Thursday, September 11

Confrontos

Perceber que os outros têm satisfação e conseguem sucesso, geralmente causa inveja, quando não aceitações e metas determinam o dia a dia. Viver comparando e verificando que não consegue o que os outros conseguem, caracteriza o cotidiano dos sobreviventes posicionados em resultados.

Decidir que merece mais e que significa além dos padrões estabelecidos, cria expectativas dificilmente realizáveis. Viver em função de realizações gera ansiedade, que por sua vez, impede concentração, impede continuidade, cria vivência fragmentada - consequentemente o presente não é vivenciado -, dificultando atividades onde tanto concentração, quanto continuidade são necessárias. Por exemplo, não se consegue ler ou quando lê, não sabe o que foi lido. A ansiedade tudo apaga, de estudos a desempenhos, tudo fica comprometido.

Sempre em função de um marco a atingir, o cotidiano se torna uma eterna competição, e assim, não basta o que se vivencia, o importante é saber se o que se vivencia é melhor e mais significativo do que o que acontece aos outros.

Comparar, confrontar é uma maneira de verificar se é aceito e considerado. Os níveis sociais, as marcas econômicas - o ser rico, ser pobre - estabelecem situações confortáveis/desconfortáveis à partir das quais são estabelecidas metas e propósitos. Estar bem situado, social e economicamente, diminue a necessidade de superações e realizações, tanto quanto a aumenta.

Conseguir ser bem posto na vida requer, diariamente, confrontos retificadores e mantenedores desta posição. Vive-se para conferir, para verificar. O mundo, o outro são marcas, peças que validam o jogo diário pelo poder e realização.

Confrontar é isolar-se, separar-se dos outros. Viver assim sozinho, esperando o que supre ou aumenta o vazio, é o resultado final das constantes comparações realizadas. Avaliar, esvaziar, isolar desumaniza.

















- “Os Transparentes” de Ondjaki
- “Um Preço Muito Alto” de Carl Hart

verafelicidade@gmail.com

2 comments:

  1. Gostei muito! Em muitos momentos me sinto assim!
    A nova foto está ótima.
    Ana Cristina

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    1. Que bom que você gostou, Ana.
      Aquela foto estava boa, mas achei esta melhor.
      Beijos, Vera

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