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Pilares contraditórios

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      “Não chame atenção, faça tudo para não causar inveja, medo, raiva”. “Brilhe, chame atenção, ocupe seu lugar, seja o melhor, o mais valorizado”.   Culturas, comunidades, famílias em geral são sustentadas e esmagadas por esses dois pilares. Desde as linhas de produção econômica, desde as defesas e conquistas territoriais, até os núcleos íntimos estruturantes das comunidades, das famílias ou ainda do indivíduo com ele próprio, os limites são essas orientações antagônicas. Evite e lute, esconda e mostre. Antagonismos básicos, crivos dilacerantes cortando em pedaços a vida desses seres. Desse modo o que se ensina é fingir, garantir o devido, não perder oportunidades. Estar sempre apto para aproveitar é “não deixar passar o cavalo selado” . Essa divisão é a cisão dos processos individualizantes. À depender de como se vivencia essas contradições, as divisões podem ser inúmeras, como podem também ficar reduzidas a quatro, duas divisões. Conflitos, desperson

Imposições

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    Geralmente o encontro funciona como imposição, seja no sentido da continuidade, seja na configuração do obstáculo que destrói ou muda as situações. É a pedra no caminho falada pelo poeta Drummond.   Mudança de rumo, descoberta de congruência, validação de motivação, enxurrada de novidades, aberturas infinitas começam com encontros. Os encontros também podem oferecer próximos passos abismais, engolidores de motivações, propósitos e verdades. O encontro sempre transforma, é como uma reação química que muda a estrutura dos corpos, das substâncias, dos elementos químicos. É a irreversibilidade, pois o ser tocado é propiciador de mudança e de descoberta. Reunifica antíteses, transforma teses, que são continuadas em outros contextos em níveis diversos. A diferença entre os valorativos: encontro bom, encontro ruim, encontro construtivo, encontro abismal, dependerá das estruturas de disponibilidade ou de compromisso que estão em jogo, que estão se deparando para

Distopia e arbitrariedade

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      A vida transformada em gincana, maratona na qual vence o melhor é pontilhada de urgências. Nada pode ser adiado, tudo precisa ocorrer do modo esperado, nada pode falhar, assim pensam os maratonistas, indivíduos transformados em objetos, títeres e mártires dos sistemas que os orientam. Urgências familiares, urgências políticas, urgências sociais, planos, objetivos, todas essas expectativas lançam a vida para depois, fazendo com que os indivíduos busquem a luz no fim do túnel. As trevas são redimidas por palavras de ordem políticas, por pregações religiosas, por promessas aliciadoras de bem-estar, por explicações espirituais e transcendentes, missões e propostas do que é o viver aqui neste planeta, nesta Terra. É o placebo, o faz de conta que estimula o corre-corre, o atropelar o outro, tudo em nome do bem ou do mal que deve ser destruído. Ter urgência é o faz de conta que tudo justifica, corrompe e destrói, pois é o acenar para o inexistente, para o que deve ser, o que precisa

Amargura

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    Frustração contínua, desejos não realizados, expectativas falhadas são os ingredientes do posicionamento, do comportamento amargurado. Tudo falhou, nada deu certo, os indivíduos sentem-se sozinhos, desesperados, correndo atrás de oportunidades, da vida que todos têm e eles não tiveram. A inveja cozinhando, cozida com lágrimas de raiva filtrada pelo que consideram injusto, é o riacho que sacia a sede. É o amargo, o desprezível, o resíduo, o bagulho que deveria ser descartado, mas foi retido pois era o único estofo concreto do cotidiano. É o famoso personagem apascentado pelo ódio que escorre nas linhas de Poe, Shakespeare e Dostoiévski. É também o estojo, o ninho onde se condicionam e nutrem víboras. O amargor é imobilizador, pois é um resíduo muito forte da não aceitação de si, do mundo e do outro. Nesse sentido, criaturas amargas estão ancoradas na depressão que tudo detém, engole e destrói, mas que para elas é causa da doçura do dia a dia, sendo seu mel resta

Poço sem fundo

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    A ganância, essa atitude ou comportamento, resulta sempre da pessoa se sentir no direito de realizar e conseguir qualquer coisa que deseje pois é capaz e privilegiada, e também por ter direito ou por se sentir injustiçada, marginalizada. “Os meios justificam os fins, querer é poder, agora é minha vez” e outros lemas espúrios, enviesados e autorreferenciados justificam seus atos. É uma atitude autorreferenciada que atinge níveis perigosos quando alicerçada em direitos identitários, atitudes de expiação, ou pretendida justiça social. “Fui explorado, agora exijo meus direitos”, “todos têm, e eu?” são gritos desesperados que orientam comportamentos ambiciosos, exclusivistas e destruidores da harmonia familiar e social. São posicionamentos pessoais, apoiados em frustrações e desejos individualizados, sem entendimento das forças antagônicas grupais, sociais atuantes sejam na família, seja na sociedade em geral, consequentemente focados apenas nas mudanças que leva

Pragmatismo inútil

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  No mundo moderno é cada vez mais comum morar só, viver distante de amigos, conhecidos ou parentes. Olhar em volta e se encontrar sozinho, saber que não se tem quem encontrar, quem ouça, é, às vezes desesperador, tanto quanto apenas é uma constatação do que acontece. Essas situações, desespero e constatação, aparentemente diferentes, são iguais quando considerados os níveis em que elas se estruturam. Perceber-se só é o que existe em comum nos dois casos, as diferenças se iniciam ao avaliar o que é sublinhado, enfatizado no que ocorre. Perceber a solidão e com isso se desesperar acontece quando a mesma é filtrada por lentes pragmáticas ou culpadas. Ter um objetivo, uma meta ou ambição e a ela se dedicar é um pragmatismo validado pelos resultados, mas que engessa as possibilidades relacionais de estar com os outros. Na culpa, tampa da impotência, tudo é justificado e a procura de perdão, redenção dos atos, explicação dos mesmos, é uma constante.   Não ter onde o

Para que o inconsciente?

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    No final do século XIX, Freud se preparava para lançar sua teoria sobre a natureza humana no livro A Interpretação dos Sonhos (1900), com o intuito de entender e tratar distúrbios, doenças, conforme ele, tratar a neurose. Sua postulação do inconsciente como explicação da dinâmica da vida psicológica do ser humano está fundamentada em conceitos elementaristas, consequentemente reducionistas. É o que havia na psicologia recém saída da psicofisiologia desenvolvida por Wilhelm Wundt, que tentava explicar, medir e descobrir causas de toda e qualquer conduta humana. Esse resíduo associacionista estrutura e valida a ideia de natureza humana. É uma ancoragem explicativa desastrosa para o desenvolvimento dos enfoques sobre comportamento. Além da influência da psicofisiologia, a visão de atemporalidade implícita no conceito de inconsciente resulta de influência kantiana. A noção explícita em Kant, de que nada pode ser conhecido em si mesmo, e que portanto o conhecimento só é possível a

Desistência comprometida

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      Abrir mão de si é um dos mais encontradiços estados de não aceitação, consequentemente de neurose. Não se aceitando, não se suportando, o indivíduo escolhe padrões, situações pelas quais se vê reconhecido, significativo e aceitável. Agir como os famosos agem, ser como os ricos e bem sucedidos são, também esconder e tentar apagar tudo que considera denunciador de suas origens e aspectos de sua não aceitação, para assim se classificar para as situações de sucesso. A vida passa a ser resumida entre aparentar o valorizado e esconder o que pode ser demérito. Copiar e seguir a escada do que é considerado sucesso exige reinicialização. É preciso apagar todo traço que possa desabonar, é preciso reconfigurar vivências, parentescos e amizades. Sem história, sem traços que o denunciem e comprometam, o indivíduo segue sozinho para novos horizontes. Necessário manter amigos, alianças, mesmos caminhos, que o tornem aceitável e respeitado. Abrir mão de si, de sua história, é seu novo nasc

Consideração ou liberdade?

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    Geralmente, quanto mais oprimido o indivíduo se sente, mais ele deseja se afirmar e ser considerado. É estarrecedor esse desejo de ser considerado, quando o que deveria ser desejado era a liberdade, o fim da opressão.   Acontece que quando se quebra a “coluna”, quando se é oprimido, se rompe a continuidade de perspectivas de estar no mundo com os outros. O que se percebe são pontos, pessoas, situações que são obstáculos. E aí, já de coluna quebrada, se arrastando, o que se aspira é a ajuda do outro, o envolvimento do outro, é ser considerado para então conseguir o que se quer. É a liberdade dada pelo apoio, é o outro transformado em bengala. O oprimido, quando não se liberta, quando não vence o opressor, transforma tudo em objeto, em instrumento para realizar desejos e aliviar dores.   Ser oprimido, seja em que esfera for, é ser desumanizado. Perder autonomia, perder liberdade, perder sensibilidade, e conseguir apenas movimentos de baixar a cabeça e

Agendando o imaginário

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      Toda vez que ouço ou leio: “Deus vai me ajudar, Deus me ajuda” percebo o desespero, a desorganização, a infelicidade implícita de quem tem esse desejo, essa certeza.   Para mim, fé é transcendência, é o encontro resultante de ir além de si mesmo, e nesse sentido, fé é exercício de autonomia, é descobrir no outro, o si mesmo.   Deus ajuda, pode ajudar o indivíduo que cumpre as suas obrigações. Essa sempre foi a afirmação clara de toda religião, entretanto, com o passar do tempo, essa clareza foi obscurecida e as obrigações se transformaram em sinônimo de promessa, óbolo, dízimos, festas e batuques. Pagar a promessa, fazer o agradecimento passou a significar ou resumir a maioria das ações religiosas. É absurdo! Pede-se ajuda a Deus e depois se tenta barganhar com a ajuda dada. Entronizam-se deuses nesse ato de troca. Deus ajudou e será recompensado. É vil, é absurdo, é uma troca, um ato negador de Deus.   Fé é autonomia que quando pensada e exer