Sistemas de convergência - autorreferenciamento



Perceber tudo o que ocorre a partir dos próprios referenciais e vivências e das estruturações específicas da própria história, medos e desejos - passado e futuro - é o normal, é o cabível e é também o que separa o indivíduo de seu mundo, de seus semelhantes.

Os referenciais, os contextos estruturantes das individualidades se transformam em barreiras quando entra a acronia, quando fica fora de sintonia com o que acontece. Tomar o vivenciado como base e estrutura do que se vivencia, do que ocorre, cria comparação que enseja avaliações e descompassos, além de erigir o grande avaliador, o sistema que tudo compara, julga e decide.

Estar autorreferenciado - estabelecido nos próprios parâmetros - cria afastamentos. Essas distâncias começam a ser diminuídas ou neutralizadas por pontes, ligações precárias pois se constituem em acessos a objetivos além e aquém, enfim, indiferentes a suas configurações, a seus próprios contextos. Chegar ao outro, ao mundo, por meio de pontes, de acessos traduz sempre um objetivo, um querer, um desejo. É exatamente assim que o outro passa a ser o ancoradouro e o escoadouro de desejos, medos e metas. Embora sempre percebido como possibilidade fundamental de satisfação de necessidades e anseios, ele se torna mero instrumento, puro detalhe enquanto existência compartilhada.

No autorreferenciamento tudo é isolado. Essa impermeabilização faz com que o indivíduo se transforme em robot, manivela propulsora de ordens, criador de sistemas aniquiladores de sua própria humanidade. Para sobreviver têm que destruir e o outro é apenas o receptáculo de seus desejos e necessidades. 
 
No processo terapêutico, o questionamento ao autorreferenciamento é desequilibrante, embora libertador. Cada nova globalização, cada implicação descoberta reanima, tanto quanto desespera pelo desengano que cria. Viver engessado é seguro, não importa que seja também imobilizante. Abrir espaços, portas, janelas questionando o esclerosado é uma descoberta. Estar livre amedronta, mas permite andar, enxergar, viver. É a saída da prisão, é o questionamento de todos os a priori, é a retirada de âncoras que trazem felicidade, alegria e descoberta de si mesmo por meio do outro que propõe, transforma e muda. Os primeiros passos desse processo são vivenciados enquanto questionamento terapêutico. Essa descoberta de si, sem os apoios, as algemas do autorreferenciamento, liberta e possibilita descobrir o que se é, o que se quer, o que se faz/fez de verdades/mentiras, sonhos/pesadelos, ilusões e realidades.

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