Thursday, January 28

Indivíduo - Sociedade

Metafórica e simplificadamente, a sociedade é a casa, o espaço que habitamos, que vivemos. Este contexto nos suporta, nos abriga, tanto quanto sinaliza e indica - através de valências e significados relacionais - normas, valores e caminhos a percorrer e a evitar. Quanto mais aberta, transparente e verdadeira, no sentido de que o indicado é o indicado, mais consistente a possibilidade de posicionamentos, diálogo e questionamentos. Sociedades regidas por políticas ditatoriais, ou sociedades que, sob o rótulo de democráticas, agem escondendo propostas absolutistas e escusas, funcionam como ambientes escorregadios onde tudo é mantido em função dos dirigentes ou de propósitos açambarcadores de individualidade para pseudo soluções através de regras coletivas.

Viver com leis que garantam a democracia, a igualdade de todos - e não a sinonimização destas leis com privilégios, com regras econômicas e religiosas ou com políticas dogmáticas -, é o que permite diálogo, mudança, crescimento. A sociedade, a vida em grupo, requer regras, instituições, porta-vozes que estabelecem garantias explicitadas em direitos e deveres. Quando tudo isto é manipulado em função de interesses pessoais (poder, dinheiro) ou de políticas partidárias, se esfacela o sentido comunitário, o sentido societário. Tudo fica polarizado em função dos interesses de poucos, árbitros “democráticos” estabelecidos como reguladores dos outros. Os poderosos seguem e orientam a “massa”, o povo. Esta nova configuração transforma nossa casa - a sociedade - em um galpão para abrigar pessoas e abrigar-se de intempéries. O poder se fragmenta, surgem os ajudantes, os capatazes, tanto quanto os alheios ao sistema, os marginais ao mesmo. Assim, o bom abrigo vira o difícil, o aleatório esconderijo, mera camuflagem do bem e do mal. Neste processo, saber como se conduzir, o que evitar, onde encontrar apoio, estabelece submissão, opressão, acentuando a artificialidade dos processos.

Cada vez mais dominados pelas regras de como sobreviver, como se safar de armadilhas, como se camuflar, como vender as aparências e suas montagens, como se pautar pelo mais valorizado, pelo mais importante, mais se  estabelecem as guias e regras de sobrevivência, através de inserções sociais que orientam das roupas que se veste, ao que se come, ao que vale a pena significar e o que pode ser utilizado como base transacional com os outros.

A continuidade deste processo gera autômatos, prestidigitadores e espertos. E assim, o social aniquila o individual,  não mais o abriga.




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Thursday, January 21

Homogeneização - politicamente correto

Transformou-se em regra tirânica a ideia do politicamente correto estribada em ter os mesmos direitos, em não ter preconceitos nem discriminação e é terrível a homogeneização que isto significa para o indivíduo enquanto diversidade psicológica relacional e para os sistemas oriundos de culturas diversas.

Outro dia li sobre um movimento crescente nos Estados Unidos, de pessoas obesas revoltadas com a aparência e com a magreza dos professores de yoga, identificando isto com elitismo e preconceito, sentindo-se discriminadas nas aulas seja por falta, seja por excesso de atenção por parte dos professores ou sentindo-se excluídas das peças publicitárias sobre yoga. Por fim, estabeleceu-se um movimento de abandono dos estúdios tradicionais de yoga, por parte dos obesos, e criação de estúdios específicos para este público, com professores também obesos e muita publicidade duvidosa sobre discriminação nos ambientes yoguis, que justificavam a criação de tais estúdios e ampliação de mercado para os mesmos.*

Este grupo de ativistas sequer considerou que as posturas yoguis decorrem de padrões oriundos de uma cultura onde magro/gordo nada significam, mas que a condição corporal para realizar muitas das posturas era fundamental.

Sabemos também que a ideia de direitos iguais pode se constituir em grande fator alienante. Direitos iguais para velhos e novos é estabelecer torturas para uns e outros. A ideia de que todos podem e devem estar na universidade, é outro aspecto determinante da homogeneização, da pseudo igualdade. Economicamente inviável, seria como um país de doutores, tanto quanto seria insustentável que só tivessem operários, embora especializados, deixando a descoberto mil e uma demandas do humano como saúde, educação, entretenimento, filosofar.

Igualdade é tão questionante quanto a diferença. Em realidade querer homogeneizar ou heterogeneizar, já supõe propósitos prévios. É orgânico, visceral, relacional o criar parâmetros que estabelecem igualdades ou diferenças. Pensar em seres humanos é a única homogeneização legítima, a partir da qual diferenciações, heterogeneizações surgem, independente de regras política e socialmente corretas ou incorretas.

Necessário é perceber e entender o que é intrínseco ao indivíduo ou o que a ele é aderente, o que a ele está apenas colado e estabelecido como plano de ação. Não existem dons, talentos, necessidades que criem isto ou aquilo, existem condições relacionais, fruto de inúmeras variáveis culturais, sociais, psicológicas e políticas que se estruturam como chão, como plataforma a se caminhar, como luz, farol a ser seguido, orientando o caminho humano.

O que se deve buscar é o intrínseco e não o aleatório de contingência homogeneizante balizada enquanto regras que refletem maiorias ou minorias, nem tudo tem que ser organizado em torno de homens, ou de mulheres, ou de pobres, ou de ricos, ou de negros, ou de brancos, ou de obesos, ou de magros. Indivíduos não devem ser vistos como produtos equalizados em função de políticas e demandas. Indivíduos devem ser percebidos pelo que significam enquanto possibilidades e impossibilidades, enquanto humanização e desumanização, enquanto desespero e maldade, enquanto transcendência e bondade, enquanto unidade, diversidade.

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- “Em Nova York tem o Mega Yoga, o Yoga Corpo de Buddha e Yoga para Corpos Abundantes. Tem o Yoga das Curvas em Nashville, o Yoga para Pesos-Pesados em Austin, Tex. e o Grande Yoga em Buckingham, Va., entre outros”  in The New York Times, April 15, 2015 (“In New York, there’s Mega Yoga, Buddha Body Yoga and Yoga for Abundant Bodies. There’s Curvy Yoga in Nashville, HeavyWeight Yoga in Austin, Tex., and Big Yoga in Buckingham, Va., among others.” - in The New York Times, April 15, 2015)

- “Alguns fornecedores são inflexíveis quanto à exclusividade. Michael Hayes, dono do Buddha Yoga em Nova York, recusa estudantes magros em suas classes; se você é magro, você está fora. ‘Eu estou excluindo pessoas magras por pessoas gordas?’ ele disse. ‘A resposta seria: sim. Existem muitos estúdios para pessoas magras’.”  in The New York Times, April 15, 2015 (“Some purveyors are adamant about exclusivity. Michael Hayes, who owns Buddha Yoga in New York, refuses to let smaller people take his classes; if you’re too skinny, you are shut out. ‘Am I excluding small people for larger people?’ he said. ’The answer would be yes. There are lots of studios for people who are smaller’.” in The New York Times, April 15, 2015)



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Thursday, January 14

Reciclagem

Tudo é aproveitado quando se está dedicado a realizar as próprias demandas neuróticas (de não aceitação, de querer ser aceito). Essa equação - tudo aproveitar - é facilmente resolvida ao se colocar como objetivo da existência, ser aceito, significar alguma coisa valorizada pelo próprio grupo ao qual se pertence. Nesse contexto, as vivências se desenvolvem e tudo que é percebido recebe a tonalidade desse desejo de aceitação.

O desespero que congela e limita, por exemplo, é transformado em situação diferenciada na qual a capacidade de ajuste, o cinismo são relatados como vitória, como capacidade de sobreviver. Os processos de reciclagem são infinitos. Tudo que cai no contexto das metas e objetivos de ser aceito, é considerado. A coleta, a contabilização é feita. Nada escapa. Ser rejeitado, literalmente “levar um ponta-pé”, cair é utilizado como força muscular probatória de resistência, de resiliência. Do processo à trituração, nada escapa, até que se consiga cunhar a moeda da experiência, da esperteza, da expertise, que tudo compra e decide sempre pelo melhor. Nesse contexto, melhor é o que aplaca, o que impede transformação, o que mantém regularidade, o que propicia sucesso e resultado eficaz.

As vivências de não aceitação, gerando necessidade de ser aceito, são homogeneizadas pela sociedade e pela família. Surgem os catálogos, dicionários e guias de como conseguir essas realizações como, por exemplo, cuidar do corpo, da carreira, das roupas, da aparência. Esse processo permite o final de realizações, mas cria implicações insatisfatórias: o que se é, o que se sente, o que se pensa são regulados por essas demandas, o ser é transformado em parecer, em necessidade de aplausos, de aceitação. De tanto manter a aparência, o indivíduo se esvazia, ele é o que as circunstâncias permitem que ele seja. Contabilizar tristezas alheias, pode transformá-lo em herói, em amigo sensível, tanto quanto conduzir “carros de vitória” o deixam no topo da comemoração.

A efêmera contingência das vivências processuais cria indecisão, comprometimentos e medos. Pontualizado por esse processo, o indivíduo começa o próprio processo de reciclagem através da autofagia: inicia por não saber o que sente, nem quem é, nem para que vive, salvo para preencher necessidades.



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Thursday, January 7

Deslocamentos (abandono)

A melhor maneira de manter uma situação de relacionamento é modificando-a. Modificações sugerem sempre reformas, adequações. Modificar pode representar, em última análise, abandono, desde que ao modificar reestrutura-se o existente segundo novas motivações e propósitos.

Pessoas não são coisas, embora possam assim ser percebidas. A transformação de pessoas em objetos, em coisas, tem seu início quando se estabelece julgamentos e apreensões funcionais. Determinar a função de cada um, estabelecer seu uso, cria prazo de validade, transformando o outro em matéria-prima para os próprios desejos.

Nas relações de casal, ao constatar o término da motivação, o encerramento do afeto, tanto quanto a manutenção do compromisso, dos temores e vantagens, surgem dilemas, impasses, conflitos que angustiam, que geram ansiedade e comprometem o funcionamento diário. Sem saber o que fazer, cheios de tensão, tenta-se modificar o que está existindo e assim as situações se repetem. Angustia, desespero, desembocando na manutenção do amante, por exemplo, um terceiro envolvido, que é aliviante, criando deslocamento de tensão. Esta tranquilidade estabelece a culpa e também permite reorganizações que aplacam o desespero, dando condições para entender e sobreviver ao que acontece.

Arranjar um amante, ou outra motivação, é um deslocamento eficaz para aumentar o emaranhado da despersonalização e conveniência: esvazia, aliena, embora alivie. Buscar sedação é um aplacamento que se realiza quando não há questionamento ao processo da própria coisificação. O importante não é modificar o outro, o fundamental é se questionar, perceber os limites, as possibilidades transformadas em necessidades, que criam o uso do outro, transformando-o em instrumento de realização e satisfação.

A vivência da situação de casamento, de encontro afetivo como sinônimo de ajuste, nicho de sobrevivência, cria uma funcionabilidade que sempre vai requerer abandono, modificação. No contexto de questionamento surgem mudanças e transformações; sem questionamentos aparecem deslocamentos sob as mais variadas formas: substituições, traições, reconfigurações, onde a funcionabilidade e manutenção imperam.





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