Thursday, October 12

Utilização de referenciais




Utilizar referenciais existentes para apresentar outros diferentes, embora congêneres, é uma maneira de confundir, tanto quanto de enganar. No comércio, inúmeros produtos e lojas utilizam marcas, grifes, fama sancionada pelo uso e se apresentam como idênticos. Explorando a semelhança gerada pela proximidade lingüistica, que pode levar a closuras, se aproveitam e assim iludem e angariam consumidores.

Esse processo também está presente na vida universitária, no dia a dia das academias esportivas, das aulas de meditação e dos centros de saúde e aperfeiçoamento. É o ser igual a, é o fazer como o bem sucedido faz. É a montagem de peças com modelos arbitrários que a tudo recorre. Colagens, deturpações, correntes para encaixe, tudo é permitido quando se quer lograr o cume dos resultados e vantagens e quando se precisa do outro, enganando e mentindo. Este “boa noite Cinderela” coloca indivíduos onde se deseja que eles fiquem, para assim estabelecer e conseguir bons resultados.

Comércio e organizações religiosas, nesse sentido, se assemelham, são redes mantidas para conseguir consumo e prosélitos, concentrando assim, participantes e contribuintes. Contribuindo para Deus se compra o reino dos céus!

Quanta mistura para iludir e capitalizar a confluência de angustias, desejos e vontades!


Thursday, October 5

Cinismo

"Diogenes" de Jean-Léon Gérôme (1824-1904) 


Com o passar do tempo o sentido das palavras muda e algumas vezes pode adquirir significados opostos aos de sua origem. Cinismo é um exemplo disso. Em sua origem era postura filosófica caracterizada pela busca de uma vida simples e voltada para a natureza, vivenciada por meio de atitude crítica e de rejeição de todas as convenções sociais, das boas-maneiras, das famílias, casamentos, moradias e valores como pudor ou decência - entendidos pelos cínicos como hipocrisia social. Também pregavam a valorização da virtude encontrada em uma vida ideal e na honestidade. Seu maior expoente, Diogenes, vivia nas ruas de Atenas, levando sua lógica ao extremo, indiferente aos valores e confortos sociais (costumes, convenções, riqueza, fama, poder, bem-estar etc.). O cínico era, em última instância, um homem honesto, um crítico da hipocrisia social.

Nos tempos modernos, cinismo está associado a uma descrença nos valores éticos, na sinceridade e na bondade como motivações ou possibilidades humanas. O cínico moderno não busca o homem honesto como Diogenes fazia, ele exerce a desonestidade de forma insolente e atrevida.

A desconsideração do que ocorre, das manifestações elucidativas das questões, estrutura atitudes cínicas. Ser cínico, é, por exemplo, além de fazer de conta que não tem problemas, que nada aconteceu esclarecendo e evidenciando as direções congestionadas, afirmar-se como defensor e protetor do que foi por ele mesmo destruído.

Cinismo e demagogia geralmente andam juntos, desde que são maneiras de impor ao outro, pontos de vista sem suporte, sem consistência. Na política são frequentes as atitudes cínicas, desde o consagrado "Vossa Excelência, prezado Deputado, é um incompetente, corrupto", até o "meu filho, por amor de Deus, vou ter que lhe bater para manter unida nossa família".

Cinismo é sempre atitude que expressa contradições explícitas entre o que se vivencia e o que se quer demonstrar vivenciar. Essa criação de abismo, de descontinuidade abriga e suporta explicações paradoxais, como: "por amor se mata", "em defesa da honra, se corrompe" etc. Nas vivências das próprias problemáticas expressas no contexto de psicoterapia, assim como no cotidiano, cinismo é fazer o "mea-culpa", é negar atitudes, postulando outras a elas contrárias.

Ironia, mordacidade, cinismo às vezes são sinonimizados, chegando a se confundir. Em realidade, as situações são tão diversas quanto o são ângulos de 90º, 45º ou 0º - todos são ângulos, mas sequer são parecidos, não passam de encontros com superfíceis -, não passam de encontros ou de situações nas quais o fazer de conta, o exibir isto ou negar isto são apresentados. A ironia requer um mínimo de lucidez, a mordacidade implica sempre em questionamento, enquanto o cinismo é caracterizado por mentira e engano.

Cinismo é um adiamento da constatação, da decisão, utilizando situações que podem confundir o outro.


Thursday, September 28

Poder, egoísmo, arma-na-mão e maldade




É sempre intrigante constatar que os poderosos, principalmente políticos, roubam, enganam e não se sentem mal! É quase - do ponto de vista deles - "dever de ofício" visto como solução e eficácia. Espanta também ver o assaltante, o marginal roubar, matar e não ter conflitos, não ter remorsos. Será que pertencem a outra espécie, outra forma de gente como imaginava Lombroso? Não. São sempre seres humanos. A diferença é que foram transformados em sobreviventes e, portanto, tudo é vivenciado em função dos desejos e necessidades extrapoladas e polarizadas para os deslocamentos da não aceitação. A não aceitação estabelece padrões e regras. É necessário ganhar um bilhão de dólares para se camuflar como humano, para se sentir gente e esquecer a bestialidade de seu processo. Outros precisam matar, eliminar 100 pessoas ou um número ilimitado, para sentirem-se capazes de ações e de prazer.

Transformar o outro, o diferente ou semelhante, em espelho, em respaldo ou desculpa de comportamento é alienador. Nesses casos, não se é motivado pelo outro, mas sim pelo outro coisificado, transformado em objeto conquistado, destruído ou neutralizado. Para essas pessoas, o poder e a violência afirmam o existir. O indivíduo vale pelo que rouba, destrói e mata. Outros seres humanos são, para eles, objetos que se destrói para não se tornarem ameaçadores, ou se compra para apoiar, para realizar desejos. O mundo, a sociedade, são transformados em supermercados, bordeis onde produtos e reciclados podem ser adquiridos e, mais, precisam realizar o sonho de estar sozinhos, isto é, serem admirados sem intromissões desfiguradoras e ameaçadoras. É o clássico "o mundo aos próprios pés".

Leis econômicas e societárias podem transformar indivíduos em seres que existem fundamentalmente para sobreviver, para ter o melhor. Seus familiares não questionam, ao contrário, incentivam o processo, ensinam que o que vale é o que se tem, o que aparece e que poder em dinheiro é a finalidade humana, que vida é isso e mesmo quando algum viés religioso é oferecido é sempre no sentido de aproveitar a oportunidade, pagar pelo melhor lugar na Igreja, estar junto e sob as benesses das autoridades religiosas. Tudo é utilizado neste processo de atingir, adquirir, ser o melhor, não importa quanto se destrua em volta, não interessa que as escadas de ascensão sejam representadas pelos cadáveres destruídos pela fome, pelo tiro ou pela prisão segregadora do que se considera diferente, denunciante e ameaçador.

O poder, a arma-na-mão, o egoísmo, a maldade decorrem de reduzir tudo ao processo de luta-fuga, de caça-coleta. Não é "primitivismo", é a negação da harmonia, é a negação do sujeito, é o sentir-se só, como maneira de não ser contestado, contrariado ou denunciado. Hoje em dia, as páginas políticas dos jornais tornaram-se páginas policiais, noticiários de TV dedicam metade do tempo à exposição da criminalidade violenta e indistinta do palácio ao casebre com seu caudal de justificativas desprezíveis: “rouba, mas faz”, “a política é assim”, “o poder corrompe”, “todos agem assim”, “não tive oportunidade na vida”, “lá na periferia a regra é essa”, “era eu ou ele” etc.

O egoísmo e a maldade não resultam de condições sociais e econômicas adversas, tanto quanto não são instinto humano, não são ausência de Deus, não são a presença do Demônio. Eles são a desumanização criada pelo autorreferenciamento, após impasses não enfrentados, limites não aceitos.

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Thursday, September 21

Curar e ajustar - amordaçamento da subjetividade

Cartaz de 1936, indicando como as pessoas eram marcadas na Alemanha nazista


Salvação da família, da propriedade, "cura gay" traduzem desejos de comprometidos, atitudes restritivas que, girando em torno dos critérios de ajuste e mais-valia, ameaçam a liberdade, desumanizam e alienam. A discussão dos últimos dias em torno da Resolução 01/99 do Conselho Federal de Psicologia (CFP) - que determina a atuação de profissionais da Psicologia quanto à orientação sexual -, a reivindicação de que ela seja restringida, estabelecendo a possibilidade de tratamento psicológico para reversão de orientação sexual, é um exemplo desse comprometimento. Essa discussão é universal, atualmente atinge uma abordagem mais ampla que engloba questões de gênero, identidade, transexualidade etc. e voltarmos, hoje no Brasil, ao ponto em que estávamos há três décadas, além de ser uma infração de leis agora existentes, é um retrocesso que nada têm de preocupação científica como alegam os defensores da reversão da orientação sexual. Como bem disse o Presidente do CFP, Rogério Giannini, pesquisas sobre sexualidade humana nunca foram reguladas por nenhum Conselho de Psicologia e dentro das Academias obedecem os ditames da ética aplicada a qualquer pesquisa que envolva seres humanos, em qualquer disciplina.

Visões psicológicas pragmáticas e subordinadas aos valores de manutenção de regras econômico-sociais reduzem o ser humano a rótulos e ajustes. Nelas não existem subjetividades, o que existe são pessoas fora da regra, fora dos padrões, tanto quanto pessoas ajustadas aos mesmos e ainda outras que precisam ser encaixadas no que pensam ser para o bem ou para o certo.

Pessoas não são objetos, suas vontades e determinações resultam de motivações. Admitir que estar "fora da ordem", das regras ou das leis é estar doente, é um reducionismo impossível de ser suportado, mesmo em abordagem medicalizante.

No mínimo, de 25 em 25 anos, conceitos, atitudes e vivências são transformadas, em virtude de novas perspectivas e novos limites. Era frequente na geração passada, por exemplo, cuidar de mulheres grávidas como se fossem incapacitadas para uma série de coisas, até que se percebeu que gravidez não é doença. Dizer que homossexualidade é doença implica em atitude ignorante, aliciante, própria dos que vivem em pequenos espaços gerados e mantidos pelos preconceitos, pelo medo de perder etiquetas vendáveis, identificatórias de segurança. A reivindicação de tratamentos voltados à reorientação sexual é nitidamente pautada em preconceito e engano, que persistindo, abrirá precedente para diversas ações questionáveis e perigosas (como direcionamento comportamental, ajuste, subordinação a autoridades ou à ideologias e à ditames familiares etc.) não só quanto à sexualidade, mas quanto a qualquer área do comportamento humano. Juntamo-nos ao Conselho Federal de Psicologia (CFP) e também o parabenizamos pela posição em defesa dos princípios éticos da Psicologia e de sua consistência teórica, assim como em defesa dos Direitos Humanos.

Psicologia e psicólogos existem para desenvolver e ampliar as possibilidades e potenciais humanos, não existem para classificar e muito menos para ser capatazes-curadores. Identificação de doença, redução de vivências, de perspectivas existenciais e motivações individuais à critérios nosológicos não condiz com psicoterapia. Para o psicólogo, existem indivíduos que realizam suas motivações, seus desejos, estão felizes, se aceitam e existem os que não se aceitando buscam proteção em ajustes, em rótulos que os permitam sobreviver; isso acontece em quaisquer comportamentos, inclusive nos sexuais.

As psicoterapias resgatam individualidades e para o psicoterapeuta não existem negros, brancos, homossexuais, bissexuais, transexuais, homens ou mulheres. Simone de Beauvoir já falava: "não se nasce mulher, torna-se mulher". Ela cunhou essa expressão ao explicar as questões de autoritarismo e alienação social, mas, essa ideia de tornar-se, esse devir é fundamental na psicoterapia e na compreensão das relações existencialmente estabelecidas e que, consequentemente, quer se queira, quer não, são as bases e alicerces das sociedades.

Também nas religiões que lidam com a transcendência se sabe que alma não tem sexo, que sexualidade nada mais é que metabolismo ou realização de motivações possibilitadoras de encontro quando não destroem ou ofendem o outro. O comportamento invasor e violento pode acontecer no contexto de qualquer orientação sexual, seja ela homo ou heteroafetiva. Quando a sexualidade é exercida de forma doentia? Quando ela invade, obriga, desrespeita, agride o outro: pedofilia, estupro, violência etc. 

Viver é ultrapassar limites, é realizar possibilidades - isso é saúde. Doença é o posicionamento para verificar vantagens e desvantagens, é o como se apoderar do poder para manobrar e rotular pessoas, utilizando, inclusive, ferramentas sociais e legais.

É histórico, o fato de que toda ditadura espoliadora do humano cria rótulos, discursos e narrativas: lembram de Hitler? Com as estrelas amarelas para marcar os judeus, os triângulos rosa para marcar os homossexuais masculinos, triângulos pretos para homossexuais femininos e os triângulos vermelhos para marcar os comunistas? E "a arte degenerada" por ele rotulada e proibida? Essa arte nada mais era que liberdade e expressão que foi cerceada. Pensem na recente exposição de artes plásticas fechada pelo patrocinador, o Banco Santander, pois os quadros não agradaram parte da população! E os idos 1964, os anos da ditadura nos quais até peças teatrais e músicas eram escrutinadas segundo os critérios do que era bom para a família e do que ia garantir a Segurança Nacional. Tempos sombrios são instalados quando critérios limitados e preconceituosos reinam.

Não cabe a psicólogos direcionar clientes a este ou aquele comportamento, em nenhuma esfera de suas vidas. Cabe ao psicólogo identificar o núcleo da não aceitação e questioná-lo. Perceber e propiciar expressão - e não o amordaçamento de subjetividades - é o objetivo da psicologia enquanto variável configuradora do social.

Para quem se interessar por mais leituras sobre esse tema, nos meus dois primeiros livros, publicados nos anos 70, abordei a questão da sexualidade humana e mais recentemente em dois artigos publicados em revistas:  

"Comportamento Sexual - Acertos, contratos, preconceitos", na WSImagazine (https://wsimag.com/pt/bem-estar/17474-comportamento-sexual)

"Sexualidade Humana - Aspectos psicológicos", no Boletim da SBEM - Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia Regional Bahia/Sergipe (em pdf no Researchgate - https://www.researchgate.net/publication/317784044_Sexualidade_Humana_-_Aspectos_Psicologicos)




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Thursday, September 14

Abuso no trabalho




Abuso no trabalho é um tema recorrente hoje em dia. Situações de abuso sempre indicam autoritarismo, prepotência e utilização do outro enquanto subordinado.

Acreditar que um funcionário vai se submeter a tudo, pois não pode perder sua manutenção de vida, seu emprego, faz com que, da chefia à colegas, criem-se situações difíceis que precisam ser transformadas em fáceis através da submissão.

Fazer de conta que não há provocação, que não existe abuso é a negação que permite manter o emprego. Permitir ser abusado só é possível quando se nega a humilhação presente em função de amealhamentos futuros. Transformar o dia a dia, o trabalho, em ponte para sobreviver é negar a própria realidade, a própria identidade.

Nem sempre o que é narrado como abuso advém da exploração das autoridades estabelecidas. Às vezes o que se vivencia como abuso no trabalho é uma extrapolação mantenedora da atitude de medo, ansiedade, desejo de ser considerado e cuidado. Esses deslocamentos da não aceitação fazem descobrir adoradores e sedutores no que se sofre como massacre. É uma forma de ampliar o estrito espaço de satisfação cotidiana.

Atropelados pela insatisfação, isolados em seu autorreferenciamento, fantasmas são criados: abusadores e sedutores são vistos por toda parte, inclusive no trabalho. Da mesma forma, vivos e perigosos abusos e humilhações são transformadas em espectros, fantasmas não existentes. Nega-se a realidade, suas inconveniências, para manter as conveniências, para manter as seguranças e assim se mantêm também abusos, humilhações e subordinação.

Olhar em volta e identificar abusadores requer questionamento das próprias atitudes, seja de conveniência e submissão, seja de revolta, denúncia, medo e raiva.


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Thursday, September 7

Beira de abismo




Nas situações limites, nas quais dificuldades existem, a condição de mudança, a participação do outro, principalmente enquanto psicólogo, é fundamental. Descortinar horizontes, ampliar referenciais, realizar implosões que possibilitem aceitar os abismos da descontinuidade, que possibilitem até aceitar o inevitável, é um trabalho psicológico. Nesse panorama, o trabalho do psicólogo, ampliando horizontes, é da maior importância. Além de ouvido amigo, são seus olhos atentos que possibilitam mudanças, que interrogam contradições e solucionam impasses.

Contemporaneamente, a especificação de funções próprias e adequadas gera, significativamente, vestimentas uniformes, cria autômatos programados para tampar buracos, para manter e criar aparências de eficácia, de responsabilidade e cuidado. Dispositivos e sugestões de nada adiantam, não ajudam e apenas existem como sedativos de temores e apreensões.

Atitudes de participação, ouvindo, observando, até mesmo questionando, é o que se faz para contornar os limites, os abismos inevitáveis, agora percebidos como dados previsíveis, impossíveis de sonegar, de solapar. Aceitar a morte, por exemplo, é decorrente da aceitação da vida. Dificuldades em admiti-la são resolvidas quando se estanca a não aceitação da vida, questionando-a.


Thursday, August 31

O fascínio pela desgraça




Outro dia me pediram para falar sobre o fascínio pela desgraça, pela ruína, queriam também saber porque programas televisivos apelativos têm grande audiência.

Processos de identificação geram motivação. O familiar é percebido enquanto semelhante; essa semelhança é englobada como proximidade. Estas leis perceptivas - semelhança e proximidade - regem os processos da percepção, do conhecimento, consequentemente, do relacional, da montagem de estruturas sociais e psicológicas, dos relacionamentos consigo mesmo, com o outro e com o mundo.

Vivendo em condições economicamente subdimensionadas, sofrendo provações e privações, participando de cotidianos abjetos, o ser humano se motiva, se fascina pelo superdimensionamento do que lhe é próximo. Ampliar, às últimas consequências, o que está presente, limitado pelo exíguo espaço, ver como pode explodir tudo que está gestado, é revelador. Fascina. Freud explicava essas identificações e fascínios pela projeção da agressividade, das vivências recalcadas.

Não são necessários mecanismos arbitrários, pois as situações se apresentam genuinamente, não se está encenando nem produzindo títeres, apenas as situações estão ampliadas, inquestionavelmente postas, sem dubiedade. É esse esclarecimento que identifica, é a percepção do semelhante que fascina. O outro - próximo, semelhante - vive tão soterrado no dia a dia, que inexiste. Pai e mãe são agressores, predadores, ameaçam. Tudo significa enquanto ameaça, pois a condição cotidiana é de constante perigo. Quando embelezada por luzes, por molduras, por vozes e ternos bem/mal talhados dos apresentadores, surge a própria realidade de pés para cima - de cabeça para baixo - vem o fascínio: é o semelhante que está aí.

Importante considerar a desagregação criada pela desumanização: o outro só é percebido enquanto fragmentos, pedaços, restos sub-humanos, só é percebido enquanto destruição e miséria. Exatamente aí podemos entender o facínio pelo destruido, pelo destruidor. É uma recuperação dos pedaços que faltam, são os resíduos humanos reconhecidos. Lamentavel que apenas em sua fragmentação, em sua destruição, o outro se faça presente, motive e fascine. Nesses casos, ser o que o outro permite que se seja é mais um recuo aos reles patamares sobreviventes do processo, da constituição relacional como desencadeante motivacional.


Thursday, August 24

A radicalidade do desejo

Deus ex machina - vaso grego, séc. IV b.C.


É muito fácil imaginar ou mesmo lidar com a radicalidade do desejo quando o mesmo é colocado como uma das forças motrizes da vida. A partir dessa posição podemos, por exemplo, dizer que a radicalidade do desejo é o máximo da realização humana e, ainda, que vivemos para realizar isso cada vez que caem as censuras do subconsciente e libertam-se as motivações inconscientes. Esse é o ponto de vista freudiano. O desejo é cego e precisa encontrar o caminho para realização do desejante - o ser humano.

Fora dos dualismos de interno e externo, não admitindo forças operadoras e determinantes - como é o caso dessa abordagem baseada na libido ou energia sexual/impulso vital - e entendendo o desejo como resultante de motivação, a radicalidade do desejo só pode ser entendida quando submetida a seus contextos estruturantes, e aí, falar desta radicalidade é falar de sintomas de não aceitação, é falar de carências e de falta. Nesse sentido, a radicalidade do desejo está bem próxima das explicações budistas acerca do desespero e quimeras humanas. Segundo os budistas, deseja-se o que falta, é a busca para complementar, talvez, o vazio da existência, por isso os conselhos de tolerância, abnegação, desprendimento para viver e suportar a incompletude humana, que encontramos na filosofia de Siddhartha Gautama.

O aspecto que o desejo tonaliza é o da motivação. Desejar é estar motivado, é querer. Sob o ponto de vista da Psicologia da Gestalt, o motivo não é interno, não está no organismo como pensam psicanalistas, behavioristas e funcionalistas cognitivistas. Motivo é o que está diante, é o que é percebido, é o que estrutura o comportamento motivado. Precisamos considerar também que tudo que é percebido pode estar estruturado em autorreferenciamento (referenciais individuais que se superpõem ao que ocorre, que polarizam o ocorrido em função de posicionamentos anteriores) ou pode ser estruturado em disponibilidade, isto é, presente vivenciado enquanto presente. Motivação, portanto, é entendida por nós no contexto relacional e não no do corpo (cérebro) o que implicaria em separação entre corpo e mente, reeditando assim, o velho cartesianismo.

A disponibilidade, o presente vivenciado enquanto presente, transforma o que se deseja em comportamento. A sequência comportamental, consequentemente, realiza desejos, dá continuidade aos mesmos, às motivações. É o comportamento motivado sem antecedências ou metas. Motivo, desejo, ação, tudo isso é uma só expressão do indivíduo. Nas vivências de aceitação não há fragmentação, não há desarticulação por meio de denominações ou nominações - é a continuidade sem posicionamentos, é o encontro do outro. Só se fica motivado, só se deseja no presente, se for além do presente, do vivenciado, é a priori ou meta, continuidade de outras motivações não mais existentes, que para serem sustentadas supõem divisões e posicionamentos, é a ideia fixa.

Quando surgem interrupções, limites, anteparos, a sequência motivacional, comportamental, se fragmenta. Surgem posicionamentos e assim começam as cogitações e considerações. Inúmeras estratégias e planos são estabelecidos para realizar os desejos posicionados. Muitas pontes, artifícios, artefatos são criados e tudo em função dos desejos não realizados, não atendidos, pois estruturados na esfera da não aceitação. Surgem divisões: de um lado o indivíduo e do outro seus desejos frustrados e não realizados. Nesse momento podemos falar de radicalidade do desejo: nesse processo de fragmentação, o desejo passa a ser, para o indivíduo fragmentado, a base, o contexto a partir do qual sua vida é percebida. Nesse momento, ainda radicalmente guiado por seus posicionamentos, seus desejos coagulados, ele começa a pensar como realizar seus desejos, suas não aceitações percebidas, suas demandas frustradas. Começa a arbitrar e as atitudes onipotentes são geradas pelo contínuo deslocar da impotência não aceita, pelo que vai permitir aplacar seus desejos frustrados, como, por exemplo, mudar a aparência e saber que este impossível pode ser resolvido com química, hormônio, vendo isso como solução. São artifícios que expressam o desejo, são artifícios que construindo outras realidades, criam novos artifícios. É a busca de resultados sem questionar ao que se propõe, são as ciladas do atirar para todos os lados, do desejar solução sem problematizar questões. Exemplos atuais são dados pela surpresa desesperada de pessoas que transitam pelo universo trans e de repente se descobrem grávidas, quando muitas vezes dessa condição também fugiam, assim como os que passam a ter dificuldade de orgasmo, mas escolhem essa opção, dedicando-se aos seus saltos altos.

A radicalidade do desejo é a transformação das vidas e aparências na realização de objetivos, de metas. É a perda de continuidade do existente, é o isolamento do estar no mundo operado pelas ilhas de desejo posicionado. Cercado de desejos - posições desejantes - o indivíduo se estrutura entre ser o que aparenta em oposição a ser o que é. Michael Jackson é um exemplo do não se aceitar negro, se produzir como branco, até chegar a todo um comprometimento funcional, orgânico, que inclusive, por efeitos colaterais, pode o ter levado à morte. Muitos outros exemplos encontramos na esfera econômico-social: os emergentes, os novos ricos estão aí ilustrando essas não aceitações e também na nossa massificada sociedade, onde novos mercados e paraísos são criados para os desejos de transformação do próprio corpo, das plásticas rejuvenescedoras às próteses liberadoras e, ainda, à todos os itens do consumo de tranquilidade e conforto almejados.

É preciso questionamento quando se quer mudar para que não se aumente as fileiras de seguidores de “novas ordens”, tanto quanto de consumidores do mais fácil, do mais solucionador de demandas e aparências. Mudar é fundamental, mas saber o que se muda, como e quando muda é crucial.

O desejo posicionado é um enrodilhado pontilhado no qual só se consegue perceber um ponto a partir de outro ponto e assim a radicalidade do isolamento, a radicalidade do desejo se estabelece, nada se percebendo além do próprio desejo. Dessa maneira se configuram seres sozinhos, isolados em suas próprias realizações de desejo, que nada mais significam que histórias, pontos a ressaltar.


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Thursday, August 17

Como lidar com a pressão diante das tarefas




Toda tarefa visa um objetivo, entretanto esse objetivo pode se esgotar na própria realização das tarefas ou ultrapassá-las. Quando os objetivos se esgotam na própria realização das tarefas, surge tranquilidade e bem-estar. Quando tal não acontece, surge expectativa traduzida por medo e ansiedade - é a conhecida pressão, o estresse. Cotidianamente estudantes vivenciam essa situação com a pressão dos vestibulares, ENEM e exames. Também são exemplificadores dessa pressão esperar resultados de exames de saúde, tanto quanto expectativas de conseguir emprego através de concurso.

Quanto mais preparado e capacitado se está para o que se propõe atingir, mais confiança, mais certeza, menos expectativa, entretanto, essa regra de ouro frequentemente é quebrada por dados aleatórios, pois a própria aposta, o processo, é um crivo. Depender de um exame comprovador de higidez ou mobilidade, por exemplo, ultrapassa os referenciais do examinado, do apostador, enfim, do indivíduo, pois se torna necessário a complementação de seus processos através de dados dele fugidios.

Muitas vezes nos vemos em situações nas quais aceitamos e entendemos os processos, mas dependemos de outros dados para sua complementação, de outras realidades que os reconfigurem e neste momento aceitamos a impotência ou sucumbimos à mesma. No último caso, isso gera expectativa, faz pressão, dá medo, dá ansiedade. Tudo que ultrapassa os próprios contextos, tudo que esgota a autonomia, pode gerar pressão, expectativas traduzidas por medo, por atitudes mágicas de implorar pela ajuda divina, por exemplo, tanto quanto de utilizar o outro como apoio, como base para realização dos próprios objetivos, mesmo que enganando.

Pressões existem e variam em função da falta de autonomia, da falta de vivência do presente. Perceber o processo, suas implicações, e aceitá-las, minimizam as pressões, o estresse. A facilidade ou dificuldade em globalizar os processos, frequentemente endereçam indivíduos para as psicoterapias.


Thursday, August 10

Papéis sociais - mudança de comportamento



As sociedades em seus desenvolvimentos geralmente estabelecem regras e padrões. Esses modelos sociais são datados. Tempo de validade também existe para eles, desde que os questionamentos individuais, as estruturas econômicas, as vivências relacionais e psicológicas tudo definem e subvertem. São as transformações, as adaptações, as mudanças que aparecem, continuam ou são interrompidas. Vinte cinco anos - parâmetro geracional - é uma medida desses pontos de ebulição, de transformação. Exepcionalmente, fatores aparentemente abruptos também são determinantes de épocas, também são marcos. O pós-guerra (1945) é um deles. A morte de muitos homens na guerra levou outras realidades aos lares: de mãe e esposa a mulher foi transformada em provedora, modificando, assim, toda a estrutura relacional com seus filhos: dos lullabies (canções de ninar) às histórias contadas pelos audios, até os contatos no caminho da escola, agora substituído pelos acompanhantes e condutores escolares.

Vinte cinco anos depois, não só a maternidade, também o conceito de paternidade é transformado. Ser pai, agora, é trocar fraldas, fazer mingau, acompanhar boletins escolares, enfim, dividir essas mesmas tarefas com a companheira que já divide o pagamento das contas e o provimento da casa, que já dirige automóveis etc. As mudanças dos papéis sociais que se refletem na maternidade, na paternidade, vão também construíndo e significando novas dimensões para o homem e para a mulher.

A aceitação destes redimensionamentos cria compatibilidades, tanto quanto incompatibilidades. Também produzem resíduos que podem ser atritos, impedindo circulações harmônicas, velocidade condizente com as novas manivelas operadoras, com as novas configurações e demandas. O entrave do sistema cria impasses. Maiores conflitos surgem e às vezes o “pai amoroso” que troca fraldas é o mesmo que esconde o autoritarismo, cobrando direitos, o homem dono do poder. Também não é difícil encontrar as “garotas mimadas”, agora perdidas, soterradas pela quantidade de afazeres, reclamando de como foram enganadas: “não foi para isto que me casei”.

Os papéis sociais podem ser integrados e quando tal acontece tudo é harmônico, salutar, bem diferente de quando vivenciados como aderência, como anexo, imagens, papéis que cobram retribuições, que querem garantir sistemas, filhos e evitar fracassos.

Cada vez é mais necessário perceber o que é estar integrado às vivências e o que é usado como relações instrumentalizadas para aplacar necessidades e realizar demandas contingentes ou suprir insegurança e manter garantias.


Thursday, August 3

“Quanto pior, melhor” - Semelhanças e identificações



Continuamente não aceito, desconsiderado e marginalizado, surge, no indivíduo, esperança de camuflagem para conseguir mínimas considerações. Ele tenta arranjar uma segunda pele, consensualmente não aceitável, por acreditar que quanto mais sujo, quanto mais desconsiderado nas esferas social e psicológica, mais conseguirá atenção ao ficar igual ao residual, ao dispensado. É a ideia de quanto pior, melhor. Não ser útil, ser inútil, ser o nocivo que atrapalha, que faz esbarrar e merecer cuidado e atenção. Será considerado pelo mal que pode causar, pelo atrapalho que significa. Causar o mal, ser nocivo, chamar atenção, merecer olhares, é visibilidade, é consideração.

Ser invisível é desumanizador. Preconceitos e restrições criam a capa de invisibilidade e marginalizar-se ou causar prejuízos torna visível, personaliza, deixa de ser o zé mané e passa a ser o perigoso Zé, capaz de atrocidades. Virar alguém, ser considerado, mesmo que como escória e marginal perigoso, significa. O agrupamento de resíduos cria a necessidade de compactar, passa a merecer olhares reprovadores, mas, passa a merecer olhares, passa a existir. A luta por um lugar ao sol, isto é, um lugar na lama que tudo destrói, corporifica, torna visível. Assim se estruturam socialmente os párias, os marginais e também os sobreviventes implacáveis na destruição. Muitas vezes aparecem sob formas sutis, emoldurados por instituições ou pelas benesses conferidas pela riqueza: é a corrupção, o tráfico de drogas, de seres humanos, de órgãos; são os pedófilos provedores de famílias submissas aos seus desejos destruidores.

As identificações que formalizam grupos desconsiderados, criam semelhanças que são verdadeiras redes de impedimentos e impermeabilizações. A motivação para o “quanto pior, melhor” determina, posteriormente, ordens desviantes. Por semelhança os díspares são incluídos socialmente enquanto ameaça e dificuldade. Os processos da não aceitação têm muitos deslocamentos e tudo comprometem, necessário se faz restringir os contextos que possibilitam o florescimento dos mesmos, são cada vez mais urgentes estratégias sociais. Agências de poder, dos currais eleitorais às organizações e políticas aplacadoras, tanto quanto as promessas de paraísos de redenção, configurações polarizadoras de “almas perdidas” exercidas por meio de fé e esperança, de religiões que tudo açambarcam, todas essas promessas podem se constituir em transformação das normas de convivência com o excluído, mas apenas reciclam para posteriores comprometimentos, a matéria-prima excluída, transformando-a em produtos. É o que industrializa a fome e a violência. Não se constituem em estratégias solucionadoras das configurações problemáticas, e também acentuam o “quanto pior, melhor”.

Seres encalhados, sobreviventes decepados por processos sociais e de não aceitação podem constituir poderosos grupos, invasores de idílicas paisagens, que quebram a harmonia e obrigam a criação de novos sistemas de contenção. O que se evidencia a partir do “quanto pior, melhor” são esses grupos homogeneizados, bolsões de destituídos: são os drogados, os ladrões, os matadores. Assim os semelhantes se organizam, surgem identificações e cada vez mais poderosos passam a determinar regras comprometedoras do ir e vir, do viver social, familiar e individualizado. As cadeias estão abertas, não há contenção, está tudo junto e misturado. Sobram grupos organizados para o crime em vários âmbitos.

Em última análise, enxergar o outro - ele já não é mais invisível, ele é ameaça pregnante e constante - é mais uma tentativa de buscar ou querer estar protegido, querer se cuidar, frequentemente nada mais é que estar preso ao medo, à angústia diante do que é perigoso, do amedrontador, do que era antes ilhado e agora assume dimensões continentais.

O pior está estabelecido.


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Thursday, July 27

Manutenção - honestidade e desonestidade

O Julgamento de Salomão, de Giorgione - 1500-1501
Galleria degli Uffizi, Florence



Sempre que se insiste e luta para manter uma situação fica claro o quanto a mesma é aderente, ilegítima e sem veracidade para ser mantida. Lutar para juntar o que já foi separado, o que já se provou indevido, é uma atitude inautêntica e desonesta.

Honesto é o legítimo e legitimidade não exige luta, nem prova. No tempo dos Reis-Juízes, o Rei Salomão deixou um grande exemplo do que é julgar e do que é legítimo ao terminar com uma disputa entre duas mulheres que reivindicavam a mesma criança como filho próprio. Ele chamou as mulheres com a criança e anunciou que contentaria às duas, afirmando que iria dividir a criança ao meio para dar uma parte a cada uma. Nesse momento, uma das mulheres gritou que não, que entregasse a criança inteira para a outra. Salomão, então, disse que essa era a verdadeira mãe e entregou-lhe a criança, pois mãe salva, não mata o próprio filho. A legitimidade da maternidade foi expressa naquele ato de desistência da mulher e o justo foi feito no reconhecimento disso.

As complexidades e funcionalidades da sociedade moderna criam protocolos e parâmetros que frequentemente são usados como maneiras de burlar honestidade e legitimidade. São inúmeros parâmetros reguladores de instituições e relacionamentos sociais que quando manipulados em função de interesses, desejos e ambições pessoais, possibilitam destruição, injustiça, desonestidade e estratégias de manutenção de poder. Forjar provas, comprar depoimentos e votos são maneiras de turvar o que é legítimo. Esse é o cotidiano do mau político, por exemplo, do desonesto, do inautêntico, seja na política, nas famílias ou em qualquer relacionamento.

Situações indefensáveis são rotuladas como merecedoras de escrutínio, de voto como pseudo-manifestação da vontade popular, quando na verdade encobrem a manipulação e o uso dos direitos e salva-guardas populares. Argumentações sobre falta de provas, falta de flagrantes, como alegam certos condenados, são tentativas de dividir direitos, negar verdades e evidências. Afastar e punir quem utiliza e usurpa o que é do outro, o que pertence à coletividade, se torna cada vez mais urgente para que surjam mudanças, desde que a manutenção implica na aceitação do criminoso e desonesto. Só se pode falar em nome do povo, do outro, quando há legitimidade para tal e o legítimo é construído no limpo, verdadeiro e honesto.

Na esfera individual, a vida pautada na manutenção e comprometimentos nos quais tudo é contabilizado para funcionar bem e realizar ambições, não existe autenticidade, desenvolvem-se esquemas, nada pode ser perdido, imperam a desonestidade, o oportunismo e o vazio. É o caos no qual não se identifica mais juízes-reis ou mães legítimas; são as famílias mantidas pelos frágeis elos costurados nas aparências comprometedoras.


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Thursday, July 20

Oportunismo



A habilidade de tampar incapacidades, transformando-as em pseudocapacidades, se constitui no que chamamos de oportunismo.

Não ter condições, não ter conhecimento, não ter dinheiro, não ter mobilidade para realizar propósitos e objetivos, desejos ou necessidades, pode levar o indivíduo a transformar o outro, os recursos alheios, em instrumentos úteis para superar suas próprias incapacidades. Essa apropriação é sempre um oportunismo pois é resultado do uso do outro.

Não ter condições de realizar o que se propõe, ou o que é necessário, implica em admitir essa impossibilidade. Não se deter na impossibilidade e querer superá-la, sem recursos nem condições, estabelece redes de empréstimos, de utilizações que vão desde plágio e roubo até expoliações escusas. Engendrar mentiras, criar máscaras, criar imagens para conseguir expressar o que é necessário à realização de objetivos, é manipular fatos, manipular acontecimentos e realizações em função de objetivos diferentes dos que se expõe e explica. Manipular o outro, contextos e situações, implica sempre em uma atitude onipotente. Essa onipotência é um fator potencializador do que se crê necessário para realização das próprias necessidades.

Fraudar assinaturas, destruir documentos, gerar documentos, inventar histórias, inventar narrativas para justificar dificuldades, desencontros e disparidades, é comum quando se quer resultados, empregos, relacionamentos, absolvição de faltas, mas não se está capacitado, adequado aos mesmos.

Comportamentos oportunistas sempre são enganosos, sempre se constituem em autorreferenciamento que transforma os outros em objeto de satisfação dos próprios desejos ou que os destroem para que os mesmos caibam dentro de seus propósitos.


Thursday, July 13

Constatação




Perceber o que está em volta e constatar a existência de impossibilidades e limites, desanima. Esse desânimo cria questionamentos e restabelece a dinâmica, permitindo aceitação das impossibilidades e limites.

Quando o desânimo não possibilita questionamentos o indivíduo fica entregue às situações que o limitam. Nada é feito, apenas espera que aconteça o estabelecido. Essas vivências são frequentes quando se sabe não ter condições “de virar a mesa”, de “mudar o rumo do barco”.

Constatar a impotência é aniquilante, mas, por outro lado, possibilita a liberdade do não agir, do esperar não esperar. É um antagonismo estruturante, desde que percebido e respeitado. A constatação da impotência e de limites, alivia, permite desviar o rumo, recriar saídas, pois configura mudanças necessárias às manutenções de expectativas falhadas. Constatar é desatar o nó de impossibilidades, tanto quanto entender o enunciado de possibilidades.

Aceitar a perda, o limite (a morte, a doença, o abandono) é constatar situações extremas nas quais o importante é ver o que está sendo visto, é a percepção da percepção, é a constatação, que ao perder universos, ao vê-los sumir, percebe vazios e ausências configuradoras de mudança, talvez liberdade.


Thursday, July 6

Inconsequência




Vivências pontualizadas dos acontecimentos - do que ocorre - são típicas de posicionamentos autorreferenciados. Pessoas que vêem o mundo, o outro e a si mesmas a partir dos próprios e únicos referenciais e critérios, não percebem as malhas relacionais, tampouco as implicações das mesmas.

Reduzir tudo aos próprios desejos, medos e frustrações, tanto quanto acondicionar tudo nas caixas da experiência, aglutina disparidades, instalando caos, confusão e, assim, criando os únicos habitantes possíveis para estas atmosferas: os impulsivos, os inconsequentes, os irresponsáveis e imediatistas. É o “bateu, levou”, o “deixa comigo”, o “resolvo agora” que povoa este universo.

Atitudes inconsequentes são autorreferenciadas e pontualizadas. Existem quase como equivalentes de onipotência. O outro, o mundo causa sempre surpresa, assusta, exige interjeições, gritos, urros. Tudo é extravasado pois nada é refletido, questionado, continuado. Sem questionamento não há percepção das implicações, tudo é interjeição, quando muito, adjetivos para povoar o vazio que agora, desse modo, continua o não substantivado.

No autorreferenciamento o indivíduo é platéia de si mesmo. É também o filtro e o crivo a partir do qual tudo é percebido, pensado, dialogado, de tal maneira que é configurado como único existente no mundo, e portanto se imagina um contexto a partir do qual tudo ocorre, tudo acontece.

A continuidade de vivências inconsequentes possibilita interrupção dos confrontos criadores de questionamentos e aberturas, e também a interrupção de maior enfrentamento de suas posturas redutoras. Enquistado, enrolado em si mesmo, o nível de inconsequência aumenta, pois impermeabilizações arbitrárias foram atingidas. A depressão, a ansiedade passam a ser os dinamizantes. É um movimento grave, pois, devido ao exíguo espaço ocupado pelos posicionamentos, as áreas dinamizadoras implodem. Dragas são necessárias a fim de sobreviver. Estes artifícios para sobrevivência, também imediatistas, eternizam as descontinuidades, fragmentam e posicionam. Um dos exemplos disso é a insônia provocada pela ansiedade, pela depressão. Para essas pessoas, conseguir dormir é o grande objetivo e impõe ações imediatas. Tranquilizantes e soníferos são ingeridos, e então, dormindo ou sem dormir, o imediatismo é entronizado, tudo girando em função de objetivos e necessidades a aplacar e realizar.


Thursday, June 29

“Não posso, mas consigo”




Constatar uma impossibilidade e desconsiderá-la em função de um resultado que se crê necessário, frequentemente gera esforço, mentiras, desesperos, maldades, frustração e decepção.  

“Não posso, mas consigo” não gera conflito, embora, por definição, seja uma situação paradoxal, consequentemente, conflitante. A neutralização da incapacidade é o primeiro passo que se dá para manter o propósito e o empenho de conseguir. É também o que faz desaparecer a possibilidade de conflito.

Negar o existente implica em criar outra aparência. A falta de condição, o não poder ser desconsiderado ou subestimado diante do empenho para conseguir, leva a inventar capacidades. Como se faz isso? Copiando, plagiando, utilizando os outros para realizar o que não se tem condições, o que não se pode, mas se objetiva conseguir.

Na contemporaneidade, a tecnologia é utilizada para realização desses milagres pretendidos e buscados pela impotência ou incapacidade: desde as sexagenárias realizando o sonho de ter filhos, de serem mães “agora que podem cuidar dos rebentos” por exemplo, até os ajudantes, as barrigas de aluguel, pagas para realizar os desejos maternais.

Constatar uma incapacidade, quando possível, deve e pode ensejar superação da mesma, entretanto, constatar uma incapacidade, negá-la e independente da mesma, realizar objetivos pretendidos, é alienador, neurotizante, pois obriga o indivíduo a viver em função do que aparenta, do que instrumentaliza, dos enganos e mentiras construídos.

Superação é dignificante, mentira é aliciadora.


Thursday, June 22

Dúvidas e medos - como são reconfigurados



Estar sempre em dúvida faz com que se busque referenciais que funcionem como pontos de apoio, pontos de segurança. É examente aí que são criados os sistemas e métodos de avaliação.

Avaliar faz estacionar o desequilíbrio. Não se cai mais para um ou outro lado, cessam as dúvidas e, consequentemente, os medos decorrentes de cogitações. Consegue-se um ponto de equilíbrio que mais tarde se transforma no posicionamento autorreferenciado, responsável pela informação do que vai ser bom, do que vai ser ruim, do que vale à pena ou não. O que está à volta existe em função dos critérios avaliadores. Engloba-se o circundante e assim se cria capacidade, potência, eficácia, tanto quanto se constata as fragilidades e ineficiências.

A partir desse ponto, as vivências de dúvida são engessadas pela propriedade da eficácia, pelos resultados que trazem boas novas, boas colheitas assegurando paz e bem-estar. Não há medo, tudo está regularizado, funcionando, tanto quanto as desconfianças foram abrigadas. O inesperado que pode ocorrer é um fantasma que volta e meia requer cuidados, supõe espreitas. Ser cauteloso, não abusar da sorte, desconfiar do existente, estabiliza, permite controles, checagens.

Novas sofisticações, novos patamares surgem nos sistemas de avaliação. Cuidar do em volta garante certeza, exila dúvidas e traz sossego. Não há mais medo, só o de - de repente - morrer e tudo perder. Essa vivência de inevitabilidade provoca desespero, gera dúvidas, cria medos, agora decorrentes de certezas. As situações foram tão deslocadas que atingiram um ponto de não deslocamento. Esse bater contra o muro encontra o inevitável: a morte. É uma certeza responsável por gerar medo. O medo de morrer, de acabar, substitui todas as dúvidas, não há mais o que verificar, o que avaliar: já se sabe o desfecho final do processo. Não aceitar isso cria novas mágicas, tentativas de negar limites e realidade. A questão agora é o final intrínseco ao processo vital: adiar a morte. Nesse momento as verificações e avaliações de saúde, de saudabilidade, de controle da morbosidade passam a ser constantes.

As dúvidas e medos, como atitudes básicas em relação ao mundo, ao outro e a si mesmo, foram transformadas em certezas criadoras do extenso painel, do arsenal de verificação, de avaliação do que permite enfrentar doenças, fracassos, abandonos e morte.

… e assim, acorrentado ao que segura, o indivíduo realiza sua trajetória de camuflar dificuldades e realidades.

Apenas quando percebe que é de sua condição humana o limite e a finitude é que surge a libertação. Acabam dúvidas, medos, avaliações, certezas, verificações. Acaba o aprisionamento, já não se precisa de portas e janelas. O caminho, a saída está aos e sob os próprios pés. 


Thursday, June 15

Concentração de frustrações




Toda submissão é estruturada pelo medo, pela omissão. As extensões desse processo tonalizam incapacidades representadas por inveja, por exemplo. Desejar ser o outro, ou ter o que o outro tem, é, para o submisso, uma carga excessiva. Pontualizado pela sua submissão, tendo sido, ao longo da vida, reduzido a posicionamentos expectantes e autorreferenciados, qualquer situação além dele próprio é extenuante. Neste sentido é fácil entender como a inveja é vivenciada como aquilo que mata. Não ter conseguido o que o outro conseguiu estabelece uma concentração de frustrações e decepções que são disfarçadas e engolidas. Ser o outro, invejá-lo é uma maneira de ressuscitar, e esse nascer de novo é redentor. Todas as vivências e desejos de transformação ilustram esse drenar da não aceitação. Invejar é desejar ser o que não se é. Paradoxo e impasse absolutos. Como ser quando não se é? Exatamente aí, nesse pântano, cresce a inveja. Este alguma coisa, já não é o diferente, é alguma coisa, é o ser algo, ser alguém. Os desejos estruturantes da inveja, quando não realizados, são matéria-prima para a vingança. Trolagem, hoje em dia nas redes sociais, é um exemplo desse processo. Destruir o que não se conseguiu, vingar-se, é uma forma de afirmação, de realização. Sacrifícios sobre-humanos, provocar a própria morte, é, às vezes, uma maneira de se vingar, de cobrar tudo que lhe foi negado, de tentar recuperar o que foi tomado, o suposto merecido que não lhe foi dado.


Thursday, June 8

Cracolândia em São Paulo - Solução problemática




Um dos exemplos de solução problemática, consequentemente, pseudo-solução, foi o que assistimos estarrecidos, esperançosos e ameaçados, em São Paulo, na chamada cracolândia. A Prefeitura de São Paulo resolveu urbanizar áreas ocupadas por usuários de crack e ao fazer isso achava que estava também resolvendo e ajudando esses usuários, compulsoriamente levando-os à internação, obrigando-os a tratamento.

Em menos de 24 horas os craqueiros foram removidos da cracolândia original e, menos de 24 horas depois, passaram a ocupar outros locais próximos. A insurgência, a volta do sintoma foi perturbadora, deixou claro que foram desconsideradas resoluções anteriores estabelecidas com entidades médicas (psiquiátricas), sociais, antropológicas, psicológicas, que vinham sendo responsáveis por mediação, com o objetivo de conseguir estabelecer diálogo e consequente mudança.

O surgimento de impasses leva a conveniências e inconveniências, à necessidade de apreender implicações e a pontos de convergência. Afinal, no impasse, sob que ponto de vista, que contexto, as questões serão enfocadas? Considerar as necessidades da sociedade e a elas subordinar as do indivíduo, é lesivo, tanto quanto, pela exarcebada prioridade da liberdade individual, negar a ameaça e destruição dos outros é demagógico e perigoso. Esse tipo de contradição reside na velha questão, no velho dilema entre indivíduo e sociedade. Sempre que as situações ficam assim polarizadas é fundamental, e muito significativa, a mediação, o terceiro tema, o outro ponto a partir do qual as contradições são recontextualizadas.

Pensar na sociedade, nas áreas urbanas, na ordem, harmonia, paz e tranquilidade social, deixando os craqueiros em segundo plano, é transformar o outro polo - o indivíduo, o craqueiro - em objeto, resíduo que deve ser descartado, ainda que sob a forma de envio para tratamento médico. Na mesma linha de polarização, considerar fundamental e prioritário, o que deve ser feito para extinguir a dor e desespero do craqueiro, é reduzir a ação a níveis utópicos - sem condição de realização - é não pensar que ele, o craqueiro, já está em um ponto de chegada, não está em um ponto de partida.

Nem tudo é Fla x Flu, tampouco é nítido o preto e o branco, assim como as diluições em cinza não esclarecem. Mas o problema é que é preciso retirar os craqueiros, é preciso transformar a área em local seguro e para isso é necessário perder os pontos de vista particulares: o social e o individual.

Para resolver o problema, é preciso perceber que não existe confronto e que existe integração: craqueiros, cracolândia, vizinhança, área urbana, tudo está junto e integrado. Soluções podem ser atingidas caso se perceba usuários de crack e moradores na vizinhança da cracolândia como fazendo parte da mesma paisagem, sem exclusões geradas por funcionabilidades e outras ordens, como as econômicas, por exemplo. Validar a zona de convivência é sempre a melhor solução desde que não temos o direito de escolher com quem vamos coabitar na Terra. Essa é uma sábia lição dada por Hannah Arendt quando falava dos campos de extermínio, quando falava da rejeição ao outro, ao diferente seja na etnia, na religião, nas trajetórias que deixam marcas de pobreza ou, como no que tratamos aqui, os desesperados, os drogados e sem autonomia: os craqueiros. Arendt deixa claro que na vida social e política, a diversidade da população é uma condição irreversível, não escolhemos com quem coabitamos na Terra, essa coabitação antecede qualquer acordo político ou vontade deliberada de separação ou extermínio. A coabitação antecede qualquer comunidade. Naturalmente podemos escolher com quem viver, mas não com quem coabitar na Terra.

A sociedade é plenamente apta e diversa. Esse é o primeiro ponto que não deve ser esquecido. Dentro desse referencial e contexto as soluções devem ser buscadas. Se não são buscadas na diversidade, elas não resolvem problemas, apenas os escurecem com muros, paredes, campos demarcados para sobrevivência e minimização de sofrimento ou mesmo com a morte (a própria cracolândia, hospitais, hospícios, prisões).

Já é tempo de, enquanto soluções sociais, soluções macro, não cairmos em dicotomias, não buscarmos juntar elementos e ver se no final a solução aparece. O processo de mudança é longo, não se resolverá na erradicação, tampouco na convivência, mas pode começar a criar novos horizontes, novas tonalidades e diferenciações que permitam realmente resolver, e que essas soluções não gerem novos problemas. Isso não é difícil, mas é preciso dedicar-se aos problemas, ao invés de dedicar-se a escamoteá-los, escondê-los ou até mesmo utilizá-los, transformando-os em justificativa para manutenção das dificuldades e realização de outros interesses.

É sempre bom lembrar que o quantitativo nada define enquanto configuração relacional; não existe pequeno ou grande mal, existe o mal. Aos argumentos que justificam arbitrariedades políticas ou opiniões populares como “dos males, o menor” (é melhor a repressão e a força do que a morte no vício, por exemplo), contrapomos novamente uma frase de Hannah Arendt: “politicamente, a fraqueza do argumento sempre foi que aqueles que escolhem o mal menor esquecem muito rapidamente que escolhem o mal”.

Se quisermos pensar do ponto de vista do comportamento de evasão de dores e fracassos - que caracteriza o vício - sugiro a leitura de um texto meu publicado na Wall Street International Magazine em 4 de abril de 2015: Fuga - Evasão de dores e fracassos e também, na mesma Revista, o artigo Convivência - Medo e Preconceito, de 4 de julho de 2016.


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Thursday, June 1

Bolhas de sabão





Bolhas de sabão são quimeras, mentiras e fantasias estruturadas pela frustração, pela não realização do que se deseja. Esse mecanismo de escape - esse deslocamento - caracteriza o sonhador, isto é, o desesperado, o indivíduo que, ao não enfrentar os próprios problemas e limites, inventa mentiras, fantasias, narrativas, delírios.

Mentiras, fantasias e delírios são aspectos do mesmo problema: a não aceitação de si, do mundo e do outro. Acontece que as coisas são ou não são; existem ou não existem. Percebe-se ou não.

Inventar histórias, negar ocorrências, imaginar-se morador de um palácio quando se vive abrigado por uma ponte, é desorganizador pois sonega a realidade, único ingrediente capaz de realizar mudança. Lidar com o que se tem é estruturante, é denso, factível, permite recuperação. Lidar com o que não se tem, esvazia, não leva a nada, não ocupa, não significa.

A verdade é como a túnica de Cristo: inconsútil, inteira, sem costuras; é o que é. A mentira é o remendo, o costurado. Em outras palavras, verdade é continuidade, mentira é descontinuidade. A continuidade permite mudança e realização. A descontinuidade, nada permite, apenas envolve, enrola, dispersa, faz perder referenciais e referências.

Ser verdadeiro é ser inteiro, concreto e isso é diferente de fingir, manter aparência como bolha de sabão, que ao ser tocada estoura, desaparece. Os fragmentos invadem, criam desesperos e desempenhos, podem até constituir-se em obstáculos diferenciais, mas não permitem mudança e transformação.

A esperança, a expectativa de soluções futuras, é como a criação de bolhas de sabão diante do descontínuo, do instável. Ela nada vale, pois amortece a tenacidade, a resistência e a luta. Viver é enfrentar, não é a espera e busca de bolhas de sabão.


Thursday, May 25

A ignorância é um sistema




Podemos pensar em ignorância e em ignorante como sinônimos de não conhecimento e daquele que não conhece. Nesse sentido, ignorância, ignorar significa não perceber.

Frequentemente, a palavra ignorante é usada para quem não foi ensinado, não aprendeu, daí o ignorante ser também sinônimo de estúpido e grosseiro. Quando a questão é assim colocada, é clara a necessidade de ensino, de escola, de educação para mudar, neutralizar e transformar o estado de ignorância e os seus detentores: os ignorantes.

A situação não é tão simples, envolve outras dimensões, envolve várias camadas que configuram uma rede, um sistema a partir do qual são estruturados e mantidos os ignorantes e a ignorância. Perceber o que ocorre enquanto evidência, implica em estar diante de. Nem sempre esta dimensão presente é mantida, é vivenciada enquanto presente. A vivência do presente enquanto tal, supõe o presente (Figura) estruturado no presente (Fundo). Se há alteração, se o presente é vivenciado em outros contextos - experiências anteriores (passado) ou expectativas (futuro) -, as distorções, a não percepção do que ocorre enquanto está ocorrendo, se instala. Assim, o percebido não é o que está diante do indivíduo enquanto situação dada, que está acontecendo; a situação é filtrada por outros referenciais. São os preconceitos, as informações prévias, as avaliações do que deve, ou não, ser considerado. Isso cria zonas de sombras, formas obscurecidas que impedem conhecimento do que está se evidenciando. Deste modo, o que se percebe, o que se conhece é o que se pode ou está habituado a perceber, a conhecer, enfim, a percepção, o conhecimento, é automatizado em função dos referenciais que o estruturam. Não se conhece, não se percebe o que ocorre; a zona de desconhecimento é total, a ignorância impera, é sistêmica.

Escola, ensino, campanhas para superar medos, fobias e preconceitos, pouco significam enquanto mudança do processo comportamental e perceptivo, pois só atingem indivíduos quando criam outras convergências responsáveis por novos entendimentos, novas percepções. Ao serem atingidos por essas convergências que significam novas maneiras de perceber, de conhecer, os indivíduos mudam o entendimento, mudam a percepção, mas isso é feito em contextos de não disponibilidade. São esses comprometimentos que, apesar de propiciar aparente erradicação do não conhecimento ou da ignorância, mais a mantém, pois ela continua a ser o ponto de convergência das cogitações. Preconceitos, zonas sombrias, não são superados por gambiarras artificiais. As iluminações têm que ser propiciadas pela retirada dos anteparos que as estrangulam e obscurecem.

Saber que é ilegal exercer determinado comportamento não é suficiente para transformar o referido comportamento; é necessário que outra motivação surja, e, para tanto, a convivência, a disponibilidade, o perceber o outro, o mundo e a si mesmo de forma nova é esclarecedor e definidor de mudança, de erradicação da ignorância. É preciso outra situação para iniciar a antítese ao sistema da ignorância. Não basta ensinar, tampouco aprender, é necessário perceber as configurações completas, totais, do que é dado, do que está ocorrendo. Cogitações, posições, interesses criam confluência alienadora, egoísta, que não permite perceber o que se dá, enquanto dado, mas sim, como configuração relacional em função dos próprios interesses e motivações.

Questionamento constante traz clareza. Essa luz, esse esclarecimento é o que vai iluminar, abranger, permitir a destituição, a desconstrução dos pontos responsáveis pelo não conhecimento, pela não percepção, pela ignorância do dado.

Os Vedas - escrituras hindus associadas à filosofia e à religião - falam em viveka, isto é, a distinção de dados, a retirada de aderências, de aparências conotativas e até mesmo denotativas, que embaralham o conhecimento. A referência védica é ao conhecimento superior, divino, mas, o interessante nos Vedas é a admissão de aderências, de anexos que só fazem ensombrecer o encontro com a divindade. Pouco significa a fé, o esforço na penitência ou sacrifício; o fundamental é o discernimento - viveka.

Como discernir em entremeados pântanos, mangues de aposições e sobreposições? Como perceber o completo, a totalidade, em meio a misturas e incompletudes? Detendo-se no que se dá, no que se vê, percebendo, e, assim, questionando as zonas de sombras criadas por autorreferenciamento, desejos, torcidas e empenhos.

A ignorância é um sistema que subverte os sistemas responsáveis por lucidez e clareza acerca dos processos. Para o ignorante as percepções são significadas em função da densidade do que ocorre, ou seja, em função de suas necessidades básicas. Tudo que é relacional, sutil, que implica em configuração, é transformado em cenário apenas percebido em função de narrativas, de outras histórias, outras configurações diversas do que está ocorrendo. Quando esclarecimento e ignorância convivem juntos no mesmo indivíduo é possível, pelo questionamento, pela antítese, atingir síntese, mudança; entretanto, na maioria das vezes a ignorância reina sozinha, ou ocupa, se pudéssemos quantificar, 80% a 90% das percepções e motivações individuais, daí estar em amplo processo de proliferação, nada a detém, pois não há antítese.

Indivíduos ignorantes, tomados pela ignorância, pelo conhecimento do denso, do necessário, não percebem implicações. O imediatismo, o medo organiza suas demandas e vivências. Em situações de crise, no caos, falta lucidez, falta conhecimento, resta ignorância, restam ignorantes que tudo fazem para se desvencilhar do novo, frequentemente o vivenciado como enigma e ameaça.

A ignorância é um sistema que só pode ser desmantelado quando existe questionamento. Esse questionamento é atingido pela ampliação dos horizontes perceptivos, por meio de suas implicações. Quando se percebe que nada permanece onde está, que o movimento é constante, que tudo flui, que tudo é um processo - dinâmica inexorável - começam a surgir novas percepções, novas atitudes, mudanças. Mudar paradigmas, questionar regras, ampliar os espaços do estar, do conviver, traz luz, novas dimensões e direções. Surgem arestas que podem ser configuradas. Imbricações desmanteladas e aderências, apêndices antes visualizados como estruturas fundamentais, são abandonados, transformados.

Pela ignorância são mantidos todos os sistemas alienantes do humano, pois neles residem os alimentadores da submissão, neles também está o ópio que enfraquece o entendimento, neles se esconde o que se supõe abrigar e defender mitos necessários para manutenção dos mesmos, as vezes significados como regras familiares e sociais.

O sistema da ignorância é mudado pela lucidez, liberdade e percepções que ampliam horizontes, neutralizando posicionamentos dogmáticos e preconceituosos.



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Thursday, May 18

Vazio e ambição




Preocupados em atingir, em conseguir o que não têm, os indivíduos que não aceitam seus limites, suas histórias e vivências, disparam para realizar objetivos e desejos, disparam para realizar metas. Viver em expectativa é viver no depois, no futuro; é não viver no presente, é reduzí-lo a pequenos pontos onde os pés tocam. Perder espaço é perder o tempo. A não vivência do presente, estando o mesmo pontualizado nos apoios sobreviventes, deixa o indivíduo exaurido pela ansiedade. Nessas condições é preciso ter sempre alguma coisa para lutar, para conseguir ou para esperar. A ansiedade tem que ser alimentada. Sem a luta e a espera, o vazio se instala, surgindo, assim, o medo de morrer, de não conseguir chegar onde tem que chegar, medo de perder “o trem da história”, o “cavalo selado” da boa oportunidade. Pessoas vazias são ansiosas, medrosas e se mantêm pelo faz de conta. A mentira estabelece perfis, performances nas quais tudo fica resolvido. A incapacidade, a variação de atitude, o ir e voltar atrás no que faz e diz, constitui seu dia a dia. Pôr os pés no chão, aceitar limite e dificuldade é a única maneira de transformar a pontualização em continuidade, é o não queimar de etapas, é o entender que não é ao pular que se atinge cumes, mas sim, vivenciando pari passu os processos diários de enfrentar dificuldades e limites.


Thursday, May 11

Prudência




Infelizmente, a prudência, um dos bons aspectos configuradores de autonomia, ou seja, a percepção de limites, dificuldades, flexibilidade e rigidez, pode ser transformada em medo, em desconfiança. Muitos indivíduos se sentem prudentes por amealhar (dinheiro, poder), por esconder recursos, por despistar, esconder do outro, que é sempre visto como diferente, como estranho. Ser prudente é ser autônomo, é ser capaz de perceber limites, não os negar para que possa aceitá-los ou transformá-los. Nos indivíduos autorreferenciados, a vivência de suas não aceitações e conflitos - gerados por compromissos e projetos frustrados - transforma a prudência em ferramenta de verificação, utilidade e sucesso. Prudência passa a ser entendida como cuidado, como desconfiança, como não ter disponibilidade, espontaneidade, como estar sempre com o “pé atrás” para ter recursos e não cair em armadilhas. Prudente, então, não é mais o que constata e se relaciona com limites, prudente é o que antecipa, se resguardando, se cuidando, evitando encontros, evitando o novo. Esta maneira de perceber os outros e a si mesmo, este autorreferenciamento, transforma a prudência em medo - omissão - criador de isolamento, de solidão. O exercício constante deste isolamento faz com que as expectativas invadam o cotidiano. Sem participação surge ansiedade e consequentemente a depressão: são constantes o vazio e a solidão.


Thursday, May 4

Aprisionamentos doentios




Diante de muitas vicissitudes, doenças constantes e inúmeras, por exemplo, o ser humano se sente incapaz, prejudicado, doente, sozinho. Permanecesse neste sentimento, questionasse este momento, muito seria transformado. Acontece que quando se chega neste estado, geralmente ocorre não aceitação do mesmo. Começam a surgir deslocamentos, caracterizados principalmente pelo medo, pela carência, pela necessidade de ser aceito e cuidado pelos outros mais próximos, como familiares e amigos. Exigir cuidados constantes para justificar as próprias doenças, mazelas e impedimentos cria um contínuo estado de vitimização. Não pode haver melhora neste processo aguilhoante. Mais cuidados, mais amargura, mais desespero. Compreender que a realidade da doença aí está, que a mesma tem que ser suportada e que existem outras coisas saudáveis e válidas, é uma verdade. Esta reação é bem-vinda, causa tranquilidade, mas para ser mantida exige um mínimo de aceitação das situações limitadoras. Exatamente aí recomeçam as queixas, a vitimização, pois a não aceitação, de limites, de estar sozinho, de não ter alguém que cuide, é ameaçadora, e assim, neste contexto costumam pensar: foi tão fácil se sentir bem apesar de doente, que não deve ser difícil conseguir ficar bem novamente. É um novo dilema que surge, ancorado na velha questão da falta de autonomia, da não aceitação do limite. As novas justificativas agora são vivenciadas sobre outra base: o controle do que limita precisa ser aceito e não pode magicamente desaparecer, isto é, a doença existe, tanto quando a vida que deverá ser exercida de forma autônoma ao lidar com a doença, mas a pessoa teme falhar, ser abandonada, morrer. Começar a vivenciar os limites que a situam é exatamente tudo o que ela não quis ao abrir mão da própria autonomia.


Thursday, April 27

Persistência e padrão

Seres humanos não são máquinas, mas na maior parte do seu dia vivem como se fossem. É uma realidade massacrante suportar esta desvitalização, este massacre do humano. É preciso considerar alguns aspectos que minimizam, que desconfiguram esta mecanização.

Estando no mundo, somos organismos, realizamos funções e estamos conectados a inúmeros sistemas que nos caracterizam ao nos descaracterizar como individualidades. Do oxigênio aos pés no chão, a lei da gravidade, estamos realizando nossa trajetória humana. Sem esta repetição, sem esta frequência, sem estes mecanismos respiratórios, deambulatórios, estaríamos inertes, imobilizados. Em certo sentido é mecânico sobreviver, subsistir, manter a nossa humanidade. Precisamos realizar as funções mecânicas, automáticas, medulares para realizar o cortical, o relacional, o perceber o outro. A persistência deste processo libera individualidade ou a sobrecarrega. Tudo vai depender de como nos relacionamos com os padrões (ambientais, cerebrais, orgânicos, sociais). Dos aspectos climáticos aos indicadores de liberdade social e política, estamos padronizados. A questão é como compreender, como lidar com estes padrões. Exercer submissão? Realizar questionamentos? Nadar, surfar ou sermos afogados pelas vagas e vogas estabelecidas como regras e padrões?

É a resposta individual, a liberdade de dizer sim, de dizer não que vai caracterizar persistências ou mudanças. Persistência pode ser um caminho para mudar, tanto quanto é uma maneira de se adequar, adaptar, submeter-se ao que despersonaliza.

Padrão deve ser seguido, não tendo padrão deve-se criá-lo, mas, é preciso interagir, tanto quanto modificar o existente para não cair no abraço cego do apoio, do grupo, da chefia.

Todo processo de persistência exige autonomia ou abandono. Por autonomia se persiste nos movimentos de revolta, de dizer não às ordens constituídas que engolem individualidades, tanto quanto a governos ditatoriais ou familiares autoritários. Também por falta de autonomia, por abandono da própria individualidade, das próprias motivações, se persiste sendo a mãe escrava do filho drogado, a mulher espancada semanalmente para garantir a ordem familiar constituída ou ainda a filha abusada que persiste em salvar, manter o bom nome do pai, da família.

A persistência quando vira um padrão, é transformada em peça de engrenagem mantedora de compromissos alienantes, tanto quanto ao ser exercida como atitude crítica, como diferencial questionador de padrão, é uma antítese aos mesmos, é a possibilidade de mudar, é a certeza que transforma o ambíguo, que esclarece e permite mudar.

Como diz o ditado: “água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”, é a repetição que desdobra, cria novos horizontes, muda. Persistir é também começar a cegar, esquecer, embaralhar, pois se vive no automatismo na repetição, de padrões que alienam.

Distinguir o que padroniza do que aniquila, o que mantém do que permite mudar é fundamental para não virar máquina de produzir humanidade, beleza, amor, fé esperança, desumanidade, feiúra, desamor, desesperança. Existe muito que se pode açambarcar do padronizado quando se conhece seus processos, seus limites: macieiras jamais vão gerar laranjas e vice-versa.

O padrão humaniza, o padrão desumaniza tudo vai depender de como ele é utilizado, manipulado. Persistência é saudabilidade tanto quanto é prejudicial, tudo vai depender do seu fulcro, do que constitui sua sustentabilidade.


Thursday, April 20

Encaixes

Para certas pessoas, para certos indivíduos, a única coisa a ser feita é encaixar-se, adaptar-se, adequar-se ao que vier. A redução à sobrevivência, às necessidades básicas, é a atitude que caracteriza estas pessoas. Como se consegue esta redução das dimensões psicológicas, das dimensões relacionais, aos aspectos puramente orgânicos da sobrevivência? Ter passado fome, ter passado dificuldades, ser uma pessoa desconsiderada, tratada frequentemente como escória, nada significando, faz buscar um alento, o alimento, o afago - mesmo que humilhante - é a única saída vislumbrada. Vidas adequadas são vidas encaixadas. Este transformar-se em peça da engrenagem, validade compromissada e apta para alívio, “felicidade líquida” (como conceitua Zygmunt Bauman), identifica consumidores e consumidos. Neste contexto, viver é adequar-se ao que parece dar bom resultado e evitar o que pode causar distúrbio ou massacrar sonhos. Mulheres que apanham (para que a família continue mantida); seres que se prostituem para saciar fome, realizar desafios, atingir quem sabe - como às vezes pensam - o poder, através de “alguém que os tire da lama”, é um desejo constante encontrado nestas vidas despersonalizadas, submissas. Tudo é suportado, contornado, aproveitado para que os encaixes se realizem. E assim, os processos de sobrevivência geram muita ansiedade, muito medo - omissão -, desde que não existe um mínimo de autonomia.


Thursday, April 13

Fácil e difícil

Fácil e difícil são critérios extrínsecos ao que acontece. Nada é fácil, nada é difícil enquanto situação que acontece. Só existe critério de facilidade ou de dificuldade quando mediações avaliadoras são exercidas. Medir, configurar, avaliar situações enquanto facilidade ou dificuldade varia de indivíduo para indivíduo, de época para época. Exemplo bem contemporâneo: nada mais fácil do que fazer refeições fora de casa, menos de cem anos atrás esta era uma situação cheia de dificuldades. Se considerarmos as necessidades fisiológicas, que por definição são sempre fáceis ou difíceis à depender da higidez orgânica, podemos começar a perceber a facilidade/dificuldade desta questão, enfim, começamos a perceber que o problema não se esgota em si mesmo, exige sempre interfaces configuradoras.

Viver, sobreviver, ser feliz, ser disponível é o que há de mais fácil, tanto quanto de mais difícil. Educar-se, educar filhos, viver em sociedade, participar de grupos, conhecer assuntos e explicá-los é muito fácil, é muito difícil.

Facilidade e dificuldade, ao longo do tempo, vão criando sinônimos capazes de melhor entendê-los. Fácil é o flexível, o que se mostra. Difícil ancora em densidade, rigidez, concretude, daí para fácil ser o que passa e difícil o que fica - um passo.

Em educação, crianças que aprendem rápido criam desconfiança, parece que vão esquecer tudo, parece que não se esforçam. Neste contexto, suar, concentrar - esforço - é o que dignifica, o que permite resolver dificuldades. Lutamos pelas facilidades, mas como somos presa de a priori e preconceitos, cada vez mais valorizamos o difícil embora apreciemos o fácil. Cria-se cisão, se estabelece novos parâmetros e critérios de valor, ao ponto de esgotar a disponibilidade. Bastaria lembrar que fácil e difícil existem como conjunto de valores, que não são inerentes a nada existente, enfim, é muito fácil viver, é muito fácil morrer, tanto quanto é extremamente difícil realizar estes processos dada a infinita configuração de variáveis que os possibilitam.

Fácil é o que se apreende e integra, difícil é o que não se apreende nem é integrado. Apreensão, facilidade resultam de dedicação, de presença; dificuldade e complexidade são estabelecidas por distância, alheamento, estranheza.