Thursday, April 24

Irremediável

Constatar o irremediável é constatar e aceitar o limite, é a vivência do limite intransponível, geralmente acarretando medo, luto ou perda.

Na ansiedade por exemplo, quando não se aceita os limites, tem-se uma vivência fragmentada e circunstancializada: vivencia-se o irremediável como o que deu errado, o que não foi conseguido, a meta não realizada e não como um limite a ser aceito.

Indivíduos fragmentados por desejos e demandas não desistem da busca por satisfazer suas necessidades e quando estas não são satisfeitas, quando se deparam com situações irremediáveis, percebe-as como objetivo não atingido; estas vivências assim configuradas acarretam deslocamentos constantes de mentiras, arrumações e fraudes.

Cotidiano de aspiração, realização e concorrência cria situações irremediáveis, que quando acontecem não são aceitas; são contextos que catapultam indivíduos fragmentados ao sucesso através de métodos escusos ou à apatia doentia. Não conseguir aceitar perdas, temer resultados já antecipadamente delineados, cria onipotentes e deprimidos.

Defrontar-se com a morte, a doença, a perda e impedimentos vários é ser questionado nas próprias possibilidades de ser no mundo com o outro, tanto quanto é a possibilidade de não ser reduzido às necessidades inadiáveis e sobreviventes. Estes impasses acontecem tanto no dia a dia em situações corriqueiras, quanto em situações extremas como violência,  guerras, regimes de excessão, ditaduras e métodos policiais de conseguir esclarecimento ou delação através de torturas e promessas; são situações que instalam a dor e o medo.

Irremediável, enquanto limite, revela o humano, suas possibilidades, ao passo que, irremediável estruturado e constituído por metas, desmascara o sobrevivente, revela o desumanizado: o humano coisificado em função de desejos e vantagens.
















- “Z” de Vassilis Vassilikos
- “Mais Pesado que o Céu - Uma biografia de Kurt Cobain” de Charles R. Cross


verafelicidade@gmail.com

2 comments:

  1. A maioria de nós vivemos roboticamente, simplesmente estamos programados a viver em um mundo fake, irremediável.
    Voltando profundamente para dentro si aceitar-se absorver a verdadeira essência acordar para um realidade que está muito distante e ter consciência do verdadeiro motivo da existência, esse papel é de inteira responsabilidade de cada ser, irremediável quando terceirizar tal importância a um poder superior chamado Deus, cujo modelo fabricado a partir de nossa própria ignorância.

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    1. Interessante Josnei, as questões levantadas por você em seu comentário, obrigada, abraço, Vera

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