Postagens

Capacidades transformadas em limites aniquilam o indivíduo

Seres humanos dispõem de inúmeras capacidades de transformar tudo que está ao seu redor, inclusive de transformar o outro e a si mesmo. Esta constante capacidade de diálogo e transformação, se exerce em função de seus referenciais constituintes. Quanto mais limitado e voltado para sobrevivência, para realização de necessidades, ou quanto mais centrado no que estabelece como prazer, mais autorreferenciado, empenhado na realização de suas necessidades de sobreviver. Nascido e desenvolvendo-se em atmosferas - sociedade e família - onde o valorizado e significativo é o que se consegue, é o que se amealha, o desenvolvimento humano, individual, vai personalizando estas atitudes, mesmo que discordando do que lhe é mostrado. Um típico exemplo desta configuração é a atitude desleixada do filho em relação aos valores conservadores dos pais, mas, que se mantém totalmente dedicado à manutenção dos propósitos e ideais do grupo vanguardeiro a que pertence, chegando a lutar, discriminar tudo qu...

Aplausos

Os aplausos animam, incentivam, tanto quanto comprometem ao criar expectativas de mantê-los. As expectativas estabelecem medo de falhar, possibilitando assim, tensão diante de possíveis frustrações. Ser aplaudido é ser reconhecido, no mínimo como alguém a quem se deve admiração, reconhecimento. Situações de ser aplaudido sempre expõem o indivíduo. A vivência desta exposição varia de pessoa para pessoa. Uns, tudo fazem para conseguir este resultado, o aplauso, e tanto empenho para conseguí-lo compromete, não se discerne mais o espontâneo do programado. Para outros, ser aplaudido é uma circunstância significativa enquanto processo e participação, mas que pouco vale enquanto compromisso. Vivenciar o aplauso como complemento natural de processos é um congraçamento. Esperar e lutar pelo aplauso, enquanto objetivo de se manter no topo das paradas, é a vida empenhada em função de compromissos e sucessos lucrativos. O aplauso é um apoio, ou um desafio, uma continuidade do expressar-s...

Interrupção e violência

A meta não realizada, o empenho não concretizado cria uma interrupção que leva a fazer qualquer coisa para completá-lo. Defrontar-se com o incompleto geralmente cria motivação para a realização de tarefas interrompidas. Tudo que permanece não realizado, ou parcialmente realizado, se estabelece como incompleto. O que falta à sua realização decorre de interrupção. Situações interrompidas podem ser percebidas como tal quando existem propósitos. Tudo que é determinado para ser feito, ao não ser completado, cria interrupção. O propósito, desejo ou meta de realização cria uma idéia-fixa, um fanatismo responsável por violências e utilização de quaisquer meios para realizar o que se considera interrompido. Muitas situações interrompidas jamais são percebidas como tal, pois não criam referenciais de processos, e sim percepções de mera junção ou aglutinação ocasional. A continuidade de afetos e ligações amorosas, por exemplo, pode ser considerada nesses referenciais de interrupções...

Um lugar ao sol

Imagem
Um lugar ao sol é o que geralmente se deseja, embora sempre se tenha esse lugar. Querer o destaque, o brilho, ser considerado é o que se almeja quando não há satisfação com os limites vivenciados. Somos criados, educados para “ser alguém”, para fazer diferença e significar, ultrapassando as dificuldades ou facilidades existentes. Famílias social e economicamente bem situadas desejam e se esforçam para que seus descendentes mantenham os padrões conseguidos. Famílias social e economicamente com fracos acessos e com decisões cooptadas lutam para que seus filhos sejam diferentes, para que consigam sobressair e atingir melhor situação. Esses desejos estabelecem metas, referenciais de futuro, que passam a ser os contextos estruturantes das motivações e dos desejos, das decisões e empreendimentos. Surgem os lutadores, os esforçados, os que tudo fazem para manter o patrimônio herdado, ou buscado, mesmo sacrificando as próprias vontades. Querer ser alguém é, implicitamente, admitir não se...

Nostalgia

Imagem
Nada é perene, salvo o efêmero. Este aparente oximoro, este paradoxo neutralizado pela continuidade que quebra posicionamentos, é, frequentemente, vivenciado como totalidade nas situações de perda, luto, morte, doença. Os processos são caracterizados pela anomia. Quando se estabelece a generalização, os processos se perdem. Personalizar é, em certo sentido, segmentar. Ao criar posições, registramos fatos, funções, significados. As notas aciduladas, os sons ensurdecedores quebram a continuidade da harmonia, tanto quanto as definem. Os rastros vivenciais, significados pelas percepções e memórias, são, mais tarde, transferidos para o outro sob forma de registros: fatos, escritos, músicas, coisas criadas, fabricadas. Estes teares de realização ajudam a construir paisagens, referências. Percebé-los cria lembranças, tristezas, nostalgias, pois, pela insinuação mostram a evidência do outro: autores, participantes. Lembrar-se de si mesmo, assistir às mudanças e passagens signific...

Rejeitados

Ser sempre desconsiderado, percebido apenas como ocupante de um espaço faz com que o indivíduo aceite não existir significadamente, admita existir apenas em função de demandas, de respostas ao solicitado, ou faz com que construa motivações para ser alguém, para chamar a atenção, para ser considerado, nem que seja por indisciplina e maldade. Ser isolado do mundo, do relacionamento familiar, ou ser julgado inútil, desagradável e prejudicial cria os submissos, tanto quanto os revoltados. É frequente nas famílias de renda abaixo da média e cheias de planos de ascensão social (metas) considerarem os filhos “uma boca à mais, um fardo” e, como tal, desconsiderados enquanto individualidade. Submetidos à diária alegação de como eles precisam retribuir o que foi e é gasto, são cada vez mais exilados do afeto, despersonalizados e programados para mais tarde retribuir tudo que receberam. Agradecer toda a ajuda, o pão cotidiano e correr atrás da meta, da realização é uma constante esvazi...

Deslocamentos e pânicos

Imagem
A ansiedade se caracteriza pela atividade repetida irrefreável, que vai desde o pensar, repensar, pensar de novo até agir, andar de um lado para o outro, fazer, refazer, antecipar ações, sem saber o que ocorre. Impedindo concentração e contituidade, a ansiedade desestrutura o indivíduo. É exatamente por causa desta desestruturação que ela é bem-vinda, por mais estranha que esta afirmação pareça. Estar ansioso é não perceber as não aceitações, os medos, as culpas e conflitos. Na dinâmica psicológica tudo é globalizado enquanto interação, mas ela não é percebida quando surgem os curto-circuitos, tal como acontece na ansiedade. Deter-se na ansiedade, estar nela posicionado, cria outros deslocamentos, o pânico, por exemplo. Não saber como agir, estar submetido ao turbilhão de dúvidas e demandas, posiciona o indivíduo e neste momento, o pânico aparece. O pânico, como deslocamento da ansiedade, é um ponto de segurança, permite que, se detendo nos sintomas desconfortáveis, incômodos...

Especificidade estruturante - personalidade

Imagem
Cada ser humano realiza um resumo de todas as variáveis que o estruturam: relação com a família, com a sociedade, a educação, suas vivências, seus comportamentos, medos e desejos, tudo isto é resumido de uma forma específica em cada um. É quase um imperativo, uma necessidade, sempre contingente. O processamento de relações é realizado pelo autorreferenciamento ou pela disponibilidade, ensejando sempre novas configurações e, assim, contextos e atitudes são estruturadas. Uns se caracterizam pelo orgulho, outros aceitam o que lhes é propiciado, outros ainda pagam para ver, desconfiam. Tudo isto constitue o que se poderia chamar de o ponto básico de cada um. Não é uma tendência, tampouco um instinto, é o resultado final de processos que estruturam contextos de valores, de significados que permitem mapas organizadores e sinalizadores. Isto é o que faz com que se saiba com quem se lida, o que atinge ou é indiferente ao outro. Tendo sido educado e aceito para sobreviver, não importa...

Apropriação

Imagem
Não se aceitando, buscando ser aceito, buscando impressionar, mas sem recursos próprios, o indivíduo apropría-se de vivências, de conhecimentos e histórias alheias para compor uma imagem que signifique dentro de padrões valorizados. Está sempre repetindo opiniões e ações de outros como se fossem suas, falta-lhe autenticidade. Seus esforços direcionam-se a observar para apropriar-se, tudo se transforma em informações a serem acumuladas e utilizadas. Viver amealhando vivências de outros é realizar colagens descontextualizadas, misturas sem consistência, imagens despersonalizadas. Tudo é realizado em função de agradar, de marcar presença, mas, para isto, é preciso esconder e despistar a própria incapacidade, não ser percebido como quem imita e copia, é preciso manter as imagens que garantam o disfarce, que evitem ser descoberto. O processo de apropriação transforma os outros e a si mesmo em objeto, necessariamente levando a enganos, mentiras e violência. A coisificação do humano...

Sem alternativas

Imagem
Limites extremos são aqueles nos quais em situação de total impotência, sem alternativas, o indivíduo tem que escolher a destruição de sua própria vida. Nem sempre as dificuldades se colocam como alternativas entre “a bolsa ou a vida” . Às vezes, ou se joga no abismo, ou desmaia, ou cai nas garras do perseguidor. Tentar mudar o panorama que aflige, que promete destruir é possível quando se imagina transformar o agressor, o redutor de alternativas, em uma possibilidade de diálogo. Esta atitude mágica, pois considera situações não existentes - o diálogo por exemplo - geralmente não funciona, salvo se significar confundir, jogar areia nos olhos do que está diante. Apostar no impossível pode remover obstáculos ao gerar uma atitude diferente de passividade, de medo. Fazer surgir interlocução é tentar obrigar o outro a ser diferente do que ele se propõe, criando interatividade. Isto gera mais raiva, mais agressão ou elastece os limites, permitindo reconfigurações. Em certo sentido, es...

Contato

verafelicidade@gmail.com