Polarização e Asno de Buridan



Representar impasses como a dificuldade de decisão, como a indecisão que implica em impossibilidade de realizar, constitui o paradoxo representado pela polarização. Certos impasses sociais e filosóficos podem ser considerados tomando o asno, o burro como metáfora inspiradora.

Na fábula dos Burros Espertos, os dois atados por uma curta corda avistam dois molhos de feno em lados opostos e tentando comê-los permanecem paralisados pela corda estirada, puxando-a pelas extremidades a que estão amarrados - cada qual deseja realizar suas motivações, saciar sua fome. Buscando atingir o feno, o capim, brigam sem atingir, sem perceber que estão amarrados no mesmo laço, na mesma corda. Encontram a solução indo juntos a um molho de feno.

Compromisso gerador de polarização, conflitos e lutas que só podem ser resolvidas quando os nós são desatados, quando o que prende e separa é removido. Estar livre é poder seguir os próprios caminhos e não ser induzido, manipulado pela fome, pelas necessidades contingentes percorrendo trilhas arbitradas e parcializadas. 

Atribui-se ao filósofo Buridan (séc.XIV) a discussão sobre o livre-arbítrio expressa no paradoxo conhecido como Asno de Buridan, a imagem de um asno que, sentindo fome e sede ao mesmo tempo, vacila entre o molho de feno e o barril de água, incapaz de se decidir por um ou outro, morrendo ao final. É um exemplo da incapacidade de se decidir entre dois comportamentos quando se sente motivado em favor de um e outro.

O burro é também personagem bíblico iluminado pela entrada triunfante em Jerusalém levando Jesus, tanto quanto é o clássico “burro de carga”, o teimoso, o considerado difícil de assimilar, de aprender e o resistente e usual transporte dos palestinos, dos árabes e dos nordestinos.

Não há polarização, não há antagonismos quando as possibilidades são consideradas. As polarizações resultam de fragmentação imantada. Juntar pedaços, cacos cria polos de coesão que independem do que está acontecendo, pois são previamente determinados por interesses alheios aos próprios antagonismos. Polarizar é sempre um artifício que esconde outras realidades, é criar falso antagonismo e assim estabelecer lugares considerados bons e ruins, variando conforme o que é observado. Esta aparente realidade quântica subtrai densidades, particularidades e tudo engloba propiciando outras visualizações, outros propósitos. Não há o bem e o mal, não há a “direita” ou “esquerda”; o que existe é uma continuidade fenomênica de variações que não podem ser reduzidas à dilemas. Necessário sair da polarização para que se encontre os dados, os contínuos processuais. 

No caso do Brasil, nas recentes polarizações políticas, a questão não é o bem ou o mal. A questão é o que vai permitir igualdade, liberdade, ou o que não vai permiti-las. É o que não vai aumentar as discriminações étnicas, sociais, sexuais e econômicas. É o que vai permitir ser com o outro enquanto liberdade de ir e vir, sem atropelos nem impedimentos descontinuadores. Essa constatação evita cair em imobilizações como as dos Burros Espertos e do Asno de Buridan.

Lutar pela democracia, distribuição igualitária de direitos e deveres, é o que se exige. Clichês, meias verdades e leis que permitem escolher quem morre, quem vive, quem é humano, quem é verme, quem é parasita sempre geram campos de concentração, campos de extermínio, campos de tortura. São necessárias ações contrárias, lucidez e luta constante para manutenção das conquistas civilizatórias e erradicação da barbárie.

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