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Mostrando postagens de Janeiro, 2020

Densidade, liberdade e confinamento

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Ir além de onde se está geralmente cria lugares imaginários, cria utopia - o não-lugar, o lugar que não existe. O não existente, o utópico, se caracteriza por não estar ancorado em valores. O mundo sem valores, a vida sem sinalização de positivo ou negativo, de adequado ou inadequado, de certo ou errado é uma utopia. Buscar o não-valor é buscar sair de contingências, sair do limite demarcador. Os marcos civilizatórios ajudam a sobreviver, ajudam a realizar individualização, aperfeiçoar capacidades, tanto quanto, ao estabelecer limites, criam valores e aprisionamento. Viver sem valor - que sempre é aderência ao que é configurado - seria libertador. Imaginar as sociedades sem dinheiro, regidas pelo escambo - troca do que é necessário a uns e outros - é imaginar um universo onde prevalece o denso, o que significa, independente de sua simbolização. É apenas o perceber, independente do perceber que percebe. O perceber é dinamizado pela criação de continuidades repetidas,

Abdicar

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Para inúmeras mulheres que querem filhos, ter o maior desejo realizado pode se converter em fonte de medo e culpa. Ser mãe e não ter como sustentar o próprio filho cria medo e gera insegurança. Esse drama na maioria das vezes é o início de grande culpa. A mãe se sente responsável pelo futuro do filho e não quer que o mesmo sofra pela sua irresponsabilidade de colocá-lo no mundo sem condições de criá-lo. Essa justificativa é, sem dúvida, uma realidade, mas é também uma maneira de neutralizar a impotência. Assumindo-se culpada, sai da impotência e busca alguém que cuide do filho, entendendo a doação como ato de amor, como ato de salvação. Dá o filho, não para se livrar dele, mas para colocá-lo no caminho da sobrevivência e do sucesso. Às vezes esse processo é também acompanhado da vontade de satisfazer necessidades e aí a ideia de vender o filho, de ganhar dinheiro, aparece. Mães culpadas conseguem abrir mão dos filhos porque a renúncia como gesto para melhorar o outro, no ca

Caridade, solidariedade, amor

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Ir além de si mesmo é condição básica para estar no mundo, para perceber o outro como algo diferente de objeto útil, de apoio necessário, de refrigério buscado, de ameaça ou perigo estabelecidos. Quanto maior o limite, quanto mais amarras e menor espaço, menos se tem condição de ir além de si mesmo. O que se disputa e valoriza é mais ar, mais espaço para sobreviver ou para relaxar. Ter que conseguir tudo para melhorar as condições de sobrevivência estrutura processos autorreferenciados. Sempre garantir, manter mais espaço, salvar a própria pele cria total impossibilidade de convívio com o outro, independente de vantagens ou desvantagens que ele pode trazer, criar ou resolver. Não há solidariedade, não há empatia, pois não se vai além de si mesmo. Acontece que grupos, sociedades, só se mantêm por meio de participação, de estabelecimento de limites, direitos e deveres. Esses referenciais passam a ser os prolongamentos dos próprios desejos e motivações, e assim contingenciados o

Ânimo e desânimo

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Quando se está tranquilo e satisfeito é por estar vivenciando o presente, a realidade enquanto ela própria. Assim, o que acontece é o que contextualiza a vivência, não há acréscimo valorativo. O bem-estar, o mal-estar são tranquilamente vivenciados pois são situantes, e é isso que permite aceitar, transformar ou suportar o cotidiano. Dificilmente as pessoas se sentem tranquilas, pois frequentemente elas não vivenciam o presente, não vivenciam a sua realidade como pregnante. A não aceitação do que acontece cria frustração, irritação, desânimo. Geralmente elas preferem ocultar, superar ou ultrapassar as situações de não aceitação e frustração por meio de sonhos, metas e negação do que está ocorrendo. Esse processo obscurece o presente, joga o indivíduo para um depois não existente, tornando impossível estar situado vivenciando o real. A negação da realidade, do pé no chão, da convivência com o que ocorre cria insegurança, gera omissão, medos responsáveis por constante ansieda

“A beleza é uma prótese”

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Esta frase anônima - “A beleza é uma prótese” - é aparentemente estapafúrdia, desconexa, pois beleza sempre está associada a harmonia e elegância, enquanto prótese remete a doença, falha e incapacidade. Caso nos detenhamos no significado fundamental de aparência e imagem perceberemos significados que unificam esses conceitos, encontraremos conexões harmônicas e não mais situações desconexas. As próteses existem para compor, para corrigir. Esse criar de funcionalidades neutraliza impedimentos, harmoniza e deixa fluir condições comprometidas, e portanto, pensar a beleza como prótese implica em considerá-la apenas como uma imagem, uma máscara funcional. Acontece que a beleza é intrínseca, é uma resultante harmônica de diversas configurações e nesse sentido jamais uma prótese. Quando se pensa nela como imagem ou prótese é por transformá-la em cópia, em soma de partes privilegiadas e segmentos compostos para totalizar o que alguns entendem como beleza, resultando em processos c