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Showing posts from 2012

Embaraço

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Alguns reencontros parecem revelar vivências tanto de estranheza, quanto de familiaridade. 
Reencontrar o íntimo e familiar em novos contextos, causa embaraço. Existe reconhecimento, encontro, porém isto se dá em situações outras que não as do estruturante relacional anteriormente vivenciado. Equivale a um pentimento. Debaixo daquela pintura existe outra; na realidade, a anterior se insinua tão forte que embaralha, embaraça. O grande limite, o insinuado é um novo que só existe enquanto marcação anterior. Esta confusão requer renúncia, seja do que ocorre, seja do que ocorreu. O passado está problematizado, está encoberto e assim o presente é esvaído nas tessituras relacionais. Equivale ao choc au vide agora traduzido pelo choque ao ocupado.
Estas vivências são frequentes no reencontro após descobertas: filhos que encontram seus pais depois de muitos anos, novas famílias; ocorre também nos reencontros de laços afetivos, tanto quanto nos reconhecimentos em situações limites.
É a perda-encon…
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Despropósito

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Muitas vezes o despropósito é confundido com falta de motivação, virando quase sinônimo de depressão.
Não estar contextualizado, sentir-se desintegrado e sem referencial específico, provoca a vivência de despropósito. 
Sentir-se gauche na vida, fora de foco, à margem, só acontece quando se está autorreferenciado. Por sua vez, o autorreferenciamento cria outras variáveis: de diferente e excêntrico passa a ser destoante, inapropriado, substituindo a vivência de despropósito por vivência de inadequação, desajuste, rejeição.
Despropósito, em alguns casos, origina-se de uma vivência de tédio, de distanciamento, pressupõe sempre uma crítica, um questionamento ao dado, ao posto, ao existente, mas também configura deslocamento de conflitos e não aceitações, anseios frustrados e problemas adiados.
Participações políticas, celebrações familiares, por exemplo, suportadas, negociadas, mantidas, precisam atingir a dimensão de despropósito para que se realize a crítica e questionamento das postura…

"Cara eu ganho, coroa você perde"

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Matthew Hopkins, era na Inglaterra do século XVII um caçador de bruxas. Dedicado a seu trabalho, desenvolveu um teste para detectar bruxas. Colocava um peso à mulher acusada - com pedras amarradas nela ou à cadeira na qual estava sentada - e jogava-a dentro de um rio ou lago. Se ela flutuasse, significava que era bruxa e merecia a fogueira; se afundasse e morresse afogada era por ser inocente.
A necessidade de provas, os testes, por definição improváveis, impossíveis, povoam nossa sociedade, nossa vida, transformam nossos relacionamentos.
Thomas Szasz, recentemente falecido, era um grande psiquiatra que lutava pela humanização do tratamento psiquiátrico, ele dizia: se der cara os rotuladores ganham, se der coroa os rotulados perdem. Em seu livro "Esquizofrenia, o símbolo sagrado da psiquiatria", lemos: "O sujeito, o chamado 'paciente esquizofrênico', não tem o direito de rejeitar o diagnóstico, o processo de ser diagnosticado ou o tratamento ostensivamente just…

Aparência

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Aparentar gera sempre impossibilidades mesmo quando cria facilidades.
Posições conquistadas, portas abertas, tarefas realizadas graças ao que se aparentou ser, saber ou ter, inicia um acúmulo de disfarces que também é simultaneamente o acúmulo de impossibilidades. Nas situações de ações decisivas, falta coragem e solidariedade, sobra engano e concessão. Na época em que passou a viver escondido devido a uma sentença de morte dada pelo Aiatolá Khomeini - governante iraniano - Salman Rushdie escreveu que muitas pessoas que o conheciam cediam ao medo e diziam que era respeito à autoridade, embora discordassem do absurdo de condenar à morte um autor pelo que escreveu.
Existem pais e mães, aparentemente extremados cuidadores de seus filhos, que escondem suas impossibilidades de doação, entrega e amor, neste cuidado que vitimiza e aliena. Aparentar amor é um engano geralmente mais tarde substituído por enganosos prazeres: droga, caridade alienante, militâncias sacrificadas, abnegações despr…

Corda bamba

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Toda avaliação do que se tem ou do que se pode conseguir gera insegurança, ansiedade, pessimismo ou otimismo a depender das estruturas relacionais.
Esperança e expectativa se referem a um tempo futuro, um tempo não existente. Voltar-se para  além do presente dilui os referenciais das vivências cotidianas, das vivências presentificadas. Esta diluição de vivências torna difícil sustentar anseios e desejos. Sem a vivência presentificada não existe base para sustentar o desejado.
Como transformar o sutil em denso? A fome de sucesso em fotos publicadas, por exemplo? A ambição em expressiva conta bancária? Através de agrupamento, que aumenta, adensa o tenuamente delineado, a meta. Munir-se de credenciais institucionais, adquirir respaldo familiar, empoderar-se para ter sucesso e vitória, permite resultados satisfatórios tanto quanto diluição e circunstancialização da individualidade.
Passar no concurso depois de 10 anos de luta, ter a melhor posição dentro da empresa ao destruir todos o…

Firmeza

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Atitudes estáveis implicam na realização de vontades. As motivações, as vontades são sempre resultantes do que se vivencia, do que se faz. Não têm ligação com faltas, necessidades ou desejos. Esta base, que é o presente vivenciado continuamente, gera firmeza, força e capacidade de realizar todas as vontades, tudo que é proposto pelo cotidiano; assim, firmeza é tão natural quanto querer andar e andar, querer dormir e dormir.
"Desejo é o que nos falta, vontade não é o que nos sobra, mas é o que nos liberta se enfrentarmos, se vivenciarmos o dia-a-dia das contradições. Pela vontade, pela superação de contradições, pela transcendência, os limites da existência são superados, transformados ou integrados. Em psicoterapia procuramos recontextualizar os neutralizadores, os amortecedores das contradições, por meio de questionamentos, para que surja a vontade, a liberdade de mudar, a aceitação de si e dos outros."*
Angustia, depressão, ansiedade não existem quando se vivencia o presen…

Compatibilidade

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Pensar em compatibilidade como acordo, acerto, leva a relacioná-la com encaixe. Negociações e acordos sempre possibilitam discórdias, consequência natural de seus mosaicos organizados, suas arestas polidas. Confundir estas combinações com compatibilidade, gera muitos enganos.
Nos relacionamentos, ao buscar o objetivo comum, satisfações e vantagens recíprocas, a primeira exigência a ser satisfeita é a neutralização dos sujeitos desejantes. Isto não é facilmente percebido tampouco de fácil entendimento, é uma situação complexa que se torna evidente depois do processo satisfatório dos desejos atendidos. O que unia as pessoas passa a ser o que as despersonaliza.
Ficar com o outro pelo que ele é e não pelo que ele possibilita, exila do cotidiano a coisificação do outro usado para realização de necessidades.
Uniões e motivações em função de conveniências, são sempre desastrosas e sem estruturas que suportem as vivências pois que são construidas para um futuro, sem alicerce no presente.
C…

Usura - desejo inesgotável

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"A carência afetiva, dentro da conceituação gestaltista, é intrínseca ao ser humano, ao contrário do que ocorre em outras conceituações psicológicas, psicanálise por exemplo, onde a carência é entendida como resultante de um processo deficitário de relacionamento afetivo, principalmente fundamentado no que se refere às figuras paterna e/ou materna. Quando dizemos que a carência afetiva é intrínseca ao ser humano, estamos dizendo que ela é tão configurativa do humano, como o são os olhos, braços, pernas, etc. Localizado o tema, focalizemos seu significado. Por carência afetiva entendemos a necessidade ou possibilidade de relacionamento com o outro; dentro desta nova compreensão (abordagem da carência afetiva), torna-se claro o porquê de sua colocação extrínseca, sinônima de problemática emocional, dada pelas outras teorias psicológicas, isto porque devido à falta de visão global unitária, ou seja, à esquematização elementarista do fenômeno comportamental e existencial humano, apr…

Pressentimentos e interpretações

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O insinuado é percebido enquanto prolongamento do que ocorre. Esta é uma das leis perceptivas postuladas pelos gestaltistas clássicos - é a Lei da Closura ou do Fechamento.
O percebido é estruturado relacionalmente (é resultante da relação sujeito-objeto). Havendo preexistências que invadem o dado, o presente, o que ocorre fica nublado, fragmentado por desejos, medos e lembranças. Estes posicionamentos determinam as interpretações, as constatações e catalogam as vivências.
No dia a dia da clínica psicológica, trabalhar com referenciais, com conceitos posicionantes - inconsciente por exemplo - gera interpretações, reflexões e conclusões redutoras das vivências, explicações estas baseadas principalmente na visualização dos desejos e dos medos.
Frequentemente, o cotidiano das pessoas é invadido e estabelecido à partir de clichês  (que são closuras estabelecidas em outro contexto e reutilizadas) e à partir dos pressentimentos gerados pela transformação de índices em totalidades indicativ…

Decisão libertadora

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Aniquilado como ser humano, entregue à sobrevivência, o indivíduo é transformado em uma estrutura que funciona para satisfazer suas necessidades. Sente-se sozinho, os outros são sempre ameaçadores; a falta de confiança, a vivência de ter sido aniquilado é pregnante. Todas as suas relações são estruturadas nesses referenciais. Não há amor, compaixão, bondade. O outro é usado, enganado para satisfazer os próprios objetivos. O outro é apenas um objeto útil, inútil, que ajuda ou que atrapalha. Esta sobrevivência, engano, utilização e traição, estrutura revoltas e medos além de aniquilar outros seres humanos.
De queda em queda, de engano a engano chega-se a limites intransponíveis. É o marginal que cai na malha da lei, é o impoluto finalmente desmascarado ou são também os que colocados em impasses, têm todas as coordenadas e percepções para realizar-se como objeto, como coisa desumanizada ou para pegar a réstia de luz que leva ao nó, à virada humanizante. É o momento onde não mais importa…

Fábrica de sonhos

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Quando não se vive o presente, tudo é vivenciado como expectativa.
Viver dedicando-se à realização de objetivos, sonhos e propósitos é esvaziador, transforma o ser humano em um robô (objeto) programado para a realização de desejos e necessidades.
Inicialmente o processo de mecanização é vivenciado como bem-estar, tranquilidade, sorte, sucesso, acerto. Tudo que é necessário é programado e a eficiência dá bons resultados. Ganhar dinheiro, ser respeitado, ser considerado bom, estas aderências suprem a deficiência e a falta desencadeadoras dos sonhos e propósitos.
Sucesso e realização, nestas estruturas mecanizadas, resultam em vazio; realizar objetivos, sonhos é também estabelecer despropósito: não há mais por que lutar, não há o que empreender, não há o que fazer, só existe tédio, vazio.
Ao vivenciar este vazio, inicia-se um novo processo, frequentemente percebido como impasse: é preciso abrir mão do conquistado para conseguir bem-estar, sentir-se vivo. Viver é percebido como doloroso…

Zeitgeist ou espírito da época

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A ideia de Zeitgeist perpassa a obra de Hegel, pensado como processo histórico. Zeitgeist é um conceito básico e intrigante para compreensão da trajetória, do comportamento humano.
A atmosfera da época, o contexto dos anos, existe independente das culturas de cada nação ou é típico das nações mais adiantadas economicamente e passados para as outras. Admitir isto, implica em admitir transformações superestruturais independente de suas infraestruturas. Ocorre que os sistemas, sociedades ou culturas, comunicam-se de diversas maneiras, têm camadas, aspectos relacionados a outros sistemas, sociedades ou culturas diferentes de seus estruturantes. Esta flexibilidade, dinâmica reversível, permite criar denominadores comuns - é a atmosfera, espírito, feições, modas, configurações fundantes à partir das quais frequências são estruturadas e sintonizadas.
Processo incrível, permite semelhanças: todas as fotos do século XIX são parecidas; desde a sépia, o resultado daguerreótipo, até as feições,…

Trapaças e fetiches

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Tudo que é usado como aderência se transforma em um extra ao processo. A própria aderência já é alheia ao que ocorre.
Utilizar-se do extra é um recurso que sempre amplia. Ampliar é justapor. Esta justaposição é um momento de trapaça em relação às ordens intrínsecas constituintes - perverte funções. A popular idéia de que "quem não tem cão caça com gato", a improvisação em função dos fins a realizar é maquiavélica, engana e transforma o outro em receptáculo de desejos, em objeto. Transformar o outro em fetiche é perversão; além de desumanizá-lo utiliza-se este objeto para propósitos solitários (autorreferenciados). Nas perversões é frequente encontrar o indivíduo rodeado de outros indivíduos submetidos a seus propósitos: sexo, dinheiro, poder etc.
Ideologias, religiões, certezas e medos podem perverter à medida que passam a ser aderências determinantes dos relacionamentos. Acreditar, por exemplo, que o filho é uma encarnação demoníaca e começar a enxergá-lo assim é uma perv…

Novo

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O novo não é o recente, contemporâneo, tampouco o inédito. Novo é o antagônico entre o que se vê e o que se espera ver. Neste sentido, novo é apenas o que pode surpreender. Arquitetos, estilistas, decoradores, publicitários, enfim, os que lidam com arte estão sempre trabalhando com o novo, mostrando como o démodé, o vintage é novidade total. Manter o novo é uma maneira de exilar o tédio, o previsível, o padronizado.
Seguir regras, etiquetas, sempre foi um fator de monotonia. Poetas rebeldes, a geração beat criaram o "épatér les bourgeois" como maneira de dinamizar, diversificar o dia-a-dia. Superar, quebrar o tédio também não significa bem-estar, tranquilidade. Um terremoto em uma zona não sísmica é uma tremenda novidade, desagregadora e destruidora. Organizar não é repetir, criar não é administrar situações para finalidades úteis, aceitáveis.
Este conceito de novo como surpreendente permite entender o clássico,  o estabelecido independente de circunstâncias (contingências)…

Igualdade e diferença

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O igual é o diferente. Falar de igualdade ou de diferença pressupõe um terceiro ponto de comparação. Ser igual a A é ser diferente de não-A. Cachorros semelhantes entre si, por exemplo (são todos cachorros), são diferentes enquanto eles próprios (indivíduos).
Da mesma forma, a continuidade mantém igualdade ao estruturar as diferenças. Heráclito dizia que as águas do rio onde o homem se banha nunca são as mesmas, "não se pode entrar duas vezes no mesmo rio". O rio é contínuo, passa, o imerso  não continua ou ainda a água que passa pelo calcanhar é outra diferente da que passa pelos dedos dos pés.
Continuar e permanecer são também paradoxos contidos nestas afirmações resultantes de contextos estruturantes não explicitados.
Só pode continuar o que permanece, tanto quanto a divisão traz em si sua unificação. O que divide é o mesmo que unifica. Polaridades sempre traduzem unidades se globalizados seus contextos estruturantes. Perceber o diferente como o igual é um dos grandes m…

Responsabilidade

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Responsabilidade só é possível quando existe autonomia. Ser responsável não é simplesmente cumprir tarefas, não se caracteriza por obediência. Responder pelos próprios atos ou pelos praticados por aqueles pelos quais somos responsáveis é a definição socio-jurídica de responsabilidade.
Ser responsável é não usar os outros e não se deixar usar. Obedecer ordens, cumprir o dever sem questionamento é apenas servir de base de sustentação para sistemas alienantes e até crueis.
Perceber as implicações do que se faz é ir além do que é feito. Este ir além, só significa responsabilidade se for tomado como contexto estruturante. Desincumbir-se de tarefas e ações sugeridas pelo mestre, mentor, pais ou qualquer autoridade, pode significar grande irresponsabilidade se não houver autonomia que permita o questionamento das tarefas, missões ou obrigações. Desde seguir a mesma profissão do pai, até votar em seu candidato pode ser apenas obediência, simpatia irresponsável.
Saber que o que se faz é fei…

Iniciativa

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Iniciativas não são atitudes inesperadas, súbitas.
A iniciativa sempre decorre de decisões, neste sentido, havendo unidade, existe iniciativa. A constatação das implicações, a percepção do que está ocorrendo sem autorreferenciar, não gerando dúvida, não gera vacilação, é a globalização dos dados relacionais, sem divisões, pois que não existem contradições ou complementações. Tudo é contínuo, qualquer momento é iniciador e também finalizante; a decisão está contextualizada no processo e nas suas implicações.
Para o indivíduo que não está posicionado, sem emergências arbitrárias, a iniciativa, a decisão são constantes; aparecem sob forma de participação, de presença. O que está ocorrendo indica sua continuidade, tudo é espontâneo, tudo é contextualizado. Não existe necessidade de esforço, não existe regra. Não há "o tem que" ou o "deve ser".
Decidir é ter iniciativa, é o se propor a, estando presente e dialogando com o que acontece.
Qualquer coisa que…

Coragem

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Três principais acepções caracterizam o que se pensa ser coragem: heroismo, salto no escuro e destemor. Um denominador comum das mesmas é a rapidez da ação, a não avaliação, a espontaneidade, enfim, o ato presente cuja implicação pode trazer alívio, mudança, liberdade, ato que se caracteriza pelo perigo, pelo risco.
O corajoso é o herói, o destemido, o desapegado até da própria vida. Em contextos massificados, coordenados para vantagens e utilidades, é cada vez mais difícil encontrarmos corajosos.
Para ter coragem basta ser honesto, nada difícil, nem impossível. Mesmo nas estruturas neuróticas, mesmo nos processos de não aceitação, a honestidade, a coragem surgem quando se aceita que não se aceita e se age conforme isto. É honestidade, por exemplo, não continuar nas fileiras de um grupo, uma agremiação, uma sociedade religiosa, quando se percebe motivações e ajustes de conveniência. Romper acertos, quebrar compromissos, mudar paradigmas, renunciar às vantagens do lucro que sustenta, …

Impaciência é indignação

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Nem sempre impaciência é indignação, mas no contexto de cooptação, imagem e faz de conta, indignar-se, irritar-se, não concordar e lutar pelo que se discorda é atitude denunciante da acomodação sacramentada pelo politicamente correto.
Faz diferença dizer não, faz diferença dizer sim. Enfrentar combinações, regras e leis pode ser perturbador, mas é também questionador. Tudo que é explicado pode ser uma revelação, tanto quanto a explicação pode ser uma maneira de esconder o que não se quer que seja percebido.
Na intimidade do lar, no seio da família, quebrar o silêncio característico das omissões é visto como sinônimo de violentação à harmonia. Da mesma forma, estar bem com o colega de profissão, os pares corruptos e que abusam dos poderes profissionais é manter posicionamento que evita indignação, que ajuda a sobreviver. Muitas pessoas são prejudicadas para que se mantenham ajustes, mentiras e conveniências. Impotentes para mudar, para denunciar, resta a estes indivíduos aceitar, não …

Fissuras e revelações

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Toda descontinuidade, divide, cria separações. Quebras, rachaduras podem ser consertadas gerando o que se constitui em disfarce do que foi dividido. Terceiros fatores, outras variáveis, normalmente revelam estas emendas. Situações reveladas e desmascaradas sempre existiram. Não há como controlar o inevitável: a dinâmica relacional que subverte e questiona posicionamentos.
Os contextos relacionais, as contenções, as irregularidades não revelam as estruturas comprometidas pela divisão mas explicitam os limites possíveis do estar bem. Adaptação, desadaptação ao limite do outro expõem dificuldades, acertos e negociações realizadas para manutenção da boa ordem familiar, do emprego conseguido, do status almejado, por exemplo.
Consertar é reestruturar, mas quando acontece como uma emenda, arrumação e disfarce se constitui em um limite. Disfarces não resistem às transformações; são contextos onde é impossível tirar implicações do que ocorre quando esta ocorrência está mantida dentro de padrõ…

Coação e acertos

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Amedrontar, ameaçar são ferramentas muito usadas para conseguir realizar objetivos autorreferenciados. O exercício desta técnica exige criação de artifícios (imagens geralmente vistas como positivas) e armadilhas (manipulação dos desejos e metas do outro). Encontramos coação não só na esfera criminosa, mas também na esfera da legalidade, nas casas, nos escritórios, nas escolas.
Historicamente as mulheres, com a meta do príncipe encantado, do casamento, são presas fáceis: se deixam seduzir e enganar, fazem qualquer negócio, arriscam qualquer coisa para realizar a meta. Realizada, vem o vazio - não têm mais onde se sustentar. Amarradas, penduradas nas vantagens conseguidas, suportam todos os massacres para manter o sonho realizado, agora frustrado. Este paradoxo só pode ser vivenciado na divisão; esta frustração diária, os maltratos sofridos - físicos e psíquicos - são considerados acasos, acidentes, não fazem parte do processo: são vistos como acidentes causados por inveja dos amigos,…

Zumbis

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Zumbis são os mortos-vivos, os fantasmas que povoam alguns deslocamentos específicos da não aceitação, da perversão.
Como entender perversões, crueldades extremas, enganos, mentiras que nos remetem a uma esfera de desumanidade desconcertante?
Mortos-vivos podem ser os amigos, os semelhantes, qualquer um que fabrique imagens, coberturas para esconder seu vazio, sua ganância, seus medos, suas não aceitações.
Não se aceitar, não aceitar que não se aceita, requer uma série de estratégias para conseguir realizar metas e desejos, desde simples posturas e hábitos civilizados até o engano, a mentira, o uso sistemático dos desejos, das metas e necessidades, enfim, das neuroses de seus interlocutores.
Na não aceitação dos próprios limites e dificuldades, a única coisa que interessa é conseguir cobrir as próprias fraquezas, consideradas feridas incuráveis. Sentindo-se monstros, mortos-vivos e vazios, vestem-se de humanos, conseguindo assim matéria-prima para sobreviver, para sentir alguma coisa…

Superação

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Atualmente, tanto nos contextos psicoterápicos quanto nos religiosos, enfatiza-se a idéia de superação, de desapego e psicoterapias e religiões são usadas como alavancas para promover mudanças consideradas desejáveis. Nestes contextos, superação e desapego tornam-se sinônimos quando entendidos como abandono e desistência. Abandonar os sonhos antigos após um acidente que gera imobilidade, desistir da família unida ao descobrir que a mesma era assentada em bases enganosas, são, então, exemplos de superação, desistência de sonhos agora impossíveis e dedicação a novos projetos.
Problemas sempre surgem. Em contextos de aceitação, ultrapassar, transcender limites é espontâneo, dispensa alavancas; a superação e o desapego aparecem como abertura de possibilidades. A percepção dos processos abre condições, gera perspectivas para o aparecimento de um núcleo fundamental: o estar vivo. Enquanto tal não ocorre, a vivência é de perda, de morte, de incapacidade e neste contexto, superar, desapegar …

Confiança

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Confiar nos outros decorre de ser disponível, de aceitar o que se é, o que se tem, o que se vive. Quando se avalia lucros e perdas não há disponibilidade, não há confiança, o que existe são acertos, negociações e contratos.
Discussões sobre a modernidade costumam enfatizar o aumento do individualismo e competitividade onde as relações são reguladas e controladas por contratos escritos em contraposição a uma época onde acertos eram baseados na palavra ou na confiança entre as partes. Estas afirmações podem levar a crer que a falta de confiança é resultado deste momento histórico. Em verdade, assistimos apenas uma mudança nos mecanismos coercitivos que regulam a confiabilidade ou os acertos entre as pessoas: antigamente a família e a comunidade exerciam esta controle; hoje em dia, instituições públicas regulam  os acertos.
O homem é sempre o mesmo; confiar ou não confiar, ser uma pessoa de confiança depende de como ele se estrutura.
Logo ao nascer, o rosto materno é uma boa ou má confi…

Verdades e mentiras

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Quem nunca se perguntou sobre a veracidade ou falsidade de algum relato, de alguma notícia e até da própria visão sobre um determinado acontecimento? É comum surpreender-se enganado, ludibriado. Descobrir que está sendo enganado, por exemplo, é libertador se vivenciado sem as amarras do compromisso. Esta mesma descoberta - ser enganado - é também mortal, aniquiladora de todos os sonhos e confiança depositada (no outro).
Acreditar e duvidar são polos de um mesmo eixo: a constatação de um acontecimento, de uma ocorrência. 
Tudo que acontece pode ser percebido, embora nem sempre constatado. Diante de fatos, acontecimentos, percebemos e também inserimos esta percepção em redes de memórias e vivências. A inserção é a constatação, é a percepção da percepção, às vezes representação ou interpretação do acontecido. Destas vivências são estruturadas crenças ou dúvidas. 
Saber o que é e o que não é, acreditar que tal fato ocorreu ou não, enfim, dúvidar é defrontar-se com o lacunar, o incompleto. A …

Vingança

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A vingança é sempre planejada. Esta antecipação, expectativa é um deslocamento de frustração. Não podendo destruir ou infelicitar o que magoou e infelicitou, o indivíduo adia, guarda sua mágoa  e começa a planejar, a desejar se vingar, a desejar fazer com que o outro sofra como ele sofreu, sinta a mágoa que ele sentiu, tenha o mesmo prejuizo, o mesmo sofrimento.
Nascido no contexto da rejeição não suportada, o desejo, o planejamento da vingança é o que resta como motivação de vida.
Parar e colocar todos os propósitos relacionais em função de uma vingança, cria idéia fixa, obsessão, às vezes percebida como determinação. Isto passa a ser o filtro, o foco de toda a motivação. Reduzindo o mundo à expectativa de se vingar, de infringir ao outro o mal sofrido, o indivíduo se reduz a uma espera.
Tudo significa à medida que se conecta com este desejo. O alvo da vingança é que determina o que se faz, o que se pensa, o que alegra, o que entristece. Constituido pelo outro percebido como receptá…

Sacrifício e restrição

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O ser é possibilidade de relacionamento, apenas isto e isto é tudo. Não existem seres bons, maus, mediocres ou superdotados como preexistências aos dados relacionais.
Somos seres com possibilidades relacionais que, quando posicionados, mantemos arquivos de memória, estruturando o eu. O eu é o sistema de referências responsável pelas identificações. Confundir ou igualar o ser ao eu é reduzir as possibilidades a padrões e regras características do indivíduo. Somos seres relacionais limitados por referenciais posicionantes. Questionar e identificar esses posicionamentos cria dinâmica, faz mudar. Psicoterapia é onde esse processo se realiza ou é impedido a depender das metodologias e conceitos utilizados.
Atualmente é frequente ouvir psicoterapeutas dizerem que toda criança precisa de uma relação estável: os pais não podem estar separados. Opiniões baseadas em juizos de valor são alienantes. Pensar assim é responsável pela manutenção das ordens constituidas, demonstram o medo da mudança…