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Banalidade da desumanização

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  Hannah Arendt escreveu sobre a banalidade do mal, e ele nos é evidenciado  cotidianamente . Mas, hoje em dia, achar que se pode entender, explicar e resolver toda e qualquer coisa nos expõe à banalidade do drama, da desumanização. Há um como fazer, agir e operar, découpé para conseguir resultado e compreensão dos acontecimentos.   Quando a operosidade, a ação, passa a ser a chave de comando para resolver situações, o mundo é reduzido a fazer, a bater prego, a quebrar arestas. A ação orientada na solução dos problemas é, frequentemente, cega em relação ao que a produz. Sem globalização da totalidade a parcialização se insinua, desequilibrando seja o que for que ela resuma. Tudo é engolido, pois é liquidificado, processado pelas máquinas do poder, que conseguem transformar crimes em limpezas de áreas e territórios, para que quem eles consideram cidadãos de bem caminhem e vivam. Destruir, matar não é a questão para essas pessoas. O importante é o que conseguirão ...

Dedicar-se não é deslocar

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  Ser dedicado a alguém ou a alguma coisa, ou até a si mesmo, é um dos desejos e motivações mais constantes do ser humano. É, em certo sentido, o que pode resumir a motivação do indivíduo. Desta atitude – querer se dedicar – resultam o que se entende como escolhas, principalmente as consideradas vocacionais. Exercer o amor e cuidado ao próximo por meio do caminho conventual, lutar pela salvação dos pobres e pela hegemonia nacional por meio da luta política, também são caminhos considerados como dedicação ou maneiras de se dedicar ou de realizar a própria motivação. Essa dedicação, como tudo, assume várias formas em seu processo de estruturação e realização. Por exemplo, em certos contextos, em certas estruturas e personalidades, ela pode significar vício. Dedicar-se a um vício, como às drogas, é uma maneira de fundir sujeito e objeto, de se transformar na própria dedicação. É interessante acentuar a dispersão criada por esse processo, pois ele é estruturado no não acontecido e na f...

Controle e deslocamento

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    A não aceitação do que se vivencia gera uma série de medos, curtos-circuitos que provocam apagamentos e omissões. Essas apreensões frequentemente são caracterizadas por arremedos, fac-símiles do desejado.   O controle, o estabelecimento de regras e limites, muitas vezes faz o indivíduo se sentir comandando ou “dando as cartas”. É o faz de conta necessário para esconder desejos, maldade, incapacidade de discernir ou perceber o que aconteceu. É equivalente a levar o olho para a lua a partir do olhar para o dedo que a indica. Chega o momento em que o dedo é apenas o que é visto. Tudo passa a ser assim incompreendido e modificado. Kafka expôs isso muito bem em Parábolas e Fragmentos :   “Os leopardos invadem o templo e esvaziam os vasos sagrados... O fato não cessa de reproduzir-se, até que se chega a prever o momento exato e isso entra a fazer parte do ritual”.   Acontece que, nessa história os sacerdotes são fundamentais para cuidar e m...

Marcas anteriores e desavenças

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   Discordâncias resultam de percepções, apreensões e utilização de dados perceptivos provenientes de diferentes considerações e diferentes contextos.   Olhar na mesma direção não necessariamente configura concordância, pois apreender, perceber o que ocorre depende de estar percebendo o que ocorre como ocorrência (vivência presente), ou como resultado do que ocorreu (processo passado) que se completa, ou como acontecimento que anuncia, prenuncia o que vai ocorrer (futuro). A invasão do antes e o do depois mescla, confunde e configura o que acontece. Perceber o que acontece como acontecimento exige estar presente (presentificação).   A continuidade do existir sempre aponta e privilegia direções: responder perguntas anteriores se evidencia ou a antecipação de possibilidades se impõe, e, assim, o presente é desvanecido. Esse desmanchar ou o apagamento do que existe gera confusão e mistura, passa a ser o papel em branco no qual tudo é escrito, rees...

Quando mudar é exercer onipotência

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     Esta situação paradoxal, que é perceber o outro e o mundo diante de si e apagá-los magicamente como se tivesse poderes para criá-los e destruí-los, é comum nas vivências estruturadas pelo autorreferenciamento. Perceber o outro, as situações, é uma mudança no universo autorreferenciado, mas, imediatamente determinar o que fazer com isso, escolher entre apagar, negar, manter, ou tirar um bom partido, é atitude onipotente que mascara sentir-se impotente de estar no mundo com o outro. É exatamente nessa transformação – onipotência como exercício de impotência – que o vazio desumanizador se instala e processa, passando a ser o determinante dos comportamentos autorreferenciados. É a vivência expressa em pensamentos como: “quem não está comigo, não me apoia ou não me dá dinheiro, não serve, precisa ser evitado, alijado, ou, a depender dos contextos, destruído”.   Ser onipotente significa deslocar a impotência, é a busca do lugar ao sol, querendo ser admi...

Popularidade

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Popularidade geralmente é resultado de processos sociais. Desde a clássica escolha eleitoral dos candidatos mais populares até os artistas, escritores e pessoas que se destacam nos grupos, popular é aquele que lidera, e, assim, representa anseios, desejos e motivações das “massas”, dos grupos, da maioria.   Ser popular é liderar vários grupos definidos pelas motivações familiares a eles. Essa resultante, inerente a processos que constituem a popularidade, atualmente é forjada na “oficina do diabo”, como diria o enganado pelos falsos líderes. Sobressaem-se indivíduos populares que passarão bandeiras redentoras. Surgem na internet, nas escolas, nos clubes, nas igrejas e empresas, e até nas famílias. Tornam-se porta-vozes que orientam e determinam o que deve ser feito. Empenhados e identificados com outros interesses buscam criar popularidade para conseguir adeptos e seguidores.   Hoje em dia, a popularidade, com ajuda da tecnologia, é um dos estupefacientes mais encontra...

Maravilhamento

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Foto do jornal A Tarde , reportagem de 6/9/2026 Maravilhamento é um substantivo que descreve o estado de grande encantamento. É o deslumbramento, o assombro diante do belo, e, principalmente, é o estado que vivenciamos quando diante de tudo que nos toca, nos atinge. Lembrei-me dessa palavra ao ver uma foto de um grupo de crianças indígenas assistindo um filme sobre a própria aldeia.   Maravilhar-se é também constatar a semelhança, a identidade diante do outro. Trata-se sempre de encanto, descoberta e reconhecimento. Essa convergência sinonimiza passado, presente, futuro amalgamados em um só instante, e é por si responsável pelo maravilhamento, pois, fusiona, totaliza e arrebata. É a sincronização é uma mágica que tudo expressa.   Simples troca de olhares e gestos prendem e também esvaziam o estar diante do outro. Acumular, encaixar cria padrões, e, infelizmente, eles, se transformados em clichês, geram regras e encarceram as próprias descobertas.   Maravil...

Torre de marfim

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  Estar exilado do convívio com os outros decorre de atos diversos. Prisões e hospitais, moradias distantes e afastadas, exilam, subvertem e submergem o indivíduo em situações alheias a seus propósitos, embora elas sejam decorrentes deles.  Viver isolado sem conviver e se identificar com ninguém é uma das características expressas pela metáfora da torre de marfim. Essa imagem é usada para resumir lugares especiais e associados à elite (pela sua raridade e riqueza) e também para destacar intolerância e desprezo pelo comum, normal ou frequentemente existente. Resume uma atitude que evidencia a vivência de não se sentir comparado, e de se sentir avatar, “gênio da raça”, impoluto, distante das experiências de mazelas e maldades que atingem os outros. Destacar-se e isolar-se pode também ser típico comportamento de desapego, assim como de quadros nosológicos mentais, ou de desespero e carência. Não se sentir aceito gera uma série de deslocamentos, e um deles é o de perceber estar ...

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