sabe o que foi lido. A ansiedade tudo apaga, de estudos a desempenhos, tudo fica comprometido.

Sempre em função de um marco a atingir, o cotidiano se torna uma eterna competição, e assim, não basta o que se vivencia, o importante é saber se o que se vivencia é melhor e mais significativo do que o que acontece aos outros.

Comparar, confrontar é uma maneira de verificar se é aceito e considerado. Os níveis sociais, as marcas econômicas - o ser rico, ser pobre - estabelecem situações confortáveis/desconfortáveis à partir das quais são estabelecidas metas e propósitos. Estar bem situado, social e economicamente, diminue a necessidade de superações e realizações, tanto quanto a aumenta.

Conseguir ser bem posto na vida requer, diariamente, confrontos retificadores e mantenedores desta posição. Vive-se para conferir, para verificar. O mundo, o outro são marcas, peças que validam o jogo diário pelo poder e realização.

Confrontar é isolar-se, separar-se dos outros. Viver assim sozinho, esperando o que supre ou aumenta o vazio, é o resultado final das constantes comparações realizadas. Avaliar, esvaziar, isolar desumaniza.

















- “Os Transparentes” de Ondjaki
- “Um Preço Muito Alto” de Carl Hart

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Thursday, September 4

Permanência de contradições desencadeiam acontecimentos

Em realidade, tudo que acontece, esperado ou inesperado, depende da permanência de contradições. Permanência de contradições é o que permite manter, em um mesmo contexto, todas as variáveis estruturantes do que é focalizado como processo responsável pelos acontecimentos (ou não acontecimentos). Expectativas levam a previsões, que, baseadas em causalidade, distorcem a percepção do presente; por exemplo, morrer será um acontecimento na vida de qualquer pessoa, mas, se perguntarmos quando uma pessoa vai morrer e como, a resposta vai depender da globalização das situações vivenciadas pela pessoa, pela configuração da permanência de contradições que estabelecem vida ou morte e não de conjecturas mágicas ou análises causalistas.

Possibilidade, necessidade, contingência e acaso se constituem em explicações do acontecido, do evidente, entretanto, a realização e expectativa de certos acontecimentos é falsamente explicada  pelas possibilidades causais dos mesmos; causalidade e evidência contrastam e se afirmam, “as coisas só são previsíveis quando já aconteceram”, dizia Machado de Assis e “tudo o que pode acontecer, acontece, mas somente pode acontecer o que acontece”, falava Kafka.

Quando as contradições permanecem, o desequilíbrio surge, o movimento continua, os processos acontecem, gerando o novo, mas, a permanência de contradições na configuração dos fenômenos, quando parcialmente mantida, gera deslocamentos, podendo também estabelecer neutralização desta mesma permanência e nada surge diferente do já ocorrido. A mudança é sempre uma modificação, neste sentido, um novo, diferente de repetição ou continuação. Querer saber se alguma coisa vai acontecer ou não, expressa preocupação com a continuidade/descontinuidade. A continuidade das coisas estabelece hábitos que não provocam curiosidade. Querer saber o que vai acontecer ou não vai acontecer, é querer saber se a continuidade vai ser quebrada ou mantida. Para atingir certezas, é necessário globalizar as contradições existentes em um processo, desde que só através da permanência das mesmas é que se consegue obter as direções decisivas. Transversais a estes processos criam posições fragmentadas que englobam expectativas, gerando dúvidas, incertezas e neste contexto só o que acontece permite sua explicação, negando a previsão como dizia Machado de Assis, tanto quanto, é neste momento que se afirma o fatalismo, o “determinismo realista kafkaniano”.

Quanto maior a contradição, maior a possibilidade de certos acontecimentos, maior a possibilidade de mudanças, consequentemente de expectativas, de previsões se realizarem e serem até, às vezes, entendidas como adivinhação ou fatalidade.

Na esfera psicológica a permanência de processos contraditórios gera mudança quando percebidos, mas, também são responsáveis por acomodações e adaptações infinitas ao serem percebidos por angulações deslocadoras que criam imagens distorcidas, fragmentadas e parcializadas dos acontecimentos. Explicações surgem e esbarram em magia, por exemplo. O não perceber implicações relacionais gera pensamento autorreferenciado, supersticioso, estereotipado e é à partir disto que tudo é explicado: “sair com o pé direito para que tudo dê certo” é um exemplo desta minimização relacional. Ultrapassar os limites das variáveis, dos dados e supor forças externas aos mesmos como explicativas das evidências, é criar crenças e explicações sobrenaturais para os fenômenos, para o que ocorre.

Homogeneização, neutralização, gera monotonia, tédio, inércia que em si são desencadeantes de novas contradições, e assim surgem novas configurações, que se mantém desde que situadas em seus próprios estruturantes. Neutralizar também é deslocar contradições que só reaparecem através de fragmentações desequilibradas. A contradição cria variáveis (pontos) onde as coisas acontecem, seja pela mudança, seja pela manutenção devido aos deslocamentos que a impedem. Os eternos “casamentos perfeitos” que de repente acabam em tragédia, exemplificam este processo ou ainda, as ditaduras que desabam como pó, depois de muito tempo.

Na Psicoterapia Gestaltista, a permanência de contradições existe quando se percebe os próprios problemas, quando se percebe que os mesmos não são aderência. Perceber que não se tem o problema, mas que se é o problema, faz mudar a percepção de si, do outro, do mundo e do que o aflige; faz entender que se o problema do outro o atinge, o problema é seu. Esta percepção mantém contradição, impede deslocamento e faz as coisas acontecerem nos contextos onde as mesmas são estruturadas (a problemática), faz com que se busque solução nos contextos das próprias contradições problemáticas e não nos desejos do que poderia solucionar, do que precisa resolver, do que deseja que aconteça.
















- “A Realidade da Ilusão, a Ilusão da Realidade” de Vera Felicidade de Almeida Campos
- “Diário Íntimo” de Franz Kafka

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Thursday, August 28

Ganância consentida

Skinner, criador do Condicionamento Operante (Operant Conditioning), dizia: “não tente se modificar, modifique seu ambiente”. Aparentemente esta ideia - um dos pilares da cultura norte americana - valida e incentiva o desbravamento, a modificação de tudo que atrapalha, motivando para o confronto e realização social, sendo um dos lemas do self-made man, do indivíduo socialmente realizado.

Ao se atribuir condição imutável e perfeita, achando que o passível de mudança é o ambiente, o outro, o além de si, alicerça-se autorreferenciamento, metas, medos e ganâncias. É um engano pensar que realização resulta de impôr-se sobre o ambiente, de controlá-lo e adequá-lo aos próprios interesses e objetivos empreendedores. O empreendedorismo não pode ser um propósito, ele deve surgir do constante diálogo, do questionamento entre o indivíduo e o mundo. Só é possível enfrentar e mudar o mundo, quando há questionamento.

O Condicionamento Operante - seus desdobramentos e alicerces sociais - motivou toda uma sociedade, agora um continente, a esquecer do “conhece-te a ti mesmo” socrático, um caminho lapidar de realização, que permite modificações transformadoras. É fundamental se questionar, se modificar, para que se consiga mudar o entorno através de um processo de constante diálogo, crítica e apreensão de contradições.

Os processos de mudança do ambiente ou do indíviduo não são hierarquizáveis. Não se trata de saber quem primeiro muda, se o indivíduo muda o mundo ou é por ele mudado, mas, se tivéssemos de estabelecer condições prévias, seria necessário conhecer a contradição, ver como se lida com ela, o que ela significa e como vai instaurar processos de mudança.

Uma das principais condições da atitude pragmática é manter a imobilidade, os posicionamentos adquiridos e assim fazendo, se mantêm ganhos e se desloca para mais metas. Manter o conseguido é o que garante o pragmatismo da vitória, permitindo outros acúmulos, ganhos e modificação dos entraves aos próprios objetivos. É a guerra contínua pela busca do sucesso, pelo uso do outro, pelo exercício de desejos, medos, dificuldades e inadequações.


















- “Walden II - Uma Sociedade do Futuro” de B. F. Skinner
- “Trabalho, Lar e Botequim” de Sidney Chalhoub


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Thursday, August 21

Confusão - Perversão

Quebrar a ordem, a congruência e as diferenças existentes é típico das perversões. Confusão resulta de ambiguidade. Não perceber o que está diante em seu próprio contexto estruturante leva às distorções perceptivas, estruturadas principalmente no autorreferenciamento. Frequentemente estas distorções criam ambiguidades, confusões na distinção de dados. As religiões, as psicoterapias, a psiquiatria, ao classificar, procuram resolver estas ambiguidades e estabelecer códigos e normas que permitam diferenciar comportamentos, entretanto, as perversões sempre ultrapassam estes referenciais ao remeter para o indivíduo que transgride estas normas. Que monstruosidade é esta? É uma simples anomalia resultante de condições adversas? Como pode um ser humano seviciar, utilizar para desejos eróticos, o próprio filho?

Existem vários mecanismos, socialmente validados, para decidir o que pode ser considerado perversão.

Interessante o que nos conta Mary Douglas, citando a obra de Evans-Pritchard: “por exemplo, quando um nascimento monstruoso ocorre, as linhas que definem os humanos dos animais podem ser ameaçadas. Se um nascimento monstruoso puder ser rotulado como evento especial, então as categorias poderão ser restauradas. Assim, os Nueres tratam nascimentos monstruosos como bebês hipopótamos, nascidos humanos acidentalmente, e, com este rótulo, a ação apropriada fica clara. Eles gentilmente, os colocam no rio que é o lugar ao qual pertencem.”

Virar “trash” de sistemas e demandas individuais, desumaniza. Ao perder identidade, pode-se ser “o hipopótamo que volta ao seu lugar” ou como diz Mary Douglas “enquanto a identidade está ausente, o lixo não é perigoso. Também não cria percepções ambíguas, pois pertence, claramente, ao lugar definido, um monte de lixo de uma espécie ou outra… Onde não há diferenciação, não há contaminação”.  As vítimas dos campos de extermínio, as ossadas das execuções de Pol Pot, e os milhões de outras vítimas de pervertidos são estatísticas, números estabelecidos dos males, das fases sombrias dos processos civilizatórios.

Transformar o outro - não importando quem e como - em objeto de satisfação sexual ou objeto de satisfação alimentar, é perversão: necrofilia, incesto, pedofilia e canibalismo (menos frequente na atualidade); além destas classificações tradicionais, a perversão se alastra invadindo nosso cotidiano. Quando o outro é transformado em objeto, tudo é possível: utilizações espúrias, arbitrárias e destruição o converte em verme, “saco de pancadas”, receptáculo de prazer, assim como em bode expiatório de políticas falhas. 

É preciso não acumular “o outro lado”, não estabelecer ambiguidade geradora de confusão, como mais uma possibilidade humana; é necessário perceber tudo isto como acúmulo de autorreferenciamento, desumanização transformada em ferramenta de destruição do semelhante.

Submeter o outro aos próprios desejos é a perversão característica da ganância, da impotência, do autorreferenciamento, em qualquer âmbito que aconteça: sexual, uso de relacionamentos, realização econômico-social; é a mais-valia, a realização de desejos e prazeres, quebrando referenciais e limites, subordinando e obrigando.


















- “Psychopathia Sexualis” de Richard Von Krafft-Ebing
- “Pureza e perigo” de Mary Douglas


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Thursday, August 14

Educação

A educação é necessária para organizar, sistematizar e desenvolver potencialidades, tanto quanto para “polir arestas”, possibilitando encaixes sociais e civilizatórios. Na reversibilidade dos processos, frequentemente só se consegue isto através de matrizes sistêmicas, artefatos que se constituem em formas, receptáculos de contenção que modulam, contém e reprimem dispersões idiossincráticas, anômalas.

Contradições não resolvidas, cerceadas pelos mecanismos educacionais, transformam propostas individualizantes em regras massificadas.

O “mens sana in corpore sano”, os idéiais hipocráticos de saúde e estética, as transcendências preocupadas com equilíbrio e o bastar-se a si mesmo do yoga, as idéias de autonomia e as descobertas psicoterápicas foram transformadas em kits de sobrevivência, moduladores midiáticos e comportamentais, onde o como fazer pragmático impera.

Educados para sobreviver e conseguir melhor status econômico e poder de manipulação, somos transformados em função de objetivos a realizar - neste ponto a educação desumaniza consentida ou aleatoriamente. Kafka dizia que a educação o prejudicou em vários sentidos, lembrando dos mestres que o orientavam e cobravam adaptações, transformações, exigindo que fosse diferente do que era, que convivesse com o que o alienava. Estas reflexões kafkanianas eram um grito, uma denúncia da integridade que desintegrava. Quando, no processo educativo, se enfatiza sinalizações unilaterais e valorativas, educar transforma-se em selecionar para possibilitar ajuste, adaptação e eficiência e o processo educativo passa a se resumir em regras e soluções de como fazer, deixa de ser fundamentalmente um processo de enfrentamento e vivência de contradições.

Educar é conduzir, criar caminhos, é fundamental para estabelecer desenvolvimento de condições restritas a referenciais polarizados em conseguir e não conseguir, em conhecer e desconhecer. Alcançado este desenvolvimento, amplia-se o campo, o contexto; heterogeneíza-se o antes homogêneo, surgem diferenciações criadoras de novos impasses.

É necessário vivenciar impasses, manter questionamentos, enfim, educar não é resolver, é problematizar; quanto mais se lê por exemplo, mais se conhece e mais se percebe quanto fica por conhecer. Educação é um processo que cria condições de aberturas relacionais, de perspectivas; ela não leva a nenhum ponto, apenas é isto: condição de exercer possibilidades sem se deter em necessidades sobreviventes. Estrutura-se, assim, disponibilidade e capacitação para o exercício de qualquer atividade, sendo também o início de questionamento e constatação de superação imediata, mesmo quando posicionado na administração de acúmulos e referenciais de saber fazer.

Educar é enfileirar, organizar e consequentemente homogeneizar dúvidas, incapacidades e criatividade; é um processo necessário, ferramenta que permite sociedade, civilização, mas, educar é possibilitar, também, desorganização, heterogeneização, desencadeando questionamentos. Não adianta privilegiar apenas um aspecto contido nesta reversibilidade ou esperar que questionamentos venham mais tarde - na vida adulta, por exemplo -, à medida que o básico foi conseguido pelos processos educacionais. Desde o início do processo educativo, e sempre, a totalidade não pode ser reduzida às parcializações necessárias, sobreviventes e contingentes.

O ser no mundo pode caminhar, mas é necessário que encontre chão, espaços, que ele não ande em círculos, não seja cooptado em função de instituições educativas, enfim, que não se criem jaulas como forma de proteger e ser protegido.

Somos educados para consentir, deveríamos ser educados para o questionamento: mudar a própria percepção do eu, do ego, por exemplo, quando mantido por prêmios, elogios e aplausos dos educadores e pais. O ser bem sucedido é uma máxima anestesiante e padronizadora.


















- “A Memória, a História, o Esquecimento” de Paul Ricoeur
- “O Processo Civilizador” de Norbert Elias


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Thursday, August 7

Aderência indicando imanência

Toda questão de sintomas, significados e indicações recai neste tópico: aderência como o que aparece (o que é percebido) e imanência como o que não aparece (o que não é percebido).

A persistência da idéia de dentro e fora leva à associação de aderente com externo e imanente com interno. Este a priori interfere na percepção, na constatação e cria distorções perceptivas.

Contextualizando-se na reversibilidade dos processos, na dinâmica do existente, não há distinção entre interno/externo. Ao perceber um ser humano, não percebemos seu fígado, seu cérebro, salvo se estivermos em aulas de anatomia, fisiologia ou em centros cirúrgicos, onde o fígado, o cérebro são os percebidos e seus possuidores, os seres humanos, tornam-se referenciais remotos, não determinantes do aqui e agora cirúrgico, por exemplo. A reversibilidade perceptiva privilegia, tanto quanto relega ao infinito, algumas constantes caracterizadoras do que ocorre; não considerar este processo cria divisões, unilateralidades parcializadoras e responsáveis por distorções resumidas no popular "quem vê cara, não vê coração". O indivíduo nem sempre é o que indica; frequentemente esconde ou despista no próprio fato de indicar. Este aparente paradoxo se dissolve quando se percebe que indicar, geralmente, é vetorizar para direções desejadas. A religião, a educação geram pasteurizações quando enfatizam o que se precisa apresentar e utilizar, conseguindo assim, repressão e adaptação responsáveis por divisão e inautenticidade.

Sintomas são aderentes em relação a suas estruturas orgânicas ou psicológicas, entretanto, eles as expressam - se não forem percebidos isoladamente através de classificações e rótulos -, permitindo apreender seus constituintes relacionais.

A arte, a psicoterapia, o questionamento unificam ao apresentar o escondido, o privado como o escancarado, como o público. Desde as máscaras usadas no teatro grego ou no japonês Nô, estas ambivalentes disparidades são unificadas. O Vodu haitiano consegue indicar seus zumbis - mortos vivos - em máscaras e danças, uma situação típica de indicação da imanência através da aderência. É a unificação realizada na divisão por meios artísticos e mágicos. A ludoterapia, a maneira como as crianças vivenciam suas satisfações e insatisfações através de formas, cores e espacialidade ocupada/esvaziada é eloquente para mostrar como constituinte e constituído, imanência e aderência andam sempre juntas ou como disse Goethe "a natureza não é miolo nem casca, é tudo de uma vez”.

















- “Androides sonham com ovelhas elétricas?” de Philip K. Dick
- “Manicômios, prisões e conventos” de Erving Goffman

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Thursday, July 31

Resumos

Resumos facilitam a globalização ou instalam fragmentação, manipulação, poder.

Todo "faça você mesmo", "pronto para usar”, “não desista nunca” funciona como incentivo para pular etapas, para entender processos como fins úteis, pontes para transpor descontinuidades e vazios. A importância da ligação, dos resumos, geralmente se explica por vivências funcionais ditadas por outras estruturas e motivações diferentes das configuradas como impasses.

Resumos de processos dedicados à ampliação de necessidades, habilidades e pontuações são responsáveis pela Babel relacional que vai desde a exaltação das qualidades do novo detergente, até às viradas de opinião graças às habilidades de pessoas demagógicas, as pontuações destacadas pelos selos de qualidade, o IBOPE, as vitórias e resultados conseguidos. Esta manipulação dos processos, estes resumos, criam clichês, estereótipos, geram divisões, preconceitos, fragmentando o processo vital e social. Referências de bom, de ruim, de forte, fraco, poderoso, submisso, ao explicar, restringem, solapam toda uma essência que foi empacotada, etiquetada.

Resumos deixam resíduos criadores de fragmentação. São as contas do colar sempre organizadas através de um fio que as unifica, agrega e preserva. Em nosso dia a dia este fio, via de regra, é a religião, a política, “os conselhos psicológicos", as indicações do que é bom e acertado. Assim, juntar o fragmentado é a melhor maneira de arrumar, selecionar, tanto quanto é a pior maneira de resumir, abrigar e polarizar infinitas indicações. O fragmento A relacionado ao fragmento B, para atingir um fim, é arrancado de uma estrutura onde seu significado é totalizado por suas relações configuradoras.

Explicações do comportamento humano pelos hemisférios cerebrais direito e esquerdo, por exemplo - com suas implicações classificatórias: sensibilidade, objetividade, emotividade, racionalidade - solapam, embaçam o brilho característico do ser no mundo, transformando-o em contas a enfileirar, utilizadas para objetivos dos responsáveis pelos fios condutores, por tipificações facilitadoras.

Resumos criam junções impensáveis, alhos e bugalhos: o díspar torna-se semelhante para formar massa de manobra e orientação.
















- “Sur les objets intentionnels” de Edmund Husserl e Kasimir Twardowski
- “A teoria vivida” de Mariza Peirano


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Thursday, July 24

Propaganda

Ao longo das épocas, o que se buscou através dos reclames do século retrasado, da propaganda do século passado e da mídia atual foi criar motivações, transformando-as em ferramenta de captação necessária para manutenção e ampliação de mercados (capital - economia), de ideologias (política), assim como criação de paraísos alcançáveis pelo sacrifício, esforço e catequese (religião).

Toda vez que a motivação é transformada em vetor, toda vez que ela é desviada para alguma direção alheia aos seus estruturantes, ela é solidificada como instrumento de manobra, perde portanto, a função motivacional - intrinsecamente curiosa, questionante -, virando caminho, trilha para benefício, alívio e satisfação.

Imaginemos se no mundo, nas telinhas e telonas, Facebook, Twitter e outras redes, o que aparecesse fossem questionamentos, toques denunciantes do que se escondeu e arrumou? Em outras palavras, imaginemos se em lugar do melhor perfume, cerveja ou iogurte, tivéssemos embates sobre deslocamentos realizados para esconder frustrações, avisos sobre ilusões e crenças que desumanizam?

Ditaduras e sistemas democráticos coercitivos sempre foram assessorados pelos que entendem e trabalham com o humano - filósofos, psicólogos, cientistas sociais, religiosos -, pois, para que estes sistemas se mantenham funcionando, a motivação tem que ser controlada, direcionada, mesmo que alheia e despersonalizante e vários recursos contribuem para isto, inclusive a serenidade, a criatividade e a sensibilidade.

Controles de motivações - das urnas do voto captado às praças comemorativas - são antigos. O populismo de Getúlio Vargas, nos anos 30, nos construiu como nação feliz, alegre, dedicada ao futebol, carnaval e samba. Estes ingredientes fermentaram e fizeram o grande bolo comido inicialmente pela massa anônima e depois por inúmeros segmentos expressivos e produtores de opinião, pois padrões motivacionais foram apurados e estabelecidos. Alegria e tristeza são pacotes produzidos para atingir e evitar. Tudo é previsível nesta monotonia tediosa e, portanto, cada vez são mais necessárias as novidades, modas e “recreações culturais”, isto é, a reciclagem do resíduo ainda não utilizado … e “assim caminha a humanidade” dentro do que já foi há muito estabelecido: controlar demandas e desejos é necessário para manter a ordem de necessidades e contingências.




  

Thursday, July 17

Reflexões sobre o medo

Datas e eventos às vezes são referenciais, marcos que levam a reflexões e constatações.

A vitória da Alemanha neste Mundial de futebol de 2014, me lembrou que setenta anos atrás - 1944 - a guerra matava e destruía; a monstruosidade dirigida pelo partido nazista alemão ceifava vidas e exercia bárbara crueldade contra milhões de pessoas. Os objetivos genocidas eram abrigados pelo mesmo povo que hoje celebra a vitória e confraterniza no Mundial. Derrotado e extirpado o nazismo, foi possível recuperação e superação da destruição e medo, o horror foi superado pelo povo alemão anteriormente cooptado.

Vítimas de violência, de agressões físicas e morais, desenvolvem medos que podem ser superados de maneiras diversas, seja através do questionamento, seja aumentando o desejo de segurança, de proteção a todo custo, mesmo que destruindo o que ameaça. Inseguros e medrosos são manipuláveis, presas fáceis de ideologias fascistas como observamos tanto na Alemanha dos anos trinta e quarenta, quanto em Israel dos últimos sessenta anos. A Alemanha, ao longo destas sete décadas ampliou seus processos democráticos e humanizadores e o Estado de Israel - criado para abrigar os perseguidos na diáspora, para consolidar a imigração de judeus para a Palestina (a aliyah) - nos mostra o aspecto de superação do medo pelo aumento e garantia da defesa e segurança, mesmo que isto implique em genocídio, em destruição de outro povo e assim, pelo medo se fortalece, tanto quanto se isola.

É eloquente o depoimento de uma jornalista, correspondente do jornal inglês The Independent, intitulado "Por que estou a ponto de queimar meu passaporte israelita"*, onde descreve sua indignação com a ascensão da violência e do fascismo entre jovens parlamentares israelitas, que justificam e fomentam o ataque a civis palestinos - idosos, mulheres e crianças - baseados em pensamentos e mesmo frases idênticas às usadas pelos nazistas alemães nos anos 30 e 40. A jornalista é uma mulher madura, que perdeu parte da família nos campos de concentração.

Inúmeros livros foram escritos com análises da origem histórica e política dos conflitos entre Israel e seus vizinhos, dos interesses ocidentais sobre o Oriente Médio, do ativismo político de grupos palestinos, de partidos extremistas no parlamento israelita, das explicações do Estado de Israel; desnecessário repeti-las aqui. O que me chamou a atenção na reportagem citada acima e nos acontecimentos da última semana, me levando à reflexão, foi como é enfrentado e manipulado o medo. Como diz Hannah Arendt: "quem sabe que pode divergir, sabe também que de certo modo está consentindo quando não diverge".

A guerra Israel-Palestina alcança também as redes sociais, ampliando enormemente os mecanismos de manipulação do medo, tanto em seus territórios, quanto além deles. É uma guerra que se transforma em evento midiático, com perfis robotizados de ambos os lados em busca de "torcedores" em todo o mundo (tanto o Governo de Israel, quanto o Hamas assumem a criação dos perfis): a associação da hashtag de futebol com a do conflito Israel-Palestina, durante o Mundial de Futebol, transformou-se em hit no Twitter, captando a atenção de jornalistas e público, mas principalmente, intervindo e condicionando ações, reações e medos entre os moradores das regiões em conflito, além de considerar como antissemitismo o relato das barbaridades ocorridas na Faixa de Gaza, o fato de lamentar-se a destruição de povoados palestinos, tanto quanto a denúncia de atos desumanos como, por exemplo, alguns cidadãos israelitas carregarem suas cadeiras para o relento da noite, a fim de assistir, comendo pipoca, à performance de seus generais, aplaudindo a cada bombardeio. O Hamas, por sua vez, manipula inúmeros tweets vitimizando-se e buscando manter o engajamento dos jovens palestinos, que podem não considerar o Hamas ou a Autoridade Palestina “como sua melhor ou única opção”.

Psicologicamente, ao enfrentar o medo, participamos e nos transformamos ou garantimos proteções, apoios, seguranças que nos blindam e nos mantêm comandados pelo próprio medo; ficamos aparentemente mais fortes, entretanto, sempre prisioneiros do que nos infelicitou.

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* “Why I’m on the brink of burning my Israeli passport” de Mira Bar Hillel, The Independent 





- “Sobre a Violência” de Hannah Arendt
- “Eu e Tu” de Martin Buber
- “Colônia Penal” de Franz Kafka


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Thursday, July 10

Sistema de referência

Perceber é uma relação, um comportamento decorrente de relações estruturais que configuram um Fundo (contexto) e um dado, uma situação (Figura). As decorrentes e contínuas percepções são os contextos que possibilitam constatação (percepção da percepção) que é o conhecimento, criando valores e significados e também classificação e nomeação do percebido.

Os sistemas de referência são formados desde os primeiros anos de vida, tanto quanto as estruturas de aceitação ou de não aceitação do outro, dos limites, de si mesmo. Os sistemas de referência são modais por excelência, desde que estão também imersos em horizontes culturais, sociais, econômicos. Os elos de fixação desta impermanente e anônima atmosfera são mantidos pelo outro. Estar com o outro, ser por ele criado, educado é o que permite constatar e integrar ou desconstruir sistemas de referência: o próprio corpo aceito ou não, assim como as referências culturais e sociais.

Através do outro, geralmente pai e mãe, aprendemos uma língua, significados, nuances e assim adquirimos ferramentas e habilidades que permitem inclusão, inadequação, operosidade, passividade, realização ou não realização de necessidades, aberturas ou fechamentos para as possibilidades que estruturam o humano.

Sistemas são referenciais à medida que posicionam regras e padrões, permissões e proibições. Todo relacionamento gera posicionamentos, geradores de novos relacionamentos, que por sua vez geram novos posicionamentos indefinidamente; consequentemente, nos sistemas de referência a variável de estar defasado, inadequado e superado é constante, entretanto, ao serem convertidos em padrões aceitáveis ou não, eles se tornam marcos rígidos criadores de muito desassossego e insatisfação quando assim percebidos. Mais de quinhentos anos e ainda a América Latina conserva a idéia de “branco, civilizado, europeu”, frequentemente se pensa que olhos claros definem superioridade e riqueza. A idéia ou preconceito - desde que conceito a priori  independente de qualquer evidência a não ser frequências modais (norma estatística) - cria as imunidades “amorosas” atreladas ao pai, à mãe, crenças que impedem mudanças como investigação de crimes sexuais e em casos mais extremos infanticídio, parricídio.

Toda percepção vai sempre ser estruturada em um contexto - Fundo - que mantido permanente e repetido, cria unilateralizações responsáveis por fragmentação.

As vivências residuais de segunda, terceira mão, que garantem que o que é bom para pessoas famosas é bom para todos, são despersonalizantes e fazem buscar imitações: o aderente e artificial, o produzido e copiado. Quanto mais copia, mais se anula, mais se vira o sistema de referências que o constitui, mais contingencia suas decisões e determinações nas pequenas urnas oferecidas para contabilizar o acerto, a conformidade ou os desacertos. Viver segundo o estabelecido é o fundamento para que se realize novos estabelecidos, entretanto, proteger-se e dedicar-se aos bons resultados conseguidos ou pretendidos é frear, tentar deter o momento, a temporalidade. O belo, o bom, o feio, o ruim, o adequado e o inadequado não são fixos, eles mudam com o passar do tempo (temporalidade), com novos recortes sociais e culturais, estabelecem novos sistemas de referência e criam novamente aceitação e não aceitação, alienação, medo e desejos de segurança. O controle e a obsessão, o querer “ficar bem na foto” mostra bem como a desumanização e massificação, dela resultante, saturam os referenciais. As conhecidas “carteiradas” (apresentação de documentos que comprovam, demonstram o poder e suas redes), além da exibição das redes relacionais que sustentam suas demandas e realizações, substituem as referências dos oitocentos e novecentos, onde sobrenomes tradicionais, ilustres, poderosos, caminhavam, falavam, ouviam, eram acompanhantes significativos do poder e acesso ao que se pretendia.

As demandas econômicas de mercado criam, no curto prazo, grandes dinâmicas, reversibilidades necessárias para vender e reciclar produtos. Neste ambiente, o novo sempre é substituido, reciclado. A datação de produtos cria prazo de validade para seu uso, cria o démodé, o velho, o fora de moda; tudo isto impõe mais cópia, mais imitação, mais desistência, ou seja: abrir mão dos próprios critérios e vivências para seguir a corrente, a tendência e nela afundar como forma de sobreviver. É uma pseudo dinâmica, pois que se está posicionado em função de resultados; isto ocorre em várias situações e contextos, tudo é avaliado: artes, esportes, escolas, universidades, ciência, religião e família.

O maior sistema de referência - dinamicamente integrador/desintegrador - é o outro: o ser humano que nos aceita ou não aceita.



 - “O Misantropo” de Molière
- “Filoctetes” de Sófocles
- “A extraordinária viagem do faquir que ficou preso em um armário Ikea” de Romain Puértolas

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