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Showing posts from 2018

Solidão e suas implicações

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Solidão é o tema preferido dos talk shows, programas de autoajuda, reuniões de amigos, reuniões de apoio à terceira idade etc. Ter que evitar a solidão ou se preparar para ela ou descobrir os encantos da mesma é o leitmotiv de inúmeras pessoas.
Somos seres em relação, nunca estamos sozinhos, tanto quanto por sermos enquanto relacionamento, sempre estamos sós. A questão da solidão só se coloca na dimensão espacial e aí sempre somos sós: a matéria não ocupa o mesmo lugar no espaço.
Vivencialmente - enquanto temporalidade - nunca estamos sós. O outro, os outros sempre estão conosco seja no presente, seja no passado pela memória, ou no futuro pela antecipação do que vai se realizar ou complementação do que se realiza.

Estar só é estar sem malhas relacionais, é uma abstração que não subsiste. Não existe solidão, sempre estamos com o outro, com os outros participando, omitindo, amando, odiando.
Estar entregue a si mesmo é quase um desprendimento, um artifício, como pôr entre parêntese tod…

Omissões e conveniências

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Certas contradições, quando não enfrentadas, banalizam o paradoxal. Como não enfrentar o marido que espanca? O patrão que sonega direitos? O colega que humilha? A conveniência, o levar alguma vantagem funciona como impermeabilizadora do conflito, da contradição, transformando ângulos em retas. Nada acontece, tudo é igual. Essa não diferenciação, essa homogeneização de atitudes cria espaços infinitos que permitem deslocar os problemas. Não é o disfarce, o não perceber, é o não agir por conveniência, uma omissão que tenta adiar o inadiável, negar o evidente e explícito. Tais contorcionismos geram tensão, dores em todo o corpo além de pressões responsáveis por desejos, raiva, inveja etc.
Omissão por conveniência estabelece condições para ampliação da não aceitação de si mesmo, aumentando também a necessidade de deslocamentos, desde o abrir mão de direitos para escamoteamento de atitudes, até o chorar e suplicar, como mendicante, por melhores dias, melhores condições, cuidado e apoio.
No…

Desatando nós

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Para resolver um problema, uma questão é necessário se dedicar ao que desafia, ao que cria complexidades, ao que problematiza. Enfrentar a problemática é o requerido, independente de se ter ou não condições de resolvê-la. Inicialmente se deter, encontrar o problema, a dificuldade é o que possibilitará acesso a sua resolução. Sem encontro não há constatação, não há diálogo.

Constatar um problema, uma impossibilidade, causa sempre estranheza e remete à convicção de ter condição ou não de modificar o que problematiza. Esse momento de constatação, quando é ambíguo, quando vivido autorreferenciadamente, adia solução, transforma o problema em justificativa de avaliação, criando a famosa descoberta de que “não poderia fazer nada!”. Estar submisso, amassado pelas impossibilidades é, para muitos, solucionador e absolvedor.

Avaliar, medir é uma maneira de fugir do confronto, da ação, da mudança. Não é o que pode ser feito que desata nós, é o que precisa ser feito que os desata, muda posiciona…

Descontinuação

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Conviver com a continuidade dos processos geralmente cria dificuldade quando se está autorreferenciado. Focado em resultados, em pontos a conseguir - da boa forma ao poder e estabelecimento de patrimônio - perceber o contínuo é congestionante quando mudanças e modificações são insinuadas. A continuidade dos processos, o estar no mundo, às vezes, é vivenciado como avassalador. Antídoto a essa possibilidade de mudança e de interrupção pode se configurar na construção de abrigos ou diversificação do caminho que estabelece rotina, escolhendo as próprias rotinas. Saber o que fazer do próprio dia, do cotidiano é uma maneira de ter autonomia, de decidir. Acontece que a realidade e continuidade dos processos existem e ultrapassam as determinações individuais e quando são evitadas fica difícil tolerá-las, aceitá-las. A interrupção de um casamento, de um relacionamento, a mudança de um hábito por causas alheias à própria vontade, irrita, muitas vezes é causa de depressão, quando se tentava tud…

Unilateralizações

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Sempre que se nega as consequências e implicações de atos e desejos são construídas responsabilidades, mentiras e disfarces (imagens e máscaras) como forma de lidar com o outro, consigo mesmo e com as próprias limitações, dificuldades e vícios.
Tudo que se faz ou não se faz implica em alguma coisa, desde que somos enquanto relação com o outro, consigo mesmo e com o mundo. Eternizar e manter posicionamentos como absolutos é mais um faz de conta destruidor. Todo relacionamento gera posicionamento, gerador de novos relacionamentos indefinidamente. Mesmo nas necessidades biológicas ou orgânicas isso é visto: excesso ou falta tanto alimentam quanto adoecem. Dormir é descansar e é também sedar e alienar a depender da intensidade com que é exercido. Comer sustenta e destrói sob forma de inúmeros desequilíbrios metabólicos: dos açúcares às gorduras até a carência ou excesso de tais substâncias. O mesmo se dá com as satisfações e insatisfações sexuais.
Tudo que problematiza, soluciona, se en…

Anseio e desistência

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Atitudes de heroismo, luta e resistência são frequentes na não aceitação de limites, não aceitação do presente e não aceitação do que pode ser feito pelo outro. Não desistir dos sonhos e dos objetivos, lutar contra fantasmas e moinhos de vento como os supostos por Dom Quixote - herói assolado pelos desejos de paz, amor e harmonia - é o pretexto, a justificativa para manter a não aceitação dos obstáculos que impedem a realização dos desejos. 
Dom Quixote é um louco libertário, ao passo que não aceitar a realidade imposta pela doença por exemplo, pela separação não desejada ou acidentes fatais, é se reinventar capaz de juntar os pedaços, o fragmentado de toda uma existência na tentativa de compor algo significativo. Essa aspiração, esse desejo negador do que se vivencia é esvaziante, desconecta o indivíduo de si mesmo, do outro e do mundo. As consequências desse processo oscilam entre persistência para tudo conseguir e para não desistir até a constatação de total vazio, queda e imposs…

Raiva - Hybris do não ser

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Exagerar é transbordar limites e medidas. É o copo de cólera, a gota d’água que inunda, o desespero, a maldade quando posicionada na frustração causadora de ódio e raiva. Querer “dar uma lição”, querer “destruir o que atrapalha” cega diante da intensidade do obstáculo vislumbrado como impedimento.
Ficar raivoso é se apoderar, compactar todos os fragmentos estruturantes de sua alienação, de seu desejo ameaçado. Essa compactação do fragmentado é desesperadora. Não há como unificar o disperso, caso não se use um polarizante. Esse lançar mão de aglutinadores, catalisadores de ordens não intrínsecas e constituintes do vivenciado, é alienante.
Sôfrego, ansioso, de boca aberta para ser alimentado, ser ajudado, o indivíduo se despersonaliza e assim é obrigado a se segurar no polo que o desestabiliza: sua incapacidade. Constatar a falta de condição e a dificuldade é combustível, é propulsor. Dinamizado pela impotência, pela falta de condição na realização de seu desejo, de sua vingança, começ…

Falhas e frustrações

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Viver em função da realização de objetivos gera atitudes determinadas, voltadas para vencer obstáculos que são considerados como o que atrapalha ou pode atrapalhar a realização de tais objetivos ou metas. Esse tipo de atitude privilegia o depois, o futuro, o que se quer construir e realizar.
Vivemos em universos relacionais, ou melhor, tudo que nos situa e configura é relacional. Implicações são nossos constituintes situacionais. Dedicar-se ao futuro, ao depois é abrir mão do presente, do agora e voar em direção aos objetivos, às soluções e desejos. Isso faz com que se perca o chão, a base, ultrapassando limites que são também referenciais.
Cada vez mais desvinculados de seus limites e impotências, mais o indivíduo crê se preparar para grandes vôos e realizações. Vulnerabilidades surgem, inconsistências são mantidas e assim é estabelecido o “nada pode me atrapalhar, nada me deterá no caminho do meu sonho, da minha realização, vencerei”. Essa atitude, aparentemente decidida e determi…

Elogio

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Nossa época é avara em elogios pois é pródiga em autorreferenciamento.
Perceber o outro, reconhecer suas boas atitudes, seus limites e disponibilidade requer não estar autorreferenciado, centrado nos próprios propósitos, metas e desejos. Para estar com o outro é necessário não se contextualizar no próprio campo de referências de metas e desejos, pois nesse contexto, quando o outro é percebido e faz algo passível de elogio, geralmente esse instantâneo elogio não se realiza pois é capturado pela inveja e pelo ciúme de quem o observa.
Para elogiar é preciso ficar diante do outro, admirando o feito, sem interesses dilapidadores. O mais simples e comum, o elogio, o reconhecimento, se transforma em imensa dificuldade, pois estabelece rinhas de concorrência e competição, responsáveis pelo isolamento.
O elogio é um ato de justiça e é também encontro, tanto quanto é transcendência dos próprios limites. Muito importante no processo de socialização, é por meio do elogio que se estrutura reco…

O hábito aliena

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Repetir é esvaziar os processos que questionam, que perguntam. A continuidade das respostas faz com que se repita. Os acertos e congruências realizam objetivos. Não é necessário se deter, não é necessário perceber o que ocorre, basta manter, repetir.

Vidas assim processadas, transformadas em clichês, são referências cujos significados são determinados pelo consenso geral. São os posicionamentos engolidores das dinâmicas relacionais. Afirmações como: “isso precisa ser feito, é a regra, tudo vai depender dessas ações” equivale à criação de padrões e modelos determinantes de ajustes, de acerto e também de alienação.

Acordar com a surpresa de que a luz voltou, o dia nasceu de novo é o espanto, às vezes certeza, mas sempre a ideia de que o novo se inaugura. O repetido familiariza, não cria estranheza e o que é familiar é suave, é tranquilo, mas também é anestesiante, passa a esconder tudo que é diferente, que é novo. A mudança desbarata, estabelece busca de controle, mas é também o que po…

Comparação

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Comparar pessoas implica em mutilá-las de suas características ao encaminhá-las para referenciais nos quais comparar igualdades ou diferenças possam ser estabelecidos. Comparar implica sempre em avaliação, tanto quanto na existência de padrões e instrumentos para sua realização.
Todos nós, como seres humanos, somos iguais pois somos seres humanos. Essa igualdade passa a ser tisnada por incidências contextuais de nosso estar no mundo. Da língua aprendida à época vivenciada, diferenças são estabelecidas. Essas diferenças são fundamentais para identificar características externas, mas nada significam enquanto imanência humana.
A dispensa de diferentes critérios adotados pelos agrupamentos humanos estabelecem limites, fronteiras que vão desde a exterioridade da pele, até o íntimo da fé, da dedicação que caracteriza cada ser humano. Voltar-se para o culto da natureza, esgotar-se nos estudos e preceitos dos livros sagrados, por exemplo, cria sacerdotes, mestres, seguidores de letras, reg…

Caos e desorganização

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A desorganização solapa a continuidade dos processos. Ela é tão desestruturadora que enquanto se realiza, ao mesmo tempo, cria nova organização equivalente a uma organização desestruturada. Esse paradoxo fica inteligível se imaginarmos sistemas de referência, isto é, o organizado em relação a A é desorganizado em relação a B. Pensando no câncer, por exemplo, como desorganização de células, organizando-se de outra maneira, sua função é o crescimento anômalo.
Na sobrevivência, na submissão dos indivíduos que não se aceitam, que rastejam para serem amados e reconhecidos, isso também se observa. Organizar-se como vítima, estabelecer-se como humilhado é desorganizar iniciativas em função de sobreviver, de conseguir o que precisa não importa como. 
Vida é luta, é contradição e também é pacificação, nadificação quando se valoriza mentira e conveniência. Assistir a morte, as violências sofridas pelo outro e nada fazer é uma maneira de atingir o máximo de conveniências e vantagens: “antes ele…

Equilíbrio - Balança e Verificação

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Pesar implica em usar balança e pesos. Os sistemas de aferição são necessários para verificação e circulação de mercadorias e nesse sentido poderíamos dizer que o peso é a alma do negócio.
A ideia de pesar, medir, avaliar é frequente em várias civilizações que nos antecedem e são bem ilustrativos os mitos ritualizados e realizados no Egito, na India e na Suméria, mediados pelo conceito de medir e de constatar pela balança.

Os egípcios pesavam os pecados e as virtudes do morto no juízo final presidido pelo deus Anúbis que, levantando uma balança, colocava em um prato o coração do morto (o coração, para eles, era a sede da consciência) e no outro prato uma pena (a pena era o símbolo da verdade) enquanto a pessoa que acabara de morrer pronunciava sua declaração de inocência. Na India, oferecer ao deus o próprio peso em ouro, como faziam os reis, ou em grãos, como faziam os camponeses é uma prática descrita em vários épicos, como o Mahabharata por exemplo, e até hoje esse ritual - Tulab…

Coragem como tábua de salvação

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Estar perdido, enfraquecido, angustiado por não aceitar limites, por se sentir incapaz e impotente cria angústia, medo e ansiedade, atrapalha e impede realização de desejos que permitiriam atingir bem-estar e segurança. Não vive o presente, não se relaciona com o que tem, só espera o que precisa que aconteça - do príncipe encantado à torcida de que tudo vai se resolver, passando pela cura milagrosa de seus males, de suas doenças - e assim fica cada vez mais manietado pela incapacidade, sem perceber o que está diante de si.
Após muito desespero, o indivíduo descobre, por exemplo, que se tiver dinheiro, compra tudo que pode comprar. Pensa que tem que transformar sua fraqueza em força, tem que ter coragem e conseguir realizar o que deseja. Acontece que essa atitude significa a manutenção de sonhos e, ainda, de não aceitações, em outras palavras, de tudo que impede realização, de tudo que faz escorregar para as dimensões sonhadoras das expectativas e desejos.
Só há mudança quando nos ded…

“Qualquer coisa é melhor que nada”

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“Qualquer coisa é melhor que nada”. Essa é a frase e o pensamento constante de todo mendigo quando aceita sua condição de mendicante.

Equivalentes desse estado de mendicância e vazio encontra-se também em certos indivíduos. Outro dia li o “Instrumental”, de James Rhodes, que em seus relatos de vivência dizia que: “ser rejeitado era melhor do que nem ter a chance de ser rejeitado”.

Significa algo ser alvo de olhar, de esbarrão, ser uma possibilidade implícita de qualquer coisa mesmo rejeitada. Ser algo é ocupar um lugar, é ter massa e densidade. O esvaziamento das vivências cria buracos negros que implodem a individualidade.

Passar como se não existisse, ser não significante, em branco e desvitalizado cria dúvidas, impede encontros e constatações. Não cria contradições, não determina, e ainda, como o mesmo escritor dizia: “só dormindo, podia sonhar”, tudo lhe era negado, pois o outro existia apenas sob a forma de alguém que lhe dava injeção, administrava faxinas e impedia desorganiza…

A contradição inesperada

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Cair do pódio, descobrir que o sonho acabou, que o grande amor sumiu, é, frequentemente, inesperado, abrupto, pois o faz de conta, os anestesiantes escondem os processos, os esclarecimentos e evidências que a todo momento ocorrem.

Tudo que parece diferente do que era e do que se acreditava ser estabelece contradições. Entretanto, é a presença de outra realidade, de outros, que estabelece as diferenças, que revela essas contradições. As situações e as frustrações que delas decorrem são negadas até o máximo possível.

Ao estabelecer um ângulo zero, o caminho existe sem obstáculos, e aí tudo pode acontecer, inclusive o outro, outras situações contraditórias ao validado e convencionado.

O vazio enseja mudança que possibilita onipotência. De tanto não aceitar a impotência, a vivência frequente de frustração, o indivíduo desloca sua impotência, sentindo-se onipotente, enfim, sozinho, e assim, reedita suas metas e expectativas. São as contradições que geram questionamentos, pois na realidad…

A vida para depois

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Deixar para depois, rolar as dívidas, postergar, aguardar o momento oportuno são palavras que sustentam o suposto bom senso e os ajustes caracterizadores dos processos de adaptação. Essas atitudes resultam de metas, expectativas a realizar, frustrações cotidianas, que são vivenciadas ao longo dos dias, ao longo da vida.

Certos momentos como velhice, doença e aposentadoria se evidenciam como “não há mais tempo, é preciso conseguir realizar os sonhos”, os desejos, enfim, as metas de toda a vida. Dessa forma, ansiedade, angústia, vazio caracterizam o cotidiano. A avalanche é tão assídua e forte que surge a doença como forma de estabilizar, de por os pés no chão, surgindo também o cuidar de si à conta gotas e vivenciar se reduz à verificação de que a própria existência está sob controle e que nada acontecerá de abrupto.

Tudo que é adiado consiste no deslocamento responsável por criação de metas, objetivando transformar as frustrações e suprir as incapacidades. É um jogo mentiroso, mais t…

Loucura americana

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Os Estados Unidos da América, exemplo de democracia moderna, é formado por vários Estados que detêm grande autonomia e que o constitui como uma nação. Em alguns desses Estados, o darwinismo - o evolucionismo - é desconsiderado e até proibido e prevalece o criacionismo. A ciência é banida e o que vale é a fé, a crença e o conservadorismo mantido pela educação baseada em ideias de bem/mal, contaminação/pureza que os levam, por exemplo, a afirmações como: "países do eixo do mal”, “não vamos contaminar nossas crianças com ideias ruins, comunistas e anti-religiosas”. Isso é terrível, é ignorância, quase impossível em um país criador de tecnologia avançada, mas, a ignorância e os preconceitos vigoram e dão frutos como as recentes notícias demonstram.
Na última semana, a Conselheira Evangélica do Presidente Trump fez uma postagem de vídeo nas Redes Sociais, aconselhando os americanos a “inocularem-se com a palavra de Deus” ao invés de tomarem a vacina contra gripe. O vídeo teve enorme …

Abrir mão

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Diante de impasses, dificuldades e medos, às vezes se abre mão de compromissos e vontades. Renunciar, abrir mão é desistência. Pode ser aceitação de impotência ou ser o deslocamento da mesma pelas atitudes onipotentes.

Quando a renúncia é vivenciada como constatação de impossibilidades, incapacidades e despropósitos, ela transforma o indivíduo em um polarizador de contradições, lançando-o assim para novos conflitos, para dilemas que permitem mudança e descobertas realizadoras.

Quando a renúncia é exercida como onipotência acontece apenas adiamento, as motivações são guardadas para tempo oportuno e assim começa a criação de um estoque de sonhos e desejos falhados nas frustrações que um dia precisam ser atualizadas.

Renúncia é caminho para estruturar autonomia, constatação de possibilidades e necessidades, tanto quanto é a maneira de estocar ódios, frustrações e desejos, para mais tarde realizá-los. O dia que não chega nunca, cobra sempre.

Ansiedade e depressão, angústia constante, faz…

Anestesia

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A vivência da terapia geralmente é feita no contexto - Fundo - de tratamento, de remédio (contexto médico) ou de mágica (adivinhação, descoberta do destino etc.). Não há crítica, não há questionamento, existe apenas desejo de melhorar, de tirar sintomas ou conseguir realizações e metas. Nesse contexto, um dos primeiros atos no processo psicoterápico é transformar o terapeuta numa ferramenta útil ou inútil, precariamente ou oportunamente usada.
Todo anestésico, se adequadamente usado, é bom enquanto medicação necessária. É um primeiro passo para cirurgia, para intervenção transformadora. No processo terapêutico, a confiança no processo, no outro terapeuta e em si mesmo, enquanto não aceitação da não aceitação, funciona como anestésico, mediação necessária para as cirurgias da alma, do psiquismo, os cortes e transformações dos nós e núcleos relacionais. Mas a terapia jamais deve ser usada como anestésico. Quando tal ocorre, ela é utilizada, capitalizada como justificativa e explicação,…

Ameaças - pânico

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Medo e sensação de incapacidade transformam o dia a dia em um jogo de obstáculos. Desviar do mal, conseguir sair ileso, tanto quanto se omitir e sentir-se sem recursos é a marca de sua existência.
Por que a ameaça? Muitas vezes por ser o tempo inteiro omisso, apoiado no outro, tomando tudo de empréstimo ou de esmola. Quando sozinho, o mundo lhe cai em cima, não há como suportar. Tudo amedronta. Viver assim é angustiante. A dificuldade, o estreitamento, o aperto na garganta, a falta de ar é o pânico que obriga a tudo evitar e de tudo se proteger.
Na sequência do viver e da ameaça aumenta a necessidade de apoios e a dependência do outro enquanto segurança é uma constante. O noticiário, saber da Coréia do Norte, de seus avanços e dos mísseis, por exemplo, descobrir os surtos da febre amarela em São Paulo, tudo isso cria atmosferas nebulosas. É preciso evitar, é preciso se proteger e assim surgem as superstição, a necessidade dos talismãs, orações, amuletos e proteção.

A busca da “capa…

Incontornável

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Nas vivências fragmentadas, resultantes das polarizações autorreferenciadas, as possibilidades de globalização e expressão tornam-se impossíveis. Clichês e refrões substituem as expressões espontâneas do que se percebe. Sempre preocupados com os efeitos que podem causar, as avaliações são constantes para esses indivíduos, são uma faca afiada para tudo cortar, dividir e separar.

Contornos decorrem de flexibilidade e sempre implicam em desprendimento de ideias fixas e verdades religiosas, por exemplo.

Quando rigidamente fincados nos alvos, nos propósitos e objetivos, qualquer flutuação é vivenciada como ameaça. Descumprir um acordo, mudar horários ou desistir de programas são vivenciados como obstáculos incontornáveis, pois é por meio das ideias fixas que se organiza o mundo fragmentado. Buscar ímãs aglutinadores é um dos objetivos dessas pessoas. Fanatismo é o que lhes dá sequência e estabelece identidade.

Viver em ambientes nos quais tudo é vivenciado como última oportunidade cria …

Chantagem

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Quando o indivíduo se dedica a conseguir realizar suas metas e desejos, nada o detém. A própria estrutura voltada para o futuro, para o depois, faz com que ele fique imune a qualquer vivência da realidade. Os tijolos e pedradas do real, a obviedade contundente, não o atinge, ele está impermeabilizado, seus planos e estratégias o blindaram, tanto quanto o seu cinismo, a sua maldade e o não comprometimento com nada além de seus interesses e objetivos. Viver para o futuro a fim de superar situações que considera limitadoras e desagradáveis, utilizar o outro, oportunidades institucionais e falhas descobertas, municia esses indivíduos, lhes confere grande poder de destruição.

Ir ao ponto certo, atingir alvos e assim comprometer pessoas ou instituições cria os chantagistas, os que tudo podem e conseguem ao se alimentar dos medos, apreensões e inseguranças de suas vítimas e de seus objetivos de conquista. Ser vítima de chantagem é uma possibilidade quando se tem metas e medos, coisas a cons…

“Ele que o abismo viu”

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Ele que o abismo viu é o nome da Epopeia de Gilgámesh, escrita por Sin-léqi-unnínni, século XIII-XII a.C. Seu canto épico é bem resumido nesse título que descreve sua dor ao se deparar com a morte do amigo, ao perceber a finitude do humano, ao ver a não perspectiva final da vida.
É heróica, é épica a vivência de Gilgámesh - rei de Uruk, na antiga Suméria, atual Iraque - é o mais antigo registro literário da humanidade, bem anterior a Homero, Hesíodo e aos textos bíblicos.
Contemporaneamente, ver o abismo é quase um lugar comum. A descontinuidade do viver, a insegurança constante causada pelo pânico, o medo de ser assassinado ou assaltado, faz da pavimentação diária das cidades, abismos, realidades descontínuas. A fragmentação resultante de posicionamentos cria também vazios, espaços descontínuos. É abissal a dificuldade nos relacionamentos familiares, quando não se consegue perceber e ser percebido enquanto individualidade. Nas vivências de casais, igualmente, o isolamento criado pe…