Thursday, July 30

Ziguezagues

Toda dificuldade, toda insatisfação, todo problema não enfrentado, disfarçado ou postergado cria deslocamentos. Esses deslocamentos, desvios de tensão, impõem modificações ao cotidiano, chegando a criar novos hábitos capazes de absorver os resíduos criados pelos desgastes e fragmentações dos desejos não atendidos. É muito comum encontrarmos essa situação em relacionamentos afetivos, principalmente casamentos ou uniões estáveis, quando o relacionamento já não motiva, não significa e os parceiros apenas cumprem papéis e funções.

A invasão da ordem prática, a invasão das conveniências, é também acompanhada de medo, gerador de insegurança, gerador de deslocamentos que, por sua vez, criam dilema. Neste momento, instala-se o “vale à pena ou não?”, o “como fazer?”, o “será que a culpa é minha?”. Interrogações parecidas com questionamentos, mas que são tautológicas: viram e reviram as questões, caindo sempre nos mesmos pontos. Essas repetições, esse não questionar neutralizador de dúvidas, acumula indecisões. São as variações cotidianas, as circunstâncias que passam a decidir o que fazer, perdendo-se, portanto, autonomia, ao seguir a corrente, ao esperar que as coisas se resolvam.

De tanto diluir, cria-se adiamentos geradores de expectativas, medos ou certezas que todo dia têm que ser reasseguradas. Compensações se impõem e tapar buracos, preencher faltas é exigência cotidiana do vazio existencial resultante do medo (omissão) estagnador. Não existe participação, não há questionamento, só tristeza, apatia e dificuldade de perceber, entender e resolver as amarras inibidoras, de percorrer os ziguezagues labirínticos, de redefinir processos relacionais.




“Sujetos del dolor, agentes de dignidad”, de Veena Das

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Thursday, July 23

Desvitalização

Viver esperando realizar os próprios sonhos, esperando atender as necessidades e ter reconhecidas e satisfeitas suas demandas, desconecta o indivíduo de sua realidade presente, realidade esta geralmente cheia de embaraços e obstáculos. Frequentemente estes obstáculos são considerados incômodos e o pressionam a esquecê-los, escondê-los em expectativas e desejos solucionadores.

Estar desconectado da realidade, seja por negá-la, desconhecê-la ou detestá-la, cria interrupções destruidoras da continuidade do estar no mundo, produzindo fragmentação e posicionamentos polarizadores de direções alheias às sequências processuais das vivências individuais. Este processo implica em perda de autonomia, gera insegurança e deixa a pessoa entregue às expectativas que escapam de sua ação e controle: ela se circunstancializa. Circunstâncias sempre são aderências, sempre são estruturadas em outros contextos diferentes daqueles aos quais contingencia, e viver em função de circunstâncias exila, aliena e segmenta, dificultando sequências relacionais.

Viver a circunstância é iniciar o processo de falta de motivação, de desânimo. Motiva-se quando atinge metas, embora nada continue, nada signifique pois as circunstâncias são anódinas, nada identificam, mesmo quando revelam e caracterizam situações. O bem de hoje, o péssimo de amanhã, esta reversibilidade estonteia, confunde e gera ansiedade. Quanto mais atinge objetivos, mais confundido, mais ansioso fica.

A ansiedade desorganiza, homogeneíza e transforma tudo em positivo ou negativo ao gerar valores, aumentando a circunstancialização e a expectativa. Ela cria autômatos que seguem ou evitam oscilações. Extenua, desanima e infelicita. Neste emaranhado, busca-se escapar, sonhar, desejar e consequentemente se estabelece as linhas de espera. Aguardar o que vai acontecer, inicialmente reforça os sonhos e desejos, para logo em seguida esvaziá-los. São como bolhas de sabão, sopradas e frágeis, arrebentando ao menor encontro, ao pequeno atrito com qualquer superfície delas diferente.

O cotidiano pautado na espera, desanima. Só se espera quando se abandona o presente, a realidade que se vivencia, o que define e nutre as vivências. Perdendo esta fonte alimentadora surge o enfraquecimento, o indivíduo fenece, desanima. Enfrentar o dia-a-dia, seus obstáculos, dificuldades e possibilidades, é sempre motivador. Evitá-los, substituindo-os pelo que se quer, pelo que se sonha e anima, é um deslocamento criador de desânimo e desvitalização.




“Esperando Godot”, de Samuel Beckett

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Thursday, July 16

Sincronização

Sincronização é vivencia do mesmo tempo. A fluidez do presente, a contínua passagem do tempo, permite, em seus instantes, esta vivência; faz com que o espacialmente distante fique próximo, tanto quanto faz com que o próximo seja distante. Ou como já foi expresso pelo poeta Israel Zangwill:


Um dia, estando entre nós dois o Atlântico,
senti a tua mão na minha;
Agora, tendo a tua mão na minha,
sinto entre nós dois o Atlântico.
- Israel Zangwill (1864 – 1929) -*


Sempre vivemos no mesmo tempo - o presente - e o presente sincroniza, entretanto, a espacialização do tempo é frequente. O autorreferenciamento, os desejos e necessidades de cada um, espacializam o tempo. As dessincronias surgem em função de valorações individuais. As sequências temporais são obturadas pela necessidade de focalização de cada um, gerando isolamento. Vivenciar o isolamento geralmente causa ansiedade pois atrapalha as expectativas e os processos de ansiedade quebram sintonias, apontando para os acontecimentos no sentido de evitá-los ou mantê-los. Saber, por exemplo, que todo dia, à mesma hora, o sol se levanta, encontrar regularidade e frequência, comprova expectativas que se realizam, mas as expectativas sempre extrapolam o vivenciado. Vivenciar o que acontece, sem estar preso às comprovações ou expectativas, permite participação, contemplação. Atalhos, pulos, indicam empecilhos, obstáculos, formações participativas arbitrárias, impedindo, portanto, a sincronização. Não havendo sincronização, instala-se a solidão. Sozinho se espera ajuda, participação, reconhecimento, sem se importar com a impermeabilização - com a solidão. Atribui-se críticas e culpas, assim como explicações revoltadas e vociferantes, como tentativa de reaver, de adquirir companhia.

A impermeabilização faz com que tudo que acontece seja tragado, engolido, embora sem deixar marcas, sem exibir trajetórias sequenciais. Este desenfreado engolir, este apoderar-se de vivências e acontecimentos, leva a constantemente verificar o que se tem conseguido, o que pode ser metabolizado, para que os processos alimentadores dos desejos se realizem. Viver em função do sucesso, do poder, de parcerias e prazeres, por exemplo, cria as intermináveis competições, gincanas, nas quais o mais forte, o melhor deve vencer. Esta vitória é também a consagração da solidão, não mais há com quem competir. Perde-se o semelhante, consequentemente as próprias características de sincronicidade, de participação, e nestes casos, o outro, quando apenas é um obstáculo ou um trunfo, deve ser banido como obstáculo, ou exibido como trunfo.

Sincronizar é coincidir, é encontrar o semelhante que constitui nossa humanidade, nossa temporalidade de ser no mundo.

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*  in Poesia de Israel - Tradução: Cecília Meireles


“Ser e Tempo” de Martin Heidegger

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Thursday, July 9

Apreensões

A vivência de apreensão resulta sempre de uma certeza desmentida. Acreditar em determinadas preferências, em determinadas antipatias, e subitamente ver todas as valências e sinais mudados, ver, por exemplo, que o quê se desprezava e desconsiderava começa a ser importante e motivador, gera inquietações, apreensões. Além de certezas transformadas, se transformam também os referenciais de confiança e aceitação. Nada é como antes, tudo é incerto, a desconfiança impera.

Estados de inquietação possibilitam dúvida, ansiedade e também mudança. Depois destas vivências, transformações se impõem, os questionamentos afloram e o indivíduo se descobre diferente do que era. Percebe, por exemplo, que o mundo do novo o atormenta, ou percebe que não pode abrir mão do que modela seu perfil - mesmo que ultrapassado e obsoleto - pois é ele, o perfil, que cobre suas inadequações e incertezas.

As inquietações não equacionadas, não resolvidas, criam ambiguidades relacionais, estruturam dilemas adiados por renúncia. Toda renúncia desfigura e faz perder flexibilidade, perder espontaneidade, tanto quanto gera certezas posicionantes e excludentes de dinâmica, excludentes de motivação que possa gerar apreensões. Neste sentido, podemos dizer que a insatisfação, a frustração, a ansiedade são um somatório resultante de inquietações congeladas, de questionamentos abortados.

Quando as inquietações são equacionadas, quando são resolvidas, horizontes se abrem, sejam eles os anteriores às vivências inquietadoras, agora vivenciados sem dúvidas, sem ambiguidades, sejam outros onde disponibilidade e novas motivações existem.

Viver sem inquietações, sem apreensões é possível quando se aceita a reversibilidade, estruturando flexibilidade, questionando impasses, ultrapassando ou detendo-se em limites. Por outro lado, posicionar-se nos limites gera uma vivência caótica do mundo, onde medo, ansiedade e apreensão são constantes cotidianas.



- “Hamlet ou Amleto?” de Rodrigo Lacerda

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Thursday, July 2

Pessimismo

Orientar a existência em termos de resultados cria tanto otimistas, quanto pessimistas. A antecipação, a expectativa gera insegurança criadora de confiança/desconfiança, otimismo/pessimismo. Controle para evitar, para antecipar, impedindo que condições adversas atrapalhem processos, é típico de pessimistas. O controle existe também no otimismo através da manutenção constante de tudo que traz bons ares, tudo que ajuda seus projetos.

Conviver com otimistas ou pessimistas é se inserir em cálculos repetitivos que desgastam a novidade, tanto quanto impedem surpresas. Tudo já é esperado, para o bem ou para o mal, e esta atitude amordaça o novo. As coisas sempre se repetem, dando certo, ou sempre dando errado, mostrando sua verdadeira face. Este tipo de avaliação é desgastante, não se vivencia o que acontece, apenas se utiliza, se sublinha acontecimentos para guardá-los na caixa boa ou na ruim. E assim o ser humano torna-se um robô etiquetador e tedioso.

Mães e pais não devem antecipar, não devem construir expectativas, tampouco exibir valores diferenciadores de vivências que apenas classifiquem o cotidiano. A vida é para ser vivida, não é para ser valorada. As fronteiras entre o bem e o mal são tênues, desde que tudo depende de motivação, de contextos. O bem de hoje é o mal de amanhã. Estabelecer fronteiras valorativas é sempre arbitrário e como tal, aderente, flutuando entre os conceitos de adequado/inadequado e apenas criando objetivos não globalizantes.




- “Nos cumes do desespero” de Emil Cioran