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Showing posts from 2018

Proselitismo

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Os prosélitos, os que foram atraídos e recém convertidos para religiões, partidos, seitas ou doutrinas são também os neófitos, ou ainda, os arrebanhados por catequeses e acenos de vantagens propiciadoras de poder ou de bem-estar. Quem mais arrebanha e aumenta suas fileiras é aquele que constrói poder, que ganha força para deliberar, rejeitar e aceitar. Lutar e catequizar são maneiras de conseguir prosélitos, fanáticos, militância aguerrida para manter suas conquistas de poder, trabalho, dinheiro ou vida eterna, a felicidade no reino dos céus.
A acomodação, o se apegar às tábuas de salvação, identifica e ampara os prosélitos. Não podem perder o conquistado, não podem deixar o reino de Deus ser ameaçado (amaldiçoado); partem, então, para criminalizar, destruir, matar o que ameaça, o que já foi conseguido; nada pode desacomodar o que foi conquistado. Acomodação é um dos mais perigosos sinais de alienação. É por meio dela que o outro é destruído: “imigrantes vão tirar nosso conforto” diz…

Mutilações e realizações (BIID)

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Os processos da alienação, da não aceitação do próprio corpo robotizam em relação ao mesmo, atingindo dimensões incomensuráveis e espantosas. Outro dia, lendo, fui surpreendida pelo conhecimento da Body Integrity Identity Disorder (BIID), Transtorno de Identidade de Integridade Corporal, TIIC como é conhecida em português. A BIID é rara, pouco estudada e de condição escondida, secreta. Consiste no desejo de mutilar-se e na realização de amputação de membros saudáveis (pernas, braços) ou em mutilações como provocar cegueira em si próprio ou quebrar a própria coluna vertebral. Nela existe fundamentalmente um desacerto, um desencontro, uma não aceitação entre o corpo que se deseja e o corpo que se vê. Nesse sentido, a BIID se insere em toda a problemática do desejo, meta, não aceitação, em medos e dificuldades, ou até mesmo na clássica definição de Krafft-Ebing sobre parafilias, expressa em seu livro de 1886: Psychopathia Sexualis.
O característico dessa não aceitação, dessa não integra…

Ciladas da sobrevivência

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Transformando suas possibilidades em necessidades, vivendo em função de acomodações e medos, de inseguranças e dificuldades de enfrentar o que ameaça e compromete, o ser humano é aprisionado nas suas dimensões de acomodação.
Estrangulando suas possibilidades de mudança, de transformação, cada vez mais ele se confina, se situa no que o apoia, no que lhe permite exercer seu bem-estar: dormir, comer e manter mínimos prazeres de boa convivência, sexo e imagens sociais.
Quando isso é ameaçado, não sabe como agir. Angustia e ansiedade são seus orientadores comportamentais e assim ele descobre que morrer - se suicidar - é uma forma de sobreviver. Realiza seu lema: quando não aguentar, quando não mais conseguir, morrer. Suicidar-se é a saída de emergência, é o capital, a reserva que garante e permite exercício de irresponsabilidade, parasitismo e dedicação ao seu jeito de ser, aos seus vícios, hábitos e medos. A própria angústia é a bola de neve, que para ser evitada o lança no precipício …

Desprendimento

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Abnegação e renúncia frequentemente escamoteiam medo (omissão) e impotência, tanto quanto se constituem em investimento para realização de papeis sociais como os de pessoas de boa alma, simples criaturas nada ambiciosas mas capazes de ajudar o próximo, justificando as instituições que as amparam.

Desprendimento é generosidade. Existe apenas quando exercido por pessoas disponíveis. O não estar comprometido, o não estar voltado para o depois, permite que se seja desprendido frente a obstáculos e impasses. Abrir mão é neutralizar o conflitivo, tanto quanto abdicar é permitir o aparecimento de outros processos, outras configurações, nas quais novas realidades e motivações se desenvolvam.
Quando os conflitos são neutralizados inauguram-se outras esferas para a continuidade e ela é restauradora: o quebrado é transformado. Abrir-se ao novo, tanto quanto possibilitá-lo, depende de perceber o outro, seus impasses e dificuldades. Este caminhar junto, acompanhar é empático, é simpático.
Abnega…

Insaciabilidade

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É insaciabilidade querer conseguir mais para garantir o próprio futuro e segurança, para não morrer por falta de cuidados. Esperar o pior e o súbito e estar para eles preparado é o objetivo característico dos processos de não aceitação de limites, de não aceitação de impossibilidades e da realidade.

Viver sozinho e querer a qualquer momento ter alguém apto a ajudá-lo, por exemplo, é desespero configurado pelo impossível desejado. Para esses indivíduos, deve acontecer o que é necessário em função de seus problemas e demandas que precisam ser resolvidas, não importando o fato de não existir condição para satisfazer esses desejos; o que importa é acontecer o resultado almejado. A vivência desse constante impedimento, causado pelo paradoxo não atendido, cria atitudes de expectativa, de ansiedade, orientadas para predar. Dos filhos, empregados, sem esquecer os vizinhos e amigos, todos são vistos como reservas para as horas difíceis. Os estoques do que pode ser utilizado acarretam também …

Desacertos e regras

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Quando existe não aceitação de si e dos problemas resultantes dos compromissos e obrigações cotidianas, surgem desespero e frustração, e nesse contexto é comum o deslocamento de problemas, chegando mesmo a ocorrer imobilização por doenças que inviabilizam o dia-a-dia e criam novas rotinas.
Assim, após esse descanso, essa descontinuidade ocorrida pelos deslocamentos, pelas doenças, o indivíduo retoma suas atividades, suas funções muitas vezes execradas em relação à família por exemplo, ao trabalho e até mesmo aos filhos. Na retomada dos afazeres e relacionamentos é necessário apoio, uma base que permita ação, desde que a motivação é impossível diante do que aborrece, do que não se gosta. Neste momento a culpa aparece e é uma varinha de condão eficiente para organizar o cotidiano, para criar regras, determinar o que se pode e o que não se pode fazer, e então, pelas regras adotadas e cumpridas, atinge-se paz e tranquilidade. 
As regras também exigem preocupação, cuidado, ocupam o temp…

Nó Górdio

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No centro da atual Turquia, próximo a Ankara, ficava a antiga cidade mais importante da Frígia: Gordion. Pouco se sabe da história da Frígia além dos mitos que envolvem seus reis Górdio e Midas. Em um desses mitos a linhagem dos dois reis é contada a partir de Górdio, o camponês que virou rei. O antigo rei da Frígia não tinha herdeiros e quando morreu o Oráculo disse que o rei sucessor chegaria em um carro de bois. Quando um camponês, chamado Górdio, chegou à cidade em seu carro de bois, foi coroado rei, e em seguida colocou a sua carroça no templo de Zeus amarrada com um nó forte. Esse nó ficou famoso por ser muito difícil, até impossível de ser desatado, ficando conhecido como o nó górdio. Górdio teve apenas um filho, chamado Midas, que o sucedeu no trono, mas que, por sua vez, não teve filhos, não deixou sucessores. Consultando novamente o Oráculo ficou estabelecido que quem conseguisse desatar o nó de Górdio seria o próximo rei e dominaria todo o mundo. Séculos se passaram sem qu…

Descobertas

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“Duas linhas são iguais se elas coincidem” é um dos enunciados da geometria de Euclides.
Isso parece óbvio, mas não é quando tentamos entender o que significa igualdade. Parâmetros e instrumentos são necessários para essa verificação. Medir, comparar são formas de verificar.

Caso não se lance mão de outro parâmetro além das linhas em questão, como compará-las? Considerando o enunciado do próprio Euclides: pela coincidência. Essa redução das duas linhas a elas próprias implica encontro, nada mais que isso. Assim, a igualdade surge, ou seja, é igual pela absorção, quando uma linha encontra a outra e nela se perde, se completa. O diferente é o mesmo, o duplo, agora, é a unidade.
Essa possibilidade de integração é o que norteia e determina a trajetória do humano quando percebe o outro. Essa integração decorrente do encontro, essa coincidência, não é muito frequente, pois a fragmentação dos processos quebra a continuidade e estabelece óbices, os pontos de dificuldade e de quebra, e assim…

Insinuação de presença

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A insinuação de presença - outro dado e contexto - é realizada pela transformação da parte em todo, por meio da closura, fechamento e complementação do percebido, que colocado em seus contextos anteriores recupera totalidades. A complementação do insinuado, apresentado e percebido, é feita com auxílio da memória, de outra Gestalt, outra forma, outro contexto que alavanca e cria novas direções, completando o vazio, a ausência do que não se mostra, do que não aparece. Percepção de ausências, senhas para continuidade, pinceladas reconstrutoras, como por exemplo ver o sapatinho do filho no meio da casa, desencadeia medos e apreensões. A foto que ilustra este artigo, retirada do livro O Destino da Africa*, faz perceber a tristeza do pai ao ver o que restou de sua filha, reconstituindo-a para nós. Existe apenas o resíduo - a mão e o pé da criança - demonstrativo de todo o horror desumanizador exercido pelo rei Leopoldo no Congo.
A reconstrução do todo por meio de suas partes é frequente, é…

Voltar e sair

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Às vezes a única saída é voltar. Quando se está preso ao percebido como irremovível é difícil sair, é difícil se movimentar. A constatação desse limite permite soluções, perceber, por exemplo, que a única maneira de sair do impedimento é a ele voltar. O deslocamento realizado pelas saídas prováveis ou não existentes é uma forma de se afastar a fim de conseguir realizar a quebra dos impedimentos. O medo imobilizador, a omissão que impede movimentos é resolvida quando se configura a realização do que é necessário fazer para cumprir as obrigações e eliminar os limites impeditivos.

Voltar, consertar falhas, suprir dificuldades é o que permite sair das mesmas. Recuperar os indivíduos dos fracassos admitidos permite ações liberadoras. Admitir os problemas é uma maneira de aceitá-los e, assim, começar a transformá-los. Voltar ao que se quer largar, entendido como responsabilidades não aceitas, permite saída. É a constatação da impotência que ocasiona possibilidade de mudança.

Situações limi…

“É milagre ou ciência?”

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“We are not sure if this is a miracle, a science, or what. All the thirteen Wild Boars are now out of the cave” - Royal Thai Navy
(“Não temos certeza se isso é um milagre, se é ciência ou o quê. Todos os treze Javalis Selvagens estão agora fora da caverna”)

Foi assim que o Comandante da Royal Thai Navy anunciou o fim do resgate bem sucedido do time de futebol juvenil tailandês, 12 crianças e seu técnico, que passaram 18 dias presos em uma caverna, em condições extremamente adversas, sem alimentação, sem água potável, sem luz solar, sem saída.
Esse espanto é a consideração significativa, a constatação do surpreendente e inesperado, da alegria diante das vidas salvas, tanto quanto é o deslumbramento pela resistência das crianças e admiração pela tecnologia, a engenharia utilizada para salvá-las. Abrir caminho na caverna inundada e vedada por lama e água, transportar oxigênio em completa escuridão por aberturas tão estreitas que mal permitem a passagem de um adulto é estarrecedor, foi um…

Orar, acreditar e esperar

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Quando se sente impotente ou acuado e quer uma saída, amplia o desejo de solução rezando e esperando. É tão intenso o deslocamento das impossibilidades que os cascalhos ou resíduos da tensão construirão caminhos para solução dos impasses. Assim, rezar, fazer promessas para conseguir o emprego, dá a certeza que o emprego virá.  É instalado o universo mágico no qual a espera é solidificadora, pois tudo virá a seu tempo. Não há ansiedade, ela é substituída pela fé e os rituais (compulsões) que a entronizam.
A transformação do desejo, sustentada pela impotência, cria, por meio do deslocamento, a esperança e o otimismo. A fé é o pilar que tudo sustenta e este outro mundo criado, aos poucos é corroído pelas areias e pedras da realidade. Os suportes dessa crença, dessa fé decorrente do deslocamento da impotência, é sustentado pela alienação e medo, portanto, quanto mais se humilha, mais vitimização e necessidades nutrem seus sonhos e desejos. Jogar os desejos na infinitude da espera e da es…

Mistério e obviedade

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Outro dia li no Brihadaranyaka Upanishad4.2.2: “The Gods, it seems, love mistery and hates the obvious” (“Os Deuses, aparentemente, amam o mistério e detestam o óbvio”).

Não se pode, não se deve amar o óbvio? O explícito é desprezível? O simples deve ser descartado? O raso, o superficial é bobo? Só é dignificado o trabalhoso? O misterioso? O que não se dá e não se oferece?

Sempre surgem planos diferentes do que está aí. O aqui-agora fracionado é um ângulo para manter dualidades. O misterioso, o incrível, o indecifrável, o instigante caracterizam o suposto mundo dos deuses. Mistério é o que envolve essa realidade.

Não há outro mundo salvo o que percebemos e vivenciamos aqui e agora.

O que se apresenta na evidência do encontro é o outro. Perceber é conhecer, conhecer é aproximar, constatar, integrar - amar. Mistério é o suposto, o desconhecido ou imaginado como deslocamento do existente insatisfatório, incompleto e incongruente.

Como amar o inexistente? Como amar o não conhecido? Por …

Adivinhação

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Quando eventos, desejos ou projetos são estabelecidos em função de resultados a expectativa do que vai ocorrer, a expectativa do final cria ansiedade, medo, desejos e insegurança. Antecipar o resultado por meio de adivinhação diminui a ansiedade, reciclando-a, deslocando-a para outros níveis.
As pequenas adivinhações como, por exemplo, estabelecer que se o primeiro carro que passar for vermelho significa que tudo vai dar certo, o sim ou não respondido pelo mal me quer/bem me quer, Tarot, Jogo de Runas, Jogo de Búzios etc. funcionam como aplacadores, que supostamente garantem o resultado e escoram a ansiedade, mas também geram dúvidas, reeditando a ansiedade de outros modos.
Sistemas de adivinhação são encontrados em várias culturas e se lança mão desses dispositivos em inúmeras situações. Antecipar resultados é uma maneira de exercer controle, de ficar tranquilo esperando a certeza, a comprovação do antecipado. Um exemplo atual de previsão, que mobilizou inúmeras pessoas, começou co…

Solidão e suas implicações

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Solidão é o tema preferido dos talk shows, programas de autoajuda, reuniões de amigos, reuniões de apoio à terceira idade etc. Ter que evitar a solidão ou se preparar para ela ou descobrir os encantos da mesma é o leitmotiv de inúmeras pessoas.
Somos seres em relação, nunca estamos sozinhos, tanto quanto por sermos enquanto relacionamento, sempre estamos sós. A questão da solidão só se coloca na dimensão espacial e aí sempre somos sós: a matéria não ocupa o mesmo lugar no espaço.
Vivencialmente - enquanto temporalidade - nunca estamos sós. O outro, os outros sempre estão conosco seja no presente, seja no passado pela memória, ou no futuro pela antecipação do que vai se realizar ou complementação do que se realiza.

Estar só é estar sem malhas relacionais, é uma abstração que não subsiste. Não existe solidão, sempre estamos com o outro, com os outros participando, omitindo, amando, odiando.
Estar entregue a si mesmo é quase um desprendimento, um artifício, como pôr entre parêntese tod…

Omissões e conveniências

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Certas contradições, quando não enfrentadas, banalizam o paradoxal. Como não enfrentar o marido que espanca? O patrão que sonega direitos? O colega que humilha? A conveniência, o levar alguma vantagem funciona como impermeabilizadora do conflito, da contradição, transformando ângulos em retas. Nada acontece, tudo é igual. Essa não diferenciação, essa homogeneização de atitudes cria espaços infinitos que permitem deslocar os problemas. Não é o disfarce, o não perceber, é o não agir por conveniência, uma omissão que tenta adiar o inadiável, negar o evidente e explícito. Tais contorcionismos geram tensão, dores em todo o corpo além de pressões responsáveis por desejos, raiva, inveja etc.
Omissão por conveniência estabelece condições para ampliação da não aceitação de si mesmo, aumentando também a necessidade de deslocamentos, desde o abrir mão de direitos para escamoteamento de atitudes, até o chorar e suplicar, como mendicante, por melhores dias, melhores condições, cuidado e apoio.
No…

Desatando nós

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Para resolver um problema, uma questão é necessário se dedicar ao que desafia, ao que cria complexidades, ao que problematiza. Enfrentar a problemática é o requerido, independente de se ter ou não condições de resolvê-la. Inicialmente se deter, encontrar o problema, a dificuldade é o que possibilitará acesso a sua resolução. Sem encontro não há constatação, não há diálogo.

Constatar um problema, uma impossibilidade, causa sempre estranheza e remete à convicção de ter condição ou não de modificar o que problematiza. Esse momento de constatação, quando é ambíguo, quando vivido autorreferenciadamente, adia solução, transforma o problema em justificativa de avaliação, criando a famosa descoberta de que “não poderia fazer nada!”. Estar submisso, amassado pelas impossibilidades é, para muitos, solucionador e absolvedor.

Avaliar, medir é uma maneira de fugir do confronto, da ação, da mudança. Não é o que pode ser feito que desata nós, é o que precisa ser feito que os desata, muda posiciona…

Descontinuação

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Conviver com a continuidade dos processos geralmente cria dificuldade quando se está autorreferenciado. Focado em resultados, em pontos a conseguir - da boa forma ao poder e estabelecimento de patrimônio - perceber o contínuo é congestionante quando mudanças e modificações são insinuadas. A continuidade dos processos, o estar no mundo, às vezes, é vivenciado como avassalador. Antídoto a essa possibilidade de mudança e de interrupção pode se configurar na construção de abrigos ou diversificação do caminho que estabelece rotina, escolhendo as próprias rotinas. Saber o que fazer do próprio dia, do cotidiano é uma maneira de ter autonomia, de decidir. Acontece que a realidade e continuidade dos processos existem e ultrapassam as determinações individuais e quando são evitadas fica difícil tolerá-las, aceitá-las. A interrupção de um casamento, de um relacionamento, a mudança de um hábito por causas alheias à própria vontade, irrita, muitas vezes é causa de depressão, quando se tentava tud…

Unilateralizações

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Sempre que se nega as consequências e implicações de atos e desejos são construídas responsabilidades, mentiras e disfarces (imagens e máscaras) como forma de lidar com o outro, consigo mesmo e com as próprias limitações, dificuldades e vícios.
Tudo que se faz ou não se faz implica em alguma coisa, desde que somos enquanto relação com o outro, consigo mesmo e com o mundo. Eternizar e manter posicionamentos como absolutos é mais um faz de conta destruidor. Todo relacionamento gera posicionamento, gerador de novos relacionamentos indefinidamente. Mesmo nas necessidades biológicas ou orgânicas isso é visto: excesso ou falta tanto alimentam quanto adoecem. Dormir é descansar e é também sedar e alienar a depender da intensidade com que é exercido. Comer sustenta e destrói sob forma de inúmeros desequilíbrios metabólicos: dos açúcares às gorduras até a carência ou excesso de tais substâncias. O mesmo se dá com as satisfações e insatisfações sexuais.
Tudo que problematiza, soluciona, se en…

Anseio e desistência

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Atitudes de heroismo, luta e resistência são frequentes na não aceitação de limites, não aceitação do presente e não aceitação do que pode ser feito pelo outro. Não desistir dos sonhos e dos objetivos, lutar contra fantasmas e moinhos de vento como os supostos por Dom Quixote - herói assolado pelos desejos de paz, amor e harmonia - é o pretexto, a justificativa para manter a não aceitação dos obstáculos que impedem a realização dos desejos. 
Dom Quixote é um louco libertário, ao passo que não aceitar a realidade imposta pela doença por exemplo, pela separação não desejada ou acidentes fatais, é se reinventar capaz de juntar os pedaços, o fragmentado de toda uma existência na tentativa de compor algo significativo. Essa aspiração, esse desejo negador do que se vivencia é esvaziante, desconecta o indivíduo de si mesmo, do outro e do mundo. As consequências desse processo oscilam entre persistência para tudo conseguir e para não desistir até a constatação de total vazio, queda e imposs…

Raiva - Hybris do não ser

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Exagerar é transbordar limites e medidas. É o copo de cólera, a gota d’água que inunda, o desespero, a maldade quando posicionada na frustração causadora de ódio e raiva. Querer “dar uma lição”, querer “destruir o que atrapalha” cega diante da intensidade do obstáculo vislumbrado como impedimento.
Ficar raivoso é se apoderar, compactar todos os fragmentos estruturantes de sua alienação, de seu desejo ameaçado. Essa compactação do fragmentado é desesperadora. Não há como unificar o disperso, caso não se use um polarizante. Esse lançar mão de aglutinadores, catalisadores de ordens não intrínsecas e constituintes do vivenciado, é alienante.
Sôfrego, ansioso, de boca aberta para ser alimentado, ser ajudado, o indivíduo se despersonaliza e assim é obrigado a se segurar no polo que o desestabiliza: sua incapacidade. Constatar a falta de condição e a dificuldade é combustível, é propulsor. Dinamizado pela impotência, pela falta de condição na realização de seu desejo, de sua vingança, começ…

Falhas e frustrações

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Viver em função da realização de objetivos gera atitudes determinadas, voltadas para vencer obstáculos que são considerados como o que atrapalha ou pode atrapalhar a realização de tais objetivos ou metas. Esse tipo de atitude privilegia o depois, o futuro, o que se quer construir e realizar.
Vivemos em universos relacionais, ou melhor, tudo que nos situa e configura é relacional. Implicações são nossos constituintes situacionais. Dedicar-se ao futuro, ao depois é abrir mão do presente, do agora e voar em direção aos objetivos, às soluções e desejos. Isso faz com que se perca o chão, a base, ultrapassando limites que são também referenciais.
Cada vez mais desvinculados de seus limites e impotências, mais o indivíduo crê se preparar para grandes vôos e realizações. Vulnerabilidades surgem, inconsistências são mantidas e assim é estabelecido o “nada pode me atrapalhar, nada me deterá no caminho do meu sonho, da minha realização, vencerei”. Essa atitude, aparentemente decidida e determi…

Elogio

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Nossa época é avara em elogios pois é pródiga em autorreferenciamento.
Perceber o outro, reconhecer suas boas atitudes, seus limites e disponibilidade requer não estar autorreferenciado, centrado nos próprios propósitos, metas e desejos. Para estar com o outro é necessário não se contextualizar no próprio campo de referências de metas e desejos, pois nesse contexto, quando o outro é percebido e faz algo passível de elogio, geralmente esse instantâneo elogio não se realiza pois é capturado pela inveja e pelo ciúme de quem o observa.
Para elogiar é preciso ficar diante do outro, admirando o feito, sem interesses dilapidadores. O mais simples e comum, o elogio, o reconhecimento, se transforma em imensa dificuldade, pois estabelece rinhas de concorrência e competição, responsáveis pelo isolamento.
O elogio é um ato de justiça e é também encontro, tanto quanto é transcendência dos próprios limites. Muito importante no processo de socialização, é por meio do elogio que se estrutura reco…

O hábito aliena

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Repetir é esvaziar os processos que questionam, que perguntam. A continuidade das respostas faz com que se repita. Os acertos e congruências realizam objetivos. Não é necessário se deter, não é necessário perceber o que ocorre, basta manter, repetir.

Vidas assim processadas, transformadas em clichês, são referências cujos significados são determinados pelo consenso geral. São os posicionamentos engolidores das dinâmicas relacionais. Afirmações como: “isso precisa ser feito, é a regra, tudo vai depender dessas ações” equivale à criação de padrões e modelos determinantes de ajustes, de acerto e também de alienação.

Acordar com a surpresa de que a luz voltou, o dia nasceu de novo é o espanto, às vezes certeza, mas sempre a ideia de que o novo se inaugura. O repetido familiariza, não cria estranheza e o que é familiar é suave, é tranquilo, mas também é anestesiante, passa a esconder tudo que é diferente, que é novo. A mudança desbarata, estabelece busca de controle, mas é também o que po…

Comparação

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Comparar pessoas implica em mutilá-las de suas características ao encaminhá-las para referenciais nos quais comparar igualdades ou diferenças possam ser estabelecidos. Comparar implica sempre em avaliação, tanto quanto na existência de padrões e instrumentos para sua realização.
Todos nós, como seres humanos, somos iguais pois somos seres humanos. Essa igualdade passa a ser tisnada por incidências contextuais de nosso estar no mundo. Da língua aprendida à época vivenciada, diferenças são estabelecidas. Essas diferenças são fundamentais para identificar características externas, mas nada significam enquanto imanência humana.
A dispensa de diferentes critérios adotados pelos agrupamentos humanos estabelecem limites, fronteiras que vão desde a exterioridade da pele, até o íntimo da fé, da dedicação que caracteriza cada ser humano. Voltar-se para o culto da natureza, esgotar-se nos estudos e preceitos dos livros sagrados, por exemplo, cria sacerdotes, mestres, seguidores de letras, reg…

Caos e desorganização

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A desorganização solapa a continuidade dos processos. Ela é tão desestruturadora que enquanto se realiza, ao mesmo tempo, cria nova organização equivalente a uma organização desestruturada. Esse paradoxo fica inteligível se imaginarmos sistemas de referência, isto é, o organizado em relação a A é desorganizado em relação a B. Pensando no câncer, por exemplo, como desorganização de células, organizando-se de outra maneira, sua função é o crescimento anômalo.
Na sobrevivência, na submissão dos indivíduos que não se aceitam, que rastejam para serem amados e reconhecidos, isso também se observa. Organizar-se como vítima, estabelecer-se como humilhado é desorganizar iniciativas em função de sobreviver, de conseguir o que precisa não importa como. 
Vida é luta, é contradição e também é pacificação, nadificação quando se valoriza mentira e conveniência. Assistir a morte, as violências sofridas pelo outro e nada fazer é uma maneira de atingir o máximo de conveniências e vantagens: “antes ele…

Equilíbrio - Balança e Verificação

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Pesar implica em usar balança e pesos. Os sistemas de aferição são necessários para verificação e circulação de mercadorias e nesse sentido poderíamos dizer que o peso é a alma do negócio.
A ideia de pesar, medir, avaliar é frequente em várias civilizações que nos antecedem e são bem ilustrativos os mitos ritualizados e realizados no Egito, na India e na Suméria, mediados pelo conceito de medir e de constatar pela balança.

Os egípcios pesavam os pecados e as virtudes do morto no juízo final presidido pelo deus Anúbis que, levantando uma balança, colocava em um prato o coração do morto (o coração, para eles, era a sede da consciência) e no outro prato uma pena (a pena era o símbolo da verdade) enquanto a pessoa que acabara de morrer pronunciava sua declaração de inocência. Na India, oferecer ao deus o próprio peso em ouro, como faziam os reis, ou em grãos, como faziam os camponeses é uma prática descrita em vários épicos, como o Mahabharata por exemplo, e até hoje esse ritual - Tulab…

Coragem como tábua de salvação

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Estar perdido, enfraquecido, angustiado por não aceitar limites, por se sentir incapaz e impotente cria angústia, medo e ansiedade, atrapalha e impede realização de desejos que permitiriam atingir bem-estar e segurança. Não vive o presente, não se relaciona com o que tem, só espera o que precisa que aconteça - do príncipe encantado à torcida de que tudo vai se resolver, passando pela cura milagrosa de seus males, de suas doenças - e assim fica cada vez mais manietado pela incapacidade, sem perceber o que está diante de si.
Após muito desespero, o indivíduo descobre, por exemplo, que se tiver dinheiro, compra tudo que pode comprar. Pensa que tem que transformar sua fraqueza em força, tem que ter coragem e conseguir realizar o que deseja. Acontece que essa atitude significa a manutenção de sonhos e, ainda, de não aceitações, em outras palavras, de tudo que impede realização, de tudo que faz escorregar para as dimensões sonhadoras das expectativas e desejos.
Só há mudança quando nos ded…

“Qualquer coisa é melhor que nada”

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“Qualquer coisa é melhor que nada”. Essa é a frase e o pensamento constante de todo mendigo quando aceita sua condição de mendicante.

Equivalentes desse estado de mendicância e vazio encontra-se também em certos indivíduos. Outro dia li o “Instrumental”, de James Rhodes, que em seus relatos de vivência dizia que: “ser rejeitado era melhor do que nem ter a chance de ser rejeitado”.

Significa algo ser alvo de olhar, de esbarrão, ser uma possibilidade implícita de qualquer coisa mesmo rejeitada. Ser algo é ocupar um lugar, é ter massa e densidade. O esvaziamento das vivências cria buracos negros que implodem a individualidade.

Passar como se não existisse, ser não significante, em branco e desvitalizado cria dúvidas, impede encontros e constatações. Não cria contradições, não determina, e ainda, como o mesmo escritor dizia: “só dormindo, podia sonhar”, tudo lhe era negado, pois o outro existia apenas sob a forma de alguém que lhe dava injeção, administrava faxinas e impedia desorganiza…

A contradição inesperada

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Cair do pódio, descobrir que o sonho acabou, que o grande amor sumiu, é, frequentemente, inesperado, abrupto, pois o faz de conta, os anestesiantes escondem os processos, os esclarecimentos e evidências que a todo momento ocorrem.

Tudo que parece diferente do que era e do que se acreditava ser estabelece contradições. Entretanto, é a presença de outra realidade, de outros, que estabelece as diferenças, que revela essas contradições. As situações e as frustrações que delas decorrem são negadas até o máximo possível.

Ao estabelecer um ângulo zero, o caminho existe sem obstáculos, e aí tudo pode acontecer, inclusive o outro, outras situações contraditórias ao validado e convencionado.

O vazio enseja mudança que possibilita onipotência. De tanto não aceitar a impotência, a vivência frequente de frustração, o indivíduo desloca sua impotência, sentindo-se onipotente, enfim, sozinho, e assim, reedita suas metas e expectativas. São as contradições que geram questionamentos, pois na realidad…