Thursday, January 15

Misantropo

Misantropia, ou antissociabilidade, ou fobia social, é um dos deslocamentos da não aceitação. Frequentemente, sentindo-se fraco, medroso, incapaz, impossibilitado de se comunicar, o indivíduo se reparte em máscaras e papéis que lhe permitem participar das esferas sociais que o contextualizam. Agindo mecânica e programadamente, esvazia-se. O outro - o ser humano - o horroriza, o apavora e é evitado por ele, desde que o contato o ameaça a sair dos esquemas que criou, desencadeando situações geralmente incontroláveis para si. Imaginar-se sozinho no mundo, senhor de tudo, sem controles exercidos por outros, sem testemunhas, é, tanto seu sonho, quanto sua realidade de fracasso, pois sabe que os outros existem e que sempre o perturbam. No desespero da vivência desta evidência - a existência dos outros, o não estar sozinho - ele busca constatemente negá-los, expressando preconceitos, raivas, ódios, desenvolvendo comportamentos agressivos que podem chegar à violência: matar pessoas, destruir valores deliberadamente, mascarar-se com tudo que é considerado humano e sagrado, como fazem alguns lideres religiosos, alguns políticos estimuladores de guerras e incentivadores de discórdia e destruição.

A visão literária do misantropo, principalmente a partir de Molière, como um ser radical e indignado que não aceita a hipocrisia social, tanto quanto a visão da misantropia como condição inata de certos indivíduos tímidos, solitários, mas inofensivos, desconsidera uma problemática psicológica que pode se tornar grave e destruidora para si e para o outro. Dificuldades psicológicas não resultam de condições inatas, não existe natureza humana. Problemas psicológicos decorrem de não aceitações estabelecidas pelo relacionamento com o outro, com o mundo e consigo mesmo. Frequentemente, as dificuldades relacionais, o isolamento como forma de recusa ao que se considera hipocrisia social, tanto quanto radicalismos obstinados, são deslocamentos de problemáticas pessoais.

Poderíamos pensar em massacres religiosos, guerras econômicas, genocídios, como exteriorização de psicopatias ou de misantropia, mas, pensar assim é um enfoque causalista, determinista, onde a tipologia pisicológica estabeleceria tudo. Misantropos, antissociais, psicopatas, não são vetores agindo em grande escala (o próprio Hitler não o foi); eles são catalisadores que impõem atmosferas próprias aos seus relacionamentos e que através da sucessão contínua destas atmosferas, estabelecem posicionamentos convergentes de verdades/mentiras, manipuladas conforme conveniência e objetivos autorreferenciados, podendo até fomentar massacres e guerras.

Querer viver sozinho, desejar a não existência do outro, a não existência da sociedade, é uma maneira de esconder problemas ou de evitar que eles apareçam. Solidão, nestes casos, é o álibi gerado pelo medo da participação, é também o caminho régio da depressão e das vontades - geralmente perversões - destruidoras do outro.



















- “Deixe-me em paz” de Murong Xuecun
- “O silêncio do algoz - Face a face com um torturador do Khmer Vermelho” de François Bizot

verafelicidade@gmail.com

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