Thursday, December 25

Vínculos

Tudo é relação e psicologicamente isto pode ser traduzido como estabelecimento de vínculos. Estar em relação é estar vinculado e quando isto ocorre em relação a A, deixa de ocorrer em relação a B. Não há sobreposição, ou sempre que tal pareça ocorrer, surgem fragmentações. Estar, por exemplo, em relação com uma pessoa ou situação, em função de outra, é uma transposição que desvincula, pois na sobreposição os elos se quebram. Quebrar e colar é uma constante quando o outro é percebido como objeto de desejo, como meta, como resultado de avaliação: tem a ver comigo, não tem, me é conveniente ou inconveniente, etc.

Quando digo que tudo é relação, que através da relação perceptiva se estruturam sujeito e objeto, tanto quanto se categorizam as dimensões temporal e espacial, estou afirmando que a percepção é o estrururante relacional. Ao perceber, sou sujeito que percebe objetos; ao perceber que percebo, sou objeto e o sujeito é a minha percepção. O perceber que percebe é o reconhecimento, a constatação, a vivência de memória, o pensamento; em situações cotidianas, é a divisão existencial. O contexto do fenômeno perceptivo é a essência humana, ou seja, a possibilidade de relacionamento. 

Perceber o outro sem apriori, estabelece um vínculo, seja de amor, de ódio ou simpatia. Estes vínculos são as trajetórias relacionais, arquivadas pela memória, pelos dados do passado atualizados quando presentes. Viver em função de manter vínculos ou de alcançar novos vínculos, é alienador, pois o que se torna pregnante e importante é a manutenção, é o alcançar, e consequentemente, os vínculos desaparecem ao tornarem-se hábitos ou premências a serem atendidas.

Vínculos permitem continuidade, tanto quanto aprisionamento quando transformados em posições, regras e compromissos à partir dos quais o mundo é percebido; eles configuram as possibilidades de vida, e quando reduzidos à satisfação de necessidades criam dependentes, sobreviventes escorados nas possibilidades, transformando a dinâmica em alternância pendular, medida por fases e ritmos.




- “O Pintassilgo” de Donna Tartt

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Thursday, December 18

Subterfúgios legitimados

Cada vez é mais frequente e necessário estabelecer critérios e preferências através de situações validadoras. Isto permite operacionalização, escolhas e garantias.

Em um sistema, em uma sociedade que privilegia resultados, inúmeros parâmetros são estabelecidos e essas bitolas permitem separar o adequado do inadequado, o útil do inútil. Valoriza-se títulos institucionalizados que garantem legitimidade de operação. Acontece que quando se arbitra o que é legítimo ou ilegítimo, nega-se processos, pois legítimo é o intrínseco, não pode ser padronizado, e quando o é, por meio de artifícios como as transformações ou as molduras adquiridas pela institucionalização, por exemplo, legitimidade se transforma em selo de garantia, consequentemente, em aderência padronizada e hierarquizadora.

Fazer parte de uma instituição não garante ter condições nem habilidades para o que é construído e criado pela instituição. Instituições também sofrem desgastes em seus processos e quanto mais se firmam e significam, mais são ampliadas no sentido de proteger e garantir os que nela se escoram. Vemos esta distorção nos prêmios e concursos literários, assim como no Oscar, no Nobel, lembrando também das Academias, instituições de pesquisa e escolas. Geralmente, premiações e títulos são concedidos e são necessários em função de estratégias políticas, estratégias comerciais, que ultrapassam e derrubam o conceito estabelecedor das instituições.

Ser incapaz, e mesmo assim, ser abrigado em uma destas instituições, é uma maneira de exercer legitimamente o que não se tem condições, mas, se tem autorização. Ancorados em posicionamentos residuais, funcionam cada vez mais à mercê do arbitrário, das manipulações políticas e do mercado. Nesta atmosfera, as garantias institucionalizadas se transformam em polarizantes acobertadores de insuficiências e inadequação.

Desse processo surgem a impunidade, o autoritarismo e também distorções responsáveis por imensos preconceitos na esfera individual, na qual o correto, o legítimo, passa a ser sinônimo de institucionalizado, gerando a atitude de verificar os sinais, as molduras, percebendo, cada vez menos, o que está emoldurado. Basta uma boa moldura e garatujas são compradas como arte abstrata, por exemplo, e assim por diante segue esse processo de distorção, de transformação da parte em todo, que permite admirar o escuso legitimado.





- “Memórias do Subsolo” de Fiódor Dostoiévski

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Thursday, December 11

Impossibilidade do possível

Perder a vez, não ter conseguido aproveitar o que foi possibilitado, gera constatação de incapacidade, entretanto, nem sempre isto é assim vivenciado. Frequentemente se atribui várias causas, explicações, que vão desde o azar até a interferência do outro pela inveja, etc, tanto quanto pode surgir culpa gerada por deslocamento de não aceitação, onde o indivíduo se sente incapaz, frustrado e prejudicado. Crítica, agressão, desespero, medo e ansiedade são resultantes deste processo de não aceitar perder a vez. O processo de não aceitação de si mesmo, cada vez mais, vai se estruturar em função do que foi perdido, não aproveitado, não recebido.

Perder o “grande amor” por medo de enfrentar situações ou, em certas situações, não perceber que a mudança de cidade era o caminho para o enriquecimento em um novo emprego, cria frustrações, verdadeiros quistos esvaziadores de perspectivas e disponibilidade, de vivências de impossibilidade. Impossível é tudo que não foi percebido, que não foi vivenciado ou que é percebido através de contextos, categorias e tipificações alheias, anteriores, que sobrepõem o percebido com significados aderentes à sua imanência, sua estrutura constitucional.

Nas vivências resultantes destes esvaziamentos, gostar de uma flor, por exemplo, é percebê-la no contexto das avaliações e contingências: vê-la como cara, exótica; uma sobreposição de questões extrínsecas à flor, dela circundantes, não intrínsecas à mesma.

Tudo que é percebido é possível, são os dados relacionais, entretanto, se for apropriado enquanto significado circunstancial, fica destituido de sua configuração (gestalt), de sua totalidade e passa a receber aposições que o desconfiguram; é o possível costurado, coberto, manuseável, mas cada vez mais impossível de ser percebido enquanto ele próprio.

Possíveis transformam-se em impossíveis, e vice-versa, pela maneira como lidamos com eles. Esconder, estigmatizar, utilizar o possível gera sua impossibilidade e de tanto querer não perder a vez, o ser humano vira objeto de manobra, objeto de si mesmo, se divide, se perde e quebra a unidade de estar no mundo aberto a infinitas possibilidades, enfim, esgota-se em necessidades sobreviventes, perdendo a vez.





- “As Núpcias de Cadmo e Harmonia” de Roberto Calasso


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Thursday, December 4

Lutas e acomodações

Toda revolta, toda proposta de mudança, toda aceitação, enfim, qualquer comportamento está estruturado em um contexto à partir do qual as situações são percebidas.

Perceber o que acontece, perceber o que se deseja, tanto quanto perceber qualquer coisa, implica em um Fundo, em um contexto estruturante*. Neste sentido, as motivações individuais criam as diferenças e tonalizam os graus de firmeza ou fraqueza nas adesões, nas ações reivindicatórias. Tomemos como exemplo os movimentos grevistas: médicos em greve, todos reivindicam melhoria de condições de trabalho e salário, mas com contextos e atitudes individuais diferentes, que vão da acomodação à revolta, atitudes estas, que determinam cooptação ou oposição.

As reivindicações sempre estão comprometidas com a divisão do contexto, com as pressões do que apoia/oprime. O patrão que explora é o mesmo que sustenta, a família que apoia é a mesma que limita e assim por diante. Nestes contextos, a flexibilização, a contemporização são amortecedores constantes do que é reivindicado.

Reivindicar é tentar transformar submissão em atividade e geralmente se consegue que alguma coisa seja transformada, mas sempre dentro de limites, de regras e concessões. Criam-se novos patamares para que os processos se desenvolvam, no entanto, as relações apoio/opressão continuam; tem sido assim com a luta de classes, por exemplo, algumas mudanças se observam, leis de proteção, etc, mas a questão é a mesma: explorados e exploradores permanecem, o paradigma não foi mudado.

Nas relações afetivas dentro e fora da família, pais e filhos, marido e mulher, amantes, amigos, os discordantes também são cooptados quando os processos reivindicatórios se constituem em contexto fundamental de realização das demandas motivacionais específicas. O reivindicante não questiona, ele demanda, busca soluções. Esperar, compreender, aceitar o limite imposto pelo outro sem questionamento transformador, estrutura empecilhos e impedimentos à integração e harmonia. Quanto mais “pistas de obstáculos” são construidas, mais necessidade de regras, habilidades e reivindicações surgem, transformando as possibilidades de relacionamento humano em prisões, em limites, e assim, através de reivindicações, melhorias são atendidas e necessidades são minoradas, tanto quanto o ser humano fica limitado às suas necessidades, opressões e desejos de liberdade e mudança.

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* - A organização perceptiva obedece a leis (Gestalt Psychology) cujo princípio básico é o de que toda percepção se dá em termos de Figura e Fundo; percebemos o elemento figural e o Fundo nunca é percebido embora seja estruturante da percepção. Existe sempre uma reversibilidade entre Figura e Fundo, o que é Figura transforma-se em Fundo e vice-versa. Quando percebemos um carro trafegando na rua, por exemplo, esta Figura, o carro, está estruturada em um Fundo, a rua; modificações na rua, modificam a percepção do carro e se chamamos a atenção para a rua, esta passa a ser Figura e o carro passa a ser Fundo do percebido.




- “O Sujeito Selvagem - Pequena Poética do Novo Mundo” de Christian Kiening


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