Congruência

Bitolado pelo que considera adequado e inadequado o indivíduo se desespera, procura adaptação, evita fugir dos padrões que massacram, que são vivenciados como inadequados, busca garantias, segurança, agarra-se às metas e propósitos saneadores de seu mal-estar. Para ele é sempre o outro quem determina se há acerto ou erro, ou substitui o outro e seu julgamento pelos resultados de sucesso ou insucesso.

As vivências de sobrevivência sempre são configuradas por garantias e respaldos econômicos familiares e institucionais. Situações extremas ameaçam e tornam nebulosas essas configurações, exigem que a segurança e os cuidados sejam reforçados. Todas as motivações e preocupações se voltam para salvar a si mesmo e evitar impasses. Nesse contexto permeado de crises as dificuldades, os conflitos e medos são transformados em incentivo para sobreviver. Quanto maior o medo, a não aceitação, a alienação e despersonalização, mais tudo conflui para espreitar, cuidar e garantir o inefável. E assim, a ansiedade, as dificuldades que fazem escorregar, ficam cada vez mais ameaçadoras, transformando-se em rochedos consistentes. Soluções ambíguas ganham corpo e são identificadas como consistência reparadora caso sejam salvaguardadas. Surgem, por exemplo, delírios e ilusões tais como o medo de perder o emprego que faz com que seja fundamental submeter-se à chefia e trabalhar além do que é pago, submeter-se à autoridade, pela dedicação passa a ser uma chave mágica para manter a ilusão de não ser despedido.

Na esfera afetiva, fingir não perceber a traição, o engano do parceiro é maneira de iludir-se, de sentir a garantia da continuidade do relacionamento, tanto quanto é manter a alienação e solidão, responsáveis pela manutenção do autorreferenciamento, do posicionamento, da omissão.

Na psicoterapia é frequente a exposição de medos e de “ideias de ruína” como justificativa para nada fazer, para nada mudar, para não se dedicar a cuidar do que ameaça e solapa. É um impasse que só será resolvido quando os questionamentos atingirem a congruência da motivação. Nesse momento, o indivíduo percebe que ele é o problema e que isso é mais grave que todas as dificuldades que o cercam; percebe que sempre há uma solução quando se globaliza contradições, quando se quebra dicotomias como adequação/inadequação, certo/errado, confortável/desconfortável; percebe que além de ontem e amanhã, existe o hoje.





“Sempre em movimento - uma vida”, de Oliver Sacks

verafelicidade@gmail.com

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