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Showing posts from 2019

Perseverança

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Perseverança é vista como a chave mestra que permite tudo realizar ou é a ideia fixa, o esquema régio para ocupar o vazio, manter ilusão e dizer: “ainda chego lá, chegarei com certeza”. A diferença entre o que esvazia e o que completa, entre o que realiza e o que aniquila é dada pelas atitudes que o indivíduo mantém frente aos processos, ao mundo e à vida.
Viver em função dos próprios desejos e sonhos é aniquilador, impermeabiliza e transforma o outro, a realidade, em objetos que devem ser capturados, adquiridos, roubados para a própria satisfação.
Viver disponível e sintonizado com as próprias motivações - com um contexto - a realidade que as abriga ou exila, é, a cada momento, a cada acontecimento, ser orientado, ter caminhos indicados onde se estabelece trilhas para realizar ou impedir propósitos. Perceber essas indicações, entender seus sins e nãos possibilita mudança, acertos e erros.
A trilha dos processos sempre possibilita soluções, seja levando a atingir o que impede ou a…

Critérios e definições

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Como saber o que é certo, como definir o que é errado? Ter critérios e entendimento das situações exige questionamentos e disponibilidade para o que ocorre. Quanto mais referenciado nas próprias regras, vontades e aprendizados, sejam educacionais, sejam os da vida, mais impermeabilização ao que ocorre e assim só se percebe o que ocorre em função das próprias demandas, regras, medos e expectativas. Perceber o mundo, perceber o outro, perceber a si mesmo é o constante contínuo que arrebata e arrasta, diluindo certezas e dúvidas. Estar presente, estar diante do que ocorre é mágico, pois arrebata e traz novas configurações. Estar autorreferenciado, olhando para os próprios pés, para o próprio umbigo, para si mesmo é um artifício que coloca o indivíduo de costas, de olhos fechados e ouvidos obturados diante do que ocorre, do que acontece.
A disponibilidade faz o encontro e esse estabelece verdades, mentiras e dúvidas. Essas revelações estabelecem critérios e assim são definidas e redefini…

Paciência

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Paciência é a grande virtude, segundo os religiosos e os mais diversos mestres.

Paciência é também a atitude régia para esconder desejos não realizados, medos e vontades inconfessáveis. Ter paciência é uma maneira de não abrir mão dos propósitos ao constatar limites e impossibilidades. Esse regatear, negociar com a realidade, cria medrosos, covardes e ambiciosos. A ideia de que algum dia tudo se realizará dissimula vacilação e insegurança.

Paciência é submissão e passividade diante de contradições. É a criação de mais um passo, mais uma etapa antes de concluir sobre as próprias incapacidades e frustrações. Esperar é delegar, é começar a corroer autonomia e decisão. Instalar-se no “quem espera sempre alcança” é lançar mão de paciência, gerando expectativa, criando e mantendo ansiedades.

Renunciar aos desejos, ao constatar a impossibilidade de realização dos mesmos, se constitui em um caminho mais válido para instaurar autonomia. Paciência como ideia fixa é responsável pela parcializ…

Aleatoriedade

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Sempre que há uma expectativa fundamentada em continuidade de processos estruturam-se certezas decorrentes das sequências processuais. Somente o aleatório quebra essa continuidade consistente.
As características de consistência e aleatoriedade variam conforme os sistemas que as estruturam. É totalmente aleatório chover em desertos, tanto quanto é aleatório soluções humanitárias em regimes ditatoriais. Quanto menos consistente é a pluralidade dos sistemas, mais porosidade e possibilidade de outras configurações o invadirem. Nesse sentido são exemplares as atitudes individuais, às vezes heróicas, formarem sistemas de resistência aleatórios, pois não são previsíveis. Zumbi dos Palmares e Tiradentes são individuações aleatórias diante da sistemática opressão escravagista e colonizadora, mas, como polarizantes dos submetidos, dos desconsiderados, quanto mais essa polarização cresce, mais se sistematiza consistentemente a fabricação de heróis.
Thomas Szasz - psiquiatra defensor da psiqui…

Pele e alma - Selvageria e civilização

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Somos os animais mais desenvolvidos na escala biológica e nosso objetivo maior ainda é sobreviver. O ciclo evolutivo nos deu adrenalina, córtex cerebral, músculos e inúmeras vantagens orgânicas para isso, tanto quanto para a realização da função de alerta.
Acontece que somos mais que isso à medida que percebemos, refletimos e constatamos todo nosso processo, criando, assim, transcendência, ou seja, criando condição de ir além, de deter os movimentos desse ciclo e limites orgânicos. Por isso vencemos o mar construindo navios; vencemos o ar construindo aviões; vencemos o espaço e tempo escrevendo, simbolizando, condensando e ampliando. Tudo isso é ir além do próprio organismo, da própria sobrevivência, ou, tudo isso pode se voltar para o organismo ou para a sobrevivência.
Quanto mais acumulamos enquanto máquina sobrevivente, mais salvamos nossa pele e perdemos nossa alma, nossa humanidade, chegando às vezes a não exercê-la, a sequer conhecê-la.

Frequentemente nos encontramos em encruz…

Causalidade

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Perceber e pensar o mundo, pensar o que acontece como decorrência de relações de causa e efeito é uma maneira prática, obtusa, autorreferenciada e cômoda de viver e se relacionar com fatos e pessoas. Esse comodismo facilita o dia a dia tanto quanto incapacita a autonomia e a definição. Achar que tudo depende de A ou de B, que as situações têm causas determinadas, facilita ao transformar o mundo em um grande teclado onde se pode criar sinais, senhas e certezas, entretanto, essa facilidade é amputadora, pois para tonalizar ou enfatizar A ou B nega a multiplicidade de outras variáveis que emergem.
Determinar causas resulta de cortes aleatórios, resulta de ignorar processos contínuos, dividindo-os arbitrariamente. Essa atitude gera posicionamentos, cria medos, tanto quanto pode gerar certezas e confiança. É uma faca de dois gumes que tudo corta e que corta de qualquer jeito.
Não havendo globalização das variáveis e processos, não há como entendê-los, nem como participar deles, a menos q…

Superstição

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Não apreender as relações configurativas dos processos e não querer sofrer suas consequências gera comportamentos medrosos e ansiosos. Esse medo e ansiedade são locais desejados e perfeitos para aninhar, congelar e manter superstição.
Bater na mesa e a luz acender faz com que alguém que assista algumas vezes esse acontecimento passe a pensar que o bater na mesa fez a luz acender, sem sequer pensar em como isso acontece. Se aparece alguém que ao ver o acontecimento - luz acendendo depois de batidas na mesa - se pergunta como isso acontece, tal pessoa fica sabendo ou supõe que existe um interruptor, um mecanismo na mesa responsável pelo acender da luz. Essa suposição pode parecer correta, mas pode não o ser, desde que apenas é parte da explicação de porque a luz acende. Bater na mesa pode ser o som que avisa alguém a disparar o acender da luz, ou ainda, pode ser o mecanismo que aciona outro mecanismo que faz a luz acender.
Regularidade e frequência não determinam o que acontece, já diz…

Sacrificio

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Suportar, submeter-se é sacrificar-se.
Para entender quando se estabelece sinonímia ou igualdade entre suportar, submeter-se e sacrificar-se é necessário algo novo, é necessário perceber o contexto da motivação do sacrifício. Reduzir o processo à linearidade não justifica ou explica a submissão a X ou Y, o sacrifício é sempre exercido em função do outro ou por outra causa ou outra razão que não a expressa na linearidade.
A invasão de plano diferente gera a ideia de sacrifício que funciona como um incentivo, tipo cenoura na testa para acelerar o andar do animal! A educação dos filhos, o bom final da união matrimonial, o desejo de ser vencedor, que permite estancar o sangue da corrida constante e desenfreada, tudo isso é o sacrifício transformado no sacro-ofício que tudo realiza e justifica. Pagar o preço, ser esfolado, é o Marsias redivivo.
Essa visão trágica, sempre oriunda da ideia de pecado, deve ser abandonada quando se busca humanização e liberdade. Viver para conseguir, não im…

Respeito

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Recentemente, lendo o livro “No Enxame”, de Byung-Chul Han, encontrei a etimologia da palavra respeito: “respeito significa literalmente olhar para trás [Zurückblicken]. Ele é um olhar de volta [Rücksicht]”. O tradutor do livro, Lucas Machado, explica que “o termo alemão para respeito, Rücksicht, é composto pelos termos Sicht (vista, visão) e Rück, que significa, literalmente, 'de volta'. Assim, o autor indica que o respeito (Respekt), como o seu sinônimo de origem alemã Rücksicht indica, seria, literalmente, um 'olhar de volta', Zurückblicken, uma 'vista de volta' ao outro”.
Esse olhar para trás é quase que o olhar em volta, o perceber onde se está e o que existe ao lado. É perceber o outro e o mundo. Saber onde se anda, com quem se anda, o que se vê, o que sustenta, o que limita, o que apoia é considerar, é o olhar em volta que gera respeito. Perceber o outro, percebendo semelhança, dessemelhança, continuidade, descontinuidade cria referenciais situantes que…

Garantia

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Garantia é a repetição de certezas. A validade por meio do resultado é o lucro do que se investiu. Nesse contexto, a primeira regra para estabelecer garantia é criar e manter aparências que possibilitem acordos e acertos. Seguir e estabelecer os contratos sociais - das profissionalizações aos casamentos e acertos empresariais - cria locais, topos, cumes de visibilidade e assegura autoridade, tranquilidade e impunidade.
Garantir é enfeixar, é amarrar, instituindo critérios e termos nos quais as verdades soberanas e estabelecidas governam e decidem. É assim que se consegue transformar garantia em realização e sucesso. Não precisa ser, nada mais é necessário do que representar. E representar é duplicar seu espaço, ocupando-o pelo sublinhamento, pela ênfase de referenciais validados pela aceitação do que é considerado bom. A cabeceira de uma mesa, por exemplo, em determinada sala, é tão significativa e simbólica que já laureia e nobilita quem a ocupa, por isso é sempre desejada. Faixas t…

Cautela e ansiedade

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Quando o indivíduo mantém aspirações do que deseja e que não tem, como se já estivesse acontecendo, tentando realizar essas aspirações, equivale a construir plataformas que o lançam para outra dimensão - o futuro. Esse viver irreal, desde que não presente, cria inconsistência e consequentemente provoca imensa necessidade de apoios.
Viver em função do futuro, preparando melhorias e criando condições para mantê-las é uma das atitudes geradoras de medos, ansiedade e rigidez.
Observar o que existe, o que se constitui em fracasso ou em vitória orienta o planejamento do que vai proteger, do que vai evitar ameaças. Esse planejamento consome a vida, subtrai esforço, diminui referenciais. Tudo é feito em função de sobreviver e bem viver. Automatismos são criados, tanto quanto mecanizações que só existem para possibilitar sucesso e evitar sucumbir ao medo de falhar, ao medo de não conseguir.
A vida passa, a velhice chega e a prudência, a preparação para vencer é então encontrada como sinônimo…

Relativismo sem fulcro

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Coerência e lógica são parâmetros produtivos para se estabelecer critérios, consequentemente, comportamentos. Quando tudo é feito por ser necessário ou por se desejar, a circunstancialização dos atos, dos comportamentos cria verdadeiros comprometimentos, anula possibilidades e converge tudo a atos aleatórios nos quais apenas se exercem vontades pessoais, desejos autorreferenciados.
Qualquer comportamento do indivíduo expressa suas fragmentações, divisões, circunstâncias ou sua unidade. Quanto maior a fragmentação, maior o descontínuo, o desconexo. Tudo se relaciona a tudo e tudo está disperso, perdido. Os polarizantes que situam podem estar no mesmo plano dos que fragmentam. Quando tal acontece, isso é mais um fragmentador. Querer sempre ser o melhor, o mais lúcido, ter a verdade e determinar o certo e o errado, é uma maneira de fragmentar, de discriminar, pois tudo é referenciado no certo/no errado, para o bem/para o mal, do próprio indivíduo. A existência do prévio, a própria vont…

Afetos alugados - Filhos e parentes

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Em um primeiro instante fiquei estarrecida com a reportagem da Revista Piauí “Teatro Familiar Alugar Parentes é um Negócio que Floresce no Japão",  mas logo depois percebi a obviedade e banalidade da situação.
Essa situação é banal e óbvia do ponto de vista das trajetórias do capitalismo de mercado, no qual tudo é produto que pode ser consumido, mas é avassaladora enquanto despersonalização e redução da individualidade à condição de mera função representativa de seus pilares institucionais e afetivos. Sentir falta de um companheiro que morre, e alugar, de uma firma que trabalha nesse negócio, uma pessoa que decora um script, aprende hábitos e atitudes para ocupar o vazio da carência deixada pelo companheiro que morreu, é, no mínimo, revelador de compromissos e conveniências.
Nos atuais sistemas político-econômico-sociais tudo pode ser significado pela representatividade, nesse sentido, tudo fica reduzido à funcionalidade. Funcionar é estabelecer satisfação, é preencher vazios,…

Montagens e despistes

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As aparências enganam desde que elas são construídas. Acontece que tudo é construído, até mesmo o natural. A questão não é o resultado, é o ato, a atitude.
Quando se manipula a realidade é sempre buscando objetivos criados pela não aceitação dos limites e de si mesmo. A construção da aparência é a mentira, a falsidade que propicia vantagens, mas que desvitaliza, fragmenta e desumaniza. Ser o que se é, é a única dinâmica que permite transformação.
Ampliar o real, considerar e avaliar como ele será percebido, estabelece variação, aparência. Saber que se é considerado, assim como ser tratado bem quando se é educado, bem vestido e simpático, reforça a busca para realizar essas ações, para conseguir aparências que levam a esses efeitos. Quando se faz isso é como se fosse criador do desejado.
Acontece que enganar já é deslocamento de tensões, de impotência e desejos a realizar. Vale reproduzir a história de Prometeu e seu confronto, sua tentativa de burlar Zeus - o deus -, mas que resulto…

Reflexo no espelho - despersonalização, descoberta

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No espelho o outro sou eu, ou, no espelho me vejo e percebo. O reflexo é uma perspectiva que permite encontro e descoberta. Descoberta de quê? Do espelho? Do semelhante? Do outro? De mim?
A depender da resposta encontramos diversos temas e problematizações. Quando me vejo no espelho, ou qualquer superfície que reflete, Narciso se impõe, padrões ou rejeições aparecem. Se espelho for a resposta, o mundo da física nos invade, a questão da luz, da superfície polida, inversões e artefatos, tecnologias são as perspectivas.

Pensar no semelhante, no outro como idêntico ou diferente nos leva também a outras considerações. Abordagens biológicas melhoram as divergências da vivência com o outro, com o diferente ou igual, a depender de suas sincronias culturais. Quando o reflexo no espelho nos traz revelações, quando vemos que estamos olhando, quando percebemos que percebemos, surgem constatações, reflexões, perspectivas psicológicas, pensamentos.
Eu sou o outro, o outro é o igual, é eu, isto é b…

Esforço

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Olhar em volta e se sentir inferiorizado e estigmatizado provoca medo, revolta, não aceitação e também pode criar determinação para mudar esse estado de inferioridade e de submissão.
Há um erro inicial, há uma distorção que tudo compromete. O sentir-se inferior e estigmatizado já decorre de avaliação, ou seja, da introdução de valores estabelecidos pelo outro - família, sociedade - que são percebidos como parâmetros, padrões, critérios, espelhos nos quais se olha, se contempla, se percebe e vê a não correspondência com o que é considerado bom, valorizado e válido naquela família, naquela sociedade e por seus semelhantes.
Viver em função dessas regras e avaliação, desses critérios, e com eles dialogar, é se transformar em objeto. Essa metamorfose cria rigidez, endurecimento, posicionamento. O indivíduo vira objeto, é despersonalizado em função do que vai realizá-lo, dinamizá-lo, enriquecê-lo. É o vazio, é a construção de metas e objetivos a fim de “virar gente”, de significar e ser a…