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Abrupto

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  Abrupto é o que se quebra. É o que denuncia, é vida, é morte. Toda continuidade pode ser interceptada por outra continuidade. Esse ponto de encontro é também o corte, a interseção. Novos desenhos e paradigmas são criados. Muitas vezes se perde o fio da meada, como diriam tecelões. Construir parâmetros, desenhos, contabilizar algoritmos é também criar, tanto quanto é aproveitar o existente, construindo anômalos. O acontecimento, a vivência, a situação abrupta é corte, é quebra, assim como é descoberta - é o novo que se instala. O ponto fora da curva é o abrupto ampliado que permite interseção, que traz um novo às vezes encoberto, não configurado por conveniências. Descobrir a traição, descobrir a não legitimidade de processos e escolhas, saber que foi trocado na hora do nascimento na maternidade, por exemplo, pode ser o cisco no olho que tudo clareia. Vivemos de antagonismos. A contradição é o que nos move, é a obscura claridade que situa.

Andorinha só voa, não faz verão

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A mistura de fatos a fim de tudo explicar, ou para ser edificante embaralha, cria confusão, minimiza ou amplia situações e propósitos. Provérbios são edificantes, tanto quanto são senhas redutoras de explicações e questionamentos. Fazer o verão, atrelá-lo ao voo das andorinhas é um pequeno exemplo de metáforas redutoras. A andorinha enquanto voa, voa por voar somente. Lembrei do soneto de Cecília Meireles:  ... Porque o poeta, indiferente, anda por andar - somente. Não necessita de nada. Nesse caso, poeta resume disponibilidade enquanto falta de propósitos circunstanciais. Viver sem expectativas nem vantagens é ruim para muitas pessoas, pois o presente não basta, a vida não significa, o que se consegue é o que importa, é o que significa, e assim, filho é para garantir o porvir, trabalho é para o descanso na velhice. Essa é uma contradição que aniquila o vivenciado. O filho não é o filho, não é o amado que se tem, por exemplo, ele é o útil que não pode ser inútil, deve ser educado, ...

Presos ao que é garantido

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  Para inseguros e carentes, confiança e certeza são verificadas diariamente. Nesse contexto, nos deparamos frequentemente com testes de limites, seja a criança imaginando impossibilidades para o seu universo de criança carente, abandonada, seja para o adulto inseguro, que não se aceita e vive aprisionado em regras, dogmas e resultados. Sempre se pensa que a criança precisa de companhia, explicações, respostas, e o adulto precisa de respeito, obediência. Cumprir regras, estar nelas apoiado traz segurança. Mas, apoiar-se no que segura é um dos mais instáveis equilíbrios. Externalizar o centro constituinte é criar apêndices. Essas separações dilaceram ao ampliar. Toda vez que se consegue bons resultados, se consegue também padrões, regras e metas a manter, a cumprir. O indivíduo preso ao necessário contingencia o essencial. Esse processo absurdo transforma intrínseco em aderente, e só é conseguido pela despersonalização. O híbrido aí criado é um somatório sintomático de não aceitaçõe...

Turbilhão

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  Inseguros, não se aceitando, necessário se torna um constante aval, o carimbo aprovador de pais, professores, amigos, vizinhos, de todos enfim. Não se sabe se o que se faz é o que deve ser feito, se é o que precisa ser feito, se é o que pode ser feito, e desse modo o turbilhão é criado e nele se é sugado, perdido em cogitações: "deve ser feito, pois assim foi ensinado, assim se espera, mas assim é o que eu não consigo" . Medo, desespero, sentimento de incapacidade passam a comandar. A vida, o dia a dia se torna um turbilhão onde peças têm que ser encaixadas, têm que encaixar. A autonomia passa a ser apenas olhar resíduos: tabuleiro chutado, tabuleiro escuro, peças díspares. Restos, cinzas, farelos de esperança, de sonhos não realizados, imperam. O lugar no espaço é ocupado por arremedos de seres que são substituídos, seres anódinos, coisificados, paliativos sem autonomia, desde que passam a viver em função de ser aceitos, aprovados, justificados.

"Não falhar, eis a questão"

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  "Não falhar, eis a questão" é o que muitos dizem a si mesmos após fracassos, expectativas, ajudas, esperanças e desespero (desesperança). Depois de expectativas não realizadas, de decepções, o indivíduo pode resumir sua existência em uma lápide: não falhar. É uma lápide, pois é construída para abrigar os sonhos mortos, perdidos, encarcerando os últimos desejos. É o suspiro extremado, o que não pode deixar de acontecer. Viver em função de resultado, principalmente de resultado salvador, faz com que se busque sorte, ajuda, bilhete premiado, mega-senas realizadoras. Essas situações preenchem significados seja pelo vestibular, pelo doutorado, pelo casamento, seja pelo bom partido, ou o acesso, a filiação ao partido vitorioso na eleição, por exemplo. É sempre um golpe de sorte, o "cavalo selado" agarrado, sempre o acaso. A sorte, o inesperado bom passa à condição de itinerário. As rotas e estradas da vida são assim sinalizadas pelo acaso. As probabilidades neutralizam...

Fugir de "zebras" e erros

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  Buscar resultados, correr para garantir o que virá para o "futuro bom e legal" é quase equivalente a fazer tudo para se amarrar em um poste, um porto seguro que sustenta e ampara. Olhar para frente, olhar para trás e para os lados, tudo tocar e perceber é um quadro preenchido de informações, mas é também o que anula, o que faz perder o presente e presenças. Captar dados e colher informações abastece para lutas, para decisões, mas nos faz viver para objetivos graças a situações armazenadas, anteriormente estabelecidas. Quando a vida é difícil, não é a luta, o chegar ao local ameno, ao oásis ou paraíso que traz mudança. A mudança está em perceber porque as contradições não foram resolvidas, porque as perguntas surgem. O que traz mudança é a categorização do desespero e das falhas. Entretanto esse movimento de restauração, de reconfiguração, de retorno é quase impossível. De olhos vendados, com caminhos bombardeados, não adianta se agarrar em qualquer coisa que se acredita ou...

Agarrar-se em si mesmo

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  Agarrar-se em si mesmo, geralmente é a salvação buscada para enfrentar frustrações, é a segurança inquestionável, mas é também a conclusão gerada pelo autorreferenciamento devido a sonegação dos fatos, das evidências, e tudo isso causado pelo desespero da ilusão de negar o presente. Quando se transforma o si mesmo em outro, se inicia delírios, faz-de-conta e motivações para esconderijo de ambições e invejas. É desesperante se dividir em outro para se suportar. A famosa vivência expressa em: "ninguém me entende melhor, me ajuda mais que eu próprio" , mesmo que verdadeira foi gerada por mutilação, destruição, quando o indivíduo se transforma em outro para conseguir ser ele próprio. É um processo nefasto, despersonalizador. Abrir mão do que mais nos define, mais nos é caro, mais nos satisfaz, pois atrapalha nossos planos e ambições, despersonaliza. Toda vez que tal encruzilhada surge é fundamental reabrir caminhos, ultrapassar confluências para que as decisões não sejam delimi...

Neutralização de possibilidades

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  O propósito de atingir uma meta, ou seja, o desejo, aliena. Estar voltado para o ponto almejado anula, secciona e transforma o depois em agora. Essa mágica, essa contravenção, destitui o indivíduo de seus nutrientes, principalmente o presente, que o delimita, o configura, o situa. O pulo para o futuro, para o depois, para o que se ambiciona ou precisa é sempre destruidor, pois transforma o ser humano em cuidador, curador de massas falidas, de pódios almejados. Abrir mão do que acontece no presente por ser desagradável e frustrante é começar a construção de prisões, "cercadinhos", que além de enjaularem, delimitarem realidades ao servirem de trampolim para realizar ambições, obrigam ao desgastante caminhar e correr nos abismos criados pelas insatisfações. Exemplos cotidianos são vistos na espera e busca de um braço forte, do apoio que tudo suporta, do amor ou encontro que iluminará a existência. A espera desespera, pois estar esvaziado do presente é uma vivência na qual nada...

A guerra embrutece

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Duelo com Mocas, de Francisco Goya, Museu do Prado, Madri Recentemente assisti o filme "Nada de Novo no Front" e é nítido como a guerra embrutece e como o desespero leva o ser humano às últimas consequências. O filme mostra o resumo completo e final da destruição dos homens pelos homens, que se destroem apenas por estarem em lados, regiões, países diferentes. Não é só na guerra que existe embrutecimento. Ele é diário, cotidiano. O indivíduo despersonalizado, autorreferenciado, por exemplo, por sua não aceitação desenvolve metas de ser rico, ser famoso, ser amado, acreditando que assim será aceito. Em função desses "grandes propósitos" tudo é construído e destruído, pois o que atrapalha propósitos e projetos não deve existir. Nesse contexto, é muito comum o embrutecimento, e assim filhos são abandonados, pais octogenários são dispensados ou incinerados nas piras do "melhor cuidado". A ideia de que a vida deve continuar, o show não pode parar é embrutecedor...

"Se eu fosse diferente do que sou, eu seria feliz e satisfeito"

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"Se eu fosse diferente do que sou, eu seria feliz e satisfeito" Essa frase resume as contradições dos processos psicológicos da não aceitação biológica, social e existencial. Deter-se na própria vida, em sua própria existência, em suas condições sociais, econômicas, biológicas, favorecidas ou não favorecidas e resumir que tudo seria bom se fosse diferente, é assumir que o diferente, o não existente configura satisfação, prazer e bem estar. Achar que todo mal-estar é causado pelo cabelo liso, pelo cabelo crespo, pelo nariz afilado como o de um santo barroco, por exemplo, é resumir possibilidades, necessidades, questões existenciais/relacionais a índices, a fatos configuradores de significados além da individualidade. Almejar o que não se tem, como forma de tudo resolver, de ser feliz, é colocar o desejo atendido como realização e satisfação, é a frustração superada. Isso exemplifica a solução de problemas pelo aplacamento e deslocamento de não aceitações estruturadas. Não se s...

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