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Discordância

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    Discordar é expressar diferença, contradição ao que se pensa e afirma, ao que acontece. Em princípio, discordar resulta, supostamente, de estabelecer uma antítese, um contrário ao que ocorre, ao que se percebe. Nesse sentido, discordar é a bola mágica que mói, é a antítese que possibilita síntese e mudança. Acontece que discordar, geralmente, é também apresentar simplesmente o contrário como exercício de contestação e de revolta. Dizer não, descobrir “cabelo em ovo”, achando que isso invalida a existência do ovo, é meramente manifestação de desagrado. Sob essa ótica a discordância é o que instala a discórdia. É discutir por discutir, negar por negar, apenas expressa incompatibilidade. Diante do outro e dos acontecimentos, das ideias e ideais, discordar significa pouco enquanto discordância, pois somente impede o fluir contínuo da comunicação.   Estabelecer a própria visão, ou seja, o próprio ponto de vista como alfa e ômega de toda explicação, é o reducionismo que ali...

Descaracterizações

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Tudo que se une ou se reúne pode se desunir ou dispersar. Dispersar, separar, é, em certo sentido, descaracterizar, principalmente quando se trata de objetos, fatos e situações. A preservação do contexto é notadamente o identificador, o organizador. Agrupamentos por semelhança podem ser quebrados e facilmente recuperados. Esse é o princípio estruturador das mais diversas situações: das meras coleções de objetos aos grupos que se manifestam em função de luta por princípios e propósitos.   Os pontos de união são como ímãs e polarizam, agrupam e unem. Dispersar é perder o ponto de união, o aglutinador.   Para nós humanos, a passagem do tempo causa dispersão, seja, por exemplo, pelo desaparecimento de pessoas, ultrapassagem de propósitos e motivações, por vencer as etapas das funções escolares, seja pelos colegas da universidade se afastarem ou os grupos de brincadeiras do bairro, do acampamento e colônia de férias, se distanciarem. Nas nossas vivências, além das compati...

Anômalos e criativos

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Anomalia é o desvio, a exceção, o não esperado, e, assim, rapidamente anômalo começa a ser sinônimo de anormal, desagradável. Nesse sentido, as conotações fogem do conceito de anomalia como “ponto fora da curva”, como fora da média de amostragens estatísticas.   É comum essa variação ou mudança de conceitos. O a priori, os preconceitos criam novas gramáticas e sintaxes. As linguagens se tornam incompreensíveis. Falar do acontecido é diferente de falar do imaginado.   No entanto, o que não é esperado, portanto anômalo, contribui para os processos dinâmicos da vida. Diversificar é uma maneira de transliterar, de mudar significados, mantendo a estrutura inicial, e nessas transformações os referenciais são alterados. Tudo que se pensa como regra, padrão e estatística, nega as dinâmicas relacionais.   Em meu livro Tudo é relacional – causalidade nada explica escrevi sobre esses processos, ressaltando que: “Viver sem impor uma direção é viver totalmente presentific...

Dificuldades

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Quando o indivíduo está voltado para resultados, para o futuro, ele nega e não vivencia o presente. A busca de realizar desejos, planos e propósitos atrapalha o que se está vivenciando. É como se a totalidade dos processos, do que se vivencia, obrigasse a novas configurações. Surgem conclusões que escondem e negam o que está acontecendo, e, assim, fantasias, planos e desejos são convertidos em realidade. Essa distorção perceptiva se transforma em portal para decepções e frustrações. O que está se considerando como existente não existe, os significados atribuídos ao que se insinua como existente também não existem, e essa vivência aumenta dúvidas e medos.   A insegurança, a ansiedade são constantes e as dificuldades no lidar com o que acontece são aumentadas. A contabilização do não existente, seja para o bem ou para o mal, gera muita tensão resultante de apostar no que se deseja ou precisa. A motivação voltada para realizar desejos e planos, para aplacar necessidades, é a matér...

O dentro e o fora

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     Toda vez que se estabelece a ideia de interno/externo surge o vazio. Essa delimitação de espaço, dentro e fora, cria absurdos ou resultantes imponderáveis.   Quando o ser humano se autorreferencia, ele estrutura um ponto de partida de onde tudo é percebido, pensado, experienciado. Esse ponto pode ser a própria sobrevivência, o sucesso ou a imaginada felicidade, geralmente traduzida por realidades óbvias, como: ter dinheiro, sucesso profissional, realização familiar, êxito nas crenças religiosas, ou até vivências mais específicas como as ligadas à sexualidade, por exemplo.   Encontrar algo que justifique, preencha ou valide a existência é uma maneira de preencher o vazio. Esse viver por, viver para, essa busca de realização é adaptação, estabilização esvaziada, pois mantém a distorção que a gerou: a não aceitação de estar no mundo com os outros, aberto às variáveis e infinitas vivências e ocorrências. É o fato de não suportar essa multip...

Esmagamentos

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      Quando se resume a definição de homem em organismo mais evoluído da escala biológica, se reduz suas particularidades e atividades, enfim, seu comportamento, às dimensões calculáveis de realização das funções de sobrevivência: fome, sexo, sede e sono. Quando se pensa assim, essas necessidades são o palco, o chão, a base, o contexto onde tudo se desenrola, se desenvolve e eterniza.   Aceitar que questionar – ir além do dado – amplia contextos, possibilidades e necessidades significa estruturar indagações, perguntas e respostas. Esse é um processo de expansão e transformação. Não é redução a características biológicas. A prisão se abre. O mundo é confrontado: o ser humano percebe, pensa, dialoga, escreve, canta, poetiza o caos, quebra ordens milenares.   Sofrimentos aprisionantes (Prometeu), driblar espadas (Dâmocles), iludir príncipes e reis (Maquiavel) são situações, atos humanos, demasiadamente humanos como diria Nietzsche.   📕 Os livros a...

Imobilizações

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Uma das principais consequências do autorreferenciamento é a imobilização. Criar os próprios sistemas de convergência e divergência é sistematizar caminhos que conduzem ao poço sem fundo das certezas e incertezas não questionadas e mantidas como base para sobreviver. Elas são as garantias que permitem defesas e realizações. Patrimônio, conquistas familiares, certezas acerca do que traz sucesso ou fracasso são as balizas, os faróis orientadores do comportamento comprometido. Nesse sentido, é possível estabelecer um corolário: quanto mais certeza mais imobilização. Estacionar nas plataformas de sucesso ou de fracasso, buscar e fazer delas o objetivo da vida, é uma decorrência de a priori, de certezas enrijecidas que tudo definem, comprometem e imobilizam.   Viver para, viver por, nega a vivência do presente, e quando isso ocorre surge desvitalização, despersonalização, isto é, vazio. O ser humano se transforma em objeto manipulado pelo que o cerca: a família, o Estado, o gr...

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