Thursday, November 8

Usura - desejo inesgotável

"A carência afetiva, dentro da conceituação gestaltista, é intrínseca ao ser humano, ao contrário do que ocorre em outras conceituações psicológicas, psicanálise por exemplo, onde a carência é entendida como resultante de um processo deficitário de relacionamento afetivo, principalmente fundamentado no que se refere às figuras paterna e/ou materna. Quando dizemos que a carência afetiva é intrínseca ao ser humano, estamos dizendo que ela é tão configurativa do humano, como o são os olhos, braços, pernas, etc. Localizado o tema, focalizemos seu significado. Por carência afetiva entendemos a necessidade ou possibilidade de relacionamento com o outro; dentro desta nova compreensão (abordagem da carência afetiva), torna-se claro o porquê de sua colocação extrínseca, sinônima de problemática emocional, dada pelas outras teorias psicológicas, isto porque devido à falta de visão global unitária, ou seja, à esquematização elementarista do fenômeno comportamental e existencial humano, apreenderam apenas a carência afetiva resultante de uma necessidade de relacionamento com o outro, configurativa de estruturas inautênticas, portanto, advindo daí todo um tratamento distorcido do tema, pois que unilateralizado.

A carência afetiva configura o outro no sentido de possibilidade ou de necessidade de relacionamento. Sendo intrínseca, assumida, a carência possibilita o outro; caso contrário é uma barreira, começando o outro a ser uma meta, um obstáculo.
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A carência como necessidade de relacionamento equivale a buscar aquilo que nos falta, aquilo que nos completa, enfim o que desejamos, conseguindo assim, transformar o semelhante, o outro, em um objeto. Conviver com o outro, inicialmente pai e mãe, portador de regras e limites, filtra as possibilidades de relacionamento, estabelece referenciais que limitam. Estas estruturas limitadas transformam as possibilidades relacionais em caminhos satisfatórios ou insatisfatórios, gerando as não aceitações; deste modo a carência afetiva deixa de ser uma possibilidades de relacionamento e passa a ser uma urgência, desejo, necessidade do outro. Esta distorção perceptiva, resultante da não aceitação das próprias impossibilidades e limites, gera a neurose. Para alcançar o desejado, para tornar próximo o distante, muitos recursos padronizados são usados: dinheiro, sexo, beleza, por exemplo. Estes recursos geralmente são amealhados e parcimoniosamente gastos. A usura aparece. O indivíduo ao administrar seus recursos, sabendo-os responsáveis pela realização do que ele necessita e deseja, começa a estabelecer regras e parâmetros, dosagens.

Usura é sinônimo de carência enquanto desejo do que nos falta. Esta complementação, este preenchimento do que falta nunca se realiza, não se preenche o oco. Preenche e desaparece, nada fica; é preciso deter, sentir que algo foi estabelecido e mais, que quando ocorra não possa ser destruído. É um processo que gera ansiedade, medo, já não significa ter ou conseguir, o importante é não parar de tentar ter, de tentar conseguir. Extenuante e inesgotável. Nada aplaca e tudo significa. A usura, este vício é uma parada no processo. Ao repetir e seguir prévias repetições, vem a satisfação pela neutralização da satisfação. Apenas em um átimo, em um segundo, se consegue a felicidade, a pausa, o instante vivenciado como prazer, desejo realizado.

Amealhar resultados, juntar as próprias histórias de sucesso, saber-se aceito e querido, tanto quanto economizar seus tostões, são típicos da atitude de usura, da carência afetiva como necessidade de relacionamento, necessidade de resultados e aplacamento de desejos e ansiedades; é também a pavimentação do caminho de realização de sonhos e da busca desesperada, frenética de um lugar ao sol.

Usura é apego, "sentimento de posse", zelo com o conseguido; usura é o que exila de nosso cotidiano toda e qualquer disponibilidade, consequentemente, solidariedade, compaixão, enfim, percepção do outro.

* "Carência Afetiva" em "Psicoterapia Gestaltista Conceituações", de Vera Felicidade de Almeida Campos
















"Visão do paraiso", Sérgio Buarque de Holanda
"O Mercador de Veneza", W. Shakespeare



verafelicidade@gmail.com

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