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Disparidades

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  Achar que algo ou alguém é esquisito ou estranho, assim como, ao contrário, sentir familiaridade, são vivências que resultam de comparação nem sempre explicitada.   O que decorre de alguma situação é explicitado pela mesma, entretanto, a vivência disso é contínua, não se apresenta como situação resultante que se evidencia. As vivências, mesmo as desencadeadas por situações anteriores, são continuadas ou constantes. O antes é o depois, o que começa e o que aparece são meros rótulos, não existem enquanto vivência, pois vivência só acontece enquanto presente. Portanto, tudo pode ter suporte no antes ou no depois, mas, apenas existe, existindo. Detectar sentimentos e sensações catalogando-os como decorrentes é a ilusão de explicar e apreender. Dentro dessas distorções perceptivas, mecanismos foram criados. São as regras que definem o que é felicidade, o que é presença, separação e dinâmica, por exemplo. Dessa forma são fabricados os clichês, as regras de co...

Constância

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  Normalmente entendemos constância como o que não muda, e em relação a pessoas são aquelas que são fieis, que mantêm propósitos, compromissos e desejos. Nessa abrangência a constância é uma faca de dois gumes: ela diferencia, corta, separa e também limita.   Ser constante, manter propósitos pode ser uma maneira de negar o tempo, a passagem das situações, a mudança, e, assim, a constância é transformada em compromisso, em medo do próximo passo e proteção para os vendavais que transformam realidades. Torna-se uma cabine de isolamento e proteção que pode ultrapassar a imanência individual e colocar o indivíduo fora dos processos vivenciais. Os juramentos de fidelidade, como o clássico “até que a morte nos separe”, estão calcados em suportes negadores de circunstâncias e vivências, enfim, negadores de mudança.   A vivência contínua de constância impõe questionamentos. São antíteses que exacerbam propósitos e medos e questionam a coerência. Podemos perguntar se a ...

Dogmas e certezas

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  O estabelecimento de certezas é uma das maiores necessidades, assim como uma das maiores dificuldades cotidianas. Acreditar no que se percebe, no que se pensa, ou ainda, acreditar no outro ou em si mesmo é um processo que geralmente implica desespero e alienação.   Essa dificuldade cotidiana psicológica é também filosófica, epistemológica. Quando a continuidade dos processos é quebrada por introdução de referências a partir das quais se possa pensar, corrigir e também resumir dificuldades, rompe a Gestalt, a totalidade dos fenômenos, e, é assim que se distorce.   É bom lembrarmos de Aristóteles, cuja obra ainda é pilar do pensamento filosófico atual, apesar de propiciar distorções e divisões com suas “categorias lógicas” a priori. “ As dez categorias de Aristóteles são: substância, quantidade, qualidade, relação, lugar, tempo, posição, estado, ações e paixões para classificar tudo o que existe. É a Teoria de Classe com seus agrupamentos e categorias, ...

“Os asnos preferem o feno ao ouro”

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  É atribuída a Heráclito a frase “os asnos preferem o feno ao ouro” . Essa frase pode ser pensada como uma máxima filosófica usada quando se quer resumir o que é imanente ou aderente ao humano. É também uma maneira de explicar os valores enquanto circunstâncias ou atribuição contingente. O feno, a fonte de alimento, é o básico. É o que permite sobreviver: basta ser mastigado, engolido, comido. O ouro pode permitir compra dos alimentos, mas por meio de instrumentos indiretos que destroem convergências naturais.   Valorizar o ouro mais que qualquer coisa causou a morte de Midas, que tendo seu desejo atendido pelos deuses, tudo que pegava virava ouro.   Perder de vista o que é imanente, estruturante do viver, gera deslocamentos. Faz com que o indivíduo seja inserido em um universo, um sistema de valores extrínsecos e aderentes. A grande transformação humana acontece quando o valor, o significado atribuído passa a situar e dividir comportamentos. Não é mais gostar ...

Panis et circensis

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  Perceber que o lúdico prepondera nas aspirações e desejos humanos foi decisivo para que estruturas estatais, governamentais e ditatoriais lidassem com os objetivos de domínio e submissão. Desde os tiranos romanos isso é uma constante. Reduzidos à satisfação de suas necessidades básicas biológicas de fome, sede, sono e atividade sexual, o vazio, a insatisfação se apodera dos homens. Viver para comer reduz suas possibilidades. Buscar comer um pouco mais é transformar sua vida em luta contínua para sobreviver, para caçar alimentos.    Esquecer essa submissão limitadora e despersonalizadora faz buscar diversões, leva a descobrir o lúdico como o que abre perspectivas e muda o jogo opressor. É a fantasia, a ilusão e a esperança, mas é também a perspectiva que humaniza. Adquirir perspectiva é uma maneira de, ao questionar limites, transformá-los, uma maneira de neutralizar os anestésicos, a dopagem realizada pelos sistemas despersonalizadores. Criar a próp...

Surpresas esmagadoras

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    Assistindo ao filme Norueguês Valor Sentimental , exemplar em descrever questões vivenciais geradas pela descontinuidade, perdas abruptas e não contextualizadas, pensei no impacto de acontecimentos avassaladores e imprevistos.   Surpresas são percebidas como esmagadoras quando quebram referenciais, levando o indivíduo a se sentir perdido, apartado do que o definia e situava. Essa vivência é abismal. Dificilmente recupera-se desse inesperado.   É comum, na infância, o desespero decorrente da morte dos pais ou de um dos pais. A terra treme e não há explicação para o súbito acontecimento. O desespero passa a ser frequente. Se perde a crença no que está diante, nada significa, pois a qualquer momento tudo pode sumir, desaparecer. Guerras, calamidades, perda do emprego do pai, enfim, transformações sociais, cataclismos climáticos e infinitos acontecimentos psicológicos descontinuam a vivência do estar no mundo com o outro. Essa descontinuidade gera medo, r...

Ser humano - IV

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      Ao longo dos séculos foi desesperador lidar com o que se entendia como a “horda humana”, desde os raptos tribais às matanças rituais, assim como às guerras fratricidas e de conquista territorial.   Estados, leis, regras foram criados para organizar e controlar os seres humanos reduzidos à sobrevivência. Entretanto, o espírito das leis, a criação de valores universais, os pilares religiosos aumentaram os níveis de sobrevivência, de despersonalização ao desenvolverem esses valores e normas, pois as medidas de avaliação do humano passaram a substituir o avaliado. A máscara, o invólucro tornaram-se definidores. Valores e regras são geradores de medo, raiva e apoio. Ter o que estabiliza, fazer parte do que brilha e apoia é o que se deseja. Quando a filiação às regras por outros ditadas é o básico vive-se em função de resultados, abrindo mão, atropelando o presente, o que existe. O Estado, a Igreja, a defesa do privado são constantes no espírito das leis, e, ...

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