Thursday, November 10

Dividir para entender, dividir para limitar

Dividir sempre fez parte das estratégias de vida, estratégias de guerra e organização das comunidades.

Ir por etapas, seguir o passo a passo é a regra para análise e resolução de problemas. As classificações, as tipificações são fruto de divisões. Dividir é separar, fracionar, quebrar, criar classes, tipos. Separa-se para em seguida agrupar-se na tentativa de organizar e entender.

Desde pequenos somos ensinados a pensar e agir a partir das divisões. Crianças aprendem a traçar, a demarcar territórios, separarando conceitos que são indissolúveis. A reta, por exemplo é uma sucessão infinita de pontos, o ponto é interseção de infinitas retas. Esta sequência de relações foi transformada na afirmação: ligando o ponto A ao ponto B, temos uma reta. Uma simplificação que leva a ignorar os infinitos pontos da reta e sua interseção com outras retas. O resultado é que se segue na vida imaginando setas ----->  interações entre pontos previamente determinados <----> pensando tudo em termos de causa e efeito, em termos de consequência, de divergência.

Aprende-se a ser dualista, a criar dicotomias, tomar as resultantes, os polos como unidades que se opõem, jamais se aprende que a polaridade resulta da unidade.

Negando a relação restam os elementos, como eu dizia em "Terra e Ouro são Iguais": "O pensamento filosófico/ psicológico enfocou os polos, os posicionamentos, quebrando ou desprezando o eixo, a relação configurativa de sujeito e objeto. A filosofia, na busca de explicar o conhecimento, imaginou um sujeito que conhecia e objetos que eram conhecidos. Isto posto e aceito, surgiu o grande debate sobre quem iniciava o processo. Era o sujeito que pela idéia criava o mundo ou o mundo que era captado pelo sujeito? Surgiram assim as diversas filosofias idealistas e materialistas. Resíduos posicionantes disso são os conceitos de idéia, alma, espírito, consciência, mente, sensações, matéria, como explicativos desencadeantes dos processos cognitivos". *

Divide-se para limitar áreas e manipular conhecimentos. Bastaria se deter na unidade ser no mundo e tudo teria sido muito diferente: não teríamos a idéia de inconsciente, de interno/externo, de natureza humana, energias ou ações divinas para explicar o comportamento humano.

É muito fácil copiar e colar, partir e depois juntar a fim de tecer considerações acerca de qualquer coisa. Esta atitude de separar, cria preconceitos, certezas, regras, medos, limites, controles, influenciando a formação de divisões e restrições, criando situações inexistentes como a tão comentada vida interior, realidade externa/interna, vivência objetiva/subjetiva, rótulos que viraram verdades. Como o comportamento humano é estruturado através de relacionamentos, ele integra estas divisões. Isto gera conflito e o fragmenta. O ser ou não ser, o fazer ou não fazer, desistir ou não desistir de relacionamentos, mudar de trabalho ou continuar no trabalho etc são divisões vivenciadas no contexto desta avaliação, onde tudo se exclui, nada se integra.

Em Psicoterapia Gestaltista sabemos que o que divide é o que unifica. A divisão decorre de um processo que foi quebrado, separado, interrompido. Encontrar o ponto (motivo) da divisão é encontrar o contexto, a sequência de unificação.

* "Terra e Ouro são Iguais, Percepção em Psicoterapia Gestaltista", Vera Felicidade A. Campos - pags 25 e 26


















- "A Divina Comédia", Dante Alighieri
- "O Príncipe",  Nicolau Maquiavel


verafelicidade@gmail.com

14 comments:

  1. Vera,
    No post anterior Clarissa disse que ao ler seus artigos tinha vontade de lhe abraçar como forma de agradecimento. Eu tenho vontade de aplaudir.

    Passei a vida dividindo, separando, "listando", comparando, categorizando, avaliando, sem me dar conta que toda essa "organização"/ pragmatismo ( ! ) estava demarcando, revelando, criando limites, fronteiras, que impedem a continuidade do processo, relacionamento. Movimento!!

    Uma bailarina agindo como funcionária de repartição pública!

    De repente, "o Todo não é a soma das partes " ganha uma outra dimensão para mim.

    Obrigada Vera!
    Beijo,
    Milena

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  2. Milena, emocionante tudo que você transpôs e a ampliação de espaço e vivência conseguida. Um grande salto!

    Beijos

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  3. Oi Vera adorei o seu artigo lendo com mais atenção, Milena amei o seu comentário, que síntese viu!

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  4. Rosélia, muito bom você estar participando e acompanhando os comentários.

    Beijos

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  5. Vera, já aguardo o "encontro" com seus artigos como a raposa do "Pequeno Príncipe", totalmente cativada; mas por mais que tente "preparar meu coração", você sempre surpreende!

    À primeira vista parecia que seria um artigo corriqueiro sobre as questões relacionadas ao analisar como prática fundamentada em divisões e estas discussões modernas que propõem interações multidisciplinares exatamente para tentar sanar os problemas advindos do excesso de divisões na ciência por exemplo.

    Mas seu artigo é fantástico porque vai muito além disso, vai ao cerne da questão, deixa claro como ignorar "a relação" é a origem dos erros, dos enganos, dos problemas, das neuroses, do dualismo enfim… Esta sua frase é tudo: "Bastaria se deter na unidade ser no mundo e tudo teria sido muito diferente". E neste ponto o artigo remete a toda sua obra, a originalidade de seu pensamento, de sua teoria de suas explicações.

    E o incrível é que nesta histórica sucessão de erros, associamos 'totalidade' a caos e indefinição e 'parte' a classificação e compreensão. Concordo com a Milena, depois de ler este seu artigo, "o todo não é a soma das partes" torna-se uma afirmação transformadora de profundo significado.

    Você acha que a necessidade de sobrevivência e o consequente desenvolvimento de tecnologias, o domínio e controle da vida que a tecnologia gera, desde o homem da caverna ao homem moderno que tranquilamente entra em um avião, você acha que isso gerou a ilusão de compreensão e o fascínio pelas classificações? Quero dizer, é como se o homem ficasse deslumbrado com esse relativo sucesso tecnológico, resultado desta ação analítica e seguisse cego aos grandes problemas que ela também gera para sua humanidade.

    Abraço

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  6. Ana, obrigada pela espera do artigo e pelas palavras animadoras.

    Quanto a sua pergunta, acho que sim: "o domínio e controle da vida que a tecnologia gera, desde o homem da caverna ao homem moderno que tranquilamente entra em um avião… gerou a ilusão de compreensão e o fascínio pelas classificações".

    Penso que o homem tenta controlar a vida, a morte, daí precisar se agarrar na tecnologia e nas "verdades" propaladas; esta atitude funciona como amuleto, é o escapulário da sorte e equivalentes ou o check up semestral, garantindo a certeza-ilusão de saúde, os selos de garantia etc. Tudo isso vai criar um arsenal de instrumento e a atitude vai ser de instrumentalizar tudo que funciona e não falha.

    Abraço

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  7. Vera, tenho acompanhado, ainda que silenciosamente, seus artigos,aqui postados, com tanta clareza, sem perder o fio condutor de sua escrita rasgante, seu pensamento original (como bem comenta a Ana - que faz uma bela dobradinha com vc) e os perceebo-compreendo-os, já que ambos são a mesma coisa, mais e melhor. Será que minha percepção se ampliou ou vc, com este veículo, nos conduz a isso?

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  8. Obrigada Katia, por seus comentários. Os textos do blog exemplificam os conceitos da Psicoterapia Gestaltista desenvolvidos nos livros; fica mais fácil, mas com certeza também, sua percepção deve ter se ampliado... rs.

    Beijos

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  9. Os artigos são sempre incríveis e elucidativos dos conceitos, mas quando vamos aos livros a coisa se amplia lindamente. Como você colocou a referência do Terra e Ouro, Vera, fui lá buscar o trecho de onde tirou a citação que fez aqui e fiquei lendo sem parar, porque é difícil mesmo parar quando a gente entra em uma viagem de descobertas.

    Perceber que a polaridade resulta da unidade, que a divisão expressa unidade, que dois resulta de um abre um horizonte sem fim... De repente, dá pra ver o buraco (vazio) que antes só se tateava no escuro, dá pra ver a ferida, é incrível. Isso está me fazendo rever uma série de conceitos há muito incorporados à minha forma de ver as coisas e que, ao mesmo tempo em que constituíam crenças, me levavam a questioná-los porque sempre faltava alguma coisa...

    Bem, apesar de entender que a questão de sujeito e objeto serem parte de um eixo é muito mais abrangente do que o exemplo que dei abaixo, não pude deixar de pensar nisto ao ler o artigo.

    Ouvir “meu corpo” e “meu espírito” sempre me incomodou profundamente, mas eu não entendia bem a razão. Resmungava comigo mesma que não podia existir meu corpo e meu espírito assim como existe meu carro e meu apartamento. Como é esquisito ouvir uma pessoa dizer “meu corpo e meu espírito”, pois quem está falando comigo então? Como ninguém fazia coro comigo, tentava amenizar o incômodo pensando que era apenas uma questão de colocação de vocábulos, uma forma didática de tratar do assunto, mas o incômodo persistiu a vida inteira. Agora vejo que é exatamente essa “forma didática de tratar do assunto” que estraga a coisa toda, porque ela está impregnada de divisões que desconfiguram, que nos impedem de perceber o que realmente é estar vivo e ser uma pessoa. Da mesma forma, falar de si dizendo “minha consciência me diz que devo fazer tal coisa, mas, no fundo, eu quero fazer outra” também é desnorteador... eu quem? que consciência? Alguém pode questionar: “ah, mas ele só quis dizer que sabe o que deve fazer, mas tem vontade de fazer outra coisa.” Pois é, mas não é só isso. O discurso constrói sentidos, fala do que somos. Se eu falo de mim como uma consciência e um outro “eu” é porque minha relação no mundo é assim dividida. Ou não?
    Fiz confusão, Vera?

    Bem, isso é apenas um exemplo do mundo novo que ficou para mim e que está todo à frente ainda para ser descoberto.

    Obrigada, Vera.
    Beijos.

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  10. Perfeito Clarissa. A "forma didática de tratar o assunto" é um belo resumo que você fez de tudo que caracteriza, estrutura e mantém as divisões; vale para tudo! Você está super clara, nada confusa.

    Beijos

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  11. Ah, que bom! Eu estava na duvida se os exemplos se aplicavam mesmo à questão do sujeito e do objeto.

    A propósito, adorei saber a origem do título do livro, rs. (p 32)

    Beijos.

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  12. Clarissa, uma das questões fundamentais do texto e do livro "Terra e Ouro são Iguais" é resolver, de uma maneira unitária, a dicotomia criada entre sujeito e objeto. Tem um capítulo nesse livro "A essência humana é uma unidade que se polariza enquanto sujeito e objeto", onde escrevo na pag 89: "Na relação perceptiva, estruturam-se um sujeito e um objeto, é a intencionalidade, a consciência de. Quando percebo, sou um sujeito que percebe objetos que estão diante de mim. Isso pode ser feito tanto no contexto do presente, como no do passado (pela memória) e no do futuro (pelo pensamento). Quando percebo a mim mesma, a percepção da minha percepção transforma-me em objeto. Que é eu? Ou quem sou eu? Uma polaridade da minha essência humana configurando-se como contexto da minha percepção. Com esse enunciado afirmamos que a percepção é resultante e estruturante de posicionamentos."

    Beijos

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  13. Bom dia, Vera

    Li o capítulo que vc indicou, mas vou voltar ao ponto em que havia parado (cap. 4), pois muitas coisas não ficaram claras. Acho que, se eu acompanhar seu pensamento no livro, talvez aclare o que ficou confuso.

    Obrigada =)
    beijos.

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