Ânimo e desânimo




Quando se está tranquilo e satisfeito é por estar vivenciando o presente, a realidade enquanto ela própria. Assim, o que acontece é o que contextualiza a vivência, não há acréscimo valorativo. O bem-estar, o mal-estar são tranquilamente vivenciados pois são situantes, e é isso que permite aceitar, transformar ou suportar o cotidiano.

Dificilmente as pessoas se sentem tranquilas, pois frequentemente elas não vivenciam o presente, não vivenciam a sua realidade como pregnante. A não aceitação do que acontece cria frustração, irritação, desânimo. Geralmente elas preferem ocultar, superar ou ultrapassar as situações de não aceitação e frustração por meio de sonhos, metas e negação do que está ocorrendo. Esse processo obscurece o presente, joga o indivíduo para um depois não existente, tornando impossível estar situado vivenciando o real.

A negação da realidade, do pé no chão, da convivência com o que ocorre cria insegurança, gera omissão, medos responsáveis por constante ansiedade. Lidar com esses subprodutos - da não vivência do presente - obriga a viver em constantes sobressaltos, cria desânimo, falta de motivação - depressão.

Quando a vivência do presente é negada por não atender aos valores desejados, o indivíduo se protege, blindando-se em sonhos, metas e desejos que esfolam sua pele. É o cobertor de espinhos que ao proteger, fere, lesiona. Perde-se tranquilidade e consequentemente perde-se a motivação para perceber o que está em volta e diante de si. Sem condição de luta, de exercer a própria vontade, o indivíduo se refugia em brechas, em vãos (geralmente religiosos por meio de constantes promessas e crenças). Esse refúgio é o aprisionamento que impede mobilidade, confiança, tranquilidade, e assim a ansiedade, o medo, a expectativa, o desânimo constituem seu dia a dia.

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