Disponibilidade



A disponibilidade só é atingida quando não há existência de propósitos e desejos a realizar, isto é, quando o determinante de vivências, participações e escolhas são estritamente em função do presente. Essa condição é difícil de acontecer, ela só é possível quando o futuro - o que está colocado para depois - se constitui em perspectiva, em continuidade do presente. Mas acontece que frequentemente o futuro, o depois é espacializado e buscado, é o lugar, o ponto do sucesso a atingir, ou o lugar a contornar, a morte a evitar.

Preso a desejos, o indivíduo transforma a disponibilidade, o estar aberto ao que acontece, em possibilidade de renúncia, em desapego. Essa colocação implica sempre em compromisso. Estar disponível não é o contrário de estar comprometido, pois as atitudes de disponibilidade são estruturadas pelos processos de aceitação do estar no mundo com os outros, de perceber possibilidades e necessidades, de enfrentar, transformar e aceitar limites.

Manter apegos é sempre agregar condições (pessoas e situações) que possam se constituir em apoio, em base de segurança, em catapulta para realizar desejos, tanto quanto desapego é o mesmo processo ao inverso quando o que se considera necessário é estar solto para os grandes vôos de aventuras do espírito, das experiências inéditas, das drogas etc. Enfim, o apoio, o apego é buscado pois ou é inferido, absorvido por meras circunstâncias, ou é premissa para buscas espirituais, lisérgicas, químicas vistas como dignificadoras do sonho, do ânimo, da vida. Portanto, o apego, logo que surge, implica em dependência, segurança, medo, compromisso.

Estruturar disponibilidade começa pela admissão de comprometimentos individuais: ocupar lugar em um tempo, em um espaço, ser um corpo, estar no mundo com os outros. Quando tudo isso é percebido e aceito os limites se integram, a liberdade surge, o fazer parte integra, liberta, e a disponibilidade surge. Esse processo é sempre atravessado por antíteses, anteparos que entortam as percepções. O limite da casa, da família, do corpo, do mundo são transformados em referenciais identitários e assim todo compromisso e apego são estabelecidos, ouvimos inclusive vivências binárias, contingentes como por exemplo “... quebro ou mantenho esta situação familiar, sigo este padrão traçado, enfim, renuncio ou mantenho?”. Colocações comprometidas jamais possibilitam disponibilidade, daí a diferença entre disponibilidade, apego, renúncia, abrir mão. Mantendo e valorizando as conquistas, o adquirido, as vitórias sobre frustrações e fracassos, o indivíduo se candidata a posicionamentos comprometidos que, mais dia menos dia, vão exibir seus efeitos enrijecedores e alienantes.

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