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Mostrando postagens de 2018

Neutralização das circunstâncias

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É muito difícil neutralizar circunstâncias. Equivale, em certo sentido, a deter uma corrente de água, a deter multidões cegas ou manadas de touros ou búfalos, por exemplo. Para poder observar esses fenômenos é necessário estar em planos diferentes dos quais os mesmos ocorrem. Com isso não quero dizer que se deva estar em posições vantajosas, não se trata do conhecido “acima da carne seca” ou o “assistir de camarote” popularmente consagrados para referir-se a posições privilegiadas.
Só podemos neutralizar circunstâncias quando transcendemos necessidades pela realização de nossa possibilidade humana. A única forma de neutralizar circunstâncias é não ser circunstancializado. É o não viver em função da satisfação de desejos, da busca de realização de bem-estar, da realização de propósitos, sonhos e metas. Estar preso ao sonho, viver para realizar grandes ideais e propósitos transforma o ser humano em um barco, um objeto ao sabor de correntes - circunstancialização que o aliena e despers…

Perfídia

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Engano deliberado, traição, insídias e estratégias para consecução de objetivos que vão desde encobrir o que se considera vergonhoso até realizar o que se ambiciona pode ser resumido como perfídia. O característico do engano pérfido é a deslealdade, é o fingir, o fazer de conta.
Pode haver traição sem perfídia. E embora na traição haja também deslealdade, pode não existir o faz de conta, o despiste, as máscaras, que, além de esconder, indicam outras fisionomias. 
A pior máscara é a do bem, pois não se pode apoiar o bem naquilo que não é verdadeiro. Máscara é aparência e aparentar é enganar. Disfarçar-se de bondoso é perverso, seduz e impede dúvidas desde quando novas configurações são indicadas por meio da nitidez que dispersa sombras e ambiguidades, mas que esconde sempre outros interesses.
Pérfidos são os indutores. Levam indivíduos a situações que jamais seriam acatadas pelos mesmos, mas que por meios e artifícios aparentam ser diferentes do que são, explorando e confundindo as …

Desmoralização

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Descobrir o que está escondido é esclarecedor e é revelação, mas também é desmoralização quando o que é descoberto foi escondido por pessoa, ou pessoas, em função de objetivos escusos ou criminosos de pessoas ou de grupos partidários, religiosos etc.
Usar pessoas, ameaçá-las, coagi-las a práticas destrutivas, infames ou sexualmente lesivas, a fim de realizar desejos perversos e objetivos criminosos, sempre são ações escondidas. Os conhecidos roubos de heranças dos parentes, os “golpes do baú”, as apropriações indébitas do patrimônio do outro ou da União, o roubo das verbas escolares e da saúde, os abusos sexuais contra mulheres ou feitos às crianças educandas e aprendizes (pedofilia), tudo isso é escondido e sempre escamoteado.
Inúmeras imagens sociais, consideradas e aceitas, funcionam como máscaras que ocultam, que despistam, que impedem dúvidas sobre condutas desonestas e perversas, imagens tais como: o homem de bem, o chefe de família, o sacerdote, o que doa aos pobres, o Santo…

O descartável é definitivo

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O resíduo cria novas realidades e congestiona processos. Freud foi eloquente quando mostrou a pressão exercida pelo dispensado, o descartado, o recalcado. Seu constructum - o inconsciente - permitia abrigar tudo e, quase por entendimento/contradição, era também um resíduo que tudo abrigava. Oximoro polêmico e responsável pela alienação na visualização dos processos psicológicos, na apreensão do humano, mas que foi muito útil como lata de lixo, como trash fundamental a todo sistema.
O trabalho escravo, o trabalho não remunerado ou mal remunerado (exercido principalmente por mulheres) é também um resíduo que suporta e mantém o sistema capitalista. Ganha-se muito mais do que se paga a empregados, e além disso se exerce controle, incentivando, por exemplo, instituições religiosas que permitem salvação, acenando com a vida eterna, pois isso é um descartável que configura densidade e apoio para os sobreviventes submetidos às pressões alienadoras e exploradoras. Assim, quanto mais se joga …

Artificialidade

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Quando alienado e transformado em produto, o ser humano aspira ser compreendido, considerado e aceito. Ser aceito se constitui em uma armadilha, pois não se aceitando e querendo ser aceito, o indivíduo já espera, quer do outro o que ele próprio não consegue: se aceitar. Testes e experiências são feitas para conseguir a validade da aceitação recebida, tanto quanto cada vez é mais artificial o contato estabelecido, pois tudo é realizado por meio de outros parâmetros, outras realidades, surgindo assim, a realização construída em outros referenciais.
Escamotear, seduzir, apresentar credenciais e vantagens são os trunfos utilizados para competições, para o processo de aceitação. Quanto mais aceito, mais artificial, pois foi reduzido ao que funciona como aceitável. O líquido dispersa-se, o construído tem que ser mantido e isso custa empenho, engano e disfarce. Cada vez é mais caro manter o fabricado, o artificial. Cansaço e tensão aparecem. É o que é atualmente chamado de Síndrome de Burno…

Desvarios

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Para algumas pessoas, aceitar limites é se sentir condenado à mesmice. Acham que se curvando ao que está diante delas, à sua realidade, vão ficar sem saída, apequenadas. Essa ganância, avaliação e desespero, quando vivenciadas enquanto prepotência criam os dedicados a metas, projetos e desejos que solidificam suas buscas desenfreadas. Pensam: “a única maneira de encontrar os limites do possível é buscá-lo no impossível”. Inventam, sinalizam o que é possível e impossível em função dos próprios desejos, das próprias frustrações. Querer ser rico, por exemplo, quando não se tem contexto e quando se tem ambição, meta e desejo de sê-lo, faz com que se estabeleçam as regras de tudo conquistar e para isso não há limites, pode roubar, enganar, matar, corromper, ser corrompido. O desejo de ter alguém, quando se sente sozinho, cria modus vivendi caracterizado pelos enganos, seduções e utilização do que pensa ser necessário para consecução do objetivo.
Desvios ou atalhos são considerados a menor…

Aspectos que desmascaram

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Neurose é o processo gerado pela não aceitação de si, da própria estrutura familiar, social e econômica. Não aceitando as próprias características biológicas (aspecto físico, sexo, cor de pele, tamanho das orelhas, cor dos cabelos etc.), não aceitando a família pobre ou a família rica com seus consequentes limites e características socioeconômicas, sendo percebido pelos pais, ou substitutos, como entraves, o indivíduo não se sente aceito pelo que é, mas sim pelo que pode ser, fazer ou realizar.
Ao não se aceitar, não ser aceito, o indivíduo busca atingir o que é aceito pela sua família e pelo sistema social que o situa. Estabelece metas, objetivos a partir dos quais, se atingi-los, será vencedor. Essas metas nem sempre são atingidas, surgindo os frustrados, os despersonalizados, os desumanizados. Quando as metas são atingidas surge o vencedor, o realizado, o que conseguiu chegar onde queria - venceu. É rico, é pobre, despoja-se do supérfluo que envergonhava sua família corrupta, por …

Reconhecimento e encontro

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Identificações provocam encontros estruturados em expectativas. Desde Platão que se pensava em andróginos que se completam, atualmente resumidos nas metades que se encontram. Descobrir o par é um milagre, encontrá-lo depende de buscas persistentes.
Focado na meta, no desejo de complementação, os seres realizam seus propósitos, tanto quanto conhecem enganos e decepções. Encaixar peças, complementar quebra-cabeças e ver o vento tudo levar, causa desespero, tristeza. As circunstâncias, as contingências esclarecem sobre a fragilidade das construções, dos castelos de areia.
Nada precisa ser construído ou reconhecido quando há integração. Esse processo tudo engloba, novas realidades surgem e a vivência do despertar, do descobrir são contínuas. O outro é o duplo que tudo evidencia, esclarece e motiva. O encontro dispensa o reconhecimento, não há preexistência, tudo é novo. Exatamente por isso, fica claro que não adianta buscar o complemento, não adianta investir na companhia, não é preciso …

Atrito

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Se todo dia tivéssemos que entender, que começar e estabelecer o que fazer com nós próprios, com o outro e o que está em volta, tudo seria impossível. Continuidade é fundamental. Não ter interrupção, não ter marcas de início e final, não ter caminhos impedidos, cancelas e portas limitadoras é o que possibilita fluir e realizar. Montar esquemas, criar palcos, começar, recomeçar estabelece limites arbitrários que funcionam como demarcadores.
Girar uma válvula e ter água, abrir a porta da geladeira e encontrar alimentação, olhar o espelho e se reconhecer é continuar, é estar apto a realizar as próprias possibilidades. Ter que recriar-se, descobrir onde começa o fio d’água que enche a latinha nocauteia ao criar limites exíguos. Pouco espaço, atrito constante, dificuldade para circular entre tiros, manutenção do ritual do encolher-se para não ser visto pelo amigo que grita e agride, evitar os freios abruptos dos circulantes cria esquemas, regras tensionantes. Tudo que quebra a continuidad…

Aproveitamento e recortes

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Qualquer dado subjacente ao vivenciado cria defasagem, posiciona um contexto - o Fundo - que, imobilizado, passa a ser a base de percepção para tudo que ocorre. A Figura - o que ocorre - é, assim, sempre percebida em um Fundo, o do anteriormente percebido, o do que ocorreu. O posicionamento dessa dinâmica é responsável por infinitas distorções causadas pelo posicionamento imobilizador da dinâmica.
Querer ser aceito, querer ser poderoso e considerado, querer significar alguma coisa, vencer concorrências e competições, estabelece os obcecados, os buscadores insaciáveis do poder e da fama. Assim posicionado, só o que interessa é brilhar, conseguir, triunfar, alcançar objetivos que aumentam seu preço, seu poder de barganha, sedução e catequese. Apostam em plágios, imitações, imagens que denotem boa colocação, que criam boa pontuação. Mesmo quando se expõem ou relatam descobertas, consequentemente tratando de situações inéditas, os indivíduos posicionados em meta, em ganância de consegui…

Surpresa e flagelos

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Nestes tempos de absurdos e ameaças, vale recorrer a uma reflexão de Camus em seu livro “A Peste”, no qual ele escreve:

“A palavra “peste” acabava de ser pronunciada pela primeira vez. Neste ponto da narrativa, com Bernard Rieux atrás da janela, permitir-se-á ao narrador que justifique a incerteza e o espanto do médico, já que, com algumas variações, sua reação foi a da maior parte dos nossos concidadãos. Os flagelos, na verdade, são uma coisa comum, mas é difícil acreditar neles quando se abatem sobre nós. Houve no mundo igual número de pestes e de guerras. E contudo as pestes, como as guerras, encontram sempre as pessoas igualmente desprevenidas. Rieux estava desprevenido, assim como os nossos concidadãos; é necessário compreender assim as duas hesitações. Por isso é preciso compreender, também, que ele estivesse dividido entre a inquietação e a confiança. Quando estoura uma guerra, as pessoas dizem: “Não vai durar muito, seria estúpido.” Sem dúvida, uma guerra é uma tolice, o que …

Polarização e Asno de Buridan

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Representar impasses como a dificuldade de decisão, como a indecisão que implica em impossibilidade de realizar, constitui o paradoxo representado pela polarização. Certos impasses sociais e filosóficos podem ser considerados tomando o asno, o burro como metáfora inspiradora.
Na fábula dos Burros Espertos, os dois atados por uma curta corda avistam dois molhos de feno em lados opostos e tentando comê-los permanecem paralisados pela corda estirada, puxando-a pelas extremidades a que estão amarrados - cada qual deseja realizar suas motivações, saciar sua fome. Buscando atingir o feno, o capim, brigam sem atingir, sem perceber que estão amarrados no mesmo laço, na mesma corda. Encontram a solução indo juntos a um molho de feno.

Compromisso gerador de polarização, conflitos e lutas que só podem ser resolvidas quando os nós são desatados, quando o que prende e separa é removido. Estar livre é poder seguir os próprios caminhos e não ser induzido, manipulado pela fome, pelas necessida…

Distribuição - Representantes, representados e democracia

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É próprio da distribuição a existência de um centro ou uma pessoa ou um distribuidor. Processos de distribuição sempre inscrevem ou estabelecem responsáveis.
A ideia de república (regulada por leis-constituição) é a busca de ancorar responsáveis em leis normativas. A coisa pública - a república - só pode sobreviver se regida por democracia (poder dos representados por meio de seus expoentes escolhidos). Representar, essa duplicação, essa contenção de iguais diante de iguais é sempre problemática, desde que resulta de compactuações desiguais. É um processo que cria os filtros, os locais, as posições, os partidos, os representantes da vontade da população. Representar é simbolizar, indicar, sugerir e em qualquer dessas condições representar é distorcer, pois estabelece o outro (o diferente), a outra coisa, para representar o mesmo. É como um game, um jogo de semelhanças, dessemelhanças que sempre provoca ambiguidade mesmo quando sincroniza, ou seja, quando um vira o outro. A identidad…

Seguir é se perder

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As militâncias são informes, apesar de densas. É a clássica manada. É o seguir sem saber o quê, apenas garantindo o lugar que lhe é destinado.
A melhor maneira de negar processos, mudanças e evidências é valorizando seguidores. Segue-se o que está sendo seguido, que por sua vez segue o outro seguido. O que resulta, o que acontece é a expressão da contradição, mas precisa ser catapultado à nova ordem.
Em todas as esferas, da individual à social, isso é uma evidência, entretanto, quase sempre é obscura, ambígua, a evidência não é percebida, pois muitas variáveis, inúmeras situações se interpenetram. É a confusão, o não discernimento, a descontinuidade.
É exatamente nesse momento da descontinuidade que as lideranças manipulam, levando sempre a discriminar e assim polarizar a multidão que é cega, pois a ela compete andar, seguir. Transformar questões qualitativas - evidências, constatações - em dados, em polarizantes, em formas de angariar adeptos, é o que vem sendo feito ao longo dos…

Proselitismo

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Os prosélitos, os que foram atraídos e recém convertidos para religiões, partidos, seitas ou doutrinas são também os neófitos, ou ainda, os arrebanhados por catequeses e acenos de vantagens propiciadoras de poder ou de bem-estar. Quem mais arrebanha e aumenta suas fileiras é aquele que constrói poder, que ganha força para deliberar, rejeitar e aceitar. Lutar e catequizar são maneiras de conseguir prosélitos, fanáticos, militância aguerrida para manter suas conquistas de poder, trabalho, dinheiro ou vida eterna, a felicidade no reino dos céus.
A acomodação, o se apegar às tábuas de salvação, identifica e ampara os prosélitos. Não podem perder o conquistado, não podem deixar o reino de Deus ser ameaçado (amaldiçoado); partem, então, para criminalizar, destruir, matar o que ameaça, o que já foi conseguido; nada pode desacomodar o que foi conquistado. Acomodação é um dos mais perigosos sinais de alienação. É por meio dela que o outro é destruído: “imigrantes vão tirar nosso conforto” diz…

Mutilações e realizações (BIID)

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Os processos da alienação, da não aceitação do próprio corpo robotizam em relação ao mesmo, atingindo dimensões incomensuráveis e espantosas. Outro dia, lendo, fui surpreendida pelo conhecimento da Body Integrity Identity Disorder (BIID), Transtorno de Identidade de Integridade Corporal, TIIC como é conhecida em português. A BIID é rara, pouco estudada e de condição escondida, secreta. Consiste no desejo de mutilar-se e na realização de amputação de membros saudáveis (pernas, braços) ou em mutilações como provocar cegueira em si próprio ou quebrar a própria coluna vertebral. Nela existe fundamentalmente um desacerto, um desencontro, uma não aceitação entre o corpo que se deseja e o corpo que se vê. Nesse sentido, a BIID se insere em toda a problemática do desejo, meta, não aceitação, em medos e dificuldades, ou até mesmo na clássica definição de Krafft-Ebing sobre parafilias, expressa em seu livro de 1886: Psychopathia Sexualis.
O característico dessa não aceitação, dessa não integra…

Ciladas da sobrevivência

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Transformando suas possibilidades em necessidades, vivendo em função de acomodações e medos, de inseguranças e dificuldades de enfrentar o que ameaça e compromete, o ser humano é aprisionado nas suas dimensões de acomodação.
Estrangulando suas possibilidades de mudança, de transformação, cada vez mais ele se confina, se situa no que o apoia, no que lhe permite exercer seu bem-estar: dormir, comer e manter mínimos prazeres de boa convivência, sexo e imagens sociais.
Quando isso é ameaçado, não sabe como agir. Angustia e ansiedade são seus orientadores comportamentais e assim ele descobre que morrer - se suicidar - é uma forma de sobreviver. Realiza seu lema: quando não aguentar, quando não mais conseguir, morrer. Suicidar-se é a saída de emergência, é o capital, a reserva que garante e permite exercício de irresponsabilidade, parasitismo e dedicação ao seu jeito de ser, aos seus vícios, hábitos e medos. A própria angústia é a bola de neve, que para ser evitada o lança no precipício …

Desprendimento

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Abnegação e renúncia frequentemente escamoteiam medo (omissão) e impotência, tanto quanto se constituem em investimento para realização de papeis sociais como os de pessoas de boa alma, simples criaturas nada ambiciosas mas capazes de ajudar o próximo, justificando as instituições que as amparam.

Desprendimento é generosidade. Existe apenas quando exercido por pessoas disponíveis. O não estar comprometido, o não estar voltado para o depois, permite que se seja desprendido frente a obstáculos e impasses. Abrir mão é neutralizar o conflitivo, tanto quanto abdicar é permitir o aparecimento de outros processos, outras configurações, nas quais novas realidades e motivações se desenvolvam.
Quando os conflitos são neutralizados inauguram-se outras esferas para a continuidade e ela é restauradora: o quebrado é transformado. Abrir-se ao novo, tanto quanto possibilitá-lo, depende de perceber o outro, seus impasses e dificuldades. Este caminhar junto, acompanhar é empático, é simpático.
Abnega…

Insaciabilidade

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É insaciabilidade querer conseguir mais para garantir o próprio futuro e segurança, para não morrer por falta de cuidados. Esperar o pior e o súbito e estar para eles preparado é o objetivo característico dos processos de não aceitação de limites, de não aceitação de impossibilidades e da realidade.

Viver sozinho e querer a qualquer momento ter alguém apto a ajudá-lo, por exemplo, é desespero configurado pelo impossível desejado. Para esses indivíduos, deve acontecer o que é necessário em função de seus problemas e demandas que precisam ser resolvidas, não importando o fato de não existir condição para satisfazer esses desejos; o que importa é acontecer o resultado almejado. A vivência desse constante impedimento, causado pelo paradoxo não atendido, cria atitudes de expectativa, de ansiedade, orientadas para predar. Dos filhos, empregados, sem esquecer os vizinhos e amigos, todos são vistos como reservas para as horas difíceis. Os estoques do que pode ser utilizado acarretam também …

Desacertos e regras

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Quando existe não aceitação de si e dos problemas resultantes dos compromissos e obrigações cotidianas, surgem desespero e frustração, e nesse contexto é comum o deslocamento de problemas, chegando mesmo a ocorrer imobilização por doenças que inviabilizam o dia-a-dia e criam novas rotinas.
Assim, após esse descanso, essa descontinuidade ocorrida pelos deslocamentos, pelas doenças, o indivíduo retoma suas atividades, suas funções muitas vezes execradas em relação à família por exemplo, ao trabalho e até mesmo aos filhos. Na retomada dos afazeres e relacionamentos é necessário apoio, uma base que permita ação, desde que a motivação é impossível diante do que aborrece, do que não se gosta. Neste momento a culpa aparece e é uma varinha de condão eficiente para organizar o cotidiano, para criar regras, determinar o que se pode e o que não se pode fazer, e então, pelas regras adotadas e cumpridas, atinge-se paz e tranquilidade. 
As regras também exigem preocupação, cuidado, ocupam o temp…

Nó Górdio

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No centro da atual Turquia, próximo a Ankara, ficava a antiga cidade mais importante da Frígia: Gordion. Pouco se sabe da história da Frígia além dos mitos que envolvem seus reis Górdio e Midas. Em um desses mitos a linhagem dos dois reis é contada a partir de Górdio, o camponês que virou rei. O antigo rei da Frígia não tinha herdeiros e quando morreu o Oráculo disse que o rei sucessor chegaria em um carro de bois. Quando um camponês, chamado Górdio, chegou à cidade em seu carro de bois, foi coroado rei, e em seguida colocou a sua carroça no templo de Zeus amarrada com um nó forte. Esse nó ficou famoso por ser muito difícil, até impossível de ser desatado, ficando conhecido como o nó górdio. Górdio teve apenas um filho, chamado Midas, que o sucedeu no trono, mas que, por sua vez, não teve filhos, não deixou sucessores. Consultando novamente o Oráculo ficou estabelecido que quem conseguisse desatar o nó de Górdio seria o próximo rei e dominaria todo o mundo. Séculos se passaram sem qu…

Descobertas

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“Duas linhas são iguais se elas coincidem” é um dos enunciados da geometria de Euclides.
Isso parece óbvio, mas não é quando tentamos entender o que significa igualdade. Parâmetros e instrumentos são necessários para essa verificação. Medir, comparar são formas de verificar.

Caso não se lance mão de outro parâmetro além das linhas em questão, como compará-las? Considerando o enunciado do próprio Euclides: pela coincidência. Essa redução das duas linhas a elas próprias implica encontro, nada mais que isso. Assim, a igualdade surge, ou seja, é igual pela absorção, quando uma linha encontra a outra e nela se perde, se completa. O diferente é o mesmo, o duplo, agora, é a unidade.
Essa possibilidade de integração é o que norteia e determina a trajetória do humano quando percebe o outro. Essa integração decorrente do encontro, essa coincidência, não é muito frequente, pois a fragmentação dos processos quebra a continuidade e estabelece óbices, os pontos de dificuldade e de quebra, e assim…

Insinuação de presença

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A insinuação de presença - outro dado e contexto - é realizada pela transformação da parte em todo, por meio da closura, fechamento e complementação do percebido, que colocado em seus contextos anteriores recupera totalidades. A complementação do insinuado, apresentado e percebido, é feita com auxílio da memória, de outra Gestalt, outra forma, outro contexto que alavanca e cria novas direções, completando o vazio, a ausência do que não se mostra, do que não aparece. Percepção de ausências, senhas para continuidade, pinceladas reconstrutoras, como por exemplo ver o sapatinho do filho no meio da casa, desencadeia medos e apreensões. A foto que ilustra este artigo, retirada do livro O Destino da Africa*, faz perceber a tristeza do pai ao ver o que restou de sua filha, reconstituindo-a para nós. Existe apenas o resíduo - a mão e o pé da criança - demonstrativo de todo o horror desumanizador exercido pelo rei Leopoldo no Congo.
A reconstrução do todo por meio de suas partes é frequente, é…

Voltar e sair

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Às vezes a única saída é voltar. Quando se está preso ao percebido como irremovível é difícil sair, é difícil se movimentar. A constatação desse limite permite soluções, perceber, por exemplo, que a única maneira de sair do impedimento é a ele voltar. O deslocamento realizado pelas saídas prováveis ou não existentes é uma forma de se afastar a fim de conseguir realizar a quebra dos impedimentos. O medo imobilizador, a omissão que impede movimentos é resolvida quando se configura a realização do que é necessário fazer para cumprir as obrigações e eliminar os limites impeditivos.

Voltar, consertar falhas, suprir dificuldades é o que permite sair das mesmas. Recuperar os indivíduos dos fracassos admitidos permite ações liberadoras. Admitir os problemas é uma maneira de aceitá-los e, assim, começar a transformá-los. Voltar ao que se quer largar, entendido como responsabilidades não aceitas, permite saída. É a constatação da impotência que ocasiona possibilidade de mudança.

Situações limi…

“É milagre ou ciência?”

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“We are not sure if this is a miracle, a science, or what. All the thirteen Wild Boars are now out of the cave” - Royal Thai Navy
(“Não temos certeza se isso é um milagre, se é ciência ou o quê. Todos os treze Javalis Selvagens estão agora fora da caverna”)

Foi assim que o Comandante da Royal Thai Navy anunciou o fim do resgate bem sucedido do time de futebol juvenil tailandês, 12 crianças e seu técnico, que passaram 18 dias presos em uma caverna, em condições extremamente adversas, sem alimentação, sem água potável, sem luz solar, sem saída.
Esse espanto é a consideração significativa, a constatação do surpreendente e inesperado, da alegria diante das vidas salvas, tanto quanto é o deslumbramento pela resistência das crianças e admiração pela tecnologia, a engenharia utilizada para salvá-las. Abrir caminho na caverna inundada e vedada por lama e água, transportar oxigênio em completa escuridão por aberturas tão estreitas que mal permitem a passagem de um adulto é estarrecedor, foi um…

Orar, acreditar e esperar

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Quando se sente impotente ou acuado e quer uma saída, amplia o desejo de solução rezando e esperando. É tão intenso o deslocamento das impossibilidades que os cascalhos ou resíduos da tensão construirão caminhos para solução dos impasses. Assim, rezar, fazer promessas para conseguir o emprego, dá a certeza que o emprego virá.  É instalado o universo mágico no qual a espera é solidificadora, pois tudo virá a seu tempo. Não há ansiedade, ela é substituída pela fé e os rituais (compulsões) que a entronizam.
A transformação do desejo, sustentada pela impotência, cria, por meio do deslocamento, a esperança e o otimismo. A fé é o pilar que tudo sustenta e este outro mundo criado, aos poucos é corroído pelas areias e pedras da realidade. Os suportes dessa crença, dessa fé decorrente do deslocamento da impotência, é sustentado pela alienação e medo, portanto, quanto mais se humilha, mais vitimização e necessidades nutrem seus sonhos e desejos. Jogar os desejos na infinitude da espera e da es…

Mistério e obviedade

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Outro dia li no Brihadaranyaka Upanishad4.2.2: “The Gods, it seems, love mistery and hates the obvious” (“Os Deuses, aparentemente, amam o mistério e detestam o óbvio”).

Não se pode, não se deve amar o óbvio? O explícito é desprezível? O simples deve ser descartado? O raso, o superficial é bobo? Só é dignificado o trabalhoso? O misterioso? O que não se dá e não se oferece?

Sempre surgem planos diferentes do que está aí. O aqui-agora fracionado é um ângulo para manter dualidades. O misterioso, o incrível, o indecifrável, o instigante caracterizam o suposto mundo dos deuses. Mistério é o que envolve essa realidade.

Não há outro mundo salvo o que percebemos e vivenciamos aqui e agora.

O que se apresenta na evidência do encontro é o outro. Perceber é conhecer, conhecer é aproximar, constatar, integrar - amar. Mistério é o suposto, o desconhecido ou imaginado como deslocamento do existente insatisfatório, incompleto e incongruente.

Como amar o inexistente? Como amar o não conhecido? Por …

Adivinhação

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Quando eventos, desejos ou projetos são estabelecidos em função de resultados a expectativa do que vai ocorrer, a expectativa do final cria ansiedade, medo, desejos e insegurança. Antecipar o resultado por meio de adivinhação diminui a ansiedade, reciclando-a, deslocando-a para outros níveis.
As pequenas adivinhações como, por exemplo, estabelecer que se o primeiro carro que passar for vermelho significa que tudo vai dar certo, o sim ou não respondido pelo mal me quer/bem me quer, Tarot, Jogo de Runas, Jogo de Búzios etc. funcionam como aplacadores, que supostamente garantem o resultado e escoram a ansiedade, mas também geram dúvidas, reeditando a ansiedade de outros modos.
Sistemas de adivinhação são encontrados em várias culturas e se lança mão desses dispositivos em inúmeras situações. Antecipar resultados é uma maneira de exercer controle, de ficar tranquilo esperando a certeza, a comprovação do antecipado. Um exemplo atual de previsão, que mobilizou inúmeras pessoas, começou co…

Solidão e suas implicações

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Solidão é o tema preferido dos talk shows, programas de autoajuda, reuniões de amigos, reuniões de apoio à terceira idade etc. Ter que evitar a solidão ou se preparar para ela ou descobrir os encantos da mesma é o leitmotiv de inúmeras pessoas.
Somos seres em relação, nunca estamos sozinhos, tanto quanto por sermos enquanto relacionamento, sempre estamos sós. A questão da solidão só se coloca na dimensão espacial e aí sempre somos sós: a matéria não ocupa o mesmo lugar no espaço.
Vivencialmente - enquanto temporalidade - nunca estamos sós. O outro, os outros sempre estão conosco seja no presente, seja no passado pela memória, ou no futuro pela antecipação do que vai se realizar ou complementação do que se realiza.

Estar só é estar sem malhas relacionais, é uma abstração que não subsiste. Não existe solidão, sempre estamos com o outro, com os outros participando, omitindo, amando, odiando.
Estar entregue a si mesmo é quase um desprendimento, um artifício, como pôr entre parêntese tod…

Omissões e conveniências

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Certas contradições, quando não enfrentadas, banalizam o paradoxal. Como não enfrentar o marido que espanca? O patrão que sonega direitos? O colega que humilha? A conveniência, o levar alguma vantagem funciona como impermeabilizadora do conflito, da contradição, transformando ângulos em retas. Nada acontece, tudo é igual. Essa não diferenciação, essa homogeneização de atitudes cria espaços infinitos que permitem deslocar os problemas. Não é o disfarce, o não perceber, é o não agir por conveniência, uma omissão que tenta adiar o inadiável, negar o evidente e explícito. Tais contorcionismos geram tensão, dores em todo o corpo além de pressões responsáveis por desejos, raiva, inveja etc.
Omissão por conveniência estabelece condições para ampliação da não aceitação de si mesmo, aumentando também a necessidade de deslocamentos, desde o abrir mão de direitos para escamoteamento de atitudes, até o chorar e suplicar, como mendicante, por melhores dias, melhores condições, cuidado e apoio.
No…

Desatando nós

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Para resolver um problema, uma questão é necessário se dedicar ao que desafia, ao que cria complexidades, ao que problematiza. Enfrentar a problemática é o requerido, independente de se ter ou não condições de resolvê-la. Inicialmente se deter, encontrar o problema, a dificuldade é o que possibilitará acesso a sua resolução. Sem encontro não há constatação, não há diálogo.

Constatar um problema, uma impossibilidade, causa sempre estranheza e remete à convicção de ter condição ou não de modificar o que problematiza. Esse momento de constatação, quando é ambíguo, quando vivido autorreferenciadamente, adia solução, transforma o problema em justificativa de avaliação, criando a famosa descoberta de que “não poderia fazer nada!”. Estar submisso, amassado pelas impossibilidades é, para muitos, solucionador e absolvedor.

Avaliar, medir é uma maneira de fugir do confronto, da ação, da mudança. Não é o que pode ser feito que desata nós, é o que precisa ser feito que os desata, muda posiciona…