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Solidariedade

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  Solidariedade é a ampliação de si pelo reconhecimento do que é familiar: o outro que continua sentidos e direções. Incluir-se em grupos, fazer parte da humanidade cria solidariedade. Atualmente a desumanização - a alienação do humano - torna difícil o exercício da solidariedade. Agir por tabela, ajudar a quem precisa porque sempre se ajuda a quem precisa, cria um direcionamento contingente negador da própria solidariedade, pois nesse esquematismo falta humanidade, sobra ação contingente, mecânica e utilitária. Ser solidário é ser com o outro, é continuar-se. As pontualizações de mecanismos alienantes muitas vezes transformam a solidariedade em uma sequência de ações alienadoras. Bastar ver campanhas para ser solidário é como se a aderência prevalecesse sobre a imanência. Ajudar não é seguir uma receita ou uma rota; é necessário criá-la independente de campanhas e aplausos. O voltar-se para os sentimentos de amizade, compaixão e boa vontade independe e é indiferente à felicidade, nece

Integração de limites

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  Limites podem ser integrados e quando isso acontece os obstáculos desaparecem, os limites passam a ser referenciais e dessa forma são transformados em apoio, em base. Esta base, o presente - os limites integrados - não dificultam, ao contrário, possibilitam fluidez. Dualidades continuadas, necessidades, possibilidades são referenciais agora despidos de significados amedrontadores ou alentadores. Saber o que se tem, o que se é, onde se anda, a paisagem que se descortina, tudo é configurador do estar no mundo, tudo sinaliza e orienta espontaneamente. A espontaneidade é o natural enquanto próprio, devido. Viver a própria vida é o único que se coloca. Olhos, braços, boca - corpo - são os constituintes, os estruturantes relacionais do conhecer, do viver. A percepção do ser, do si mesmo - possibilidade relacional - é exercida pelas próprias percepções. Vida é continuidade, é efeito virando causa, é causa virando efeito. Na realidade, a pontualização - em causa/efeito - é, como todo ponto,

Pretensa capacidade como deslocamento da impotência

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    Sentir-se incapaz e sem condições de agir, de modificar situações que estão sendo desagradáveis cria inconvenientes questionamentos ao estabelecido, revoltas e muitas vezes propósitos de boas ações. A não aceitação da incapacidade é gerada pela culpa, maneira de deslocar a impotência diante de acontecimentos, camuflagem necessária para persecução de objetivos, comprovando assim a evidência conceitual: a onipotência é sempre um deslocamento da impotência. Não admitir a própria incapacidade, não admitir e escolher a si mesmo como objetivo fundamental leva à criação de camuflagens, desde que o indivíduo quer se manter em posição, por exemplo, como responsável defensor da família e consequente com seus ditames de "chefe de família". Para essas pessoas, abrir mão do outro é uma maneira de se afirmar, de subir na escada das realizações. O lema é: nada me atrapalha. Acontece que, seguindo nosso exemplo da família, é a própria mãe, o próprio pai, o irmão que precisam de ajuda e d

Tristeza, fome e frustração

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      Interrupções, perdas, mudanças abruptas assim como mudanças temidas geram tristeza, que é uma ocorrência inevitável no processo da vida, na vivência dos afetos quando esses são modificados.  Quando essa vivência é transformada em referencial a partir do qual tudo é percebido, quando é mantida como situante relacional, ficar triste é uma atitude resultante da não aceitação de realidades passadas e agora posicionadas. É o resumo conseguido após avaliação, como por exemplo sentir-se feio, fraco, covarde, sem sucesso, que resulta de avaliação e comparação com os outros, com os padrões, com os desejos, com o que se esperava. É quase sinônimo de desânimo (a manutenção contínua desse desânimo, dessa falta de motivação é a depressão resultante de estar isolado, emparedado). Sentir-se feio, fraco, covarde sem sucesso são os frutos amealhados pela comparação com normas e padrões existentes, tanto quanto com os sonhos falhados.  Perdas afetivas, calamidades, acidentes, pandemias causam tris

Dúvida como solução ou negação de limites

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    Quando dúvida em relação ao que se vivencia, ao que se quer ou se espera, se instala, são criadas artificialidades. Esses instrumentos artificiais aproximam ou distanciam o que se está percebendo, questionando, temendo ou resolvendo. É uma situação na qual se faz lembrar a clássica afirmação dos gestaltistas alemães: o afastamento do problema gerador de dúvida pode ser uma aproximação solucionadora de impasse. Essa afirmação é contextualizada no conceito de meio geográfico - que é o meio tal como a ciência o descreve - e no conceito de meio comportamental - que é o meio tal como o indivíduo o percebe. A dúvida que se estrutura no que se apresenta traz sempre soluções, entretanto, quando ela decorre de avaliação e comparação com o que se pretendia, o que se almejava (futuro), ou o que se temia (passado), ela cria mais dificuldades, mais problemas, afastando as possibilidades de solução. E nesse contexto, por meio da atitude de duvidar se exerce onipotência, desconfiança, o autorrefe

Arremedos

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  Imitar, copiar, repetir, plagiar são formas diversas de arremedar. Cópias rascunhadas, esboços, insinuações povoam o dia a dia. A mentira, as fake news , o parecer que é o que parece ser são arremedos de democracia, de ciência, de verdades diversas. Imitar para enganar é o que estrutura o ilegítimo, o mentiroso. Nas vidas pessoais, se pautar em parâmetros configuradores do "isso é certo, isso é bom, é o honesto" cria todo um mercado de ilegítimos, cópias que podem ser acessíveis a todos. Bens de consumo, mercadorias constituem o maior campo de imitação, cópias e arremedos. Visando a mentirosa participação de todos, degrada-se qualidade destruindo recursos naturais. O mais caro, o mais barato, o médio, tudo pode ser adquirido, não importa se o leite adulterado é 75% água, importa que pode ser vendido como leite. Essa imitação e invasão de estruturas quebra características e instaura outras direções: legítimo não é o que é, é o que parece ser. Ser ou parecer quando transposto

"Liberdade é a compreensão das necessidades" - dizia Hegel

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Somente por meio de questionamentos, indagações, esclarecimento de dúvidas e divisões é que se percebe limites e dificuldades. Perceber os limites e a eles se dedicar abre horizontes ao desfazer os nós que aprisionam. Essa mudança de configuração cria mudanças perceptivas responsáveis por novos entendimentos e questionamentos. A continuidade e reversibilidade dessas vivências apontam sempre para novas direções, é a descoberta de possibilidades que configura o que Hegel dizia: "liberdade é a compreensão das necessidades" . No universo político social, quando se pensa que o ponto de apoio é também o ponto de opressão, novas compreensões e comportamentos são desencadeados: o medo desaparece ou o medo aumenta. Nesses contextos se descobre que "a união faz a força". O grupo é o existente fundamental para se desenvolver a mudança que possa ocorrer, as mudanças que possam ser operacionalizadas em reivindicações e consequente aquisição e manutenção de direitos sonegados e a

Variações e identidade

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  Todos percebemos igual tudo que odoriza enquanto ato de cheirar. A comida, por exemplo, pode ser percebida como odor, assim como tudo o que tem gosto é percebido como gosto. A igualdade da percepção se refere às estruturas das diferenças perceptivas, é equivalente a dizer que gosto é gosto, cheiro é cheiro, tato é tato, audição é audição, visão é visão. Entretanto, na igualdade do gustar, do cheirar, do tocar, do ouvir, do ver, tudo é diferente, existem características específicas individuais. A trajetória do dado é variável. Os receptores são tonalizados pelas características individuais de seus estruturantes, de seus contextos. O cheiro ácido do limão é uma fragrância variada em função de outros contextos olfativos, de misturas e interferências que podem neles neutralizar quaisquer percepções. Existem odores, gostos típicos e significativos, assim como sons expressam realidades e sentidos semânticos, como enxergamos o que está difuso, e o mesmo se aplica ao que ouvimos e pegamos. O

Doença, medo e revolta

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  Diante de impasses, acidentes e doenças, inicialmente vivenciamos obstrução, impedimento, interrupção. Nessas situações, o futuro abruptamente se insinua, se presentifica sob forma de planos, sonhos, propósitos e desejos frustrados, e assim o real, o acontecido é um espectro de expectativas, do que é ansiado, temido ou desejado. Essa superposição temporal nos arranca de nossos contextos atuais. O impacto causado por notícia de doença, de morte, de quebra de apoio, de mudança de planos causa medos, apassiva tanto quanto gera revolta, sentimento de raiva ou de inveja. Nesse turbilhão, se sai dos centros relacionais, das situações existentes na vida diária. Os filhos podem passar a ser percebidos, por exemplo, como os que não vão mais ser cuidados, os planos de vida, os empreendimentos, as superações de obstáculos e dificuldades são aniquiladas. Surgem o medo, a revolta, o desânimo. Aceitar o limite, que é a evidência, é aniquilador. Situações de não aceitação, de separação de amantes/f

De repente, o outro

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  Olhar para o outro, ouvi-lo estar atento a ele é uma das formas mais puras de generosidade, dizia a filósofa Simone Weil. Ouvir, deter-se diante do outro, olhar por olhar, ouvir por ouvir, estar diante sem a priori nem objetivo é raro, é difícil, é disponibilidade. Em psicoterapia, pelo treino e aprendizado psicoterápico se faz isso, entretanto, na vida, no cotidiano é quase impossível esse comportamento, pois o outro é sempre um acesso, um caminho, uma parede, um esbarrão e não significa enquanto encontro, embora só se realize enquanto tal. Perceber, ouvir, se deter é enfocar, é verificar e constatar, e essas são importantes etapas e caminhos de descobertas. É o enigma que se esclarece, é a mensagem que se lê, é o outro que se descobre, que se revela quando recebe atenção. Deter-se diante do outro, além de generosidade e descoberta, é encontro, é desafio. O outro quando ouvido deixa de ser enigma, deixa de ser antítese, é a descoberta que revela, é o texto que ensina, é o novo que