Thursday, February 14

Engano

Vencer ou vencer, desconsiderar o fracasso, cria oposições intransponíveis. O indivíduo isolado em seus objetivos, ao transformar a esperança em matéria prima, em tampão de abismos e vazios, nega tudo em volta: desde o outro até o próprio desespero e medo. Realizando-se como vetor do próprio desejo, estrutura-se como desejante perdido e engolfado no próprio desejar. Esta pontualização fragmenta e destroi.

Quando se consegue realizar o desejo, não existe mais quem desejou, existe apenas o resultado, o desejado. Quando não se realiza o desejo, fica claro o abismo que o engendrou, fica claro o despropósito.

A transformação de possibilidades em necessidades é sempre redutora. Contingenciado pela sobrevivência, desaparecem as matrizes humanas relacionais, tudo pode ser usado para realizar o que se deseja, até a própria vida serve de ficha (cacife) para a grande aposta.

A necessidade de vencer, de acertar, é um dos maiores enganos e imersos neste contexto os dados relacionais são estruturados. Enganar é o que leva a aplacar contradições e conseguir o que se deseja.

O engano cria armadilhas, os vazios estão disfarçados, é impossível continuidade e consistência. Neste contexto, acreditar no outro é se enganar, equivale às ilusões de óptica. Depois de sobreviver às armadilhas se consegue perceber o quanto se enganou ou foi enganado. É um momento de dor, de raiva, mas também de liberdade. Constatar o engano é sempre libertador, apesar dos resíduos de dor e mágoa.

Casamentos enganosos, por exemplo, uniões que desmoronam e são reconstruidas através de explicações e justificativas suprem de fingimento e interpretações o cotidiano dos unidos.

Quanto maior o engano, a necessidade de manter o relacionamento ou o conseguido, maior a construção de justificativas neutralizadoras do engano: deixa-se de ser enganado e passa-se a se enganar. Apropriar-se do que vitima e aliena é a maneira de depender de desejos e metas alienadoras, desumanizadoras.













 

"A Aventura Semiológica" de Roland Barthes
"Os Buddenbrook" de Thomas Mann

verafelicidade@gmail.com

5 comments:

  1. Oi Vera,

    quando tu escreve:
    "Quando se consegue realizar o desejo, não existe mais quem desejou, existe apenas o resultado, o desejado. Quando não se realiza o desejo, fica claro o abismo que o engendrou, fica claro o despropósito.".

    Isso significa perceber-se como fundo e o mundo como figura?

    Pergunto isso porque comecei há umas semanas a ler "Psicoterapia Gestaltista - Conceituações" e estou gostando muito.

    Além disso, se me permitires mais um questionamento, gostaria de saber como a forma pode se manter igual no caso de uma alteração de figura e manutenção de fundo? Podes me dar um exemplo de vivência psicológica disso?

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    1. Oi Diego,

      Que bom que você está gostando do Psicoterapia Gestaltista- Conceituações, embora ainda o apreenda elementaristicamente (digo isto pelas perguntas que você fez). Leia por ler, sem metas ou objetivos de utilizar ou mesmo o objetivo de entender.

      Estar reduzido ao desejado é o que acontece quando se tem metas, causado pelo autorreferenciamento.

      A forma, é a estrutura, a Gestalt. Figura/Fundo é a relação perceptiva. Não podemos lidar com os conceitos de Figura/Fundo nem de gestalt de forma esquemática.

      Abraço,

      Vera

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  2. Oi Vera,

    acho que posso entender o porquê de ler sem metas (já que, até onde entendi, elas nascem de uma negação do momento presente e são uma espacialização do tempo, que gera descontinuidade). Mas será possível continuar interessando nesse assunto (como estou), com vontade, sem ter a compreensão dos conceitos como uma diretriz?

    Além disso, acho bem provável mesmo que eu esteja apreendendo os conceitos de forma elementarista. É a forma como estou podendo ser, de acordo com as experiências que me constituíram... E que bom poder encontrar pessoas, mesmo que virtualmente, que podem me apontar essa maneira de ver distorcida. Então te pergunto: em que parte da minha pergunta percebeste isso? E o que seria lidar de forma esquemática com conceitos de Figura-Fundo? Seria buscar exemplos para entender melhor os conceitos?

    abraço

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    1. Prezado Diego,

      Você quer que eu explique como eu percebo a sua distorção?

      A discussão dos temas no Blog é sobre os artigos postados ou algo que tenha a ver com eles. Dar explicações teóricas, aulas, para que você entenda, se está acertando ou errando, não é o meu objetivo, não estou dando aulas de gestalt, Figura/Fundo, relação perceptiva, nem de filosofia, nem de psicoterapia gestaltista; tampouco posso terapeuticamente explicar o nível das estruturas geradoras de metas. Sempre que você quiser entendimento sobre o artigo postado, estou as ordens, agora, completar as lacunas da sua formação em filosofia ou psicologia é impossível; a própria maneira como você formula as questões, deixa claro estas lacunas, para preenchê-las eu teria que lhe dar aulas sobre epistemologia, metodologia, gestalt; por isso falei para você ler sem metas, o pouco que você apreender, será bom.

      Abraço,
      Vera

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  3. Ok Vera,

    grato pela paciência.

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