Thursday, April 2

Filtros participatórios

Relacionamentos reduzidos às dimensões utilitárias, pragmáticas e de ajuste têm, como características, módulos de absorção para incongruências, dissonâncias e incompatibilidades. Nestes relacionamentos, compreender, renunciar, negociar são maneiras de cobrir evidências, fluidificar o objetivo nítido e denso, encorpando à boa disposição e à tolerância, elementos sutis e não explícitos nas vivências de desencontro. Os próprios indivíduos em relação se transformam em um muro de contenção, para-choques de brigas e desentendimentos em função do que precisa ser mantido.

Quando os relacionamentos se fundamentam em necessidades, aperfeiçoar a tolerância, a filtragem do que atropela, é o que permite a manutenção e aproveitamento do que antes era nocivo, cheio de impurezas. Pouca água potável requer desenvolvimento de sistemas de aproveitamento, de purificação - a vida tem que ser mantida. Relações difíceis, tempestuosas, personalidades abruptas precisam ser abraçadas, compreendidas. Virando filtro, o indivíduo se coisifica em função de seus propósitos, de seus objetivos, perdendo as possibilidades relacionais ao se posicionar em necessidades a atender. Estas participações estruturam omissões criadoras de alienação, desespero e maldade. Educadores, pais e filhos, amantes, amigos, frequentemente se posicionam assim para salvar situações, evitar frustração e garantir continuidade de relacionamentos necessários. Este processo, ao invés de melhorar, esgota, pois não há relacionamento ao nível de possibilidades, tudo está contingenciado ao necessário. Muitos filtros sem materia-prima para filtrar. Desertos e monotonias relacionais. Mesmice alienante, adequações previsíveis, vida emparedada pelos compromissos e realizações necessárias. De tanto querer e se dedicar ao melhoramento, o indivíduo se coisifica em função da realização de suas metas de sobrevivência, perdendo a condição de diálogo, de participação. Vira um apoio, arrimo ou até mesmo ouvido atento às histórias do outro.




- Um século em Nova York - Espetáculos em Times Square, de Marshall Berman

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