Thursday, April 25

Desconfiança

Como seres humanos somos sistemas relacionais, pontos de convergência/divergência de inúmeras variáveis, somos necessidades e possibilidades de relacionamento.

Viver em função de satisfazer necessidades, posiciona. Esse posicionamento estrutura autorreferenciamento. No autorreferenciamento procura-se verificar conformidades, confrontar regras e padrões, pois acha-se que é isso que une, que gera familiaridade e confiança. A atitude decorrente dessa estruturação autorreferenciada é a avaliação: verificação do outro e dos acontecimentos da vida.  Constantemente medindo e avaliando, consegue decidir, aproveitar o máximo e atingir os ideais familiares e comunitários. Dessa forma, passa-se a viver sem confiar no que ocorre, no que  percebe: nada se explica por si mesmo, tudo deve ser verificado. É a falta de espontaneidade equivalente à pesquisa cadastral e curricular para que se possa entrar em contato com o outro. A confiança assim adquirida é fruto de manipulação e de regras esquematizadas: encontrar o parelho, o confiável é, então, um processo cujos caminhos são determinados por clichês e estereótipos. As aderências são transformadas em características intrínsecas. O preço pago por essa violentação é não discernir, não saber o que está acontecendo, com quem se está.

Viver desconfiado é viver isolado desde quando o outro é percebido, dentro do autorreferenciamento, como um apêndice, uma peça instrumental que ajuda ou atrapalha.

Desconfiar é estar à mercê, é não saber, não configurar, não globalizar o que ocorre. Confiar pode levar a engano, mas não deixa ninguém inseguro, sem discernimento ou à mercê do que ocorre. Para confiar é necessário não estar autorreferenciado, é preciso autonomia para ser com o outro e descobrir o novo que nega o anteriormente vivenciado ou o lança em outros contextos, em redes relacionais.

Confiar é imunizar-se para decepções desde que ao confiar não existe expectativa, regra ou desejos a serem preenchidos.













 


- "Toda Poesia" de Leminski
- "Lógica do Pior" de Clément Rosset


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Thursday, April 18

O cérebro é o outro - Neurociência e elementarismo

As relações entre físico e psíquico, entre corpo e alma, orgânico e psicológico são padrões conceituais responsáveis por reducionismos dualistas desde Descartes - marco fundamental das investigações psicológicas ditas subjetivas. Atualmente, a Neurociência sobressai-se neste reducionismo dualista ao repaginar William James, que se interessava pelo estudo dos limiares perceptivos, tendo estudado no laboratório de Wundt em 1879. William James foi o criador da teoria das emoções com base fisiológica. Ele dizia: "nos sentimos tristes porque choramos, sentimos raiva por tremermos e não o contrário", enfim, postulava que era a modificação orgânica, neurológica que criava a emoção. Assim ele validava neurologicamente o que ele chamava de consciência motora*.

O princípio isomórfico (isomorfismo) estabelecido por Koehler e Wertheimer em 1912 - psicólogos fundadores da Psicologia da Gestalt - diz que a toda forma neurológica/orgânica corresponde uma forma psicológica; por exemplo a percepção visual decorre de haver um aparelho visual (olho e sua estrutura orgânica/neurofisiológica) relacionado com um contexto cujos objetos e iluminação são focados, percebidos.

Acredito que toda a psicologia, filosofia e ciência podem partir do conceito de relação: como ela é estruturada, qual sujeito e objeto são seus fundantes e possibilitam seu significado, eficácia e operação, explicando os processos relacionais. Perceber é estar em relação com. Este relacionar-se é o que permite unificar as dicotomias entre orgânico e psicológico, entre organismo e meio. A relação estabelecida pelo voltar-se para as coisas é a intencionalidade, a consciência husserliana.

As relações cognitivas - conhecimento e significado (categorizações), percepção e percepção da percepção são estruturadas perceptivamente. Os gestaltistas alemães descobriram, experimentalmente, leis que regem o processo perceptivo cuja base é a Lei de Figura/Fundo. Toda percepção se dá sempre em termos de Figura/Fundo. O percebido é a Figura, o Fundo nunca é percebido, existe uma reversibilidade, uma modificação entre o que é Figura e o que é Fundo. A Lei de Figura/Fundo explica o que é percebido e o que não é sem necessidade da construção teórica ou hipótese do inconsciente, seja no sentido freudiano, seja o 'lui' lacaniano, seja o subliminar da neurociência.

Quando a Neurociência fala no subliminar como o equivalente ao inconsciente, atualiza Freud mantendo todo seu reducionismo. O cérebro evolutivo tem a última palavra como diz Leonard Mlodinow em seu livro "Subliminar": "Quando tentamos dar uma explicação para nossos sentimentos e comportamentos, o cérebro realiza uma ação que sem dúvida o surpreenderia: faz uma busca no seu banco de dados mental de normas culturais e escolhe algo plausível. Por exemplo, nesse caso o cérebro pode ter procurado no registro: 'por que alguém gosta de festas' e escolhido 'as pessoas' como a hipótese mais provável"… ou ainda, conforme citação do mesmo autor relatando o que ouviu de outro conhecido neurologista: "eu penso sobre meus sentimentos, minhas motivações. Falo com meu terapeuta sobre eles, e finalmente saio com uma história que parece fazer sentido, que me satisfaz. Eu preciso de uma história para acreditar. Mas, será verdade? Provavelmente não. A verdade real está em estruturas como meu tálamo, hipotálamo e amígdala, e a isso eu não tenho acesso consciente, não importa o quanto sonde meu interior". **

Explicar o comportamento humano, as ações sociais e psicológicas por este reducionismo neurológico, serve apenas para criar modelos e paradigmas úteis a políticas e ações mercadológicas. Pode ser que em um planeta povoado por 7 bilhões de pessoas, próximo a 8 bilhões, seja necessário e útil este arsenal, estas ferramentas para, por exemplo, dar novo significado à canibalização, explicar que ela é uma forma de suprir proteinas ou ainda dizer que proibir a reprodução humana tem como objetivo salvar o planeta; que viver é funcionar produtivamente e este é o futuro deste enorme contingente de pessoas medicalizadas e homogeneizadas. Os neurocientistas postulam que a evolução fundamentalmente não projetou o cérebro humano para entender a si mesmo, mas sim para nos ajudar a sobreviver.

Diante de tudo isto, deste caos, penso que precisamos de perguntas que globalizem contradições, unifiquem divisões, por isso devemos fugir das respostas esclarecedoras e facilitadoras que criam o dividido para poder governar, poder controlar seus resíduos e fragmentações.

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* Esta teoria da consciência motora, permitiu criar instrumentos para estabelecer diferenças individuais, inclusive diferenças de personalidade, como o PMK (Psicodiagnóstico Miocinético) criado por Mira y Lopez e ainda muito usado na segunda metade do século passado.

** "Subliminar - como o inconsciente influencia nossas vidas" de Leonard Mlodinow, pags 227 e 212, Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 2013



- "Subliminar - como o inconsciente influencia nossas vidas" de Leonard Mlodinow
- "E o cérebro criou o homem" de António R. Damásio
- "A realidade da ilusão, a ilusão da realidade" de Vera Felicidade de Almeida Campos


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Thursday, April 11

Avatar

Relacionamentos com o outro em função de contextos e situações vivenciadas em comum, tendem a se transformar ou a estagnar. As transformações são realizadas pelo processamento, pela continuidade do próprio relacionamento, do diálogo e encontro. Estruturam-se novas dimensões, surgem detalhes e intimidades são estabelecidas.

Quando o desenvolvimento relacional é baseado no que se deseja mostrar, manter ou conseguir, não surgem novos contextos relacionais, e ficar dando voltas em torno do mesmo ponto esvazia, monotoniza. É a repetição, é o embaçamento do que poderia ser novo, do que poderia brilhar, do que poderia aparecer. A segurança de ser aceito dentro dos padrões mantidos é tão esvaziadora quanto, por exemplo, o que se vive na esfera da família, na qual o que aparece, muitas vezes, é apenas o apoio institucional da mesma.

O indivíduo camuflado, escondendo a si mesmo, é transformado na imagem fabricada, no avatar* escolhido. Essa clandestinidade - contato com o escuso - é o previsível que despista, engana e passa a existir como promessa e compromisso.

Relacionamentos que se mantêm dentro de parâmetros estáticos, que não se dinamizam, que não estabelecem intimidade, significando, apenas, enquanto referências situacionais, funcionam como avatares. Alguns "relacionamentos afetivos", depois de alguns anos, podem ser representativos de tédio, manutenção e obrigação. Famílias que se mantêm valorizando obrigações, compromissos, regras e deveres, são, com o passar do tempo, esvaziadas, encobertas por ícones: o pai, a mãe, os mais velhos que precisam ser cuidados e, também, a ideia de que deve ser retribuído o recebido. A vivência de gratidão/ingratidão é uma maneira de desvitalizar os relacionamentos. As retribuições são tão nefastas quanto as desconsiderações, desde que normatizam regras e acertos e, assim, não há espontaneidade.

O familiar é o íntimo, não é o que apoia, o que ajuda e é ajudado. Família pode ser transformada em avatar mesmo quando significativa de amor, gratidão, ressentimento, mágoa e frustração.

O próximo é o distante, o distante é o próximo. Distância não existe quando há integração. O íntimo, o familiar, sempre é o outro que tem cara, luz e cor; não é aparência, nuances, texturas estampadas em suas coberturas e máscaras.

Avatares estão atuando não só no mundo virtual, mas em toda parte, sempre que se age através de aparências construídas.

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* Avatar é uma palavra que vem do sânscrito 'avatara'; literalmente significa "descida" e se refere à manifestação ou aparição da divindade. No hinduísmo a palavra está mais associada à mitologia de Vishnu com seus inúmeros avatares ou encarnações. A partir dos anos 80, o nome avatar foi muito usado em um jogo de computador e desde então passou a ser comum tanto na mídia, quanto em informática, referindo-se a personagens criados por um usuário nas redes de relacionamento ou outros ambientes virtuais.




- "Costumes em Comum" de E.P.Thompson
- "O Último da Tribo" de Monte Reel


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Thursday, April 4

Prazer e tédio

O pragmatismo é sempre alienador, transforma o humano em um instrumento qualificado para o exercício de funções. Este reducionismo, inicialmente eficiente e prazeroso, torna-se tedioso. A mesmice esgota necessidades e reaviva o limite e consequentemente as metas de ultrapassá-lo.

A trilha do processo, quando muito nítida, quebra a reversibilidade perceptiva*. Tudo se torna rígido, claro e limpo e não satisfaz, mas, é a partir desta rigidez que tudo é percebido. Congelar o processo, estabelece o caminho, entretanto, saber que sempre que se deseja se realizará o prazer, gera um mundo dilacerado, estático. Consideremos o que sente um drogado: depois de algum prazer conseguido, o prazer passa a ser significado pelo aplacamento do incômodo do não prazer. A imobilidade pontualiza, fragmenta.

A busca do prazer sexual muito cedo, por exemplo, na infância e adolescência, quando outros referenciais estão surgindo que não os de satisfação sexual, é responsável por tédio e esvaziamento. Adolescentes, que desde os 14, 15 anos se dedicam a satisfazer suas demandas sexuais, entediam-se seja pela continuação do exercício da sexualidade, seja por percebê-la como mecânica, repetitiva.

A continuidade da vivência prazerosa, ao fragmentar-se pela densidade rígida do previsivel, cria depressão. Manter o que dá prazer, o que se conseguiu, o que aplaca, é monótono - não motiva. Surgem rituais e derivativos para ver se alguma mudança ou colorido é conseguido. Perde-se de vista o que dá prazer ao dedicar-se aos caminhos que propiciam o prazer. Este disfarce, instala esforço, trabalho, desgaste, mais tarde recuperado e causador de prazer. O prazer ao virar consequência quebra a relação direta e assim se preenche vazios, estruturando, descontinuidade, tédio e monotonia.

Motivação é curiosidade, sem dinâmica nada é novo, tudo que acontece é o que se espera que aconteça, a vida fica tediosa, previsivel, monótona, desprazerosa.

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* Reversibilidade perceptiva, lei da percepção: o que se percebe é a Figura, estruturada em um Fundo não percebido, quando o Fundo é percebido ele se torna Figura; são reversíveis, a Figura se transforma em Fundo e vice-versa.















 

"Confissões" de Sto. Agostinho
"Guerras do Prazer" de Peter Gay


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