Thursday, February 9

Convicções

Como saber que o que se percebe é real? Como constatar, sem autorreferenciar?

Perceber é conhecer. Este processo é aberto, dinâmico. Ao perceber que percebe, ao constatar, categorizar, conhece-se, posiciona-se; referenciais são estabelecidos. Estes caminhos são também labirínticos. A constatação de X às vezes é agregada com Y ou Z. Nos agregados surgem nebulosidades criadoras de dúvidas. Para saber que se sabe, para conhecer é necessário identificar os núcleos - contextos estruturantes das percepções.

Em Psicoterapia Gestaltista isso sempre é feito. Entender que os deslocamentos da problemática, que a ansiedade de não conseguir, por exemplo, traduz a incapacidade de aceitar o limite da própria mediocridade, restaura os caminhos da descoberta da própria impotência, esclarece sobre agressividade, sobre a insuportável revolta de existir, frequentemente sentida nos estados de depressão e angustia.

Real é o que se percebe. "Existe ilusão quando o pregnante são as estruturas mediadoras, principalmente representadas pela família, escola, trabalho, religião e ideologias. As estruturas mediadoras, quando são contextos estruturantes da percepção, impedem a percepcão do presente no contexto do presente" *

"Perceber o que está ocorrendo diante de nós é estruturante. Perceber o que está ocorrendo diante de nós através dos filtros (a priori - medos e metas - desejos) é não perceber o que está diante, é gerar ilusões, acumular contextos não percebidos como fundos de nossa vivência. Só podemos conhecer, significar, se percebermos. Quando isso ocorre em situações diferentes daquelas do presente contextualizado no presente, surge a distorção decorrente do autorreferenciamento. Esse autorreferenciamento é mantido pelo não-questionamento. Quanto menor o questionamento, maior a estagnação, mais posicionamento." **

O autorreferenciado engana-se em meio a distorções, sonhos e ilusões, não vive o presente, não aceita os limites e assim o "real" que se impõe é considerado ruim; para ele, a vida precisa ser justificada e isso só é possível através dos sonhos realizados e lutas vitoriosas.

* "A Realidade da Ilusão A Ilusão da Realidade" -  pag. 71 - Vera F. A. Campos
** "A Realidade da Ilusão A Ilusão da Realidade" -  pag. 72 - Vera F. A. Campos


 "A Realidade da Ilusão A Ilusão da Realidade", Vera Felicidade de Almeida Campos

Desenhando um círculo perfeito à mão livre



verafelicidade@gmail.com

7 comments:

  1. Olá Vera. Nada é tão bom quanto o insight! O insight nos seus artigos, no "círculo perfeito", na aprendizagem, na compreensão, na criação... acho que existe o "puro prazer diletante" do insight; eu imagino que seja parecido com o bem-estar de se aceitar, viver o presente, aceitar a realidade, tudo isso que você fala, será? Uma coisa que me atormenta é isto que você trata neste texto: até que ponto minhas interpretações e opiniões sobre uma dada situação, são corretas ou são só devaneios e imaginação? Entendi que se questionando sobre as próprias não aceitações e autorreferenciamento, tendo lucidez de como eles interferem, se evita muitas distorções, é isto?

    Abraço

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    1. É isto sim, Ana, lembrando que muitas distorções são geradas pelos deslocamentos do que não se aceita e para isto não existe condição de questionamentos ou lucidez: é necessário psicoterapia para questionar as estruturas da não aceitação responsáveis pelas distorções e autorreferenciamentos. De qualquer forma, não fazer de conta, saber das próprias não aceitações, inseguranças, medos e metas é importante, evita deslocamentos causadores de distorção.

      Abraço

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    2. Olá Vera, obrigada pela resposta. Realmente é muito difícil, se não for impossível, a pessoa sozinha questionar-se nas bases, entendi perfeitamente a necessidade da psicoterapia, o outro terapeuta - e neste nível que vislumbro neste blog, acho que só você.

      Abraço

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  2. Oi, Vera.
    Penso que a sua definição de realidade e ilusão é uma verdadeira revolução no conhecimento em geral, acabando com dualismos históricos. Vejo isso e alguma implicações disso claramente, porém, meu autoreferenciamento me impede de entender plenamente (globalizar) e ficam dúvidas do tipo: É possível significar, categorizar na percepção do presente contextualizado no presente? Como fica a linguagem nesse contexto?
    Bjs e obrigada.
    Ioná

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    1. Oi Ioná, obrigada pelo comentário. Só é possível significar, categorizar quando existe categorização da categorização, neste caso o presente não está contextualizado no presente; são necessários "recuos" e "adiantamentos" para haver percepção da percepção, categorização da categorização. O presente contextualizado no presente é quase que fotografia, logo se recolhe e classifica (o exemplo é para facilitar).

      "Linguagem neste contexto", não entendi a pergunta.

      Beijos

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  3. Oi, Vera.
    Ficou claro pra mim como se dá a vivência do presente contextualizada no presente.
    Apesar de voce já ter respondido sobre a questão da linguagem, esclareço a minha dúvida para os colegas leitores: Quis perguntar se poderia haver linguagem na percepção do presente contextualizada no presente, ou seja, linguagem sem categorização, quando voce me esclareceu que sim, pois, sendo linguagem percepção, é possível se expressar, o que não é possível é comunicar essa vivência, não é isso?
    Bjs.
    Ioná

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  4. Oi Ioná, os conceitos que você está utilizando estão meio embaralhados: dizer que linguagem é percepção não quer dizer nada. É toda uma estruturação, contextualização até se chegar a 'linguagem é percepção'. De uma maneira geral, linguagem é sempre expressão, vivência, consequentemente permite comunicação.

    Beijos

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