Postagens

Featured Post

De repente, o outro

Imagem
  Olhar para o outro, ouvi-lo estar atento a ele é uma das formas mais puras de generosidade, dizia a filósofa Simone Weil. Ouvir, deter-se diante do outro, olhar por olhar, ouvir por ouvir, estar diante sem a priori nem objetivo é raro, é difícil, é disponibilidade. Em psicoterapia, pelo treino e aprendizado psicoterápico se faz isso, entretanto, na vida, no cotidiano é quase impossível esse comportamento, pois o outro é sempre um acesso, um caminho, uma parede, um esbarrão e não significa enquanto encontro, embora só se realize enquanto tal. Perceber, ouvir, se deter é enfocar, é verificar e constatar, e essas são importantes etapas e caminhos de descobertas. É o enigma que se esclarece, é a mensagem que se lê, é o outro que se descobre, que se revela quando recebe atenção. Deter-se diante do outro, além de generosidade e descoberta, é encontro, é desafio. O outro quando ouvido deixa de ser enigma, deixa de ser antítese, é a descoberta que revela, é o texto que ensina, é o novo que

Mesmice

Imagem
  É comum ouvir acadêmicos, técnicos diversos e filósofos explicando alguns processos como sendo situações pendulares, como se fosse o ir e vir de contradições - indo ora para um lado, ora para outro lado - e confundindo isso com dialética de processos. O ir para a esquerda, para a direita, para o sim, para o não, nada configura enquanto antítese, apenas explicita trajetórias na reta. As abrangências não são contraditórias. As divisões arbitrárias segmentam movimentos e criam pendularidade e nesses contextos não há sim, não há não, muito menos mudança. O que existe são passagens, oscilações que nada configuram além das alternâncias não contraditórias do movimento. Psicologicamente, nas situações caracterizadas por constante dúvida entre fazer ou não fazer o que se deseja, cria-se oscilação, alternância de comportamento que pode se expressar em inúmeras situações, sejam elas inconsequentes ou graves, como por exemplo o uso de drogas lícitas ou ilícitas para manter o bom humor e o ânimo,

Caos e esperança

Imagem
  Imagem: Divulgação/Governo do Estado de São Paulo   Empolgada com a perspectiva de ampliação da vacinação e com a autonomia científica do Brasil na área de vacinas, antecipei a publicação da próxima quinta-feira.   Mudanças da água para o vinho são consideradas milagres, prestidigitações ou apreciações incompletas de fenômenos. O inédito, o caráter de transformação mágica só existe quando processos e estruturas não são consideradas. Hoje, 26 de março de 2021, assistimos a esse processo no Brasil ao anunciarem a vacina BUTANVAC criada pelo Instituto Butantan, vacina com tecnologia 100% nacional que evidencia a autonomia do país na sua produção. A notícia parece milagrosa, causa esperança, alegria, revolta, raiva à depender dos contextos a partir dos quais o acontecimento é percebido. Como um país em pleno caos, sem liderança política, em crise econômica e com mais de 300 mil mortos em um ano de pandemia, consegue isso? Com certeza não é um processo fênix, não é um renascimento das cin

Práticas repetidas

Imagem
    Usualmente a repetição, a prática frequente é o que chamamos hábito ou costume. Afirma-se que essas repetições atingem níveis de inconsciência, tanto quanto de automatismos, pois seus mecanismos são explicados por condicionamentos ou manutenções inconscientes. Acontece que o hábito não é repetição ou inconsciência, ele é a resposta ao estímulo, é o automatismo do sim e do não, é a persistência do adequado, do aprendido. Nesse sentido, hábito como repetição mecânica, como resposta àquela pergunta implícita, funciona como o preenchimento de intervalos. Assim como na solidão se desmascara, grita e nada esconde, no hábito se repete uma resposta antiga. Não existem mais estímulos, entretanto restam respostas. É um dinamizador que segue a martelar no vazio. É o automatismo que nada configura, embora muito esclareça. A manutenção de costumes, geralmente entendida como hábito, nada explica, embora esclareça comportamentos. Apenas ocupa um lugar no espaço e como o preenchimento do vazio sig

Bom é o que detém

Imagem
  Na continuidade de circunstâncias, de contingências que adensam e enrijecem aderências, o maravilhoso é ser detido, ser ultrapassado. É um momento no qual transcendências são realizadas.  Estar polarizado pela contradição exercida pelo outro, ou por si mesmo, é possibilitador de questionamento e consequentemente de mudança. Viver as próprias insatisfações, os próprios problemas é uma maneira de começar a resolvê-los. Descobrir como é motivador o que se conhece e o que se trabalha, tanto quanto o que não se sabe para onde nos leva, mas que oferece surpresas e descobertas, é satisfatório, cria felicidade e alegria. É a curiosidade, o despertar, o ir para diante na continuidade do estar aqui e agora. Encontrar o outro - igual ou diferente - também pode ser um polarizante que detém. Esse processo é estar totalmente dedicado e sem alienação. Tudo é vivenciado enquanto vivência e não como pontos a atingir, situações a manter. A perda de limites posicionantes é libertadora e essa liberdade

Imersão

Imagem
  A dedicação possibilita inúmeras vivências. Totalmente voltado para o que se pretende e propõe se consegue imersões transformadoras. Esse processo é a continuidade do estar no mundo com o outro diante de obstáculos, soluções e problemas. A imersão é uma decorrência de estar vivenciando o presente. A continuidade da vivência presentificada cria disponibilidade e exila metas - que são propósitos antecipados -, fazendo com que tudo sinalize enquanto motivação. O percurso das nuvens, por exemplo, ou o deslocar de formigas são exemplos de ordens frequentemente não configuradas. Pensar em Deus, em natureza é lançar mão de extras com relação ao ocorrido. O que não se vê entre nuvens e formigas são andanças, movimentos, e isso as iguala. Semelhanças, diferenças tudo é continuidade de significações não explícitas. Certos contextos podem elucidar. Só a dedicação, a imersão, o voltar-se para, é capaz dessa realização. Não é empreendimento, não é propósito, não é desejo, é ombrear-se, voltar-se

Expressão

Imagem
    Expressar é significar. A expressão do significado sempre ocorre e é estruturada por diversos contextos. Símbolos - linguagem na esfera geral - realizam a magia que é a expressão do pensamento, do sentido, do que é vivenciado. No pequeno mundo individualizado, poucos gestos, poucas palavras, poucos olhares indicam muito. É o jeito de corpo, é o fingindo não fingir, é a expectativa, é o vazio que muito revela. Situações sínteses, olhares perfeitos e completos, palavras definitivas podem expressar tudo. Uma dessas palavras síntese é a expressa na tradição védica: Om . Tal palavra, tal som se transforma em vibração, transcendendo e afirmando códigos e referenciais de escuta. Outro exemplo contundente e corriqueiro encontramos na esfera individual: a força da unidade ou grito de uma mãe avisando ao filho que tem um obstáculo perigoso à sua frente. A expressão, às vezes, é uma maneira de dar vida, de presentificar anseios, medos e descobertas. Ela é a liga de encontros e desencontros. É

Sequências

Imagem
    As ordens estabelecidas nas instituições de transmissão do conhecimento não são limitadas pelo tempo embora o reflitam. O professor que ensina outro professor é um elo de uma corrente contínua. De diferentes maneiras são repetidas as mesmas coisas. Essa atemporalidade é o que recria e mantém o tempo. Este aparente paradoxo é estabelecido pela doxa , pelas opiniões que se superpõem, e que mesmo que variem são iguais enquanto resumo de ordens, regras e palavras. Assim são formadas as instituições e assim são transmitidos valores que sequencialmente criam conjuntos: humanidade por exemplo. Quebra de sequências surgem quando valores são transmutados, transformados. Essa é a grande ameaça que se desenha com os processos de alienação e desumanização. O ser humano poderá vir a ser ingerido como proteína capaz de alimentar famintos? O descrédito na humanidade ensejará sua superação? As quebras de sequências básicas são sempre mutações atordoantes no mundo biológico e também no psicológico.

Percepção de si e do outro

Imagem
A percepção de si e do outro é uma temática relevante em psicologia. As abordagens a este tema fundamentam psicoterapias. Freud achava que o outro era percebido em função de desejos, medos e anseios, era a projeção de demandas do inconsciente, e isso era o que lhe dava significado. Nesse sentido, na psicanálise a percepção do outro é uma projeção de motivações e comportamentos inconscientes. Diversamente, para mim, perceber o outro é uma consequência de estar no mundo. Esse simples fato, entretanto, pode ser uma resultante condensadora de inúmeras contextualizações. A variedade de contextos à partir dos quais o outro é percebido é imensa, embora possam ser significadas, condensadas em seus estruturantes: o outro é percebido como prolongamento de autorreferenciamento ou como presença que expressa outras relações e significados. O outro é o que está aí, diante. É o destacado que será significado enquanto ser, enquanto surpresa implícita, ou visualizado como coisa cujas funções são mantid

Ir além dos significados

Imagem
  Ir além do que acontece só é possível quando acontecimentos são considerados contextos, paisagens. É como estar viajando em um trem onde os trilhos, a estrada, os caminhos nada significam salvo direção percorrida. Essa objetivação de propósitos é a transcendência que possibilita ampliação. Não importa com quem se está, ou onde se esteja, o importante é que se está ouvindo, vendo, considerando, e isso sempre significa discernimento. Esse discernimento, o perceber que percebe, o conhecimento, tudo ultrapassa. Não é setorizado, não é dicotomizado por conveniências ou inconveniências. Tudo se sente, tudo se sabe. As possibilidades de vivência - ditas emoções, considerados pensamentos - caracterizam o humano. É a vivência do estar no mundo com os outros que realiza humanidade, que a torna contingenciada e sincrônica com os que convive, com os outros que encontra. Estar aberto e disponível é característica da humanização e permite transcender limites de bom, ruim, certo, errado, útil e inú