Thursday, December 14

Abandono




Situações de abandono se caracterizam por desespero, desamparo, perda de perspectiva, medo e desolação por parte de quem é abandonado. A irreversibilidade dessa situação é vivenciada como perda, falta e fatalidade.

Surpresa abrupta caracteriza o sentir-se abandonado e é geralmente expressa pela sensação de sentir fugir o chão dos pés. É o desamparo, a perda de referências e de apoio. É ficar perdido no incomensurável instante do nítido desaparecimento.

Nas separações de casais, geralmente o abandono é vivenciado com desespero substituindo os apoios desmantelados, com a estranheza, a vivência da rejeição, a recusa a aceitar a nova realidade imposta, assim como a raiva ou a depressão. O “olhar de adeus” * que gera descrença, que quebra todas as certezas, atormenta e cria desejos de vingança. “Que a saudade é o pior castigo” ** exprime nitidamente o vazio causado pelo abandono, pela falta.

Nas organizações e comunidades a ruptura gerada pelo desaparecimento de um membro é sempre desestabilizadora, tornando-se verdadeira crise se o desaparecimento ou o abandono for de quem lidera. A sensação de desamparo, a perda de perspectivas, a insegurança que surge da falta de liderança, o estado de suspensão, que em si exige atitudes e determinação para o retorno da estabilidade, tudo isso é experimentado dolorosamente.

Nas figuras mitificadas, só por meio da personalização é possível ver a cara, o ríctus, a fisionomia do líder, do mitificado, e assim personalizar movimentos e gestos configuradores do abandono. É o ficar no mesmo nível que permite a mudança, que faz encarar o outro não mais como o escolhido, o representante de todos os sonhos  que o transformaram em um super ser, mas sim como um ser que determina independente de sua comunidade, consequentemente que não pode mais ser obedecido, já não lidera, já segue outros caminhos, não mais polariza.

Ser abandonado é sentir traídos e negados todos os acertos, todos os sonhos, todos os votos. Equivale a interromper o que não foi gerado, a cultivar o descartado. Aceitar o abandono é aceitar as falhas, finitude e enganos do outro.

_____________________________

* “Atrás da porta”, de Chico Buarque
** “Pedaço de mim”, de Chico Buarque

verafelicidade@gmail.com

Thursday, December 7

Jogo de ilusões - ilusões dando certezas e apegos




Real é o percebido, real é o aparente, consequentemente toda realidade é ilusão quando percebida em função de a priori, de metas e desejos. Só podemos entender realidade e ilusão como resultantes da percepção, da reversibilidade contextual que lhes dá significado.

Identificar ilusão e realidade é uma aspiração constante. São conceitos que se misturam seja nas manipulações religiosas, nas licenças poéticas ou na neurose.

Jorge Luis Borges dizia que "facilmente aceitamos a realidade, talvez por intuirmos que nada é real".

As ilusões são implicitamente o amparo do real enquanto fundo que suporta o percebido. As implicações, as decorrências caracterizam a ilusão, o não percebido. Nesse sentido, a frase de Borges ganha dimensões mais abrangentes e válidas à medida que, deixando de ser apenas um jogo de palavras, passa a explicitar a vivência do real e sua aceitação.

Baseando-me nas relações de figura-fundo nas leis perceptivas que atestam que o fundo é o estruturante, nunca percebido, afirmo que real é o aparente, que real é o percebido e ilusão é o que não é percebido. Ilusão é o fundo e realidade é a figura, é o percebido. Em outras palavras, crenças, certezas, preconceitos, enfim, a priori geralmente é o referencial (o fundo) de nossas percepções. Por isso, quanto mais certezas, menos disponibilidade e mais rigidez. É paradoxal afirmar que crenças são fontes de engano e ilusão, mas o que explica esse paradoxo é estar posicionado em situações anteriormente vivenciadas. Ter certeza é agarrar-se ao categorizado, é posicionar-se em uma convicção que sustenta a certeza, se constituindo em fundo cuja figura é o apego (à certeza).

E como percebemos que nos iludimos? Pela reversibilidade perceptiva, o que é figura torna-se fundo, o que é fundo torna-se figura, ou seja, no desenrolar da vida novas situações tornam pregnante, tornam perceptível a situação limitadora (agora figura) e é nesse momento que vivenciamos o engano, que nos sentimos iludidos, que esbarramos na realidade.

Tudo que é percebido é real, é a figura, enquanto o que não se percebe é o fundo; assim, as ilusões só são percebidas quando deixam de ser fundo estruturante (a priori, certezas, metas, desejos), passando a ser figura.

Real é a vivência do presente, consequentemente sua constatação. 


Thursday, November 30

Muito desespero cria esperança


Foto: Paul Gawsewitch


É quase um oximoro dizer que desespero cria esperança. Psicologicamente essa situação não é vivenciada enquanto paradoxo graças à divisão criada pela não aceitação do que se vivencia, do que ocorre.

O auge do desespero pode ser vivenciado enquanto submissão ou revolta, pode neutralizar contradição ou acirrá-la à depender de como seja vivenciado.

Submeter-se ao que desespera, amargura e infelicita é típico de indivíduos habituados à passividade. Para eles, não agir, não reclamar é a garantia de alguma coisa receber, alguma coisa conseguir. A omissão, resultado da submissão, abre portas. Essa é a esperança acalentada: quanto mais se suporta, quanto mais se sofre, quanto maior o desespero, melhor e mais possível é a recompensa, não há contradição, desde que o que desespera é o caminho para o final feliz, é a esperança de melhora. O chegar ao “fundo do poço” abre perspectivas, cria esperança, desde que pior não pode haver e assim se unifica contraditórios, se acredita em mudança.

É necessário sempre se deter nos estruturantes individuais para compreender e perceber suas divisões, distorções e contradições, frequentemente neutralizadas pela magia do não percebido, do não configurado por eles. Na submissão tudo pode ser apaziguado, desconsiderado, divisão e antagonismos negados em função de carências e expectativas. A certeza de que nada há além do fundo do poço é uma figuração que torna densa, que dá corpo à esperança, propicia saídas solucionadoras nas quais nada confortante é vislumbrado.

Não aceitar o limite, negá-lo por meio de hipóteses solucionadoras é alienante. Cada vez mais afastado de si mesmo o indivíduo se encontra no outro, que assim é reduzido ao braço amigo ou à mão que alimenta. Viver para receber suprimentos cria fileiras de pseudo incapacitados esperando ajuda. A passividade, decorrente da submissão, estrutura os alienados esperançosos de melhores dias, esperançosos por chefes e políticos amigos, salvadores e Messias.

Quando o desespero, em seu limite máximo, é vivenciado como revolta, tudo muda. O novo se instala e o indivíduo percebe sua alienação, sua submissão e já não há esperança. É necessário agir, agora buscando parar a roda do que desespera, seja aceitando-a, por impotência, seja desmantelando-a. Destruir o que desespera é destruir o que aprisiona, limita e engana. Nesse caso não há paradoxo, a atitude é unitária, o indivíduo inteiro confronta o que o desespera e assim recupera suas dimensões humanizantes, seja por aceitar, seja por mudar o que o desafia, comprime e massacra.

Quanto mais desespero, mais alienação, mais esperança, consequentemente mais submissão, tanto quanto, quanto maior for o questionamento ao que desespera, menos alienação, menos desumanização, mais libertação.

Thursday, November 23

“Tanto pior para os fatos”




Não há o bem ou o mal, há todo um processo que configura acerto, erro, que explica a catastrófica queda do avião, por exemplo, ou o ruir das organizações políticas, a depressão, a debacle econômica.

O fato não traz em si sua lei, ele nada mais é que um epifenômeno, não muda em nada o processo. Entretanto, é a partir dos fatos que são estruturados novos processos, ou seja, o fato é o desabrochar de contradições que, quando colhidas e enfrentadas, estruturam outros processos, permitindo contradições e mudanças. Parcializar, se deter no fato é negar vida, é negar movimento. Mesmo a morte, fato irreversível na vida de um indivíduo, é um processo, está sempre esclarecendo ou apontando para inúmeras variáveis. A individualidade, a essência de cada indivíduo, sua história, afetos, desafetos não se esgotam na sua morte, embora a partir dela ele não mais signifique como processo, movimento, vida.

Quando se explica fenômenos, acontecimentos, com conceituações causalistas, se soma os acontecimentos, são somas agregadas à tessitura dos mesmos. São justaposições, aposições, aderências, regras, tentando explicação.

Tanto pior para os fatos”, assim Hegel se referia à injunção dos processos, às dinâmicas, à dialética que, como uma torrente incontrolável, mudava, negava e ampliava o horizonte do factível, do ocorrido.


Thursday, November 16

Interesse e motivação - diferenças estruturais



A continuidade da existência implica em encontrar obstáculos que quando não são enfrentados e ultrapassados podem descontinuar por meio de fragmentações. Assim são gerados os posicionamentos, as problematizações e também os sistemas de divergência e de convergência.

Nas estruturas descontínuas prepondera o interesse substituindo a motivação, desde que foram criadas impermeabilizações. Não se vivencia o presente enquanto presente, mas sim em função de estruturas passadas, situações a manter e defender ou desejos futuros a realizar. Nesses casos, pelas polarizações insistentes na superação e realização de objetivos, surge o interesse. A conduta é rígida, persistente e unilateral.

Quando se enfrenta e ultrapassa obstáculos tudo motiva enquanto configuração presente, é o perceber em volta, o perceber o outro, que configura a motivação. Flexibilidade, liberdade e disponibilidade caracterizam esses comportamentos. Estar motivado é dinamizador, faz atingir novas configurações, enquanto o estar interessado, cada vez é mais limitante, criando, inclusive, obcecados. A ideia fixa de trabalho, de ter prazer, de ganhar dinheiro, são interesses típicos de indivíduos posicionados em suas necessidades. Quanto mais divididos, mais ilhados, mais pontualizações, mais fragmentações existem e podem até explicar a compulsão, a crueldade, a utilização do outro e a sonegação de fatos, tudo para atingir o que se deseja.

A motivação implica sempre em disponibilidade, é nela estruturada, uma vez que é vivência presentificada. Ao passo que o interesse - a motivação posicionada - coagula, determina a impermeabilidade, o compromisso, o propósito de superação ou de realização. A sobrevivência impõe uma série de interesses como forma de ultrapassar limites e satisfazer necessidades, transforma as motivações “em jogo de cartas marcadas”, em sinalização para otimizar a vida. 


Thursday, November 9

Sinceridade


by Gerd Altmann, Freiburg, Deutschland


Sinceridade é o que se manifesta ultrapassando o próprio contexto da expressão enquanto julgamento e expectativa de resultados. É difícil ser sincero pois ao se dirigir ao outro, necessário se torna negá-lo como existente, como expectante, e afirmá-lo como participante, equivalente a englobá-lo, integrá-lo.

Dizer a verdade, expor os próprios desejos, dúvidas e questionamentos é quase transformar o outro em extensão de si mesmo, é tirá-lo de contingências, criando participação. Essa dificuldade da vivência de sinceridade faz com que a mesma apenas seja encontrada, geralmente, nos encontros terapêuticos, nos quais não há busca de finalidade e resultados para justificá-la.

Ser sincero, se colocar do jeito que se é, dizer o que se pensa é também passar a ser compreendido em sua verdade, e dizer a verdade é mais fácil, pois há menos compromisso, desde que a impermanência e efemeridade caracterizam o verdadeiro enquanto fala informativa.

Sinceridade, verdade são construídas na clareza, no não referenciamento dos próprios desejos e medos, mesmo quando deles decorrentes. Expor esses paradoxos, clarear o nebuloso é o que constitui a expressão sincera, a verdade do que se fala. Não há subterfúgios, não há estranheza, não se é sincero para enganar, não se é verdadeiro para iludir, não há manipulação quando existe sinceridade, verdade. O outro é percebido enquanto tal e não como alavanca, objeto, imã para realização dos próprios propósitos, da própria “verdade interior”, que nada mais são que divisões arbitrárias e oportunas.

É difícil ser sincero pois é difícil integrar o outro, desde que disponibilidade é uma resultante de descomprometimento, de inúmeros questionamentos e constatações, perguntas negadas possibilitadoras de novas percepções e de evidências. Aceitar e vivenciar a própria mudança, acompanhando suas implicações cria novas atitudes. Sinceridade pode ser uma delas, pois não mais se quer enganar.


Thursday, November 2

Ultrapassagem do próprio limite

Illustration by Elizabeth Lada

Confiar é ultrapassar os próprios limites ao estendê-los para o outro. Isso é possível quando se amplia o conceito de eu, quando se percebe o outro como continuidade de si mesmo. É muito difícil esse processo quando se é delimitado por conveniências, território próprio e resultados necessários.

Nas relações familiares, nas quais geralmente impera a não aceitação, os filhos são criados e educados em função de referenciais outros que não os da própria individualidade, mas sim os de para onde os mesmos devem ser endereçados. A família, antes de qualquer coisa, é um grupo. Esse grupo existe para realizar objetivos e funções ou existe por encontros construtivos, semelhanças, sintonia e sincronicidade, sem convergência nem divergência. As figuras líderes, as autoridades provedoras, pai/mãe, já estabelecem referenciais que submetem a igualdade e a harmonia. Desde cedo o filho é estimulado a ocupar o melhor lugar, a evitar ser submetido e ultrapassado pelos outros. Nesse contexto, confiança é o que é adequado quando uma série de parâmetros e protocolos são atendidos: desde o comer direitinho às boas notas escolares, além da beleza, elegância, inteligência e força apresentadas. Tudo conta para o bom cadastro, o crédito, o estabelecimento de confiança. Desde cedo se aprende que confiar é ter uma senha de acesso única e garantida. Essa instrumentalização do processo, da intimidade e vivência cria compromisso. Confiança, assim, se transforma em compromisso, por isso se confia em quem está submetido, comprometido. O ato livre, a ressonância do encontro se transforma em dependência. Quanto mais massacrado e controlado, mais confiável para realizar desejos e apelos.

Nos relacionamentos afetivos, familiares e amorosos, a confiança enquanto compatibilidade sincrônica é fundamental. Cria legitimidade, é genuína, não decorre de admoestação, controle, regras e dúvidas, pois é estabelecida na certeza que o outro está aqui e agora, inteiro, sem estar acompanhado das inexatidões, sem meias palavras, segundas intenções e meias verdades.

Confiar é arriscar por estar junto, por perceber os mesmos horizontes e contexto. Confiar é poder caminhar, pular, ultrapassar e sempre ter a referência do outro como a própria e vice-versa.


Thursday, October 26

Contornos e realizações




Sob o ponto de vista pragmático, no qual a utilidade e resultado são fundamentais, o importante é sempre poder reciclar, corrigir, consertar e saber como acertar. Não perder oportunidade, ter sempre recursos - estar programado - caracteriza essa constante vigilância, esse olhar para o futuro ou constante espreita das boas oportunidades. É uma acentuada expectativa, que se traduz por tensão e diminuição de participação nos dados reais, no que está acontecendo.

Buscando resultados, acertos e vitórias, se programa a vida para esperar. Essa sequência, eterniza o vazio que é a espera nebulosa preenchida pelo que se propõe, pelo que se deseja. A liberdade que virá pela independência - profissionalização e casamento dos filhos, por exemplo - o tempo aberto e livre que propiciará viagens e divertimentos após aposentadoria, quando acontece, geralmente encontra seres cansados, entediados, deprimidos, pois passaram a vida privando-se do presente, da atualização de seus desejos, dúvidas e frustrações.

O acúmulo é transbordante. Deixando tudo para depois, já não se tem força, desejo, motivação para lidar com o depósito de coisas incompletas, quebradas, fragmentadas e mantidas ao longo do tempo. Preocupados em contornar, em atingir o programado para ter os dias felizes, mais se perde o trabalho dos dias.

Substituir processos por resultados é pulverizar a vida, é esvaziar a motivação. Mais válido a luta, o enfrentamento que, no mínimo, além de definir situações, contextos e jornadas, tonaliza o ânimo, mantém a vida. Mais vale não ter conseguido, por abrir mão do que não está ao próprio alcance, que conseguir enganando, roubando e destruindo outros em função do próprio sonho, desejo e ilusão.

Muitos pais se sentem fracassados pela falta de obediência dos filhos, não conseguem perceber o quanto os destruiram e enfraqueceram, ao ponto de transformá-los em opositores dos próprios desejos.

Para haver realização basta estar vivo e contextualizado em seus limites e possibilidades. Contornos geralmente provocam contorcionismos que esmagam, mutilam e se traduzem por colar os quebrados, tanto quanto pelo abrir mão das próprias verdades e convicções, medos e desejos.


Thursday, October 19

Exato e nítido




Cores vivas, formas marcadas, silhuetas delineadas, tudo que é expresso pode ser nítido ou ambíguo. Podemos pensar também que em alguns casos a ambiguidade é nítida.

Expressar é sempre estabelecer referenciais, tanto quanto mostrá-los, explicitá-los. Estruturalmente, o que se expressa decorre de suas inúmeras variáveis contextualizantes. Via de regra são mais pregnantes uns aspectos que outros e essa reversibilidade cria nitidez, tanto quanto expressa ambiguidade e vice-versa.

Ter as coisas no próprio lugar, nada faltar ao organismo saudável, viver em sociedade na qual os configuradores sistêmicos não são totalitários, na qual estão presentes os constantes encontros definidores; viver em função do que ocorre, andar sem olhar para trás, ou mesmo quando tal acontece vislumbrar caminhos e desvios, são maneiras de tornar exato, exequível o nítido.

Confusão, adiamento, desorganização configuram o isolamento, a redução de variáveis aos estruturantes responsáveis pela expressão e aí só surgem propósitos, objetivos, metas que transformam tudo em situações a atingir, transformam tudo em busca do exato, do nítido, não permitindo ambiguidades pois o desejo é vencer ou vencer. Essa redução pontualiza motivações, relacionamentos e informações, expressa o buscado. É a ideia-fixa característica da obsessão.

É por meio da nitidez processual que se consegue exatidão, açambarcamento das variáveis configuradoras e responsáveis pelo estar com o outro, pelo estar no mundo, e como dizia Wittgenstein: “na morte, o mundo não muda, mas acaba” ou seja, não havendo mais percepção, não há nitidez, não há ambiguidade, não há percebedor, não há lugar ocupado no tempo, não há espaço ocupado pelo indivíduo.


Thursday, October 12

Utilização de referenciais




Utilizar referenciais existentes para apresentar outros diferentes, embora congêneres, é uma maneira de confundir, tanto quanto de enganar. No comércio, inúmeros produtos e lojas utilizam marcas, grifes, fama sancionada pelo uso e se apresentam como idênticos. Explorando a semelhança gerada pela proximidade lingüistica, que pode levar a closuras, se aproveitam e assim iludem e angariam consumidores.

Esse processo também está presente na vida universitária, no dia a dia das academias esportivas, das aulas de meditação e dos centros de saúde e aperfeiçoamento. É o ser igual a, é o fazer como o bem sucedido faz. É a montagem de peças com modelos arbitrários que a tudo recorre. Colagens, deturpações, correntes para encaixe, tudo é permitido quando se quer lograr o cume dos resultados e vantagens e quando se precisa do outro, enganando e mentindo. Este “boa noite Cinderela” coloca indivíduos onde se deseja que eles fiquem, para assim estabelecer e conseguir bons resultados.

Comércio e organizações religiosas, nesse sentido, se assemelham, são redes mantidas para conseguir consumo e prosélitos, concentrando assim, participantes e contribuintes. Contribuindo para Deus se compra o reino dos céus!

Quanta mistura para iludir e capitalizar a confluência de angustias, desejos e vontades!


Thursday, October 5

Cinismo

"Diogenes" de Jean-Léon Gérôme (1824-1904) 


Com o passar do tempo o sentido das palavras muda e algumas vezes pode adquirir significados opostos aos de sua origem. Cinismo é um exemplo disso. Em sua origem era postura filosófica caracterizada pela busca de uma vida simples e voltada para a natureza, vivenciada por meio de atitude crítica e de rejeição de todas as convenções sociais, das boas-maneiras, das famílias, casamentos, moradias e valores como pudor ou decência - entendidos pelos cínicos como hipocrisia social. Também pregavam a valorização da virtude encontrada em uma vida ideal e na honestidade. Seu maior expoente, Diogenes, vivia nas ruas de Atenas, levando sua lógica ao extremo, indiferente aos valores e confortos sociais (costumes, convenções, riqueza, fama, poder, bem-estar etc.). O cínico era, em última instância, um homem honesto, um crítico da hipocrisia social.

Nos tempos modernos, cinismo está associado a uma descrença nos valores éticos, na sinceridade e na bondade como motivações ou possibilidades humanas. O cínico moderno não busca o homem honesto como Diogenes fazia, ele exerce a desonestidade de forma insolente e atrevida.

A desconsideração do que ocorre, das manifestações elucidativas das questões, estrutura atitudes cínicas. Ser cínico, é, por exemplo, além de fazer de conta que não tem problemas, que nada aconteceu esclarecendo e evidenciando as direções congestionadas, afirmar-se como defensor e protetor do que foi por ele mesmo destruído.

Cinismo e demagogia geralmente andam juntos, desde que são maneiras de impor ao outro, pontos de vista sem suporte, sem consistência. Na política são frequentes as atitudes cínicas, desde o consagrado "Vossa Excelência, prezado Deputado, é um incompetente, corrupto", até o "meu filho, por amor de Deus, vou ter que lhe bater para manter unida nossa família".

Cinismo é sempre atitude que expressa contradições explícitas entre o que se vivencia e o que se quer demonstrar vivenciar. Essa criação de abismo, de descontinuidade abriga e suporta explicações paradoxais, como: "por amor se mata", "em defesa da honra, se corrompe" etc. Nas vivências das próprias problemáticas expressas no contexto de psicoterapia, assim como no cotidiano, cinismo é fazer o "mea-culpa", é negar atitudes, postulando outras a elas contrárias.

Ironia, mordacidade, cinismo às vezes são sinonimizados, chegando a se confundir. Em realidade, as situações são tão diversas quanto o são ângulos de 90º, 45º ou 0º - todos são ângulos, mas sequer são parecidos, não passam de encontros com superfíceis -, não passam de encontros ou de situações nas quais o fazer de conta, o exibir isto ou negar isto são apresentados. A ironia requer um mínimo de lucidez, a mordacidade implica sempre em questionamento, enquanto o cinismo é caracterizado por mentira e engano.

Cinismo é um adiamento da constatação, da decisão, utilizando situações que podem confundir o outro.


Thursday, September 28

Poder, egoísmo, arma-na-mão e maldade




É sempre intrigante constatar que os poderosos, principalmente políticos, roubam, enganam e não se sentem mal! É quase - do ponto de vista deles - "dever de ofício" visto como solução e eficácia. Espanta também ver o assaltante, o marginal roubar, matar e não ter conflitos, não ter remorsos. Será que pertencem a outra espécie, outra forma de gente como imaginava Lombroso? Não. São sempre seres humanos. A diferença é que foram transformados em sobreviventes e, portanto, tudo é vivenciado em função dos desejos e necessidades extrapoladas e polarizadas para os deslocamentos da não aceitação. A não aceitação estabelece padrões e regras. É necessário ganhar um bilhão de dólares para se camuflar como humano, para se sentir gente e esquecer a bestialidade de seu processo. Outros precisam matar, eliminar 100 pessoas ou um número ilimitado, para sentirem-se capazes de ações e de prazer.

Transformar o outro, o diferente ou semelhante, em espelho, em respaldo ou desculpa de comportamento é alienador. Nesses casos, não se é motivado pelo outro, mas sim pelo outro coisificado, transformado em objeto conquistado, destruído ou neutralizado. Para essas pessoas, o poder e a violência afirmam o existir. O indivíduo vale pelo que rouba, destrói e mata. Outros seres humanos são, para eles, objetos que se destrói para não se tornarem ameaçadores, ou se compra para apoiar, para realizar desejos. O mundo, a sociedade, são transformados em supermercados, bordeis onde produtos e reciclados podem ser adquiridos e, mais, precisam realizar o sonho de estar sozinhos, isto é, serem admirados sem intromissões desfiguradoras e ameaçadoras. É o clássico "o mundo aos próprios pés".

Leis econômicas e societárias podem transformar indivíduos em seres que existem fundamentalmente para sobreviver, para ter o melhor. Seus familiares não questionam, ao contrário, incentivam o processo, ensinam que o que vale é o que se tem, o que aparece e que poder em dinheiro é a finalidade humana, que vida é isso e mesmo quando algum viés religioso é oferecido é sempre no sentido de aproveitar a oportunidade, pagar pelo melhor lugar na Igreja, estar junto e sob as benesses das autoridades religiosas. Tudo é utilizado neste processo de atingir, adquirir, ser o melhor, não importa quanto se destrua em volta, não interessa que as escadas de ascensão sejam representadas pelos cadáveres destruídos pela fome, pelo tiro ou pela prisão segregadora do que se considera diferente, denunciante e ameaçador.

O poder, a arma-na-mão, o egoísmo, a maldade decorrem de reduzir tudo ao processo de luta-fuga, de caça-coleta. Não é "primitivismo", é a negação da harmonia, é a negação do sujeito, é o sentir-se só, como maneira de não ser contestado, contrariado ou denunciado. Hoje em dia, as páginas políticas dos jornais tornaram-se páginas policiais, noticiários de TV dedicam metade do tempo à exposição da criminalidade violenta e indistinta do palácio ao casebre com seu caudal de justificativas desprezíveis: “rouba, mas faz”, “a política é assim”, “o poder corrompe”, “todos agem assim”, “não tive oportunidade na vida”, “lá na periferia a regra é essa”, “era eu ou ele” etc.

O egoísmo e a maldade não resultam de condições sociais e econômicas adversas, tanto quanto não são instinto humano, não são ausência de Deus, não são a presença do Demônio. Eles são a desumanização criada pelo autorreferenciamento, após impasses não enfrentados, limites não aceitos.

verafelicidade@gmail.com

Thursday, September 21

Curar e ajustar - amordaçamento da subjetividade

Cartaz de 1936, indicando como as pessoas eram marcadas na Alemanha nazista


Salvação da família, da propriedade, "cura gay" traduzem desejos de comprometidos, atitudes restritivas que, girando em torno dos critérios de ajuste e mais-valia, ameaçam a liberdade, desumanizam e alienam. A discussão dos últimos dias em torno da Resolução 01/99 do Conselho Federal de Psicologia (CFP) - que determina a atuação de profissionais da Psicologia quanto à orientação sexual -, a reivindicação de que ela seja restringida, estabelecendo a possibilidade de tratamento psicológico para reversão de orientação sexual, é um exemplo desse comprometimento. Essa discussão é universal, atualmente atinge uma abordagem mais ampla que engloba questões de gênero, identidade, transexualidade etc. e voltarmos, hoje no Brasil, ao ponto em que estávamos há três décadas, além de ser uma infração de leis agora existentes, é um retrocesso que nada têm de preocupação científica como alegam os defensores da reversão da orientação sexual. Como bem disse o Presidente do CFP, Rogério Giannini, pesquisas sobre sexualidade humana nunca foram reguladas por nenhum Conselho de Psicologia e dentro das Academias obedecem os ditames da ética aplicada a qualquer pesquisa que envolva seres humanos, em qualquer disciplina.

Visões psicológicas pragmáticas e subordinadas aos valores de manutenção de regras econômico-sociais reduzem o ser humano a rótulos e ajustes. Nelas não existem subjetividades, o que existe são pessoas fora da regra, fora dos padrões, tanto quanto pessoas ajustadas aos mesmos e ainda outras que precisam ser encaixadas no que pensam ser para o bem ou para o certo.

Pessoas não são objetos, suas vontades e determinações resultam de motivações. Admitir que estar "fora da ordem", das regras ou das leis é estar doente, é um reducionismo impossível de ser suportado, mesmo em abordagem medicalizante.

No mínimo, de 25 em 25 anos, conceitos, atitudes e vivências são transformadas, em virtude de novas perspectivas e novos limites. Era frequente na geração passada, por exemplo, cuidar de mulheres grávidas como se fossem incapacitadas para uma série de coisas, até que se percebeu que gravidez não é doença. Dizer que homossexualidade é doença implica em atitude ignorante, aliciante, própria dos que vivem em pequenos espaços gerados e mantidos pelos preconceitos, pelo medo de perder etiquetas vendáveis, identificatórias de segurança. A reivindicação de tratamentos voltados à reorientação sexual é nitidamente pautada em preconceito e engano, que persistindo, abrirá precedente para diversas ações questionáveis e perigosas (como direcionamento comportamental, ajuste, subordinação a autoridades ou à ideologias e à ditames familiares etc.) não só quanto à sexualidade, mas quanto a qualquer área do comportamento humano. Juntamo-nos ao Conselho Federal de Psicologia (CFP) e também o parabenizamos pela posição em defesa dos princípios éticos da Psicologia e de sua consistência teórica, assim como em defesa dos Direitos Humanos.

Psicologia e psicólogos existem para desenvolver e ampliar as possibilidades e potenciais humanos, não existem para classificar e muito menos para ser capatazes-curadores. Identificação de doença, redução de vivências, de perspectivas existenciais e motivações individuais à critérios nosológicos não condiz com psicoterapia. Para o psicólogo, existem indivíduos que realizam suas motivações, seus desejos, estão felizes, se aceitam e existem os que não se aceitando buscam proteção em ajustes, em rótulos que os permitam sobreviver; isso acontece em quaisquer comportamentos, inclusive nos sexuais.

As psicoterapias resgatam individualidades e para o psicoterapeuta não existem negros, brancos, homossexuais, bissexuais, transexuais, homens ou mulheres. Simone de Beauvoir já falava: "não se nasce mulher, torna-se mulher". Ela cunhou essa expressão ao explicar as questões de autoritarismo e alienação social, mas, essa ideia de tornar-se, esse devir é fundamental na psicoterapia e na compreensão das relações existencialmente estabelecidas e que, consequentemente, quer se queira, quer não, são as bases e alicerces das sociedades.

Também nas religiões que lidam com a transcendência se sabe que alma não tem sexo, que sexualidade nada mais é que metabolismo ou realização de motivações possibilitadoras de encontro quando não destroem ou ofendem o outro. O comportamento invasor e violento pode acontecer no contexto de qualquer orientação sexual, seja ela homo ou heteroafetiva. Quando a sexualidade é exercida de forma doentia? Quando ela invade, obriga, desrespeita, agride o outro: pedofilia, estupro, violência etc. 

Viver é ultrapassar limites, é realizar possibilidades - isso é saúde. Doença é o posicionamento para verificar vantagens e desvantagens, é o como se apoderar do poder para manobrar e rotular pessoas, utilizando, inclusive, ferramentas sociais e legais.

É histórico, o fato de que toda ditadura espoliadora do humano cria rótulos, discursos e narrativas: lembram de Hitler? Com as estrelas amarelas para marcar os judeus, os triângulos rosa para marcar os homossexuais masculinos, triângulos pretos para homossexuais femininos e os triângulos vermelhos para marcar os comunistas? E "a arte degenerada" por ele rotulada e proibida? Essa arte nada mais era que liberdade e expressão que foi cerceada. Pensem na recente exposição de artes plásticas fechada pelo patrocinador, o Banco Santander, pois os quadros não agradaram parte da população! E os idos 1964, os anos da ditadura nos quais até peças teatrais e músicas eram escrutinadas segundo os critérios do que era bom para a família e do que ia garantir a Segurança Nacional. Tempos sombrios são instalados quando critérios limitados e preconceituosos reinam.

Não cabe a psicólogos direcionar clientes a este ou aquele comportamento, em nenhuma esfera de suas vidas. Cabe ao psicólogo identificar o núcleo da não aceitação e questioná-lo. Perceber e propiciar expressão - e não o amordaçamento de subjetividades - é o objetivo da psicologia enquanto variável configuradora do social.

Para quem se interessar por mais leituras sobre esse tema, nos meus dois primeiros livros, publicados nos anos 70, abordei a questão da sexualidade humana e mais recentemente em dois artigos publicados em revistas:  

"Comportamento Sexual - Acertos, contratos, preconceitos", na WSImagazine (https://wsimag.com/pt/bem-estar/17474-comportamento-sexual)

"Sexualidade Humana - Aspectos psicológicos", no Boletim da SBEM - Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia Regional Bahia/Sergipe (em pdf no Researchgate - https://www.researchgate.net/publication/317784044_Sexualidade_Humana_-_Aspectos_Psicologicos)




verafelicidade@gmail.com

Thursday, September 14

Abuso no trabalho




Abuso no trabalho é um tema recorrente hoje em dia. Situações de abuso sempre indicam autoritarismo, prepotência e utilização do outro enquanto subordinado.

Acreditar que um funcionário vai se submeter a tudo, pois não pode perder sua manutenção de vida, seu emprego, faz com que, da chefia à colegas, criem-se situações difíceis que precisam ser transformadas em fáceis através da submissão.

Fazer de conta que não há provocação, que não existe abuso é a negação que permite manter o emprego. Permitir ser abusado só é possível quando se nega a humilhação presente em função de amealhamentos futuros. Transformar o dia a dia, o trabalho, em ponte para sobreviver é negar a própria realidade, a própria identidade.

Nem sempre o que é narrado como abuso advém da exploração das autoridades estabelecidas. Às vezes o que se vivencia como abuso no trabalho é uma extrapolação mantenedora da atitude de medo, ansiedade, desejo de ser considerado e cuidado. Esses deslocamentos da não aceitação fazem descobrir adoradores e sedutores no que se sofre como massacre. É uma forma de ampliar o estrito espaço de satisfação cotidiana.

Atropelados pela insatisfação, isolados em seu autorreferenciamento, fantasmas são criados: abusadores e sedutores são vistos por toda parte, inclusive no trabalho. Da mesma forma, vivos e perigosos abusos e humilhações são transformadas em espectros, fantasmas não existentes. Nega-se a realidade, suas inconveniências, para manter as conveniências, para manter as seguranças e assim se mantêm também abusos, humilhações e subordinação.

Olhar em volta e identificar abusadores requer questionamento das próprias atitudes, seja de conveniência e submissão, seja de revolta, denúncia, medo e raiva.


verafelicidade@gmail.com 

Thursday, September 7

Beira de abismo




Nas situações limites, nas quais dificuldades existem, a condição de mudança, a participação do outro, principalmente enquanto psicólogo, é fundamental. Descortinar horizontes, ampliar referenciais, realizar implosões que possibilitem aceitar os abismos da descontinuidade, que possibilitem até aceitar o inevitável, é um trabalho psicológico. Nesse panorama, o trabalho do psicólogo, ampliando horizontes, é da maior importância. Além de ouvido amigo, são seus olhos atentos que possibilitam mudanças, que interrogam contradições e solucionam impasses.

Contemporaneamente, a especificação de funções próprias e adequadas gera, significativamente, vestimentas uniformes, cria autômatos programados para tampar buracos, para manter e criar aparências de eficácia, de responsabilidade e cuidado. Dispositivos e sugestões de nada adiantam, não ajudam e apenas existem como sedativos de temores e apreensões.

Atitudes de participação, ouvindo, observando, até mesmo questionando, é o que se faz para contornar os limites, os abismos inevitáveis, agora percebidos como dados previsíveis, impossíveis de sonegar, de solapar. Aceitar a morte, por exemplo, é decorrente da aceitação da vida. Dificuldades em admiti-la são resolvidas quando se estanca a não aceitação da vida, questionando-a.


Thursday, August 31

O fascínio pela desgraça




Outro dia me pediram para falar sobre o fascínio pela desgraça, pela ruína, queriam também saber porque programas televisivos apelativos têm grande audiência.

Processos de identificação geram motivação. O familiar é percebido enquanto semelhante; essa semelhança é englobada como proximidade. Estas leis perceptivas - semelhança e proximidade - regem os processos da percepção, do conhecimento, consequentemente, do relacional, da montagem de estruturas sociais e psicológicas, dos relacionamentos consigo mesmo, com o outro e com o mundo.

Vivendo em condições economicamente subdimensionadas, sofrendo provações e privações, participando de cotidianos abjetos, o ser humano se motiva, se fascina pelo superdimensionamento do que lhe é próximo. Ampliar, às últimas consequências, o que está presente, limitado pelo exíguo espaço, ver como pode explodir tudo que está gestado, é revelador. Fascina. Freud explicava essas identificações e fascínios pela projeção da agressividade, das vivências recalcadas.

Não são necessários mecanismos arbitrários, pois as situações se apresentam genuinamente, não se está encenando nem produzindo títeres, apenas as situações estão ampliadas, inquestionavelmente postas, sem dubiedade. É esse esclarecimento que identifica, é a percepção do semelhante que fascina. O outro - próximo, semelhante - vive tão soterrado no dia a dia, que inexiste. Pai e mãe são agressores, predadores, ameaçam. Tudo significa enquanto ameaça, pois a condição cotidiana é de constante perigo. Quando embelezada por luzes, por molduras, por vozes e ternos bem/mal talhados dos apresentadores, surge a própria realidade de pés para cima - de cabeça para baixo - vem o fascínio: é o semelhante que está aí.

Importante considerar a desagregação criada pela desumanização: o outro só é percebido enquanto fragmentos, pedaços, restos sub-humanos, só é percebido enquanto destruição e miséria. Exatamente aí podemos entender o facínio pelo destruido, pelo destruidor. É uma recuperação dos pedaços que faltam, são os resíduos humanos reconhecidos. Lamentavel que apenas em sua fragmentação, em sua destruição, o outro se faça presente, motive e fascine. Nesses casos, ser o que o outro permite que se seja é mais um recuo aos reles patamares sobreviventes do processo, da constituição relacional como desencadeante motivacional.


Thursday, August 24

A radicalidade do desejo

Deus ex machina - vaso grego, séc. IV b.C.


É muito fácil imaginar ou mesmo lidar com a radicalidade do desejo quando o mesmo é colocado como uma das forças motrizes da vida. A partir dessa posição podemos, por exemplo, dizer que a radicalidade do desejo é o máximo da realização humana e, ainda, que vivemos para realizar isso cada vez que caem as censuras do subconsciente e libertam-se as motivações inconscientes. Esse é o ponto de vista freudiano. O desejo é cego e precisa encontrar o caminho para realização do desejante - o ser humano.

Fora dos dualismos de interno e externo, não admitindo forças operadoras e determinantes - como é o caso dessa abordagem baseada na libido ou energia sexual/impulso vital - e entendendo o desejo como resultante de motivação, a radicalidade do desejo só pode ser entendida quando submetida a seus contextos estruturantes, e aí, falar desta radicalidade é falar de sintomas de não aceitação, é falar de carências e de falta. Nesse sentido, a radicalidade do desejo está bem próxima das explicações budistas acerca do desespero e quimeras humanas. Segundo os budistas, deseja-se o que falta, é a busca para complementar, talvez, o vazio da existência, por isso os conselhos de tolerância, abnegação, desprendimento para viver e suportar a incompletude humana, que encontramos na filosofia de Siddhartha Gautama.

O aspecto que o desejo tonaliza é o da motivação. Desejar é estar motivado, é querer. Sob o ponto de vista da Psicologia da Gestalt, o motivo não é interno, não está no organismo como pensam psicanalistas, behavioristas e funcionalistas cognitivistas. Motivo é o que está diante, é o que é percebido, é o que estrutura o comportamento motivado. Precisamos considerar também que tudo que é percebido pode estar estruturado em autorreferenciamento (referenciais individuais que se superpõem ao que ocorre, que polarizam o ocorrido em função de posicionamentos anteriores) ou pode ser estruturado em disponibilidade, isto é, presente vivenciado enquanto presente. Motivação, portanto, é entendida por nós no contexto relacional e não no do corpo (cérebro) o que implicaria em separação entre corpo e mente, reeditando assim, o velho cartesianismo.

A disponibilidade, o presente vivenciado enquanto presente, transforma o que se deseja em comportamento. A sequência comportamental, consequentemente, realiza desejos, dá continuidade aos mesmos, às motivações. É o comportamento motivado sem antecedências ou metas. Motivo, desejo, ação, tudo isso é uma só expressão do indivíduo. Nas vivências de aceitação não há fragmentação, não há desarticulação por meio de denominações ou nominações - é a continuidade sem posicionamentos, é o encontro do outro. Só se fica motivado, só se deseja no presente, se for além do presente, do vivenciado, é a priori ou meta, continuidade de outras motivações não mais existentes, que para serem sustentadas supõem divisões e posicionamentos, é a ideia fixa.

Quando surgem interrupções, limites, anteparos, a sequência motivacional, comportamental, se fragmenta. Surgem posicionamentos e assim começam as cogitações e considerações. Inúmeras estratégias e planos são estabelecidos para realizar os desejos posicionados. Muitas pontes, artifícios, artefatos são criados e tudo em função dos desejos não realizados, não atendidos, pois estruturados na esfera da não aceitação. Surgem divisões: de um lado o indivíduo e do outro seus desejos frustrados e não realizados. Nesse momento podemos falar de radicalidade do desejo: nesse processo de fragmentação, o desejo passa a ser, para o indivíduo fragmentado, a base, o contexto a partir do qual sua vida é percebida. Nesse momento, ainda radicalmente guiado por seus posicionamentos, seus desejos coagulados, ele começa a pensar como realizar seus desejos, suas não aceitações percebidas, suas demandas frustradas. Começa a arbitrar e as atitudes onipotentes são geradas pelo contínuo deslocar da impotência não aceita, pelo que vai permitir aplacar seus desejos frustrados, como, por exemplo, mudar a aparência e saber que este impossível pode ser resolvido com química, hormônio, vendo isso como solução. São artifícios que expressam o desejo, são artifícios que construindo outras realidades, criam novos artifícios. É a busca de resultados sem questionar ao que se propõe, são as ciladas do atirar para todos os lados, do desejar solução sem problematizar questões. Exemplos atuais são dados pela surpresa desesperada de pessoas que transitam pelo universo trans e de repente se descobrem grávidas, quando muitas vezes dessa condição também fugiam, assim como os que passam a ter dificuldade de orgasmo, mas escolhem essa opção, dedicando-se aos seus saltos altos.

A radicalidade do desejo é a transformação das vidas e aparências na realização de objetivos, de metas. É a perda de continuidade do existente, é o isolamento do estar no mundo operado pelas ilhas de desejo posicionado. Cercado de desejos - posições desejantes - o indivíduo se estrutura entre ser o que aparenta em oposição a ser o que é. Michael Jackson é um exemplo do não se aceitar negro, se produzir como branco, até chegar a todo um comprometimento funcional, orgânico, que inclusive, por efeitos colaterais, pode o ter levado à morte. Muitos outros exemplos encontramos na esfera econômico-social: os emergentes, os novos ricos estão aí ilustrando essas não aceitações e também na nossa massificada sociedade, onde novos mercados e paraísos são criados para os desejos de transformação do próprio corpo, das plásticas rejuvenescedoras às próteses liberadoras e, ainda, à todos os itens do consumo de tranquilidade e conforto almejados.

É preciso questionamento quando se quer mudar para que não se aumente as fileiras de seguidores de “novas ordens”, tanto quanto de consumidores do mais fácil, do mais solucionador de demandas e aparências. Mudar é fundamental, mas saber o que se muda, como e quando muda é crucial.

O desejo posicionado é um enrodilhado pontilhado no qual só se consegue perceber um ponto a partir de outro ponto e assim a radicalidade do isolamento, a radicalidade do desejo se estabelece, nada se percebendo além do próprio desejo. Dessa maneira se configuram seres sozinhos, isolados em suas próprias realizações de desejo, que nada mais significam que histórias, pontos a ressaltar.


verafelicidade@gmail.com

Thursday, August 17

Como lidar com a pressão diante das tarefas




Toda tarefa visa um objetivo, entretanto esse objetivo pode se esgotar na própria realização das tarefas ou ultrapassá-las. Quando os objetivos se esgotam na própria realização das tarefas, surge tranquilidade e bem-estar. Quando tal não acontece, surge expectativa traduzida por medo e ansiedade - é a conhecida pressão, o estresse. Cotidianamente estudantes vivenciam essa situação com a pressão dos vestibulares, ENEM e exames. Também são exemplificadores dessa pressão esperar resultados de exames de saúde, tanto quanto expectativas de conseguir emprego através de concurso.

Quanto mais preparado e capacitado se está para o que se propõe atingir, mais confiança, mais certeza, menos expectativa, entretanto, essa regra de ouro frequentemente é quebrada por dados aleatórios, pois a própria aposta, o processo, é um crivo. Depender de um exame comprovador de higidez ou mobilidade, por exemplo, ultrapassa os referenciais do examinado, do apostador, enfim, do indivíduo, pois se torna necessário a complementação de seus processos através de dados dele fugidios.

Muitas vezes nos vemos em situações nas quais aceitamos e entendemos os processos, mas dependemos de outros dados para sua complementação, de outras realidades que os reconfigurem e neste momento aceitamos a impotência ou sucumbimos à mesma. No último caso, isso gera expectativa, faz pressão, dá medo, dá ansiedade. Tudo que ultrapassa os próprios contextos, tudo que esgota a autonomia, pode gerar pressão, expectativas traduzidas por medo, por atitudes mágicas de implorar pela ajuda divina, por exemplo, tanto quanto de utilizar o outro como apoio, como base para realização dos próprios objetivos, mesmo que enganando.

Pressões existem e variam em função da falta de autonomia, da falta de vivência do presente. Perceber o processo, suas implicações, e aceitá-las, minimizam as pressões, o estresse. A facilidade ou dificuldade em globalizar os processos, frequentemente endereçam indivíduos para as psicoterapias.


Thursday, August 10

Papéis sociais - mudança de comportamento



As sociedades em seus desenvolvimentos geralmente estabelecem regras e padrões. Esses modelos sociais são datados. Tempo de validade também existe para eles, desde que os questionamentos individuais, as estruturas econômicas, as vivências relacionais e psicológicas tudo definem e subvertem. São as transformações, as adaptações, as mudanças que aparecem, continuam ou são interrompidas. Vinte cinco anos - parâmetro geracional - é uma medida desses pontos de ebulição, de transformação. Exepcionalmente, fatores aparentemente abruptos também são determinantes de épocas, também são marcos. O pós-guerra (1945) é um deles. A morte de muitos homens na guerra levou outras realidades aos lares: de mãe e esposa a mulher foi transformada em provedora, modificando, assim, toda a estrutura relacional com seus filhos: dos lullabies (canções de ninar) às histórias contadas pelos audios, até os contatos no caminho da escola, agora substituído pelos acompanhantes e condutores escolares.

Vinte cinco anos depois, não só a maternidade, também o conceito de paternidade é transformado. Ser pai, agora, é trocar fraldas, fazer mingau, acompanhar boletins escolares, enfim, dividir essas mesmas tarefas com a companheira que já divide o pagamento das contas e o provimento da casa, que já dirige automóveis etc. As mudanças dos papéis sociais que se refletem na maternidade, na paternidade, vão também construíndo e significando novas dimensões para o homem e para a mulher.

A aceitação destes redimensionamentos cria compatibilidades, tanto quanto incompatibilidades. Também produzem resíduos que podem ser atritos, impedindo circulações harmônicas, velocidade condizente com as novas manivelas operadoras, com as novas configurações e demandas. O entrave do sistema cria impasses. Maiores conflitos surgem e às vezes o “pai amoroso” que troca fraldas é o mesmo que esconde o autoritarismo, cobrando direitos, o homem dono do poder. Também não é difícil encontrar as “garotas mimadas”, agora perdidas, soterradas pela quantidade de afazeres, reclamando de como foram enganadas: “não foi para isto que me casei”.

Os papéis sociais podem ser integrados e quando tal acontece tudo é harmônico, salutar, bem diferente de quando vivenciados como aderência, como anexo, imagens, papéis que cobram retribuições, que querem garantir sistemas, filhos e evitar fracassos.

Cada vez é mais necessário perceber o que é estar integrado às vivências e o que é usado como relações instrumentalizadas para aplacar necessidades e realizar demandas contingentes ou suprir insegurança e manter garantias.


Thursday, August 3

“Quanto pior, melhor” - Semelhanças e identificações



Continuamente não aceito, desconsiderado e marginalizado, surge, no indivíduo, esperança de camuflagem para conseguir mínimas considerações. Ele tenta arranjar uma segunda pele, consensualmente não aceitável, por acreditar que quanto mais sujo, quanto mais desconsiderado nas esferas social e psicológica, mais conseguirá atenção ao ficar igual ao residual, ao dispensado. É a ideia de quanto pior, melhor. Não ser útil, ser inútil, ser o nocivo que atrapalha, que faz esbarrar e merecer cuidado e atenção. Será considerado pelo mal que pode causar, pelo atrapalho que significa. Causar o mal, ser nocivo, chamar atenção, merecer olhares, é visibilidade, é consideração.

Ser invisível é desumanizador. Preconceitos e restrições criam a capa de invisibilidade e marginalizar-se ou causar prejuízos torna visível, personaliza, deixa de ser o zé mané e passa a ser o perigoso Zé, capaz de atrocidades. Virar alguém, ser considerado, mesmo que como escória e marginal perigoso, significa. O agrupamento de resíduos cria a necessidade de compactar, passa a merecer olhares reprovadores, mas, passa a merecer olhares, passa a existir. A luta por um lugar ao sol, isto é, um lugar na lama que tudo destrói, corporifica, torna visível. Assim se estruturam socialmente os párias, os marginais e também os sobreviventes implacáveis na destruição. Muitas vezes aparecem sob formas sutis, emoldurados por instituições ou pelas benesses conferidas pela riqueza: é a corrupção, o tráfico de drogas, de seres humanos, de órgãos; são os pedófilos provedores de famílias submissas aos seus desejos destruidores.

As identificações que formalizam grupos desconsiderados, criam semelhanças que são verdadeiras redes de impedimentos e impermeabilizações. A motivação para o “quanto pior, melhor” determina, posteriormente, ordens desviantes. Por semelhança os díspares são incluídos socialmente enquanto ameaça e dificuldade. Os processos da não aceitação têm muitos deslocamentos e tudo comprometem, necessário se faz restringir os contextos que possibilitam o florescimento dos mesmos, são cada vez mais urgentes estratégias sociais. Agências de poder, dos currais eleitorais às organizações e políticas aplacadoras, tanto quanto as promessas de paraísos de redenção, configurações polarizadoras de “almas perdidas” exercidas por meio de fé e esperança, de religiões que tudo açambarcam, todas essas promessas podem se constituir em transformação das normas de convivência com o excluído, mas apenas reciclam para posteriores comprometimentos, a matéria-prima excluída, transformando-a em produtos. É o que industrializa a fome e a violência. Não se constituem em estratégias solucionadoras das configurações problemáticas, e também acentuam o “quanto pior, melhor”.

Seres encalhados, sobreviventes decepados por processos sociais e de não aceitação podem constituir poderosos grupos, invasores de idílicas paisagens, que quebram a harmonia e obrigam a criação de novos sistemas de contenção. O que se evidencia a partir do “quanto pior, melhor” são esses grupos homogeneizados, bolsões de destituídos: são os drogados, os ladrões, os matadores. Assim os semelhantes se organizam, surgem identificações e cada vez mais poderosos passam a determinar regras comprometedoras do ir e vir, do viver social, familiar e individualizado. As cadeias estão abertas, não há contenção, está tudo junto e misturado. Sobram grupos organizados para o crime em vários âmbitos.

Em última análise, enxergar o outro - ele já não é mais invisível, ele é ameaça pregnante e constante - é mais uma tentativa de buscar ou querer estar protegido, querer se cuidar, frequentemente nada mais é que estar preso ao medo, à angústia diante do que é perigoso, do amedrontador, do que era antes ilhado e agora assume dimensões continentais.

O pior está estabelecido.


verafelicidade@gmail.com

Thursday, July 27

Manutenção - honestidade e desonestidade

O Julgamento de Salomão, de Giorgione - 1500-1501
Galleria degli Uffizi, Florence



Sempre que se insiste e luta para manter uma situação fica claro o quanto a mesma é aderente, ilegítima e sem veracidade para ser mantida. Lutar para juntar o que já foi separado, o que já se provou indevido, é uma atitude inautêntica e desonesta.

Honesto é o legítimo e legitimidade não exige luta, nem prova. No tempo dos Reis-Juízes, o Rei Salomão deixou um grande exemplo do que é julgar e do que é legítimo ao terminar com uma disputa entre duas mulheres que reivindicavam a mesma criança como filho próprio. Ele chamou as mulheres com a criança e anunciou que contentaria às duas, afirmando que iria dividir a criança ao meio para dar uma parte a cada uma. Nesse momento, uma das mulheres gritou que não, que entregasse a criança inteira para a outra. Salomão, então, disse que essa era a verdadeira mãe e entregou-lhe a criança, pois mãe salva, não mata o próprio filho. A legitimidade da maternidade foi expressa naquele ato de desistência da mulher e o justo foi feito no reconhecimento disso.

As complexidades e funcionalidades da sociedade moderna criam protocolos e parâmetros que frequentemente são usados como maneiras de burlar honestidade e legitimidade. São inúmeros parâmetros reguladores de instituições e relacionamentos sociais que quando manipulados em função de interesses, desejos e ambições pessoais, possibilitam destruição, injustiça, desonestidade e estratégias de manutenção de poder. Forjar provas, comprar depoimentos e votos são maneiras de turvar o que é legítimo. Esse é o cotidiano do mau político, por exemplo, do desonesto, do inautêntico, seja na política, nas famílias ou em qualquer relacionamento.

Situações indefensáveis são rotuladas como merecedoras de escrutínio, de voto como pseudo-manifestação da vontade popular, quando na verdade encobrem a manipulação e o uso dos direitos e salva-guardas populares. Argumentações sobre falta de provas, falta de flagrantes, como alegam certos condenados, são tentativas de dividir direitos, negar verdades e evidências. Afastar e punir quem utiliza e usurpa o que é do outro, o que pertence à coletividade, se torna cada vez mais urgente para que surjam mudanças, desde que a manutenção implica na aceitação do criminoso e desonesto. Só se pode falar em nome do povo, do outro, quando há legitimidade para tal e o legítimo é construído no limpo, verdadeiro e honesto.

Na esfera individual, a vida pautada na manutenção e comprometimentos nos quais tudo é contabilizado para funcionar bem e realizar ambições, não existe autenticidade, desenvolvem-se esquemas, nada pode ser perdido, imperam a desonestidade, o oportunismo e o vazio. É o caos no qual não se identifica mais juízes-reis ou mães legítimas; são as famílias mantidas pelos frágeis elos costurados nas aparências comprometedoras.


verafelicidade@gmail.com

Thursday, July 20

Oportunismo



A habilidade de tampar incapacidades, transformando-as em pseudocapacidades, se constitui no que chamamos de oportunismo.

Não ter condições, não ter conhecimento, não ter dinheiro, não ter mobilidade para realizar propósitos e objetivos, desejos ou necessidades, pode levar o indivíduo a transformar o outro, os recursos alheios, em instrumentos úteis para superar suas próprias incapacidades. Essa apropriação é sempre um oportunismo pois é resultado do uso do outro.

Não ter condições de realizar o que se propõe, ou o que é necessário, implica em admitir essa impossibilidade. Não se deter na impossibilidade e querer superá-la, sem recursos nem condições, estabelece redes de empréstimos, de utilizações que vão desde plágio e roubo até expoliações escusas. Engendrar mentiras, criar máscaras, criar imagens para conseguir expressar o que é necessário à realização de objetivos, é manipular fatos, manipular acontecimentos e realizações em função de objetivos diferentes dos que se expõe e explica. Manipular o outro, contextos e situações, implica sempre em uma atitude onipotente. Essa onipotência é um fator potencializador do que se crê necessário para realização das próprias necessidades.

Fraudar assinaturas, destruir documentos, gerar documentos, inventar histórias, inventar narrativas para justificar dificuldades, desencontros e disparidades, é comum quando se quer resultados, empregos, relacionamentos, absolvição de faltas, mas não se está capacitado, adequado aos mesmos.

Comportamentos oportunistas sempre são enganosos, sempre se constituem em autorreferenciamento que transforma os outros em objeto de satisfação dos próprios desejos ou que os destroem para que os mesmos caibam dentro de seus propósitos.


Thursday, July 13

Constatação




Perceber o que está em volta e constatar a existência de impossibilidades e limites, desanima. Esse desânimo cria questionamentos e restabelece a dinâmica, permitindo aceitação das impossibilidades e limites.

Quando o desânimo não possibilita questionamentos o indivíduo fica entregue às situações que o limitam. Nada é feito, apenas espera que aconteça o estabelecido. Essas vivências são frequentes quando se sabe não ter condições “de virar a mesa”, de “mudar o rumo do barco”.

Constatar a impotência é aniquilante, mas, por outro lado, possibilita a liberdade do não agir, do esperar não esperar. É um antagonismo estruturante, desde que percebido e respeitado. A constatação da impotência e de limites, alivia, permite desviar o rumo, recriar saídas, pois configura mudanças necessárias às manutenções de expectativas falhadas. Constatar é desatar o nó de impossibilidades, tanto quanto entender o enunciado de possibilidades.

Aceitar a perda, o limite (a morte, a doença, o abandono) é constatar situações extremas nas quais o importante é ver o que está sendo visto, é a percepção da percepção, é a constatação, que ao perder universos, ao vê-los sumir, percebe vazios e ausências configuradoras de mudança, talvez liberdade.


Thursday, July 6

Inconsequência




Vivências pontualizadas dos acontecimentos - do que ocorre - são típicas de posicionamentos autorreferenciados. Pessoas que vêem o mundo, o outro e a si mesmas a partir dos próprios e únicos referenciais e critérios, não percebem as malhas relacionais, tampouco as implicações das mesmas.

Reduzir tudo aos próprios desejos, medos e frustrações, tanto quanto acondicionar tudo nas caixas da experiência, aglutina disparidades, instalando caos, confusão e, assim, criando os únicos habitantes possíveis para estas atmosferas: os impulsivos, os inconsequentes, os irresponsáveis e imediatistas. É o “bateu, levou”, o “deixa comigo”, o “resolvo agora” que povoa este universo.

Atitudes inconsequentes são autorreferenciadas e pontualizadas. Existem quase como equivalentes de onipotência. O outro, o mundo causa sempre surpresa, assusta, exige interjeições, gritos, urros. Tudo é extravasado pois nada é refletido, questionado, continuado. Sem questionamento não há percepção das implicações, tudo é interjeição, quando muito, adjetivos para povoar o vazio que agora, desse modo, continua o não substantivado.

No autorreferenciamento o indivíduo é platéia de si mesmo. É também o filtro e o crivo a partir do qual tudo é percebido, pensado, dialogado, de tal maneira que é configurado como único existente no mundo, e portanto se imagina um contexto a partir do qual tudo ocorre, tudo acontece.

A continuidade de vivências inconsequentes possibilita interrupção dos confrontos criadores de questionamentos e aberturas, e também a interrupção de maior enfrentamento de suas posturas redutoras. Enquistado, enrolado em si mesmo, o nível de inconsequência aumenta, pois impermeabilizações arbitrárias foram atingidas. A depressão, a ansiedade passam a ser os dinamizantes. É um movimento grave, pois, devido ao exíguo espaço ocupado pelos posicionamentos, as áreas dinamizadoras implodem. Dragas são necessárias a fim de sobreviver. Estes artifícios para sobrevivência, também imediatistas, eternizam as descontinuidades, fragmentam e posicionam. Um dos exemplos disso é a insônia provocada pela ansiedade, pela depressão. Para essas pessoas, conseguir dormir é o grande objetivo e impõe ações imediatas. Tranquilizantes e soníferos são ingeridos, e então, dormindo ou sem dormir, o imediatismo é entronizado, tudo girando em função de objetivos e necessidades a aplacar e realizar.


Thursday, June 29

“Não posso, mas consigo”




Constatar uma impossibilidade e desconsiderá-la em função de um resultado que se crê necessário, frequentemente gera esforço, mentiras, desesperos, maldades, frustração e decepção.  

“Não posso, mas consigo” não gera conflito, embora, por definição, seja uma situação paradoxal, consequentemente, conflitante. A neutralização da incapacidade é o primeiro passo que se dá para manter o propósito e o empenho de conseguir. É também o que faz desaparecer a possibilidade de conflito.

Negar o existente implica em criar outra aparência. A falta de condição, o não poder ser desconsiderado ou subestimado diante do empenho para conseguir, leva a inventar capacidades. Como se faz isso? Copiando, plagiando, utilizando os outros para realizar o que não se tem condições, o que não se pode, mas se objetiva conseguir.

Na contemporaneidade, a tecnologia é utilizada para realização desses milagres pretendidos e buscados pela impotência ou incapacidade: desde as sexagenárias realizando o sonho de ter filhos, de serem mães “agora que podem cuidar dos rebentos” por exemplo, até os ajudantes, as barrigas de aluguel, pagas para realizar os desejos maternais.

Constatar uma incapacidade, quando possível, deve e pode ensejar superação da mesma, entretanto, constatar uma incapacidade, negá-la e independente da mesma, realizar objetivos pretendidos, é alienador, neurotizante, pois obriga o indivíduo a viver em função do que aparenta, do que instrumentaliza, dos enganos e mentiras construídos.

Superação é dignificante, mentira é aliciadora.


Thursday, June 22

Dúvidas e medos - como são reconfigurados



Estar sempre em dúvida faz com que se busque referenciais que funcionem como pontos de apoio, pontos de segurança. É examente aí que são criados os sistemas e métodos de avaliação.

Avaliar faz estacionar o desequilíbrio. Não se cai mais para um ou outro lado, cessam as dúvidas e, consequentemente, os medos decorrentes de cogitações. Consegue-se um ponto de equilíbrio que mais tarde se transforma no posicionamento autorreferenciado, responsável pela informação do que vai ser bom, do que vai ser ruim, do que vale à pena ou não. O que está à volta existe em função dos critérios avaliadores. Engloba-se o circundante e assim se cria capacidade, potência, eficácia, tanto quanto se constata as fragilidades e ineficiências.

A partir desse ponto, as vivências de dúvida são engessadas pela propriedade da eficácia, pelos resultados que trazem boas novas, boas colheitas assegurando paz e bem-estar. Não há medo, tudo está regularizado, funcionando, tanto quanto as desconfianças foram abrigadas. O inesperado que pode ocorrer é um fantasma que volta e meia requer cuidados, supõe espreitas. Ser cauteloso, não abusar da sorte, desconfiar do existente, estabiliza, permite controles, checagens.

Novas sofisticações, novos patamares surgem nos sistemas de avaliação. Cuidar do em volta garante certeza, exila dúvidas e traz sossego. Não há mais medo, só o de - de repente - morrer e tudo perder. Essa vivência de inevitabilidade provoca desespero, gera dúvidas, cria medos, agora decorrentes de certezas. As situações foram tão deslocadas que atingiram um ponto de não deslocamento. Esse bater contra o muro encontra o inevitável: a morte. É uma certeza responsável por gerar medo. O medo de morrer, de acabar, substitui todas as dúvidas, não há mais o que verificar, o que avaliar: já se sabe o desfecho final do processo. Não aceitar isso cria novas mágicas, tentativas de negar limites e realidade. A questão agora é o final intrínseco ao processo vital: adiar a morte. Nesse momento as verificações e avaliações de saúde, de saudabilidade, de controle da morbosidade passam a ser constantes.

As dúvidas e medos, como atitudes básicas em relação ao mundo, ao outro e a si mesmo, foram transformadas em certezas criadoras do extenso painel, do arsenal de verificação, de avaliação do que permite enfrentar doenças, fracassos, abandonos e morte.

… e assim, acorrentado ao que segura, o indivíduo realiza sua trajetória de camuflar dificuldades e realidades.

Apenas quando percebe que é de sua condição humana o limite e a finitude é que surge a libertação. Acabam dúvidas, medos, avaliações, certezas, verificações. Acaba o aprisionamento, já não se precisa de portas e janelas. O caminho, a saída está aos e sob os próprios pés. 


Thursday, June 15

Concentração de frustrações




Toda submissão é estruturada pelo medo, pela omissão. As extensões desse processo tonalizam incapacidades representadas por inveja, por exemplo. Desejar ser o outro, ou ter o que o outro tem, é, para o submisso, uma carga excessiva. Pontualizado pela sua submissão, tendo sido, ao longo da vida, reduzido a posicionamentos expectantes e autorreferenciados, qualquer situação além dele próprio é extenuante. Neste sentido é fácil entender como a inveja é vivenciada como aquilo que mata. Não ter conseguido o que o outro conseguiu estabelece uma concentração de frustrações e decepções que são disfarçadas e engolidas. Ser o outro, invejá-lo é uma maneira de ressuscitar, e esse nascer de novo é redentor. Todas as vivências e desejos de transformação ilustram esse drenar da não aceitação. Invejar é desejar ser o que não se é. Paradoxo e impasse absolutos. Como ser quando não se é? Exatamente aí, nesse pântano, cresce a inveja. Este alguma coisa, já não é o diferente, é alguma coisa, é o ser algo, ser alguém. Os desejos estruturantes da inveja, quando não realizados, são matéria-prima para a vingança. Trolagem, hoje em dia nas redes sociais, é um exemplo desse processo. Destruir o que não se conseguiu, vingar-se, é uma forma de afirmação, de realização. Sacrifícios sobre-humanos, provocar a própria morte, é, às vezes, uma maneira de se vingar, de cobrar tudo que lhe foi negado, de tentar recuperar o que foi tomado, o suposto merecido que não lhe foi dado.


Thursday, June 8

Cracolândia em São Paulo - Solução problemática




Um dos exemplos de solução problemática, consequentemente, pseudo-solução, foi o que assistimos estarrecidos, esperançosos e ameaçados, em São Paulo, na chamada cracolândia. A Prefeitura de São Paulo resolveu urbanizar áreas ocupadas por usuários de crack e ao fazer isso achava que estava também resolvendo e ajudando esses usuários, compulsoriamente levando-os à internação, obrigando-os a tratamento.

Em menos de 24 horas os craqueiros foram removidos da cracolândia original e, menos de 24 horas depois, passaram a ocupar outros locais próximos. A insurgência, a volta do sintoma foi perturbadora, deixou claro que foram desconsideradas resoluções anteriores estabelecidas com entidades médicas (psiquiátricas), sociais, antropológicas, psicológicas, que vinham sendo responsáveis por mediação, com o objetivo de conseguir estabelecer diálogo e consequente mudança.

O surgimento de impasses leva a conveniências e inconveniências, à necessidade de apreender implicações e a pontos de convergência. Afinal, no impasse, sob que ponto de vista, que contexto, as questões serão enfocadas? Considerar as necessidades da sociedade e a elas subordinar as do indivíduo, é lesivo, tanto quanto, pela exarcebada prioridade da liberdade individual, negar a ameaça e destruição dos outros é demagógico e perigoso. Esse tipo de contradição reside na velha questão, no velho dilema entre indivíduo e sociedade. Sempre que as situações ficam assim polarizadas é fundamental, e muito significativa, a mediação, o terceiro tema, o outro ponto a partir do qual as contradições são recontextualizadas.

Pensar na sociedade, nas áreas urbanas, na ordem, harmonia, paz e tranquilidade social, deixando os craqueiros em segundo plano, é transformar o outro polo - o indivíduo, o craqueiro - em objeto, resíduo que deve ser descartado, ainda que sob a forma de envio para tratamento médico. Na mesma linha de polarização, considerar fundamental e prioritário, o que deve ser feito para extinguir a dor e desespero do craqueiro, é reduzir a ação a níveis utópicos - sem condição de realização - é não pensar que ele, o craqueiro, já está em um ponto de chegada, não está em um ponto de partida.

Nem tudo é Fla x Flu, tampouco é nítido o preto e o branco, assim como as diluições em cinza não esclarecem. Mas o problema é que é preciso retirar os craqueiros, é preciso transformar a área em local seguro e para isso é necessário perder os pontos de vista particulares: o social e o individual.

Para resolver o problema, é preciso perceber que não existe confronto e que existe integração: craqueiros, cracolândia, vizinhança, área urbana, tudo está junto e integrado. Soluções podem ser atingidas caso se perceba usuários de crack e moradores na vizinhança da cracolândia como fazendo parte da mesma paisagem, sem exclusões geradas por funcionabilidades e outras ordens, como as econômicas, por exemplo. Validar a zona de convivência é sempre a melhor solução desde que não temos o direito de escolher com quem vamos coabitar na Terra. Essa é uma sábia lição dada por Hannah Arendt quando falava dos campos de extermínio, quando falava da rejeição ao outro, ao diferente seja na etnia, na religião, nas trajetórias que deixam marcas de pobreza ou, como no que tratamos aqui, os desesperados, os drogados e sem autonomia: os craqueiros. Arendt deixa claro que na vida social e política, a diversidade da população é uma condição irreversível, não escolhemos com quem coabitamos na Terra, essa coabitação antecede qualquer acordo político ou vontade deliberada de separação ou extermínio. A coabitação antecede qualquer comunidade. Naturalmente podemos escolher com quem viver, mas não com quem coabitar na Terra.

A sociedade é plenamente apta e diversa. Esse é o primeiro ponto que não deve ser esquecido. Dentro desse referencial e contexto as soluções devem ser buscadas. Se não são buscadas na diversidade, elas não resolvem problemas, apenas os escurecem com muros, paredes, campos demarcados para sobrevivência e minimização de sofrimento ou mesmo com a morte (a própria cracolândia, hospitais, hospícios, prisões).

Já é tempo de, enquanto soluções sociais, soluções macro, não cairmos em dicotomias, não buscarmos juntar elementos e ver se no final a solução aparece. O processo de mudança é longo, não se resolverá na erradicação, tampouco na convivência, mas pode começar a criar novos horizontes, novas tonalidades e diferenciações que permitam realmente resolver, e que essas soluções não gerem novos problemas. Isso não é difícil, mas é preciso dedicar-se aos problemas, ao invés de dedicar-se a escamoteá-los, escondê-los ou até mesmo utilizá-los, transformando-os em justificativa para manutenção das dificuldades e realização de outros interesses.

É sempre bom lembrar que o quantitativo nada define enquanto configuração relacional; não existe pequeno ou grande mal, existe o mal. Aos argumentos que justificam arbitrariedades políticas ou opiniões populares como “dos males, o menor” (é melhor a repressão e a força do que a morte no vício, por exemplo), contrapomos novamente uma frase de Hannah Arendt: “politicamente, a fraqueza do argumento sempre foi que aqueles que escolhem o mal menor esquecem muito rapidamente que escolhem o mal”.

Se quisermos pensar do ponto de vista do comportamento de evasão de dores e fracassos - que caracteriza o vício - sugiro a leitura de um texto meu publicado na Wall Street International Magazine em 4 de abril de 2015: Fuga - Evasão de dores e fracassos e também, na mesma Revista, o artigo Convivência - Medo e Preconceito, de 4 de julho de 2016.


verafelicidade@gmail.com