Wednesday, August 21

Desprezo

O processo de não aceitação às vezes assume formas extremas. O próprio indivíduo se despreza, se sente monstruoso sem nada que disfarce o que considera feio e ruim. Carente implora, mendiga que olhares simpáticos, toques piedosos o façam esquecer suas definições acerca de si mesmo.

Buscando esconder o que o afasta do que necessita - cuidado, atenção, carinho - arranja "capas protetoras" que camuflam seus dramas. Protegido pela capa  (dinheiro, estudos, inteligência ou até mesmo outra pessoa utilizada como moldura) pensa que se estiver bem vestido, bem apresentado, sendo capaz, tendo dinheiro, beleza, pode despistar, esconder suas não aceitações, suas diferenças.

Desprezando-se e agarrando-se ao que escuda e melhora, transforma-se no que rouba tudo que está à mão e serve para utilizar. Estrutura-se, assim, o cínico, o desonesto que cada vez mais se despreza, mas que também não se abate com isto. O desprezo, neste caso, neutraliza tensões. As soluções encontradas são acumuladas e cobrem qualquer possibilidade de aparecer a problemática. Não há questionamento, não há problema; existe um colecionador, arregimentador, violentador. A possibilidade humana foi transformada pela realização das necessidades e assim foi criado o parasita humano que se alimenta do outro.

Geralmente estas pessoas não procuram psicoterapia, quando o fazem é para dispor de mais um referencial para instrumentalizar. O processo terapêutico consiste em fazer com que percebam que a psicoterapia é inútil para seus propósitos, que a psicoterapia ameaça seu parasitismo; assim podem ser humanizadas. Perceber isto é crucial, pois pode acontecer mudança, tanto quanto, não aceitando o que consideram monstruoso, podem se sentir denunciadas, ameaçadas e desconsideradas: surgem conflitos, pois a terapia é utilizada também como capa de proteção. Deste impasse, mudança e transformação tornam-se possíveis.















- "Vida para consumo" de Zygmunt Bauman
- "A cultura-mundo, resposta a uma sociedade desorientada" de Gilles Lipovetsky/Jean Serroy


verafelicidade@gmail.com

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