Thursday, August 17

Como lidar com a pressão diante das tarefas




Toda tarefa visa um objetivo, entretanto esse objetivo pode se esgotar na própria realização das tarefas ou ultrapassá-las. Quando os objetivos se esgotam na própria realização das tarefas, surge tranquilidade e bem-estar. Quando tal não acontece, surge expectativa traduzida por medo e ansiedade - é a conhecida pressão, o estresse. Cotidianamente estudantes vivenciam essa situação com a pressão dos vestibulares, ENEM e exames. Também são exemplificadores dessa pressão esperar resultados de exames de saúde, tanto quanto expectativas de conseguir emprego através de concurso.

Quanto mais preparado e capacitado se está para o que se propõe atingir, mais confiança, mais certeza, menos expectativa, entretanto, essa regra de ouro frequentemente é quebrada por dados aleatórios, pois a própria aposta, o processo, é um crivo. Depender de um exame comprovador de higidez ou mobilidade, por exemplo, ultrapassa os referenciais do examinado, do apostador, enfim, do indivíduo, pois se torna necessário a complementação de seus processos através de dados dele fugidios.

Muitas vezes nos vemos em situações nas quais aceitamos e entendemos os processos, mas dependemos de outros dados para sua complementação, de outras realidades que os reconfigurem e neste momento aceitamos a impotência ou sucumbimos à mesma. No último caso, isso gera expectativa, faz pressão, dá medo, dá ansiedade. Tudo que ultrapassa os próprios contextos, tudo que esgota a autonomia, pode gerar pressão, expectativas traduzidas por medo, por atitudes mágicas de implorar pela ajuda divina, por exemplo, tanto quanto de utilizar o outro como apoio, como base para realização dos próprios objetivos, mesmo que enganando.

Pressões existem e variam em função da falta de autonomia, da falta de vivência do presente. Perceber o processo, suas implicações, e aceitá-las, minimizam as pressões, o estresse. A facilidade ou dificuldade em globalizar os processos, frequentemente endereçam indivíduos para as psicoterapias.


Thursday, August 10

Papéis sociais - mudança de comportamento



As sociedades em seus desenvolvimentos geralmente estabelecem regras e padrões. Esses modelos sociais são datados. Tempo de validade também existe para eles, desde que os questionamentos individuais, as estruturas econômicas, as vivências relacionais e psicológicas tudo definem e subvertem. São as transformações, as adaptações, as mudanças que aparecem, continuam ou são interrompidas. Vinte cinco anos - parâmetro geracional - é uma medida desses pontos de ebulição, de transformação. Exepcionalmente, fatores aparentemente abruptos também são determinantes de épocas, também são marcos. O pós-guerra (1945) é um deles. A morte de muitos homens na guerra levou outras realidades aos lares: de mãe e esposa a mulher foi transformada em provedora, modificando, assim, toda a estrutura relacional com seus filhos: dos lullabies (canções de ninar) às histórias contadas pelos audios, até os contatos no caminho da escola, agora substituído pelos acompanhantes e condutores escolares.

Vinte cinco anos depois, não só a maternidade, também o conceito de paternidade é transformado. Ser pai, agora, é trocar fraldas, fazer mingau, acompanhar boletins escolares, enfim, dividir essas mesmas tarefas com a companheira que já divide o pagamento das contas e o provimento da casa, que já dirige automóveis etc. As mudanças dos papéis sociais que se refletem na maternidade, na paternidade, vão também construíndo e significando novas dimensões para o homem e para a mulher.

A aceitação destes redimensionamentos cria compatibilidades, tanto quanto incompatibilidades. Também produzem resíduos que podem ser atritos, impedindo circulações harmônicas, velocidade condizente com as novas manivelas operadoras, com as novas configurações e demandas. O entrave do sistema cria impasses. Maiores conflitos surgem e às vezes o “pai amoroso” que troca fraldas é o mesmo que esconde o autoritarismo, cobrando direitos, o homem dono do poder. Também não é difícil encontrar as “garotas mimadas”, agora perdidas, soterradas pela quantidade de afazeres, reclamando de como foram enganadas: “não foi para isto que me casei”.

Os papéis sociais podem ser integrados e quando tal acontece tudo é harmônico, salutar, bem diferente de quando vivenciados como aderência, como anexo, imagens, papéis que cobram retribuições, que querem garantir sistemas, filhos e evitar fracassos.

Cada vez é mais necessário perceber o que é estar integrado às vivências e o que é usado como relações instrumentalizadas para aplacar necessidades e realizar demandas contingentes ou suprir insegurança e manter garantias.


Thursday, August 3

“Quanto pior, melhor” - Semelhanças e identificações



Continuamente não aceito, desconsiderado e marginalizado, surge, no indivíduo, esperança de camuflagem para conseguir mínimas considerações. Ele tenta arranjar uma segunda pele, consensualmente não aceitável, por acreditar que quanto mais sujo, quanto mais desconsiderado nas esferas social e psicológica, mais conseguirá atenção ao ficar igual ao residual, ao dispensado. É a ideia de quanto pior, melhor. Não ser útil, ser inútil, ser o nocivo que atrapalha, que faz esbarrar e merecer cuidado e atenção. Será considerado pelo mal que pode causar, pelo atrapalho que significa. Causar o mal, ser nocivo, chamar atenção, merecer olhares, é visibilidade, é consideração.

Ser invisível é desumanizador. Preconceitos e restrições criam a capa de invisibilidade e marginalizar-se ou causar prejuízos torna visível, personaliza, deixa de ser o zé mané e passa a ser o perigoso Zé, capaz de atrocidades. Virar alguém, ser considerado, mesmo que como escória e marginal perigoso, significa. O agrupamento de resíduos cria a necessidade de compactar, passa a merecer olhares reprovadores, mas, passa a merecer olhares, passa a existir. A luta por um lugar ao sol, isto é, um lugar na lama que tudo destrói, corporifica, torna visível. Assim se estruturam socialmente os párias, os marginais e também os sobreviventes implacáveis na destruição. Muitas vezes aparecem sob formas sutis, emoldurados por instituições ou pelas benesses conferidas pela riqueza: é a corrupção, o tráfico de drogas, de seres humanos, de órgãos; são os pedófilos provedores de famílias submissas aos seus desejos destruidores.

As identificações que formalizam grupos desconsiderados, criam semelhanças que são verdadeiras redes de impedimentos e impermeabilizações. A motivação para o “quanto pior, melhor” determina, posteriormente, ordens desviantes. Por semelhança os díspares são incluídos socialmente enquanto ameaça e dificuldade. Os processos da não aceitação têm muitos deslocamentos e tudo comprometem, necessário se faz restringir os contextos que possibilitam o florescimento dos mesmos, são cada vez mais urgentes estratégias sociais. Agências de poder, dos currais eleitorais às organizações e políticas aplacadoras, tanto quanto as promessas de paraísos de redenção, configurações polarizadoras de “almas perdidas” exercidas por meio de fé e esperança, de religiões que tudo açambarcam, todas essas promessas podem se constituir em transformação das normas de convivência com o excluído, mas apenas reciclam para posteriores comprometimentos, a matéria-prima excluída, transformando-a em produtos. É o que industrializa a fome e a violência. Não se constituem em estratégias solucionadoras das configurações problemáticas, e também acentuam o “quanto pior, melhor”.

Seres encalhados, sobreviventes decepados por processos sociais e de não aceitação podem constituir poderosos grupos, invasores de idílicas paisagens, que quebram a harmonia e obrigam a criação de novos sistemas de contenção. O que se evidencia a partir do “quanto pior, melhor” são esses grupos homogeneizados, bolsões de destituídos: são os drogados, os ladrões, os matadores. Assim os semelhantes se organizam, surgem identificações e cada vez mais poderosos passam a determinar regras comprometedoras do ir e vir, do viver social, familiar e individualizado. As cadeias estão abertas, não há contenção, está tudo junto e misturado. Sobram grupos organizados para o crime em vários âmbitos.

Em última análise, enxergar o outro - ele já não é mais invisível, ele é ameaça pregnante e constante - é mais uma tentativa de buscar ou querer estar protegido, querer se cuidar, frequentemente nada mais é que estar preso ao medo, à angústia diante do que é perigoso, do amedrontador, do que era antes ilhado e agora assume dimensões continentais.

O pior está estabelecido.


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Thursday, July 27

Manutenção - honestidade e desonestidade

O Julgamento de Salomão, de Giorgione - 1500-1501
Galleria degli Uffizi, Florence



Sempre que se insiste e luta para manter uma situação fica claro o quanto a mesma é aderente, ilegítima e sem veracidade para ser mantida. Lutar para juntar o que já foi separado, o que já se provou indevido, é uma atitude inautêntica e desonesta.

Honesto é o legítimo e legitimidade não exige luta, nem prova. No tempo dos Reis-Juízes, o Rei Salomão deixou um grande exemplo do que é julgar e do que é legítimo ao terminar com uma disputa entre duas mulheres que reivindicavam a mesma criança como filho próprio. Ele chamou as mulheres com a criança e anunciou que contentaria às duas, afirmando que iria dividir a criança ao meio para dar uma parte a cada uma. Nesse momento, uma das mulheres gritou que não, que entregasse a criança inteira para a outra. Salomão, então, disse que essa era a verdadeira mãe e entregou-lhe a criança, pois mãe salva, não mata o próprio filho. A legitimidade da maternidade foi expressa naquele ato de desistência da mulher e o justo foi feito no reconhecimento disso.

As complexidades e funcionalidades da sociedade moderna criam protocolos e parâmetros que frequentemente são usados como maneiras de burlar honestidade e legitimidade. São inúmeros parâmetros reguladores de instituições e relacionamentos sociais que quando manipulados em função de interesses, desejos e ambições pessoais, possibilitam destruição, injustiça, desonestidade e estratégias de manutenção de poder. Forjar provas, comprar depoimentos e votos são maneiras de turvar o que é legítimo. Esse é o cotidiano do mau político, por exemplo, do desonesto, do inautêntico, seja na política, nas famílias ou em qualquer relacionamento.

Situações indefensáveis são rotuladas como merecedoras de escrutínio, de voto como pseudo-manifestação da vontade popular, quando na verdade encobrem a manipulação e o uso dos direitos e salva-guardas populares. Argumentações sobre falta de provas, falta de flagrantes, como alegam certos condenados, são tentativas de dividir direitos, negar verdades e evidências. Afastar e punir quem utiliza e usurpa o que é do outro, o que pertence à coletividade, se torna cada vez mais urgente para que surjam mudanças, desde que a manutenção implica na aceitação do criminoso e desonesto. Só se pode falar em nome do povo, do outro, quando há legitimidade para tal e o legítimo é construído no limpo, verdadeiro e honesto.

Na esfera individual, a vida pautada na manutenção e comprometimentos nos quais tudo é contabilizado para funcionar bem e realizar ambições, não existe autenticidade, desenvolvem-se esquemas, nada pode ser perdido, imperam a desonestidade, o oportunismo e o vazio. É o caos no qual não se identifica mais juízes-reis ou mães legítimas; são as famílias mantidas pelos frágeis elos costurados nas aparências comprometedoras.


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Thursday, July 20

Oportunismo



A habilidade de tampar incapacidades, transformando-as em pseudocapacidades, se constitui no que chamamos de oportunismo.

Não ter condições, não ter conhecimento, não ter dinheiro, não ter mobilidade para realizar propósitos e objetivos, desejos ou necessidades, pode levar o indivíduo a transformar o outro, os recursos alheios, em instrumentos úteis para superar suas próprias incapacidades. Essa apropriação é sempre um oportunismo pois é resultado do uso do outro.

Não ter condições de realizar o que se propõe, ou o que é necessário, implica em admitir essa impossibilidade. Não se deter na impossibilidade e querer superá-la, sem recursos nem condições, estabelece redes de empréstimos, de utilizações que vão desde plágio e roubo até expoliações escusas. Engendrar mentiras, criar máscaras, criar imagens para conseguir expressar o que é necessário à realização de objetivos, é manipular fatos, manipular acontecimentos e realizações em função de objetivos diferentes dos que se expõe e explica. Manipular o outro, contextos e situações, implica sempre em uma atitude onipotente. Essa onipotência é um fator potencializador do que se crê necessário para realização das próprias necessidades.

Fraudar assinaturas, destruir documentos, gerar documentos, inventar histórias, inventar narrativas para justificar dificuldades, desencontros e disparidades, é comum quando se quer resultados, empregos, relacionamentos, absolvição de faltas, mas não se está capacitado, adequado aos mesmos.

Comportamentos oportunistas sempre são enganosos, sempre se constituem em autorreferenciamento que transforma os outros em objeto de satisfação dos próprios desejos ou que os destroem para que os mesmos caibam dentro de seus propósitos.


Thursday, July 13

Constatação




Perceber o que está em volta e constatar a existência de impossibilidades e limites, desanima. Esse desânimo cria questionamentos e restabelece a dinâmica, permitindo aceitação das impossibilidades e limites.

Quando o desânimo não possibilita questionamentos o indivíduo fica entregue às situações que o limitam. Nada é feito, apenas espera que aconteça o estabelecido. Essas vivências são frequentes quando se sabe não ter condições “de virar a mesa”, de “mudar o rumo do barco”.

Constatar a impotência é aniquilante, mas, por outro lado, possibilita a liberdade do não agir, do esperar não esperar. É um antagonismo estruturante, desde que percebido e respeitado. A constatação da impotência e de limites, alivia, permite desviar o rumo, recriar saídas, pois configura mudanças necessárias às manutenções de expectativas falhadas. Constatar é desatar o nó de impossibilidades, tanto quanto entender o enunciado de possibilidades.

Aceitar a perda, o limite (a morte, a doença, o abandono) é constatar situações extremas nas quais o importante é ver o que está sendo visto, é a percepção da percepção, é a constatação, que ao perder universos, ao vê-los sumir, percebe vazios e ausências configuradoras de mudança, talvez liberdade.


Thursday, July 6

Inconsequência




Vivências pontualizadas dos acontecimentos - do que ocorre - são típicas de posicionamentos autorreferenciados. Pessoas que vêem o mundo, o outro e a si mesmas a partir dos próprios e únicos referenciais e critérios, não percebem as malhas relacionais, tampouco as implicações das mesmas.

Reduzir tudo aos próprios desejos, medos e frustrações, tanto quanto acondicionar tudo nas caixas da experiência, aglutina disparidades, instalando caos, confusão e, assim, criando os únicos habitantes possíveis para estas atmosferas: os impulsivos, os inconsequentes, os irresponsáveis e imediatistas. É o “bateu, levou”, o “deixa comigo”, o “resolvo agora” que povoa este universo.

Atitudes inconsequentes são autorreferenciadas e pontualizadas. Existem quase como equivalentes de onipotência. O outro, o mundo causa sempre surpresa, assusta, exige interjeições, gritos, urros. Tudo é extravasado pois nada é refletido, questionado, continuado. Sem questionamento não há percepção das implicações, tudo é interjeição, quando muito, adjetivos para povoar o vazio que agora, desse modo, continua o não substantivado.

No autorreferenciamento o indivíduo é platéia de si mesmo. É também o filtro e o crivo a partir do qual tudo é percebido, pensado, dialogado, de tal maneira que é configurado como único existente no mundo, e portanto se imagina um contexto a partir do qual tudo ocorre, tudo acontece.

A continuidade de vivências inconsequentes possibilita interrupção dos confrontos criadores de questionamentos e aberturas, e também a interrupção de maior enfrentamento de suas posturas redutoras. Enquistado, enrolado em si mesmo, o nível de inconsequência aumenta, pois impermeabilizações arbitrárias foram atingidas. A depressão, a ansiedade passam a ser os dinamizantes. É um movimento grave, pois, devido ao exíguo espaço ocupado pelos posicionamentos, as áreas dinamizadoras implodem. Dragas são necessárias a fim de sobreviver. Estes artifícios para sobrevivência, também imediatistas, eternizam as descontinuidades, fragmentam e posicionam. Um dos exemplos disso é a insônia provocada pela ansiedade, pela depressão. Para essas pessoas, conseguir dormir é o grande objetivo e impõe ações imediatas. Tranquilizantes e soníferos são ingeridos, e então, dormindo ou sem dormir, o imediatismo é entronizado, tudo girando em função de objetivos e necessidades a aplacar e realizar.


Thursday, June 29

“Não posso, mas consigo”




Constatar uma impossibilidade e desconsiderá-la em função de um resultado que se crê necessário, frequentemente gera esforço, mentiras, desesperos, maldades, frustração e decepção.  

“Não posso, mas consigo” não gera conflito, embora, por definição, seja uma situação paradoxal, consequentemente, conflitante. A neutralização da incapacidade é o primeiro passo que se dá para manter o propósito e o empenho de conseguir. É também o que faz desaparecer a possibilidade de conflito.

Negar o existente implica em criar outra aparência. A falta de condição, o não poder ser desconsiderado ou subestimado diante do empenho para conseguir, leva a inventar capacidades. Como se faz isso? Copiando, plagiando, utilizando os outros para realizar o que não se tem condições, o que não se pode, mas se objetiva conseguir.

Na contemporaneidade, a tecnologia é utilizada para realização desses milagres pretendidos e buscados pela impotência ou incapacidade: desde as sexagenárias realizando o sonho de ter filhos, de serem mães “agora que podem cuidar dos rebentos” por exemplo, até os ajudantes, as barrigas de aluguel, pagas para realizar os desejos maternais.

Constatar uma incapacidade, quando possível, deve e pode ensejar superação da mesma, entretanto, constatar uma incapacidade, negá-la e independente da mesma, realizar objetivos pretendidos, é alienador, neurotizante, pois obriga o indivíduo a viver em função do que aparenta, do que instrumentaliza, dos enganos e mentiras construídos.

Superação é dignificante, mentira é aliciadora.


Thursday, June 22

Dúvidas e medos - como são reconfigurados



Estar sempre em dúvida faz com que se busque referenciais que funcionem como pontos de apoio, pontos de segurança. É examente aí que são criados os sistemas e métodos de avaliação.

Avaliar faz estacionar o desequilíbrio. Não se cai mais para um ou outro lado, cessam as dúvidas e, consequentemente, os medos decorrentes de cogitações. Consegue-se um ponto de equilíbrio que mais tarde se transforma no posicionamento autorreferenciado, responsável pela informação do que vai ser bom, do que vai ser ruim, do que vale à pena ou não. O que está à volta existe em função dos critérios avaliadores. Engloba-se o circundante e assim se cria capacidade, potência, eficácia, tanto quanto se constata as fragilidades e ineficiências.

A partir desse ponto, as vivências de dúvida são engessadas pela propriedade da eficácia, pelos resultados que trazem boas novas, boas colheitas assegurando paz e bem-estar. Não há medo, tudo está regularizado, funcionando, tanto quanto as desconfianças foram abrigadas. O inesperado que pode ocorrer é um fantasma que volta e meia requer cuidados, supõe espreitas. Ser cauteloso, não abusar da sorte, desconfiar do existente, estabiliza, permite controles, checagens.

Novas sofisticações, novos patamares surgem nos sistemas de avaliação. Cuidar do em volta garante certeza, exila dúvidas e traz sossego. Não há mais medo, só o de - de repente - morrer e tudo perder. Essa vivência de inevitabilidade provoca desespero, gera dúvidas, cria medos, agora decorrentes de certezas. As situações foram tão deslocadas que atingiram um ponto de não deslocamento. Esse bater contra o muro encontra o inevitável: a morte. É uma certeza responsável por gerar medo. O medo de morrer, de acabar, substitui todas as dúvidas, não há mais o que verificar, o que avaliar: já se sabe o desfecho final do processo. Não aceitar isso cria novas mágicas, tentativas de negar limites e realidade. A questão agora é o final intrínseco ao processo vital: adiar a morte. Nesse momento as verificações e avaliações de saúde, de saudabilidade, de controle da morbosidade passam a ser constantes.

As dúvidas e medos, como atitudes básicas em relação ao mundo, ao outro e a si mesmo, foram transformadas em certezas criadoras do extenso painel, do arsenal de verificação, de avaliação do que permite enfrentar doenças, fracassos, abandonos e morte.

… e assim, acorrentado ao que segura, o indivíduo realiza sua trajetória de camuflar dificuldades e realidades.

Apenas quando percebe que é de sua condição humana o limite e a finitude é que surge a libertação. Acabam dúvidas, medos, avaliações, certezas, verificações. Acaba o aprisionamento, já não se precisa de portas e janelas. O caminho, a saída está aos e sob os próprios pés. 


Thursday, June 15

Concentração de frustrações




Toda submissão é estruturada pelo medo, pela omissão. As extensões desse processo tonalizam incapacidades representadas por inveja, por exemplo. Desejar ser o outro, ou ter o que o outro tem, é, para o submisso, uma carga excessiva. Pontualizado pela sua submissão, tendo sido, ao longo da vida, reduzido a posicionamentos expectantes e autorreferenciados, qualquer situação além dele próprio é extenuante. Neste sentido é fácil entender como a inveja é vivenciada como aquilo que mata. Não ter conseguido o que o outro conseguiu estabelece uma concentração de frustrações e decepções que são disfarçadas e engolidas. Ser o outro, invejá-lo é uma maneira de ressuscitar, e esse nascer de novo é redentor. Todas as vivências e desejos de transformação ilustram esse drenar da não aceitação. Invejar é desejar ser o que não se é. Paradoxo e impasse absolutos. Como ser quando não se é? Exatamente aí, nesse pântano, cresce a inveja. Este alguma coisa, já não é o diferente, é alguma coisa, é o ser algo, ser alguém. Os desejos estruturantes da inveja, quando não realizados, são matéria-prima para a vingança. Trolagem, hoje em dia nas redes sociais, é um exemplo desse processo. Destruir o que não se conseguiu, vingar-se, é uma forma de afirmação, de realização. Sacrifícios sobre-humanos, provocar a própria morte, é, às vezes, uma maneira de se vingar, de cobrar tudo que lhe foi negado, de tentar recuperar o que foi tomado, o suposto merecido que não lhe foi dado.


Thursday, June 8

Cracolândia em São Paulo - Solução problemática




Um dos exemplos de solução problemática, consequentemente, pseudo-solução, foi o que assistimos estarrecidos, esperançosos e ameaçados, em São Paulo, na chamada cracolândia. A Prefeitura de São Paulo resolveu urbanizar áreas ocupadas por usuários de crack e ao fazer isso achava que estava também resolvendo e ajudando esses usuários, compulsoriamente levando-os à internação, obrigando-os a tratamento.

Em menos de 24 horas os craqueiros foram removidos da cracolândia original e, menos de 24 horas depois, passaram a ocupar outros locais próximos. A insurgência, a volta do sintoma foi perturbadora, deixou claro que foram desconsideradas resoluções anteriores estabelecidas com entidades médicas (psiquiátricas), sociais, antropológicas, psicológicas, que vinham sendo responsáveis por mediação, com o objetivo de conseguir estabelecer diálogo e consequente mudança.

O surgimento de impasses leva a conveniências e inconveniências, à necessidade de apreender implicações e a pontos de convergência. Afinal, no impasse, sob que ponto de vista, que contexto, as questões serão enfocadas? Considerar as necessidades da sociedade e a elas subordinar as do indivíduo, é lesivo, tanto quanto, pela exarcebada prioridade da liberdade individual, negar a ameaça e destruição dos outros é demagógico e perigoso. Esse tipo de contradição reside na velha questão, no velho dilema entre indivíduo e sociedade. Sempre que as situações ficam assim polarizadas é fundamental, e muito significativa, a mediação, o terceiro tema, o outro ponto a partir do qual as contradições são recontextualizadas.

Pensar na sociedade, nas áreas urbanas, na ordem, harmonia, paz e tranquilidade social, deixando os craqueiros em segundo plano, é transformar o outro polo - o indivíduo, o craqueiro - em objeto, resíduo que deve ser descartado, ainda que sob a forma de envio para tratamento médico. Na mesma linha de polarização, considerar fundamental e prioritário, o que deve ser feito para extinguir a dor e desespero do craqueiro, é reduzir a ação a níveis utópicos - sem condição de realização - é não pensar que ele, o craqueiro, já está em um ponto de chegada, não está em um ponto de partida.

Nem tudo é Fla x Flu, tampouco é nítido o preto e o branco, assim como as diluições em cinza não esclarecem. Mas o problema é que é preciso retirar os craqueiros, é preciso transformar a área em local seguro e para isso é necessário perder os pontos de vista particulares: o social e o individual.

Para resolver o problema, é preciso perceber que não existe confronto e que existe integração: craqueiros, cracolândia, vizinhança, área urbana, tudo está junto e integrado. Soluções podem ser atingidas caso se perceba usuários de crack e moradores na vizinhança da cracolândia como fazendo parte da mesma paisagem, sem exclusões geradas por funcionabilidades e outras ordens, como as econômicas, por exemplo. Validar a zona de convivência é sempre a melhor solução desde que não temos o direito de escolher com quem vamos coabitar na Terra. Essa é uma sábia lição dada por Hannah Arendt quando falava dos campos de extermínio, quando falava da rejeição ao outro, ao diferente seja na etnia, na religião, nas trajetórias que deixam marcas de pobreza ou, como no que tratamos aqui, os desesperados, os drogados e sem autonomia: os craqueiros. Arendt deixa claro que na vida social e política, a diversidade da população é uma condição irreversível, não escolhemos com quem coabitamos na Terra, essa coabitação antecede qualquer acordo político ou vontade deliberada de separação ou extermínio. A coabitação antecede qualquer comunidade. Naturalmente podemos escolher com quem viver, mas não com quem coabitar na Terra.

A sociedade é plenamente apta e diversa. Esse é o primeiro ponto que não deve ser esquecido. Dentro desse referencial e contexto as soluções devem ser buscadas. Se não são buscadas na diversidade, elas não resolvem problemas, apenas os escurecem com muros, paredes, campos demarcados para sobrevivência e minimização de sofrimento ou mesmo com a morte (a própria cracolândia, hospitais, hospícios, prisões).

Já é tempo de, enquanto soluções sociais, soluções macro, não cairmos em dicotomias, não buscarmos juntar elementos e ver se no final a solução aparece. O processo de mudança é longo, não se resolverá na erradicação, tampouco na convivência, mas pode começar a criar novos horizontes, novas tonalidades e diferenciações que permitam realmente resolver, e que essas soluções não gerem novos problemas. Isso não é difícil, mas é preciso dedicar-se aos problemas, ao invés de dedicar-se a escamoteá-los, escondê-los ou até mesmo utilizá-los, transformando-os em justificativa para manutenção das dificuldades e realização de outros interesses.

É sempre bom lembrar que o quantitativo nada define enquanto configuração relacional; não existe pequeno ou grande mal, existe o mal. Aos argumentos que justificam arbitrariedades políticas ou opiniões populares como “dos males, o menor” (é melhor a repressão e a força do que a morte no vício, por exemplo), contrapomos novamente uma frase de Hannah Arendt: “politicamente, a fraqueza do argumento sempre foi que aqueles que escolhem o mal menor esquecem muito rapidamente que escolhem o mal”.

Se quisermos pensar do ponto de vista do comportamento de evasão de dores e fracassos - que caracteriza o vício - sugiro a leitura de um texto meu publicado na Wall Street International Magazine em 4 de abril de 2015: Fuga - Evasão de dores e fracassos e também, na mesma Revista, o artigo Convivência - Medo e Preconceito, de 4 de julho de 2016.


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Thursday, June 1

Bolhas de sabão





Bolhas de sabão são quimeras, mentiras e fantasias estruturadas pela frustração, pela não realização do que se deseja. Esse mecanismo de escape - esse deslocamento - caracteriza o sonhador, isto é, o desesperado, o indivíduo que, ao não enfrentar os próprios problemas e limites, inventa mentiras, fantasias, narrativas, delírios.

Mentiras, fantasias e delírios são aspectos do mesmo problema: a não aceitação de si, do mundo e do outro. Acontece que as coisas são ou não são; existem ou não existem. Percebe-se ou não.

Inventar histórias, negar ocorrências, imaginar-se morador de um palácio quando se vive abrigado por uma ponte, é desorganizador pois sonega a realidade, único ingrediente capaz de realizar mudança. Lidar com o que se tem é estruturante, é denso, factível, permite recuperação. Lidar com o que não se tem, esvazia, não leva a nada, não ocupa, não significa.

A verdade é como a túnica de Cristo: inconsútil, inteira, sem costuras; é o que é. A mentira é o remendo, o costurado. Em outras palavras, verdade é continuidade, mentira é descontinuidade. A continuidade permite mudança e realização. A descontinuidade, nada permite, apenas envolve, enrola, dispersa, faz perder referenciais e referências.

Ser verdadeiro é ser inteiro, concreto e isso é diferente de fingir, manter aparência como bolha de sabão, que ao ser tocada estoura, desaparece. Os fragmentos invadem, criam desesperos e desempenhos, podem até constituir-se em obstáculos diferenciais, mas não permitem mudança e transformação.

A esperança, a expectativa de soluções futuras, é como a criação de bolhas de sabão diante do descontínuo, do instável. Ela nada vale, pois amortece a tenacidade, a resistência e a luta. Viver é enfrentar, não é a espera e busca de bolhas de sabão.


Thursday, May 25

A ignorância é um sistema




Podemos pensar em ignorância e em ignorante como sinônimos de não conhecimento e daquele que não conhece. Nesse sentido, ignorância, ignorar significa não perceber.

Frequentemente, a palavra ignorante é usada para quem não foi ensinado, não aprendeu, daí o ignorante ser também sinônimo de estúpido e grosseiro. Quando a questão é assim colocada, é clara a necessidade de ensino, de escola, de educação para mudar, neutralizar e transformar o estado de ignorância e os seus detentores: os ignorantes.

A situação não é tão simples, envolve outras dimensões, envolve várias camadas que configuram uma rede, um sistema a partir do qual são estruturados e mantidos os ignorantes e a ignorância. Perceber o que ocorre enquanto evidência, implica em estar diante de. Nem sempre esta dimensão presente é mantida, é vivenciada enquanto presente. A vivência do presente enquanto tal, supõe o presente (Figura) estruturado no presente (Fundo). Se há alteração, se o presente é vivenciado em outros contextos - experiências anteriores (passado) ou expectativas (futuro) -, as distorções, a não percepção do que ocorre enquanto está ocorrendo, se instala. Assim, o percebido não é o que está diante do indivíduo enquanto situação dada, que está acontecendo; a situação é filtrada por outros referenciais. São os preconceitos, as informações prévias, as avaliações do que deve, ou não, ser considerado. Isso cria zonas de sombras, formas obscurecidas que impedem conhecimento do que está se evidenciando. Deste modo, o que se percebe, o que se conhece é o que se pode ou está habituado a perceber, a conhecer, enfim, a percepção, o conhecimento, é automatizado em função dos referenciais que o estruturam. Não se conhece, não se percebe o que ocorre; a zona de desconhecimento é total, a ignorância impera, é sistêmica.

Escola, ensino, campanhas para superar medos, fobias e preconceitos, pouco significam enquanto mudança do processo comportamental e perceptivo, pois só atingem indivíduos quando criam outras convergências responsáveis por novos entendimentos, novas percepções. Ao serem atingidos por essas convergências que significam novas maneiras de perceber, de conhecer, os indivíduos mudam o entendimento, mudam a percepção, mas isso é feito em contextos de não disponibilidade. São esses comprometimentos que, apesar de propiciar aparente erradicação do não conhecimento ou da ignorância, mais a mantém, pois ela continua a ser o ponto de convergência das cogitações. Preconceitos, zonas sombrias, não são superados por gambiarras artificiais. As iluminações têm que ser propiciadas pela retirada dos anteparos que as estrangulam e obscurecem.

Saber que é ilegal exercer determinado comportamento não é suficiente para transformar o referido comportamento; é necessário que outra motivação surja, e, para tanto, a convivência, a disponibilidade, o perceber o outro, o mundo e a si mesmo de forma nova é esclarecedor e definidor de mudança, de erradicação da ignorância. É preciso outra situação para iniciar a antítese ao sistema da ignorância. Não basta ensinar, tampouco aprender, é necessário perceber as configurações completas, totais, do que é dado, do que está ocorrendo. Cogitações, posições, interesses criam confluência alienadora, egoísta, que não permite perceber o que se dá, enquanto dado, mas sim, como configuração relacional em função dos próprios interesses e motivações.

Questionamento constante traz clareza. Essa luz, esse esclarecimento é o que vai iluminar, abranger, permitir a destituição, a desconstrução dos pontos responsáveis pelo não conhecimento, pela não percepção, pela ignorância do dado.

Os Vedas - escrituras hindus associadas à filosofia e à religião - falam em viveka, isto é, a distinção de dados, a retirada de aderências, de aparências conotativas e até mesmo denotativas, que embaralham o conhecimento. A referência védica é ao conhecimento superior, divino, mas, o interessante nos Vedas é a admissão de aderências, de anexos que só fazem ensombrecer o encontro com a divindade. Pouco significa a fé, o esforço na penitência ou sacrifício; o fundamental é o discernimento - viveka.

Como discernir em entremeados pântanos, mangues de aposições e sobreposições? Como perceber o completo, a totalidade, em meio a misturas e incompletudes? Detendo-se no que se dá, no que se vê, percebendo, e, assim, questionando as zonas de sombras criadas por autorreferenciamento, desejos, torcidas e empenhos.

A ignorância é um sistema que subverte os sistemas responsáveis por lucidez e clareza acerca dos processos. Para o ignorante as percepções são significadas em função da densidade do que ocorre, ou seja, em função de suas necessidades básicas. Tudo que é relacional, sutil, que implica em configuração, é transformado em cenário apenas percebido em função de narrativas, de outras histórias, outras configurações diversas do que está ocorrendo. Quando esclarecimento e ignorância convivem juntos no mesmo indivíduo é possível, pelo questionamento, pela antítese, atingir síntese, mudança; entretanto, na maioria das vezes a ignorância reina sozinha, ou ocupa, se pudéssemos quantificar, 80% a 90% das percepções e motivações individuais, daí estar em amplo processo de proliferação, nada a detém, pois não há antítese.

Indivíduos ignorantes, tomados pela ignorância, pelo conhecimento do denso, do necessário, não percebem implicações. O imediatismo, o medo organiza suas demandas e vivências. Em situações de crise, no caos, falta lucidez, falta conhecimento, resta ignorância, restam ignorantes que tudo fazem para se desvencilhar do novo, frequentemente o vivenciado como enigma e ameaça.

A ignorância é um sistema que só pode ser desmantelado quando existe questionamento. Esse questionamento é atingido pela ampliação dos horizontes perceptivos, por meio de suas implicações. Quando se percebe que nada permanece onde está, que o movimento é constante, que tudo flui, que tudo é um processo - dinâmica inexorável - começam a surgir novas percepções, novas atitudes, mudanças. Mudar paradigmas, questionar regras, ampliar os espaços do estar, do conviver, traz luz, novas dimensões e direções. Surgem arestas que podem ser configuradas. Imbricações desmanteladas e aderências, apêndices antes visualizados como estruturas fundamentais, são abandonados, transformados.

Pela ignorância são mantidos todos os sistemas alienantes do humano, pois neles residem os alimentadores da submissão, neles também está o ópio que enfraquece o entendimento, neles se esconde o que se supõe abrigar e defender mitos necessários para manutenção dos mesmos, as vezes significados como regras familiares e sociais.

O sistema da ignorância é mudado pela lucidez, liberdade e percepções que ampliam horizontes, neutralizando posicionamentos dogmáticos e preconceituosos.



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Thursday, May 18

Vazio e ambição




Preocupados em atingir, em conseguir o que não têm, os indivíduos que não aceitam seus limites, suas histórias e vivências, disparam para realizar objetivos e desejos, disparam para realizar metas. Viver em expectativa é viver no depois, no futuro; é não viver no presente, é reduzí-lo a pequenos pontos onde os pés tocam. Perder espaço é perder o tempo. A não vivência do presente, estando o mesmo pontualizado nos apoios sobreviventes, deixa o indivíduo exaurido pela ansiedade. Nessas condições é preciso ter sempre alguma coisa para lutar, para conseguir ou para esperar. A ansiedade tem que ser alimentada. Sem a luta e a espera, o vazio se instala, surgindo, assim, o medo de morrer, de não conseguir chegar onde tem que chegar, medo de perder “o trem da história”, o “cavalo selado” da boa oportunidade. Pessoas vazias são ansiosas, medrosas e se mantêm pelo faz de conta. A mentira estabelece perfis, performances nas quais tudo fica resolvido. A incapacidade, a variação de atitude, o ir e voltar atrás no que faz e diz, constitui seu dia a dia. Pôr os pés no chão, aceitar limite e dificuldade é a única maneira de transformar a pontualização em continuidade, é o não queimar de etapas, é o entender que não é ao pular que se atinge cumes, mas sim, vivenciando pari passu os processos diários de enfrentar dificuldades e limites.


Thursday, May 11

Prudência




Infelizmente, a prudência, um dos bons aspectos configuradores de autonomia, ou seja, a percepção de limites, dificuldades, flexibilidade e rigidez, pode ser transformada em medo, em desconfiança. Muitos indivíduos se sentem prudentes por amealhar (dinheiro, poder), por esconder recursos, por despistar, esconder do outro, que é sempre visto como diferente, como estranho. Ser prudente é ser autônomo, é ser capaz de perceber limites, não os negar para que possa aceitá-los ou transformá-los. Nos indivíduos autorreferenciados, a vivência de suas não aceitações e conflitos - gerados por compromissos e projetos frustrados - transforma a prudência em ferramenta de verificação, utilidade e sucesso. Prudência passa a ser entendida como cuidado, como desconfiança, como não ter disponibilidade, espontaneidade, como estar sempre com o “pé atrás” para ter recursos e não cair em armadilhas. Prudente, então, não é mais o que constata e se relaciona com limites, prudente é o que antecipa, se resguardando, se cuidando, evitando encontros, evitando o novo. Esta maneira de perceber os outros e a si mesmo, este autorreferenciamento, transforma a prudência em medo - omissão - criador de isolamento, de solidão. O exercício constante deste isolamento faz com que as expectativas invadam o cotidiano. Sem participação surge ansiedade e consequentemente a depressão: são constantes o vazio e a solidão.


Thursday, May 4

Aprisionamentos doentios




Diante de muitas vicissitudes, doenças constantes e inúmeras, por exemplo, o ser humano se sente incapaz, prejudicado, doente, sozinho. Permanecesse neste sentimento, questionasse este momento, muito seria transformado. Acontece que quando se chega neste estado, geralmente ocorre não aceitação do mesmo. Começam a surgir deslocamentos, caracterizados principalmente pelo medo, pela carência, pela necessidade de ser aceito e cuidado pelos outros mais próximos, como familiares e amigos. Exigir cuidados constantes para justificar as próprias doenças, mazelas e impedimentos cria um contínuo estado de vitimização. Não pode haver melhora neste processo aguilhoante. Mais cuidados, mais amargura, mais desespero. Compreender que a realidade da doença aí está, que a mesma tem que ser suportada e que existem outras coisas saudáveis e válidas, é uma verdade. Esta reação é bem-vinda, causa tranquilidade, mas para ser mantida exige um mínimo de aceitação das situações limitadoras. Exatamente aí recomeçam as queixas, a vitimização, pois a não aceitação, de limites, de estar sozinho, de não ter alguém que cuide, é ameaçadora, e assim, neste contexto costumam pensar: foi tão fácil se sentir bem apesar de doente, que não deve ser difícil conseguir ficar bem novamente. É um novo dilema que surge, ancorado na velha questão da falta de autonomia, da não aceitação do limite. As novas justificativas agora são vivenciadas sobre outra base: o controle do que limita precisa ser aceito e não pode magicamente desaparecer, isto é, a doença existe, tanto quando a vida que deverá ser exercida de forma autônoma ao lidar com a doença, mas a pessoa teme falhar, ser abandonada, morrer. Começar a vivenciar os limites que a situam é exatamente tudo o que ela não quis ao abrir mão da própria autonomia.


Thursday, April 27

Persistência e padrão

Seres humanos não são máquinas, mas na maior parte do seu dia vivem como se fossem. É uma realidade massacrante suportar esta desvitalização, este massacre do humano. É preciso considerar alguns aspectos que minimizam, que desconfiguram esta mecanização.

Estando no mundo, somos organismos, realizamos funções e estamos conectados a inúmeros sistemas que nos caracterizam ao nos descaracterizar como individualidades. Do oxigênio aos pés no chão, a lei da gravidade, estamos realizando nossa trajetória humana. Sem esta repetição, sem esta frequência, sem estes mecanismos respiratórios, deambulatórios, estaríamos inertes, imobilizados. Em certo sentido é mecânico sobreviver, subsistir, manter a nossa humanidade. Precisamos realizar as funções mecânicas, automáticas, medulares para realizar o cortical, o relacional, o perceber o outro. A persistência deste processo libera individualidade ou a sobrecarrega. Tudo vai depender de como nos relacionamos com os padrões (ambientais, cerebrais, orgânicos, sociais). Dos aspectos climáticos aos indicadores de liberdade social e política, estamos padronizados. A questão é como compreender, como lidar com estes padrões. Exercer submissão? Realizar questionamentos? Nadar, surfar ou sermos afogados pelas vagas e vogas estabelecidas como regras e padrões?

É a resposta individual, a liberdade de dizer sim, de dizer não que vai caracterizar persistências ou mudanças. Persistência pode ser um caminho para mudar, tanto quanto é uma maneira de se adequar, adaptar, submeter-se ao que despersonaliza.

Padrão deve ser seguido, não tendo padrão deve-se criá-lo, mas, é preciso interagir, tanto quanto modificar o existente para não cair no abraço cego do apoio, do grupo, da chefia.

Todo processo de persistência exige autonomia ou abandono. Por autonomia se persiste nos movimentos de revolta, de dizer não às ordens constituídas que engolem individualidades, tanto quanto a governos ditatoriais ou familiares autoritários. Também por falta de autonomia, por abandono da própria individualidade, das próprias motivações, se persiste sendo a mãe escrava do filho drogado, a mulher espancada semanalmente para garantir a ordem familiar constituída ou ainda a filha abusada que persiste em salvar, manter o bom nome do pai, da família.

A persistência quando vira um padrão, é transformada em peça de engrenagem mantedora de compromissos alienantes, tanto quanto ao ser exercida como atitude crítica, como diferencial questionador de padrão, é uma antítese aos mesmos, é a possibilidade de mudar, é a certeza que transforma o ambíguo, que esclarece e permite mudar.

Como diz o ditado: “água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”, é a repetição que desdobra, cria novos horizontes, muda. Persistir é também começar a cegar, esquecer, embaralhar, pois se vive no automatismo na repetição, de padrões que alienam.

Distinguir o que padroniza do que aniquila, o que mantém do que permite mudar é fundamental para não virar máquina de produzir humanidade, beleza, amor, fé esperança, desumanidade, feiúra, desamor, desesperança. Existe muito que se pode açambarcar do padronizado quando se conhece seus processos, seus limites: macieiras jamais vão gerar laranjas e vice-versa.

O padrão humaniza, o padrão desumaniza tudo vai depender de como ele é utilizado, manipulado. Persistência é saudabilidade tanto quanto é prejudicial, tudo vai depender do seu fulcro, do que constitui sua sustentabilidade.


Thursday, April 20

Encaixes

Para certas pessoas, para certos indivíduos, a única coisa a ser feita é encaixar-se, adaptar-se, adequar-se ao que vier. A redução à sobrevivência, às necessidades básicas, é a atitude que caracteriza estas pessoas. Como se consegue esta redução das dimensões psicológicas, das dimensões relacionais, aos aspectos puramente orgânicos da sobrevivência? Ter passado fome, ter passado dificuldades, ser uma pessoa desconsiderada, tratada frequentemente como escória, nada significando, faz buscar um alento, o alimento, o afago - mesmo que humilhante - é a única saída vislumbrada. Vidas adequadas são vidas encaixadas. Este transformar-se em peça da engrenagem, validade compromissada e apta para alívio, “felicidade líquida” (como conceitua Zygmunt Bauman), identifica consumidores e consumidos. Neste contexto, viver é adequar-se ao que parece dar bom resultado e evitar o que pode causar distúrbio ou massacrar sonhos. Mulheres que apanham (para que a família continue mantida); seres que se prostituem para saciar fome, realizar desafios, atingir quem sabe - como às vezes pensam - o poder, através de “alguém que os tire da lama”, é um desejo constante encontrado nestas vidas despersonalizadas, submissas. Tudo é suportado, contornado, aproveitado para que os encaixes se realizem. E assim, os processos de sobrevivência geram muita ansiedade, muito medo - omissão -, desde que não existe um mínimo de autonomia.


Thursday, April 13

Fácil e difícil

Fácil e difícil são critérios extrínsecos ao que acontece. Nada é fácil, nada é difícil enquanto situação que acontece. Só existe critério de facilidade ou de dificuldade quando mediações avaliadoras são exercidas. Medir, configurar, avaliar situações enquanto facilidade ou dificuldade varia de indivíduo para indivíduo, de época para época. Exemplo bem contemporâneo: nada mais fácil do que fazer refeições fora de casa, menos de cem anos atrás esta era uma situação cheia de dificuldades. Se considerarmos as necessidades fisiológicas, que por definição são sempre fáceis ou difíceis à depender da higidez orgânica, podemos começar a perceber a facilidade/dificuldade desta questão, enfim, começamos a perceber que o problema não se esgota em si mesmo, exige sempre interfaces configuradoras.

Viver, sobreviver, ser feliz, ser disponível é o que há de mais fácil, tanto quanto de mais difícil. Educar-se, educar filhos, viver em sociedade, participar de grupos, conhecer assuntos e explicá-los é muito fácil, é muito difícil.

Facilidade e dificuldade, ao longo do tempo, vão criando sinônimos capazes de melhor entendê-los. Fácil é o flexível, o que se mostra. Difícil ancora em densidade, rigidez, concretude, daí para fácil ser o que passa e difícil o que fica - um passo.

Em educação, crianças que aprendem rápido criam desconfiança, parece que vão esquecer tudo, parece que não se esforçam. Neste contexto, suar, concentrar - esforço - é o que dignifica, o que permite resolver dificuldades. Lutamos pelas facilidades, mas como somos presa de a priori e preconceitos, cada vez mais valorizamos o difícil embora apreciemos o fácil. Cria-se cisão, se estabelece novos parâmetros e critérios de valor, ao ponto de esgotar a disponibilidade. Bastaria lembrar que fácil e difícil existem como conjunto de valores, que não são inerentes a nada existente, enfim, é muito fácil viver, é muito fácil morrer, tanto quanto é extremamente difícil realizar estes processos dada a infinita configuração de variáveis que os possibilitam.

Fácil é o que se apreende e integra, difícil é o que não se apreende nem é integrado. Apreensão, facilidade resultam de dedicação, de presença; dificuldade e complexidade são estabelecidas por distância, alheamento, estranheza.


Thursday, April 6

Deveres

Todo sistema, do social ao familiar, estrutura, impõe e possibilita regras, deveres, direitos. É um processo resultante da própria estrutura dos sistemas, entretanto, transgressões, alternativas podem modificar e minar esta configuração relacional. Quando se insere ordem, demandas e configurações alheias à estrutura, surge um sistema de convergência, obturador do existente, ou no mínimo dispersor das ordens estruturadas.

Famílias se organizam para a paz, tranquilidade de vivências entre seus membros, mas quando é colocada a ideia de que paz e tranquilidade só se consegue sendo igual às famílias que têm muito dinheiro, muito poder, esta colocação cria uma mudança: não mais se vê paz e tranquilidade pelo que se vivencia, mas sim pelo que se consegue: dinheiro, poder. Este novo referencial gera novos valores, novos deveres, alheios às estruturas daquele sistema anteriormente estabelecido. Ser o melhor, o mais rico, o mais poderoso, é o novo objetivo e assim as configurações anteriores são desprezadas, surgem novas regras; pagar contas por exemplo, é considerado um ato tolo, o mais eficaz é comprar uma boa roupa para impressionar amigos e conseguir melhor salário, ou ainda, tentar a sorte nas “patinhas dos cavalos”, no turfe. Conceitos éticos são modificados, não importa o que se faz, nem como se faz, mas sim o que vai se conseguir.

Toda vez que deveres, regras relacionais são substituídas por regras alheias à sua estrutura, surgem danos, massacres, destruição. É assim nas ditaduras: “tudo pela segurança do país”; é assim na política: “tudo pelo social”; é assim na família: “tudo pela nossa ascensão social e econômica”.

Regras e deveres são libertadores ao indicar e estruturar possibilidades e limites, e são alienadores quando resultam de cópias realizadas pelos anseios e metas de realização.


Thursday, March 30

Generosidade

Generosidade só é possível quando existe disponibilidade, entretanto, na contemporaneidade, generosidade vira uma regra, uma atitude civilizada e consequentemente, útil ao ser praticada.

Ser generoso é propiciar, dar, possibilitar bens, acessos ou gentilezas ao outro. Só se pode fazer isto quando se é espontâneo, quando se é disponível, caso contrário é uma regra, um investimento socialmente validado. Generosidade é uma decorrência de disponibilidade ou de uma regra adequadamente exercida em função de recomendação social. Sendo regra é esvaziada, gera apenas comportamento imitativo. Somente como decorrência de disponibilidade é que se pode exercer generosidade.

A gratidão, o ser grato é outra armadilha, é também uma maneira de distorcer o que é generosidade enquanto disponibilidade. Para haver generosidade é fundamental estar disponível para que não se transforme em investimento, em vivência resultante da percepção do outro, de suas dificuldades e acertos.

Ser generoso, ser grato nem sempre decorre de vivências disponíveis, às vezes generosidade e gratidão são respostas a compromissos e aceitações onde sequer outras possibilidades são colocadas.


Thursday, March 23

Sobra como ausência

Este aparente paradoxo - o que sobra falta - é bem expresso em uma música de Renato Russo: “só nos sobrou do amor, a falta que ficou”.

Merleau-Ponty fala sobre a presença da ausência em suas explicações fenomenológicas; é claríssimo o exemplo que ele descreve, da cabeceira da mesa vazia, mostrando a presença do pai já morto. A sobra do que falta é diferente, é o contrário da percepção da ausência, ela não é a ausência presente. A sobra do que falta é ausência que castiga, que marca, que denuncia a falta, exarcebando-a.

Psicologicamente, vivencia-se inúmeras situações onde o excesso, a sobra acusa a falta. Filhos que dependem da aprovação dos pais, estão sempre intranquilos, exercendo medos, expressando dificuldades como marcadores da ausência de cuidado, da falta de educação recebidas.

Sobra sempre o que falta para pessoas que não se aceitam, que se sentem vazias, inadequadas. Os quadros de ansiedade são elucidativos desta sobra, deste transbordamento de não aceitação. Quanto maior, quanto mais sobra ansiedade e não aceitação, maior a ausência de autonomia e de determinação.

Os processos de coisificação expressam falta de autonomia. Este excesso de dependência das regras alienantes mostra o vazio, a ausência de humanização, de solidariedade.


Thursday, March 16

Sociedade disciplinar e Sociedade de desempenho

No século XIX e até a metade do século XX se vivia no que se convencionou chamar de sociedade disciplinar. Estruturada na criação da indústria, a sociedade disciplinar substitui a sociedade feudal - predominantemente agrícola -, e se caracteriza pela existência de instituições: hospitais, asilos, prisões, quartéis, fábricas. Nestas sociedades, os indivíduos seguem ordens, executam papéis, enfim, são “sujeitos de obediência”. O grande avatar filosófico da sociedade disciplinar, o que traz a boa nova, é Nietzsche, que ao dizer “Deus está morto” realiza antíteses necessárias aos caminhos da libertação individual.

Produção e acúmulo de capital, na sociedade disciplinar, estão baseados na indústria. Isto mecaniza e exige disciplina, gera proibições, impõe regras e deveres como leis básicas do ir e vir. Não foi à toa que o século XX abrigou os maiores regimes totalitários: Stalin, Hitler, Mussolini, Pol Pot. Seguir a regra, manter a disciplina era o fundamental. Foucault, em todos os seus livros, nos mostra as vigilâncias e punições, regras e dogmas exercidos pelas sociedades disciplinares, cheias de proibições.

Agamben, Baudrillard, em certo sentido Barthes, além de Deleuze, têm muito escrito sobre esta questão embora sempre posicionados em abordagens mecanicistas e reducionistas. Para Deleuze, tudo pode ser enfocado através do inconsciente maquínico, por exemplo. No bojo destas explicações dualistas, surgiram teses que, apesar de insuficientes,  configuram a mudança da sociedade disciplinar para a sociedade do desempenho, na qual o indivíduo fica entregue a ele mesmo, é seu próprio patrão, realizando assim, as demandas do capitalismo neoliberal.

Desde maio de 1968, com o “é proibido poribir” francês, muda-se o eixo polarizante de atitudes e comportamentos. Ter um bom desempenho, ter poder tornou-se regra para o próprio indivíduo. O modelo de regras e deveres da sociedade disciplinar, torna-se modelo deste indivíduo da sociedade de desempenho; é ele próprio quem impõe a si mesmo, regras, disciplinas e objetivos, tanto quanto tem a ilusão de não ter patrão, de ser livre. Tudo vai depender do que se faça, do que se proponha, e então, se é necessário ampliar horizontes: procura-se estudar, viajar, fazer turismo; se é preciso focar na saúde: procura-se academias de fitness, e assim por diante. Protocolos e mega espetáculos caracterizam o contexto do desempenho.

O sujeito age, desempenha para ter poder. Não é por acaso que a palavra de ordem, o hashtag das minorias discriminadas existentes nas sociedades, buscam “empoderamento”. A fragmentação aumenta, pois cada qual luta e cuida de seu quinhão conseguido. A solidariedade diminui, o outro é o intruso que tudo pode ameaçar.

De desempenho em desempenho, chegamos à sociedade do cansaço como é enfocada por Byung-Chul Han, professor de filosofia e autor de vários livros; chegamos no que Jonathan Crary acentua no seu “24/7 - Capitalismo Tardio e os Fins do Sono”: “Quanto mais nos identificamos com os substitutos eletrônicos virtuais do eu físico, mais parecemos simular nossa desobrigação do biocídio em curso por todo o planeta. Ao mesmo tempo, nos tornamos assustadoramente indiferentes à fragilidade e à transitoriedade das coisas vivas reais”; chegamos também no que Zygmunt Bauman conceitua como modernidade e amor líquido. Enfim, chegamos nas aniquilações do indivíduo.

Aniquilar é desumanizar, processo sempre possível caso não haja questionamento e, assim, o ser humano se esgota na necessidade de sobreviver.


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Thursday, March 9

Inevitabilidade

A perspectiva do inevitável cria, para certos indivíduos, medo e apreensão, tanto quanto desencadeia desejos constantes decorrentes de fugir da percepção de impotência paralisante. Varia de indivíduo para indivíduo o que é considerado inevitável. Variações são iniciadas desde os critérios de “não quero que aconteça isto, não é bom para mim”, até a irremediável perspectiva da morte. Quanto mais afastados e incompatibilizados com a própria realidade, mais condições de inevitabilidade são estabelecidas. Nas situações de vício, por exemplo, é frequente como a irreversibilidade do processo é transformada em detalhe, ficando a depender de vontades e desejos pessoais.

Existem indivíduos que diante de qualquer possibilidade de variação na rotina sentem medo, imaginam catástrofes, desde a reprovação do filho em uma determinada disciplina na escola, até o emagrecimento de dois quilos traduzidos como sinal de doença mortal.

A condição de inevitabilidade é uma antecipação gerada pela impotência diante do que ocorre. Não aceitar isto cria deslocamentos de onipotência geradores de prepotência, prepotência esta expressa pelo medo, pela certeza da inevitabilidade. Pessimismo, ideias catastróficas são maneiras de eliminar a não aceitação da impotência diante do que ocorre, dos desejos não atendidos.

Nos relacionamentos afetivos, a crise de separação, o medo de ser abandonado/a, cria ideias de inevitabilidade, prolongadas por apegos e mentiras - técnicas de sedução -, destinadas a envolver e manter o outro, que são bastante comuns: desde o conhecido “golpe da barriga”, até o arranjar um amante para não sofrer o abandono.

Desistência da vida também é um aspecto de vivência de inevitabilidade, às vezes caracterizada por suicídio, por abandono da vida, já que, nestas condições, é impossível entender as intrincadas inevitabilidades de seu desenrolar.


Thursday, March 2

Dificuldades contínuas

Nos processos psicoterápicos é frequente assistir às insatisfações expressas pelos clientes e geradas pela constatação de que a solução surge, mas os problemas permanecem. Esta contradição é entendida e resolvida quando é percebido que a solução estabelecida e desejada para uma problemática específica não é admitida quando ela não se realiza como imaginado. Problemas existem e são solucionados quando se percebe e muda seus estruturantes, isto é, as situações que os governam. Problemas jamais são resolvidos quando se busca solução para os mesmos sem considerar as realidades e estruturas que os engendraram.

Basta haver problema, para que haja solução, então, por que as pessoas permanecem com problemas, por que não encontram solução? Por buscá-las independente dos dados do problema, buscá-las além dos mesmos, além do que é problemático. Em geral, todos admitem ter problemas, no sentido de ter dificuldades, mas não admitem, não percebem que suas motivações, atitudes, medos e dificuldades decorrem de suas não aceitações, decorrem de suas problemáticas.

Considerar-se feio, sem atrativos, por exemplo, faz com que se busque ser considerado, elogiado, ou no mínimo não ser criticado. Quando as críticas ou desconsiderações acontecem, isso é vivenciado como discriminação. A solução seria, através de questionamentos, constatar as não aceitações, os modelos e padrões que criam o critério de feio, de sem atrativos, em lugar de querer ser aceito, ser elogiado.

Deter-se nas dificuldades, deter-se nos medos é solucionador. É a maneira de estar disponível para os próprios problemas.


Thursday, February 23

Participação e contemplação

Estar totalmente vivenciando o presente é a forma de contemplar, isto é, de estar imerso no instante que se eterniza, que continua pela participação. Não há depois, embora haja antes. A continuidade que desemboca no presente, no instante, é o anterior agora congelado no presente totalmente vivenciado. Não há anexações, nada é segmentado, tudo realiza dinâmica. Este absoluto é conseguido pela continuidade do relativamente congelado, imerso na apreensão da totalidade sem direção, sem confluência polarizante. É o momento mágico da contemplação no qual o indivíduo e o contemplado são unificados.

Esta parada abrupta da dinâmica relacional é quase o cancelamento da memória, do passado, pela atualização totalizante da mesma. Não há depois, o antes também foi congelado no agora. Desaparecem dúvidas, medos, ambiguidades. Nada mais existe que não seja participação. Quando isto acontece, contemplação é estabelecida e a descoberta do novo se impõe; é percebido tudo que faz cancelar as divisões, as ambiguidades. No presente se realiza a eternidade, a participação é a contemplação de infinitas possibilidades, onde tudo é contínuo e realizado.

Bem-estar, tranquilidade resultam destas vivências nas quais as possibilidades fluem e as necessidades e contingências desaparecem. Finalidades, objetivos, dúvidas, enfim, os propósitos de futuro exilam o presente da continuidade, fazendo com que participação e contemplação não se encontrem, justificando assim o que se pensa ser suas características antagônicas.

Participar é contemplar, é a vivência do presente sem divisão, sem descontinuidade estabelecida por referenciamentos em passado ou futuro. Este momento, esta igualdade é difícil, pois sempre estamos com a priori ou expectativas que descontinuam, dividem nossa participação, impedindo imersão no que ocorre, impedindo contemplação.


Thursday, February 16

Funcionalidade

Organizações sempre aparecem em função de algum referencial, quer para o bem, quer para o mal. Bem ou mal, aqui, estão considerados como valores atribuídos e necessários às organizações e neste sentido, a organização é extrínseca, é regra aderente ao que se quer estabelecer e é isto que constitui a funcionalidade necessária aos processos.

Olhando a sociedade podemos ver aderências e imanências em sua organização. Neste aspecto, vários fatores já foram enfatizados. Explicar as organizações sociais em função dos meios de produção (K.Marx)  permitiu muito esclarecimento, embora não considerasse o humano ao basear sua análise em explorados e exploradores. Dicotomias como esta, estabelecidas em função do capital, da ordem econômica criam tipos de homem: o pobre, o rico, o explorado, o explorador, e através destas categorias e configurações obscurecem a percepção do indivíduo, ainda que explicando organizações sociais e econômicas.

Organizações propostas pelas religiões também criam categorias classificatórias: os filhos de Deus, os ateus, os ímpios, os infiéis, realizando a negação do humano ao estabelecer estas tipologias.

Da mesma forma, ciência e tecnologia também delapidam as organizações intrínsecas do humano, do indivíduo.

E quando se considera a organização  intrínseca, o que se processa? O que se faz?

As explicações psicológicas são reservas mantenedoras das organizações intrínsecas, inerentes aos seres humanos. Mesmo quando se fala no instinto, equalizando psicológico e biológico no humano, a análise é focalizada no humano; humanidade é reconhecida em todos os indivíduos, embora reduzida a aspectos orgânicos neste tipo de abordagem. O foco, na psicologia, é o humano.

Considerar a relação ser no mundo é a única maneira de organizar o intrínseco, o imanente, tanto quanto de organizar seu espaço em função das externalidades alienantes. Esta abordagem pode ajustar e alienar em função de funcionalidades, tanto quanto pode levar à transformação de limites em função da realização de possibilidades, da realização de liberdade. A organização é intrínseca ao processo do estar-no-mundo, decorre de suas estruturas e imanências relacionais, tanto quanto é alheia,  aderente aos processos, quando os mesmos são polarizados em função de regras e propostas organizadoras de outras imanências situacionais e relacionais. A transformação da dinâmica em prolongamentos à realização cria funcionalidades alienantes, regras devastadoras, papéis sociais, por exemplo, nos quais o confinamento do humano é destruidor.


Thursday, February 9

Continuidade e vitalidade

Quando se percebe que felicidade, infelicidade, saúde, doença, que o que se quer ou precisa independe do que se deseja ou necessita, se aceita a contingência, o inesperado ou a resultante continuada do que se estruturou e estabeleceu. Esta aceitação de limites e realidade permite lidar com o inesperado, com o determinado por inúmeros processos, de uma forma contínua; permite presença, vitalidade diante do inóspito, tanto quanto diante do aprazível.

É a atitude diante do que ocorre que estrutura humanos cheios de possibilidades, de continuidade, ou, que escanteia seres mecanizados, programados por ilusões, por medos (omissões) e mentiras. Enfrentar o que pode nos aniquilar, pode ser, como já dizia Nietzsche (“aquilo que não me mata, me fortalece“), uma forma de nos fortificar.

No cotidiano, o estruturante é enfrentar tudo que é vivenciado, mesmo sob a ambiguidade de dúvidas geradas pela constatação de descobertas estonteantes. Saber-se traído, por exemplo, é uma forma de libertar-se de crenças, de dependências e mentiras. Descobrir mais possibilidades e alternativas para desempenho profissional, que implicam em mudança de status e imagens há muito estabelecidas, pode ser libertador, realizador de motivações antigas, anteriormente sepultadas como inúteis, como não realizadoras. Abandonar parcerias, casamentos mantidos pela conveniência social e bem-estar dos filhos, pode ser rejuvenescedor, pode trazer continuidade, pode trazer vitalidade do acordar ao adormecer.

Viver é participar, é estar inteiro frente ao que acontece, sem meias verdades, sem escudos de dúvidas e medo. Enfrentar obstáculos, discriminá-los, questioná-los ou integrá-los modificando paisagens vivenciais e relacionais é a forma de aceitar limites, de continuar e modificar o que abruptamente destruiu organização ao configurar impossibilidades e interrupção.

Sempre é necessário concentração, dedicação e disponibilidade para superar as descontinuidades causadas pelo inesperado ou pelo unilateralmente estruturado e posicionado, pois o importante não é isto ou aquilo e sim estar pronto, apto, para isto ou aquilo.


Thursday, February 2

Descontinuidade e ideia fixa

Esperar que tudo aconteça como se quer, que nada atrapalhe o cotidiano e os projetos, é um desejo que cria ansiedade. A expectativa cria compromisso com o que não existe, com o que ainda não aconteceu, tanto quanto instala descontinuidade no existir.

A maneira de preencher estes vazios, estes pontilhados de descontinuidade, é transformar o que escapa em ponto de apoio. Segurando o que não pode ser segurado, o interrompido, se cai em repetição na tentativa de esticar o existente para suprir, cobrir o que não existe. Este faz-de-conta cria espaços de superação, de realização do que é impossível de atingir pois falta matéria-prima, falta condição de configuração, falta vivência presentificada, vivência atualizada. A não aceitação da própria incapacidade, da impotência de modificar situações ou realizar desejos cria tensão, gera medo, ansiedade e paralisa.

Ficar emparedado, imobilizado pelo que precisa, pelo que necessita e não acontece, deixa os indivíduos reduzidos à incapacidade de realização de seus sonhos, de suas ideias fixas. A obsessão passa a ser o metrônomo determinante do ritmo das motivações e atividades. A monotonia, o tédio são instalados no cotidiano e cada vez mais surgem deslocamentos, fantasias, antecipações de medo e esperança para gerar dinâmica, animação, colorido na realidade monótona. Quanto mais se desloca, mais se sai do presente, mais se nega e amplia as vivências, consequentemente mais descontinuidade, mais ansiedade são estabelecidas para sustentar as ideias fixas, os desejos obsessivos.

Viver esperando é o mesmo que viver se esvaziando, negando tudo que se faz e vivencia. A espera, a expectativa é uma forma de negar a própria vida, destruíndo o que está em volta. Quando não se suporta mais este vazio, este não presente, se cria atmosferas, atividades repetitivas e viciantes a fim de continuar a descontinuidade, a fim de pôr os pés no chão de uma maneira mágica, irreal.


Thursday, January 26

Conformismo e revolta

O indivíduo, ao perceber divisões, dificuldades e impedimentos, desenvolve conformismo, aplacamento ou revolta. Uma ou outra atitude depende das polarizações existentes. Quando o que causa divisões é utilizado para garantir vantagens ou conforto, a possibilidade de aplacamento é maior. Quando as peças quebradas, fragmentadas são dispersas, utilizadas como substitutos, como quebra-galho, a revolta começa a se instalar pelo atrito.

Nestas situações, concórdia e discórdia são polarizantes e dispersores. Juntar o quebrado e dele se utilizar como finalidade de ganho e bons resultados, permite ilusões de confraternização, solidariedade e acompanhamento, também gera ilusão de concordância e confiança, e as dificuldades são aplacadas, abrandadas. Por outro lado, pode ocorrer outra situação na qual a polarização do segmentado é feita criando atrito, pois a polarização faz perceber o indevido, faz perceber o excessivo. Sobram interesses, objetivos, vontades e desejos e assim mais resíduos fragmentados resultam das incoerências vivenciadas. Quando as discordâncias presidem os encontros gerados pela antítese, surgem interações responsáveis por julgamentos, tanto quanto situações nas quais impera a discordância, criando tanta incompatibilidade, tanta separação que a revolta desponta.

Muitas vezes a dedicação a causas sociais derivam mais de revoltas com ordens familiares e cobranças individuais, do que de convicções ideológicas. Dedicação às artes ou mesmo às ciências, podem resultar de busca de espaços diferentes dos vivenciados no âmbito das relações de família e não necessariamente são encontros, ou descobertas propícias a realização de aspirações. Buscas de fraternidade universal e discursos contra hipocrisia, são, nestes contextos, deslocamentos de revoltas pessoais que podem se expressar tanto nestas lutas coletivas, quanto em vícios como drogas, álcool e outros; recriando-se assim, contextos e estruturas para conformismo e revoltas sob novas formas.


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Thursday, January 19

Valorização da aparência

A não aceitação de si e das realidades vivenciadas, frequentemente atinge níveis nos quais a vivência de não ser considerado, de não significar, é esmagadora. Comprometido pela sobrevivência, o indivíduo lança mão de artifícios para despistar seu problema - é praticamente equivalente à bulimia (não querer engordar, mas precisar e não conseguir deixar de comer, então vomita, neutralizando assim, o comer).

A valorização da aparência pode ser entendida como bulimia social. A pessoa se sente ruim, se desvaloriza, se sente incapaz, e assim se metamorfoseia, aparenta ser o que não é, esconde o que desconsidera e lhe causa prejuízo, esforçando-se para manter aparências diferentes do que ela é. Pessoas que tudo amealham, que tudo acumulam, por exemplo, de repente exercem atuações generosas e descomprometidas para garantir uma aparência aceitável. Este exercício cria tensão, obriga a estabelecer divisão para manter a sobrevivência e o desempenho. Quanto mais desempenho, mais divisão. Nestes quadros não existem contradições: as situações são separadas - ângulo zero - nenhuma contradição é estabelecida, quase não há sofrimento, pois estes são neutralizados.

Entretanto, com a continuidade do processo de divisão, muita coisa arrebenta: doença, pânico, tédio, tormentos que destróem seus apoios. As famílias abrigam inúmeros exemplos destes comportamentos de membros comprometidos com a manutenção do que consideram harmonia familiar, comprometidos com a continuidade deste empreendimento de vida em comum, por eles muito valorizado e propagandeado como sinal de status e aceitação social, como valor inviolável e absoluto: mães que fecham os olhos a abusos perpetrados contra seus filhos dentro da própria casa; pais que ignoram graves desvios de comportamento seja dos filhos, seja da esposa; vidas duplas em função de interesses afetivos novos ou de demandas profissionais absorventes. Enfim, tudo é mantido na aparência e a vida escorre entre fracassos e vitórias, entre castigos e libertações, esvaziando as relações.

Não havendo mais coisas a remendar, a consertar, tudo é exercido como aparência, mesmo as vontades, desejos, motivações e até autonomia que se estriba no poder e no mando. Vive-se exercendo concessões, tudo é justificado pelo que se consegue ou pelo que não se consegue. Vencedores e vítimas são resultantes deste processo. O mundo é um grande palco onde as histórias contadas, as aparências mantidas, um dia serão desmanteladas.


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Thursday, January 12

Manutenção do ritmo

As ordens estruturadas esvaziam o indivíduo caso não haja autonomia na apropriação das mesmas. Agarrar-se ao existente e seguir a corrente criada pelo mesmo, é traçar caminho, traçar esteiras mecanizadas pela obviedade. Instala-se o tédio e o despropósito. Isto cria tensões e quanto maior o acúmulo das mesmas, maior a necessidade de destruí-las. A destruição das tensões só acontece quando se atinge seus estruturantes, ou seja, quando questionamentos são feitos e comportamentos de mudança aparecem.

Estas simples transformações são difíceis, pois existem os comprometimentos e as vantagens que são inibidoras de ação, inibidoras de mudança. Quanto mais tempo se leva para transformar estes comprometimentos alienadores, mais se estabelece tensão, mais se estabelecem as ordens de conveniência que a mantém.

Neste desenrolar paradoxal o indivíduo utiliza escoamentos. Tudo que pode fazer esquecer a tensão serve para escoá-la. Mas, como esquecer a pressão constante do que tensiona? Criando envolvimentos atordoantes, que pelo barulho, pela percussão unívoca, tudo açambarcam. O repetir de situações, o executar mecanismos que caminham sozinhos (transtornos obsessivos - TOC) são exemplares. Para esquecer medos, dúvidas, apreensões, preocupações esmagadoras, a repetição funciona como amuleto. Anestesía-se para não ver, para não ouvir. Não pensar é também uma maneira de fugir dos estímulos tensionantes, das configurações familiares às demandas de trabalho. Bebidas frequentes, atividade sexual desenfreada, remédios, orações, participações comunitárias, jogos e outros prazeres conseguidos pela repetição, ocorrem enquanto sequências residuais, são os hábitos, vícios que deslocam a tensão.

Surpreendentemente, quanto mais se desloca tensões acumuladas, mais se estrutura ansiedade, pois é através da ansiedade - atitude prevalente, sequenciada e avassaladora - que são tecidas outras realidades fora do real tensionante. A ansiedade, sendo tecida do inefável, nada detém, nada modifica. Atividades construídas pela ansiedade podem neutralizar tensões, pois é próprio da ansiedade impedir concentração. Quanto mais se repete, menos concentração; as sequências viciantes andam sozinhas, não é necessário se concentrar e por isso não acumulam tensão.

Exatamente aí, nesta manutenção do ritmo, independente de concentração, de autonomia e motivação, é que o deslocamento de tensão é feito, tanto quanto seu processar deixa o indivíduo sem nada sob o ritmo de seu deslocamento, de sua ansiedade. Acontece que a ansiedade, para se manter, precisa de contornos e surge assim, a overdose: remédios, drogas, bebidas. Surge também o pânico, surge o “não consigo parar”, aparecem cortes, decisões abruptas para quebrar o ritmo ensurdecedor e manietador.


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Thursday, January 5

Compensações

Nos processos de esvaziamento do humano decorrentes de vivências de escassez, de vivências de sobrevivência, as pessoas podem passar a se caracterizar pela falta, pelo medo de não ter, pelo receio de continuar sem nada. Quando não são destruídas, quando sobrevivem, vivenciam a sobrevivência árida como intolerável e se esforçam para sair desta situação a qualquer custo, desenvolvendo avidez, objetivo constante de adquirir, de conseguir, de abastecer-se. Neste contexto, a falta de dinheiro, a pobreza, cria uma necessidade de tudo aproveitar. Vivem, por exemplo, pedindo objetos, dinheiro, consultas gratuitas, remédios, vagas em escolas e creches públicas. Manter o trabalho, mesmo  inseguro, rastejar, agradar o patrão são caminhos que acreditam levar às melhorias. Competições, medos, falta de escrúpulos caracterizam seus comportamentos.

Por outro lado, pessoas que vivem sem dificuldades econômicas e até com fartura de bens materiais, podem ter uma outra vivência de falta, igualmente despersonalizante: a carência, o desejo de ser amado e considerado. A carência afetiva - quando não aceita - cria atitudes dependentes, ávidas. Traições, mentiras, enfim, estratégias para conseguir ser considerado, para ter opiniões consideradas, passa a ser uma constante. Esta carência, esta falta, se caracteriza pelo medo de ficar só, de não conseguir sobreviver, e assim, sem limites, sem compaixão, o carente dependente, vitimado, transforma o outro em muleta para o próprio apoio, em chão para sustentá-lo. Dependências afetivas, e muitas vezes ordens familiares são construídas com estes posicionados e também são mantidas por pessoas que, acostumadas a mendigar, manipulam filhos e companheiros para manter estas ordens transformadoras de seres humanos em artefatos aglutinadores de propósitos e dificuldades.

Mentiras, avidez, perversões são frutos das faltas preenchidas por oportunismo, ganância e medo. Inúmeras atitudes consideradas de menor gravidade como viver em busca de boa aparência mesmo que enganosa; manter relacionamentos pró-forma, mas socialmente valorizados; se dividir e culpar-se por relacionamentos escondidos; todas estas atitudes, frequentemente toleradas, se originam na mesma falta e esvaziamento humano que criam a voracidade, a cobiça e a manipulação perversa. Fidelidade, integridade, compaixão não existem nestes universos, pois foram substituídas por oportunas combinações de desonestidade e maldade.


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