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O dentro e o fora

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     Toda vez que se estabelece a ideia de interno/externo surge o vazio. Essa delimitação de espaço, dentro e fora, cria absurdos ou resultantes imponderáveis.   Quando o ser humano se autorreferencia, ele estrutura um ponto de partida de onde tudo é percebido, pensado, experienciado. Esse ponto pode ser a própria sobrevivência, o sucesso ou a imaginada felicidade, geralmente traduzida por realidades óbvias, como: ter dinheiro, sucesso profissional, realização familiar, êxito nas crenças religiosas, ou até vivências mais específicas como as ligadas à sexualidade, por exemplo.   Encontrar algo que justifique, preencha ou valide a existência é uma maneira de preencher o vazio. Esse viver por, viver para, essa busca de realização é adaptação, estabilização esvaziada, pois mantém a distorção que a gerou: a não aceitação de estar no mundo com os outros, aberto às variáveis e infinitas vivências e ocorrências. É o fato de não suportar essa multip...

Esmagamentos

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      Quando se resume a definição de homem em organismo mais evoluído da escala biológica, se reduz suas particularidades e atividades, enfim, seu comportamento, às dimensões calculáveis de realização das funções de sobrevivência: fome, sexo, sede e sono. Quando se pensa assim, essas necessidades são o palco, o chão, a base, o contexto onde tudo se desenrola, se desenvolve e eterniza.   Aceitar que questionar – ir além do dado – amplia contextos, possibilidades e necessidades significa estruturar indagações, perguntas e respostas. Esse é um processo de expansão e transformação. Não é redução a características biológicas. A prisão se abre. O mundo é confrontado: o ser humano percebe, pensa, dialoga, escreve, canta, poetiza o caos, quebra ordens milenares.   Sofrimentos aprisionantes (Prometeu), driblar espadas (Dâmocles), iludir príncipes e reis (Maquiavel) são situações, atos humanos, demasiadamente humanos como diria Nietzsche.   📕 Os livros a...

Imobilizações

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Uma das principais consequências do autorreferenciamento é a imobilização. Criar os próprios sistemas de convergência e divergência é sistematizar caminhos que conduzem ao poço sem fundo das certezas e incertezas não questionadas e mantidas como base para sobreviver. Elas são as garantias que permitem defesas e realizações. Patrimônio, conquistas familiares, certezas acerca do que traz sucesso ou fracasso são as balizas, os faróis orientadores do comportamento comprometido. Nesse sentido, é possível estabelecer um corolário: quanto mais certeza mais imobilização. Estacionar nas plataformas de sucesso ou de fracasso, buscar e fazer delas o objetivo da vida, é uma decorrência de a priori, de certezas enrijecidas que tudo definem, comprometem e imobilizam.   Viver para, viver por, nega a vivência do presente, e quando isso ocorre surge desvitalização, despersonalização, isto é, vazio. O ser humano se transforma em objeto manipulado pelo que o cerca: a família, o Estado, o gr...

O insólito salvador

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Outro dia uma amiga me enviou um Reels divertido e interessante, escrito e dirigido pelo criador digital Batt Maillie:  Silly Little Hat . O vídeo tratava de uma senhora preocupada com suas rugas faciais, com a velhice e seus aspectos por ela considerados desagradáveis. Resolveu, então, esconder tudo isso com uma máscara, mais precisamente com uma balaclava. Olhou-se no espelho e ficou deliciada: nada de rugas. Saiu para as ruas e as pessoas se afastavam dela com medo, outras tentavam lhe agradar nervosamente, e, principalmente quando ela entrava em uma loja, os vendedores, assustados, lhe entregavam mercadorias sem cobrar, trancando as portas aliviados assim que ela saia. Com experiência “tão positiva” ela chama suas amigas da mesma idade e passam a sair de casa, juntas, cada uma usando uma balaclava, conseguindo atendimento rápido nas lojas e atenção nas ruas.   A senhora percebia apenas a gentileza, não percebia o medo que causava por estar assemelhada a um terrorista ...

A primeira coisa é o um ou o dois?

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       A abrangência da pergunta sobre se a primeira coisa é o um ou o dois, a questão do um ou do dois como fundamento lógico das questões filosóficas, científicas, sociais e individuais me fez lembrar a clássica dúvida resolvida por Husserl (Fenomenologia) quando lhe perguntaram quem veio primeiro, o ovo ou a galinha? Ele respondeu: tragam-me o ovo e a galinha que responderei.   A questão do um ou do dois, de saber qual a primeira coisa requer considerações conceituais. Imaginar origens, princípios ou causas ancora no reino do determinismo. É nesse universo conceitual que praticamente tudo que ocorre é explicado, e, assim, se nega a interação de fenômenos ou de acontecimentos.   Essa pressuposição de causas tem como base a noção de que tudo inicia em um. A inquirição sobre início ou origem cai em uma investigação de causalidade. Explicar a criação do homem ou do mundo, por exemplo, partindo do princípio divino, extrínseco ao existe...

Apreensões e expectativas

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  Geralmente, as vivências de medo estão atreladas às expectativas. É lugar comum, é senso popular considerar que medo gera ansiedade e antecipação do futuro, ou seja, expectativa.   No entanto, o medo não pode gerar expectativa, pois ele é omissão, é a não vivência do que está ocorrendo enquanto presente. Ele se constrói pelo esvaziamento, por essa não vivência do que ocorre. Não vivenciando o presente, o contexto do medo é a antecipação do que pode ocorrer ou atualização de ocorridos. Desse modo, ele atua como uma borracha que apaga as inscrições existentes. É a criação do papel em branco que vai ser preenchido pelo que se teme e o que espera acontecer ou pelo que aconteceu. Ter medo é estar comprometido em salvar a própria pele, a própria vida, as imagens e patrimônios construídos. A associação do medo com compromisso é aniquiladora, pois se tenta juntar o que existe com o que deve permanecer existindo em um vácuo: o presente negado.   As expectativas de salvação e...

Expectativa, medo e ansiedade

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  Perceber o limite, o impedimento aos próprios desejos gera expectativa e ansiedade. A expectativa é sufocante: o que tem que ser transposto é percebido como uma muralha intransponível. Não se consegue transpô-la, entretanto, o desejo transformado em necessidade continua imperioso. Quando é essa a situação, ocorre divisão do que se vivencia. O que está acontecendo não deve e não pode acontecer – é o desejo. Mas, está acontecendo – é a evidência. Surge desespero. Apela-se para tudo: o sobrenatural, o ilegal. Das promessas aos protetores e santos invisíveis, agarra-se também o que não é seu. Inicia-se um processo de apossar-se, de roubar resultados, soluções e vivências de outras pessoas para aplacar o medo e a ansiedade. Quanto mais se nega o impedimento, mais ele esmaga, pois ao negá-lo são criadas invisibilidades. As possibilidades aumentam, tem que se combater o que acontece, o que aconteceu e o que poderia ter acontecido, sem conhecer o que está acontecendo. Negar o existente n...

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