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Showing posts from October, 2015

Sem alternativas

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Limites extremos são aqueles nos quais em situação de total impotência, sem alternativas, o indivíduo tem que escolher a destruição de sua própria vida. Nem sempre as dificuldades se colocam como alternativas entre “a bolsa ou a vida”. Às vezes, ou se joga no abismo, ou desmaia, ou cai nas garras do perseguidor. Tentar mudar o panorama que aflige, que promete destruir é possível quando se imagina transformar o agressor, o redutor de alternativas, em uma possibilidade de diálogo. Esta atitude mágica, pois considera situações não existentes - o diálogo por exemplo - geralmente não funciona, salvo se significar confundir, jogar areia nos olhos do que está diante. Apostar no impossível pode remover obstáculos ao gerar uma atitude diferente de passividade, de medo. Fazer surgir interlocução é tentar obrigar o outro a ser diferente do que ele se propõe, criando interatividade. Isto gera mais raiva, mais agressão ou elastece os limites, permitindo reconfigurações.
Em certo sentido, esta at…

Escolha

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Volta e meia aparecem no Facebook, comentários de leitores, nos quais a questão da escolha está embaralhada (conceitos e implicações). Achei oportuno postar este capítulo de meu livro “Relacionamento, trajetória do humano”, de 1988, pags. 49-51, no qual a conceituação de escolha, no contexto da Psicoterapia Gestaltista, está estabelecida.

Escolha
Escolher, geralmente, é considerado sinônimo de preferir, tanto quanto foi celebrado como resultante de liberdade, de não compromisso, por Satre que, em certo sentido, continua a ideia kierkegaardiana de ausência de critérios na escolha.
A escolha como preferência já resulta de um compromisso com motivações, situações, posições prévias ou antecipadas, chegando, assim, a identificar-se com gosto, com preferência* e, daí, o gostar tornar-se sinônimo de convivência contínua com o escolhido, bem ao sabor de certas ideias vigentes de que familiaridade, convívio, adaptação, hábito, costume, condicionamento fabricam o gostar.
Escolha como liberdade…

Desvios e caminhos - Dons e talentos

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Considerar que ao escolher um caminho, uma profissão, se deixa, se abre mão de outras tantas, atordoa. Esta disponibilidade infinita causa sensação de fracasso, de despropósito. Solto, sem amarras, tudo soçobra. Não é por acaso que surgem as predeterminações, os talentos, dons e finalidades familiares e/ou sociais que tudo definem e materializam. Escolher uma profissão, uma forma de viver, um parceiro/acompanhante para a vida, é o predisposto. As dispersões exigem esta viabilidade. Qualquer atitude que fuja do padrão determinado é considerada excêntrica, desviante e ameaça tanto quanto motiva.
Quebrar paradigmas abre novos panoramas, tanto quanto dizima tediosas atmosferas. Desvios se transformam em caminhos, pois sempre levam a novas configurações ao exercer sua função de passagem. Exatamente nesta mediação (passagem) surgem antíteses reveladoras e possibilitadoras de insight. Esta mudança é que valida o estar no mundo. Geralmente se chega a este momento de antítese com a escolha. …

Congruência

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Bitolado pelo que considera adequado e inadequado o indivíduo se desespera, procura adaptação, evita fugir dos padrões que massacram, que são vivenciados como inadequados, busca garantias, segurança, agarra-se às metas e propósitos saneadores de seu mal-estar. Para ele é sempre o outro quem determina se há acerto ou erro, ou substitui o outro e seu julgamento pelos resultados de sucesso ou insucesso.
As vivências de sobrevivência sempre são configuradas por garantias e respaldos econômicos familiares e institucionais. Situações extremas ameaçam e tornam nebulosas essas configurações, exigem que a segurança e os cuidados sejam reforçados. Todas as motivações e preocupações se voltam para salvar a si mesmo e evitar impasses. Nesse contexto permeado de crises as dificuldades, os conflitos e medos são transformados em incentivo para sobreviver. Quanto maior o medo, a não aceitação, a alienação e despersonalização, mais tudo conflui para espreitar, cuidar e garantir o inefável. E assim, a…

Dispersão

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Perder perspectivas, posicionar-se nas frustrações impede participar com o que ocorre enquanto situação que está ocorrendo. Tudo é percebido através de filtros de avaliação, vitimização e queixas. As tensões aumentam, a não aceitação da não aceitação do que problematiza é cada vez mais enfática e demanda escoamento para que haja um mínimo de dinamização, ou mesmo de locomoção. Deslocamentos aparecem, não se sabe o que se faz. As circunstâncias decidem, e assim, o desespero é o contínuo esfacelamento de possibilidades e questionamentos. Vive-se para suprir necessidades, esquecer dores e exibir, propagandear soluções, tentando através de companhias, de ajudas, conseguir bem-estar.
Sempre que decisões são adiadas por envolverem dificuldades, medos e riscos, os dilemas e contradições se transformam em “caixas-pretas” assoberbadas. O vôo cego é constante, as direções, as motivações são dispersas, contingentes. Neste mundo circunstancializado não há sintonia, pois não existem frequências …