Thursday, December 8

Adaptação e mudança - aceitação da não aceitação

Geralmente o adaptado é o posicionado, o que renunciou a qualquer mudança para manter o que conseguiu. Assim vivendo ele é um mediano, é também o que não se aceita medíocre, adaptado. Surgem sintomas e deslocamentos a fim de criar um movimento, uma dinâmica - ainda que ilusória - diante de seus posicionamentos. Movimentos pendulares, ao longo do tempo dividem e fragmentam, estruturando não aceitação de ser o que é, de ter a vida que tem. No processo terapêutico, ao perceber a não aceitação, suas estruturas e implicações, surge a aceitação da não aceitação. É um momento muito importante, é a quebra da adaptação, do posicionamento e o início da mudança. Tudo é novo, diferente, as metas são transformadas em perspectivas, o que gerava vergonha e medo passa a ser questionante de responsabilidade, de participação; inicia-se a mudança responsável pela aceitação.

Quando se está preso à idéia de que toda mudança decorre de luta, revolta e desadaptação responsáveis pela transformação social, não se consegue imaginar a aceitação como uma ação antitética. Só existe antítese se houver um ponto de encontro. O ponto de encontro das constradições é a própria antítese, isto é, a configuração do impasse e da impossibilidade. No contexto das relações humanas, a percepção desse ponto de encontro, das contradições, permite aceitar o que ocorre, independentemente de padrões valorativos, necessidades de sobrevivência ou desejos de mudança. Negar uma realidade com o objetivo de criar outra é estabelecer vias paralelas que não configuram antíteses. Não há encontro nem integração das contradições. A revolta e a não aceitação estruturam o desejo, a necessidade de mudar e de não sofrer mais. Se há negação do fenômeno é impossível o encontro, e portanto a contradição. A negação do limite de uma dada situação estabelece a existência de paralelas que criam dualismos, responsáveis por divisões e fragmentações tanto no indivíduo quanto em suas relações com os outros.

Uma das grandes questões humanas é como existir fora dos padrões sociais e econômicos e, ao mesmo tempo, estar neles e deles depender. Quanto maior for essa contradição, maior também será a possibilidade de se perceber e se descobrir como ser humano. Tal descoberta é libertadora, quebra as ordens contingentes e produz antíteses.

Aceitar a realidade é um processo que se caracteriza pela integração do limite. Frequentemente a aceitação é confundida com conformismo, submissão àquilo que oprime, frustra e agride. Mas a integração do limite é o que ocorre quando vivenciamos o presente, quando, sem medo nem esperança, nos relacionamos com a realidade. O medo é a avaliação do que acontece em função de referenciais outros que não os do momento. São os a priori, os traumas, as certezas já assumidas que carregamos como filtros responsáveis por novas categorizações, preconceitos, estigmas, culpas, inferioridades e vivências já acontecidas e cristalizadas. Esperanças constituem anseios, vontades e desejos contextualizados no futuro. A questão da temporalidade é complexa na filosofia, na psicologia e na física, mas em certo sentido é simples quando relacionada com vivência e percepção.

Exemplo disso é a percepção de que o patrão que explora é o mesmo que alimenta, de que aquele que oprime também apoia. A vivência dessa contradição cria sentimentos de revolta, medo, culpa, angustia e resistência, ao mesmo tempo que enseja luta, oportunismo e despersonalização, quebrando a individualidade e impedindo a mudança. A transformação surge apenas quando se percebe, por exemplo, que apoio e opressão são dois aspectos do mesmo processo. A percepção do limite estrutura as antíteses responsáveis por sínteses. A liberdade e a consequente quebra das barganhas abrem novos caminhos. *

* Idéias desenvolvidas por mim nos livros "Terra e Ouro são Iguais Percepção em Psicoterapia Gestaltista" e "Mãe Stella de Oxossi Perfil de uma Liderança Religiosa", ambos editados por Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro





















"A Dialética da Natureza" de Friedrich Engels
"Fenomenologia do Espírito" de G.W.F. Hegel


verafelicidade@gmail.com

25 comments:

  1. Vera, mais uma vez, vejo descrito meu processo em seu texto (o que acho, vale pra muita gente), talvez o mais terapêutico até agora(?). Relendo "A realidade da ilusão , a ilusão da realidade" me deparei com um trecho que mais ou menos amplia essas idéias: "O sistema de referência estruturado pelas sucessivas categorizações decorrentes das contínuas superposições das percepções é o grande mediador, o contexto a partir do qual tudo é percebido (...) A falta de antíteses significativas transforma o sistema categorial em uma parede, um impermeabilizador, um obstáculo, ou um anteparo através do qual tudo é percebido." p. 32.
    Parece que se chega a um ponto em que a "impermeabilização" é tanta que já não há relação direta com o outro, olho no olho, percebendo o que há de humano em cada um. Nos relacionamos com padrões, com "anteparos", projeções (no sentido físico, não psicanalítico, claro, rs), aí fica impossível o encontro, a antítese, prevalecem as buscas, as metas.
    Entendo que é preciso parar, se deter, quebrar esse ciclo sobrevivente de sucessivas categorizações, avaliações...
    Bjs
    Ioná

    ReplyDelete
  2. Isto mesmo Ioná, bem percebido, pensado e expresso. Obrigada. A parada, em certos momentos, é uma antítese que leva a questionamentos fundamentais. Para conseguir parar é necessário freiar ansiedades geradas pelos deslocamentos, pelas acelerações.

    Beijos

    ReplyDelete
  3. Vera, este foi um de seus escritos que bateram mais fundo, me respondeu tantas questões! Quanto ao indivíduo, cada um de nós, nossas dificuldades pessoais e processos de mudança o texto é incrivel… achei o comentário da Ioná muito bom, excelente resumo do artigo, neste sentido.

    Um outro ponto que me tocou especialmente, que já mencionamos em outros comentários, mas aqui neste artigo está magistralmente desenvolvido é a questão da "aceitação como ação antitética" no âmbito das transformações sociais. Fica totalmente claro que aceitação não é conformismo ou alienação, mas sim a base que permite real enfrentamento e mudança. Muito obrigada por sua explicação de "antítese como ponto de encontro das contradições…", perpendiculares que possibilitam síntese e não paralelas incomunicáveis que aparentemente lutam pela transformação, mas em verdade são fugas estéreis.

    À minha volta tenho muitos destes discursos da não aceitação como incomformismo social-político; discursos tão efêmeros quanto bolhas de sabão… paralelas inconclusivas, fugas… como você diz a negação das situações, dos limites impedem o encontro, o impasse. Nem sei lhe dizer como sua explicação foi importante para mim, realmente esclareceu anos de leituras e questionamentos meus sobre alienação-participação, acomodação-engajamento político etc. Obrigada principalmente por estas palavras: "Aceitar a realidade é um processo que se caracteriza pela integração do limite. Frequentemente a aceitação é confundida com conformismo, submissão àquilo que oprime, frustra e agride. Mas a integração do limite é o que ocorre quando vivenciamos o presente, quando, sem medo nem esperança, nos relacionamos com a realidade."

    Acho que este texto deveria ser lido por sociólogos, estudantes de sociologia, história, economia… todo esse pessoal… rsrsrs.

    ReplyDelete
  4. Ana, seus comentários são perfeitos para complementar o que escrevi, abrindo, inclusive, perspectivas para abordagens sociais, econômicas acerca do humano. Obrigada pela excelente colocação, muito esclarecedora, sobre a diferença entre aceitação e conformismo.

    Abraço

    ReplyDelete
  5. Vera,
    Como afirma Ioná, ler seus textos é ver “descrito o processo terapeútico” , válido para mim também.
    A cada leitura novos entendimentos e novas reflexões;
    “…Negar uma realidade com o objetivo de criar outra é estabelecer vias paralelas que não configuram antíteses…”
    “…A negação do limite de uma dada situação estabelece a existência de paralelas que criam dualismos, responsáveis por divisões e fragmentações tanto no indivíduo quanto em suas relações com os outros…”
    Necessário evitar “movimentos pendulares”,certo?!
    Bjos Ana Cristina

    ReplyDelete
  6. Obrigada por sua resposta Vera. Suas palavras nos traz uma força incomensurável. Perdemos muito tempo e energia brigando consigo, com o mundo, nos dividindo! Maneira equivocada de lutar.

    É incrível como "integrar o limite" fortalece! Aparecem horizontes, não como esperança, mas como perspectivas.

    Abraços

    ReplyDelete
  7. Ana Cristina, muito bom ler o que você escreveu. Os movimentos pendulares devem ser evitados para impedir posicionamentos, faz de conta etc etc

    Beijos

    ReplyDelete
  8. Ana, integrar o limite fortalece, como você escreveu, a percepção do problema é transformada.

    Abraços

    ReplyDelete
  9. Perfeito, Vera, obrigada mais uma vez. Quando o "limite é integrado a percepção do problema é transformada" - MUITO BOA ESTA AFIRMAÇAO.

    Enquanto lia seu artigo e quando fui escrever o primeiro comentário, eu tinha sempre em mente uma imagem, que para mim resumia tanto o desespero com os dramas pessoais quanto com as motivações para luta política (imagino que você nem faça esta diferença, mas eu queria fazer uma distinção entre estar voltado para a transformação pessoal e estar voltado para lutas sociais, porque acho que seu artigo "pega os dois pelo rabo"… rs) … voltando à imagem: via uma pessoa presa entre quatro paredes, gritando, pulando, esmurrando o ar e as paredes, bravejando contra a prisão, as paredes. A sua frase "aceitar a realidade é um processo que se caracteriza pela integração do limite" acalmava meu personagem, acalmava a mim, era como se as paredes começassem a fazer parte do corpo e o personagem pudesse "ver" o que estava além delas, onde elas estavam inseridas, todo o significado e então agir com eficácia, com precisão. Não escrevi este exemplo no comentário anterior porque achei esquisita minha visão: como paredes poderiam fazer parte do corpo? Parecia uma alienação ilusória, diferente do que eu realmente estava sentido e entendendo de seu texto.

    Agora, tudo resolvido: "quando o limite é integrado a percepção do problema é transformada" - perfeito: percepção, pensamento, ação, tudo é transformado.

    Obrigada e abraços

    ReplyDelete
  10. OK Ana, aceitar o limite é, às vezes, aceitar a impotência, o que sempre amplia. Você conseguiu desenhar seu pensamento/percepção, gostei.

    Abraços

    ReplyDelete
  11. Oi, Vera,
    você disse a Ana que “aceitar o limite é, às vezes, aceitar a impotência”. Em que circunstância aceitar o limite não implica aceitar a impotência?

    Será que, quando aceitamos e integramos o limite, com os caminhos novos que se abrem, algumas impotências deixam de existir? É isso?

    beijos.

    ReplyDelete
  12. Ana, as paredes fazerem parte do corpo, como você descreveu, me lembrou que o interno e o externo não existem, como a Vera disse em outro artigo.

    ReplyDelete
  13. Vera, você é um espetáculo à parte dentro da Psicologia Brasileira! Abraço Santana Moura!

    ReplyDelete
  14. Vera, este artigo é bem amplo, mas também responde questões que tive a respeito de outro anterior, sobre justamente as transformações sociais, os ativistas, fanáticos, ou as pessoas que agem com mais clareza com respeito problemas sociais. Realmente o conformismo é muito diferente de aceitação, conceitos que são confundidos amiúde. No trabalho que realizo vejo desde as pessoas e organizações que compactuam com a industria para fazer uma fachada de mudança, mas continua tudo na mesma - por interesse monetário - até as pessoas e organizações que tem uma atitude mais autêntica e buscam um trabalho de mudança e gerar melhorias para os mais pobres. Agora estamos fazendo um estudo inicial de uma situação na Turquia, onde o trabalho de migrantes curdos ilegais nas fazendas é o foco e onde as crianças dessas familias curdas são levadas a trabalhar na colheita para gerar mais renda para a família. Os curdos não são aceitos pelos turcos, mas o trabalho barato deles é muito bem-vindo pelos fazendeiros turcos, por que dá mais lucros. Não negar, aceitar essa realidade é o primeiro passo para mudá-la.

    ReplyDelete
  15. Clarissa, aceitar o limite da pobreza, por exemplo, não implica em aceitar impotência. Aceitação e integração de limites não abre caminhos novos, ou se abre, os mesmos desaparecem quando avaliados.

    Beijos

    ReplyDelete
  16. Obrigada Santana, achei generoso e engraçado.

    Abraços

    ReplyDelete
  17. Augusto, o exemplo que você descreve pode ser explicado por Marx, economistas etc não pelo processo de adaptação e mudança, aceitação da não aceitação. Você só poderia falar isso se você estivesse conversando com um turco, com um curdo, entendendo a cultura deles etc etc etc

    "Paredes" que a Ana escreveu é uma metáfora.

    Abraço

    ReplyDelete
  18. Vera, estamos apenas no começo. Estou conversando diretamente com turcos e curdos (em inglês que alguns deles falam) sobre a problemática a que me referi, e também com pessoas de outras nacionalidades envolvidas - italianos e outros europeus ocidentais que compram os produtos das fazendas turcas, produzidos com mão de obra curda.

    Obviamente "paredes" que Ana escreveu é uma metáfora, que na minha compreensão representou o que eu disse. Abraço.

    ReplyDelete
  19. Augusto,

    Conversar com turcos, curdos, jornalistas também o fazem, médicos sem fronteira, idem. A questão da aceitação da não aceitação é esfera psicológica, individual; é uma conversa terapêutica.

    Abraço

    ReplyDelete
  20. Vera, uma das coisas boas de comunicar me com você são seus questionamentos que motivam a gente a abrir novas possibilidades de entendimento. Realmente nos fenômenos sociais e econômicos o processo dialético de mudança não é um processo terapêutico, concordo plenamente com que você disse.

    ReplyDelete
  21. Augusto,

    A imprecisão de termos, o lidar mal com conceitos leva a distorção. Nem toda mudança é terapêutica, mas equivalentes terapêuticos podem surgir de mudanças sociais e econômicas. Se você se questionar quando comenta, quando escreve, por que escreve, haverá mudança de compreensão, independente do que eu lhe questione.

    Abraço

    ReplyDelete
  22. Sim, é verdade, usar os termos com precisão evita distorções. Surgem equivalências no processos, como você disse, e essas me levaram a fazer alguns comentários por que as percebi. Seu conselho é um bom método para mais autonomia, que sempre busco. Grato e abraço.

    ReplyDelete