Thursday, June 26

Gratidão

Vivências de incontáveis desconsiderações, abusos e submissões criam posicionamentos onde se percebe apenas o que satisfaz ou o que frustra. Nesta contabilidade, tudo é avaliado pelo resultado. O ter que atingir objetivos, transforma o outro em meio para um fim. Não existe o outro, desde que ele foi transformado em objeto útil/inútil. Esta coisificação do outro, gerada pela atitude sobrevivente norteada pela satisfação de necessidades, cria seres isolados em sua caminhada para realização de propósitos: não há gratidão, não há transcendência, apenas certezas resultantes de ter utilizado adequadamente tudo o que estava à mão. Voltar-se para o outro é impossível dentro do autorreferenciamento contingente; quando se percebe o outro, se percebe como algo diferente de si mesmo, como alguém que, se não for aplacado, ameaça. Este processo de cooptação e barganha, cria apoios, entraves, guindastes ou armadilhas.

Transformar o outro em objeto de satisfação impede gratidão, pois os resultados já são esperados e antecipadamente cobrados. Frequentemente ouvimos pais, filhos, amigos, amantes se queixando de ingratidão, de não reconhecimento merecido. Esta queixa é cobrança resultante da frustração de não ter necessidades atendidas, é investimento que deu errado. Frequentemente também, encontramos pais, filhos, amigos e amantes que dizem que tudo que receberam lhes era devido; seus talentos e dons foram reconhecidos, não há o que agradecer.

O limitado, mesquinho, orientado para o sucesso, para realizar metas, se acompanha de si mesmo, é dividido: o outro é ele próprio, espelho e referencial na busca de desejos; não é grato, não é compassivo, embora às vezes esteja submetido à tudo que o ajuda e melhora e através desta submissão realiza desejos, satisfaz necessidades.

Na disponibilidade, condição de transcendência, não se está referenciado em demandas contingentes e necessidades sobreviventes; assim se consegue perceber o outro, seja enquanto gratidão, seja enquanto solidariedade, compaixão, liberdade.


















- “O desprezo das massas” de Peter Sloterdijk
- “Os Maias” de Eça de Queirós

verafelicidade@gmail.com

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