Thursday, July 12

Verdades e mentiras

Quem nunca se perguntou sobre a veracidade ou falsidade de algum relato, de alguma notícia e até da própria visão sobre um determinado acontecimento? É comum surpreender-se enganado, ludibriado. Descobrir que está sendo enganado, por exemplo, é libertador se vivenciado sem as amarras do compromisso. Esta mesma descoberta - ser enganado - é também mortal, aniquiladora de todos os sonhos e confiança depositada (no outro).

Acreditar e duvidar são polos de um mesmo eixo: a constatação de um acontecimento, de uma ocorrência. 

Tudo que acontece pode ser percebido, embora nem sempre constatado. Diante de fatos, acontecimentos, percebemos e também inserimos esta percepção em redes de memórias e vivências. A inserção é a constatação, é a percepção da percepção, às vezes representação ou interpretação do acontecido. Destas vivências são estruturadas crenças ou dúvidas. 

Saber o que é e o que não é, acreditar que tal fato ocorreu ou não, enfim, dúvidar é defrontar-se com o lacunar, o incompleto. A dúvida é motivante, tanto quanto angustiante: ao gerar a busca de certeza e garantia, desconsidera o que acontece. A necessidade do flagrante, da prova é redutora das possibilidades relacionais; só ocorre quando não existe disponibilidade, confiança no que é percebido. Deter-se no que ocorre é suficiente, é revelador. Utilizar o que ocorre para estabelecer os selos de garantia, estabelecer a confiança é alienador.

Crimes, faltas, traições, usos e abusos exigem ocultação e despiste. Esta idéia de falta, de abuso, de oportunismo, é característica das relações estruturadas em apropriações e enganos. Focado nas próprias necessidades, o indivíduo lança mão de qualquer coisa para aplacá-la, tornando-se agressor ou vítima; é a sobrevivência, a perversão, a maldade. Neste nível de sobrevivência, enganar é o paradigma, o modelo usado para estruturar comportamentos. 

Aceitação do que ocorre ou do que se percebe como ocorrido, é estruturante de comportamentos  disponíveis, dinâmicos, questionantes; enquanto a não aceitação do que ocorre estrutura rigidez, fanatismo, certezas absolutas, desconfianças, enganos.

Acreditar no que se percebe, acreditar no que se acredita é unificador mesmo quando considerado delirante por outros. O importante não é estar certo ou errado, mas sim, estruturando disponibilidade inclusive para perceber engano onde antes havia certeza; isto é a mudança.
















"O mito da doença mental", de Thomas Szasz
"Macbeth", de W. Shakespeare

5 comments:

  1. Olá Vera!
    Muito interessante a sua postagem!
    Nascer não é opção. Morrer é uma certeza. Viver é uma escolha. Anular a vida é uma tolice. O hoje, na verdade, é tudo o que temos para o dia.
    Abraços.

    “Para o legítimo sonhador não há sonho frustrado, mas sim sonho em curso” (Jeferson Cardoso)

    Convido para que leia e comente “KUDURO, O CÃO” no http://jefhcardoso.blogspot.com/

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    1. Jeferson, seu "viver é uma escolha" me lembrou Fernando Pessoa: "navegar é preciso…".

      Abraço

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  2. Não só os temas escolhidos, mas a maneira como você os desenvolve são muito estimuladores tanto para pensar sobre os conceitos, quanto para pensar as próprias situações vividas. E esta desconstrução constante que você faz dos pensamentos corriqueiros, desacomoda, incomoda e finalmente nos revela: é tão fácil se sentir vítima de traições e enganos, mas só questionamentos inteligentes como o seu pode nos fazer perceber nossa participação ativa em tais enganos; cegueiras anteriores não nos justifica, ao contrário, nos condena, sejam pelas metas, sejam pelas necessidades. Acho mais difícil entender a dúvida ligada a acontecimentos que não nos envolve, relatos, notícias, mas entendi que em contexto de disponibilidade, ater-se à própria percepção das coisas não impede a mudança de percepção.

    Abraço

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  3. Oi, Vera.
    Muito bom, seu texto. São questões com as quais nos deparamos todos os dias, porém dificilmente entendemos dessa forma. Quando divididos (a dúvida é também divisão, não?), muitas vezes duvidamos do que percebemos, nos enganamos (e enganamos) e seguimos buscando provas da verdade, garantias de fidelidade. Assim não há entrega, não há mudança. Que vida essa, hein?
    O último parágrafo é perfeito!
    Bjs.

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  4. Ana e Iona,

    Obrigada pelo comentários.

    A dúvida sempre motiva!!! Reli: "A dúvida continuada dilacera" (post de 7-julho-2011) e encontrei: A afirmação negada que possibilita uma pergunta é a dúvida… e também: A dúvida nos movimenta ou nos emperra. Quando ela nos detem, ela divide, dilacera, fragmenta.

    Beijos

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