Postagens

Constância

Imagem
  Normalmente entendemos constância como o que não muda, e em relação a pessoas são aquelas que são fieis, que mantêm propósitos, compromissos e desejos. Nessa abrangência a constância é uma faca de dois gumes: ela diferencia, corta, separa e também limita.   Ser constante, manter propósitos pode ser uma maneira de negar o tempo, a passagem das situações, a mudança, e, assim, a constância é transformada em compromisso, em medo do próximo passo e proteção para os vendavais que transformam realidades. Torna-se uma cabine de isolamento e proteção que pode ultrapassar a imanência individual e colocar o indivíduo fora dos processos vivenciais. Os juramentos de fidelidade, como o clássico “até que a morte nos separe”, estão calcados em suportes negadores de circunstâncias e vivências, enfim, negadores de mudança.   A vivência contínua de constância impõe questionamentos. São antíteses que exacerbam propósitos e medos e questionam a coerência. Podemos perguntar se a ...

Dogmas e certezas

Imagem
  O estabelecimento de certezas é uma das maiores necessidades, assim como uma das maiores dificuldades cotidianas. Acreditar no que se percebe, no que se pensa, ou ainda, acreditar no outro ou em si mesmo é um processo que geralmente implica desespero e alienação.   Essa dificuldade cotidiana psicológica é também filosófica, epistemológica. Quando a continuidade dos processos é quebrada por introdução de referências a partir das quais se possa pensar, corrigir e também resumir dificuldades, rompe a Gestalt, a totalidade dos fenômenos, e, é assim que se distorce.   É bom lembrarmos de Aristóteles, cuja obra ainda é pilar do pensamento filosófico atual, apesar de propiciar distorções e divisões com suas “categorias lógicas” a priori. “ As dez categorias de Aristóteles são: substância, quantidade, qualidade, relação, lugar, tempo, posição, estado, ações e paixões para classificar tudo o que existe. É a Teoria de Classe com seus agrupamentos e categorias, ...

“Os asnos preferem o feno ao ouro”

Imagem
  É atribuída a Heráclito a frase “os asnos preferem o feno ao ouro” . Essa frase pode ser pensada como uma máxima filosófica usada quando se quer resumir o que é imanente ou aderente ao humano. É também uma maneira de explicar os valores enquanto circunstâncias ou atribuição contingente. O feno, a fonte de alimento, é o básico. É o que permite sobreviver: basta ser mastigado, engolido, comido. O ouro pode permitir compra dos alimentos, mas por meio de instrumentos indiretos que destroem convergências naturais.   Valorizar o ouro mais que qualquer coisa causou a morte de Midas, que tendo seu desejo atendido pelos deuses, tudo que pegava virava ouro.   Perder de vista o que é imanente, estruturante do viver, gera deslocamentos. Faz com que o indivíduo seja inserido em um universo, um sistema de valores extrínsecos e aderentes. A grande transformação humana acontece quando o valor, o significado atribuído passa a situar e dividir comportamentos. Não é mais gostar ...

Panis et circensis

Imagem
  Perceber que o lúdico prepondera nas aspirações e desejos humanos foi decisivo para que estruturas estatais, governamentais e ditatoriais lidassem com os objetivos de domínio e submissão. Desde os tiranos romanos isso é uma constante. Reduzidos à satisfação de suas necessidades básicas biológicas de fome, sede, sono e atividade sexual, o vazio, a insatisfação se apodera dos homens. Viver para comer reduz suas possibilidades. Buscar comer um pouco mais é transformar sua vida em luta contínua para sobreviver, para caçar alimentos.    Esquecer essa submissão limitadora e despersonalizadora faz buscar diversões, leva a descobrir o lúdico como o que abre perspectivas e muda o jogo opressor. É a fantasia, a ilusão e a esperança, mas é também a perspectiva que humaniza. Adquirir perspectiva é uma maneira de, ao questionar limites, transformá-los, uma maneira de neutralizar os anestésicos, a dopagem realizada pelos sistemas despersonalizadores. Criar a próp...

Surpresas esmagadoras

Imagem
    Assistindo ao filme Norueguês Valor Sentimental , exemplar em descrever questões vivenciais geradas pela descontinuidade, perdas abruptas e não contextualizadas, pensei no impacto de acontecimentos avassaladores e imprevistos.   Surpresas são percebidas como esmagadoras quando quebram referenciais, levando o indivíduo a se sentir perdido, apartado do que o definia e situava. Essa vivência é abismal. Dificilmente recupera-se desse inesperado.   É comum, na infância, o desespero decorrente da morte dos pais ou de um dos pais. A terra treme e não há explicação para o súbito acontecimento. O desespero passa a ser frequente. Se perde a crença no que está diante, nada significa, pois a qualquer momento tudo pode sumir, desaparecer. Guerras, calamidades, perda do emprego do pai, enfim, transformações sociais, cataclismos climáticos e infinitos acontecimentos psicológicos descontinuam a vivência do estar no mundo com o outro. Essa descontinuidade gera medo, r...

Ser humano - IV

Imagem
      Ao longo dos séculos foi desesperador lidar com o que se entendia como a “horda humana”, desde os raptos tribais às matanças rituais, assim como às guerras fratricidas e de conquista territorial.   Estados, leis, regras foram criados para organizar e controlar os seres humanos reduzidos à sobrevivência. Entretanto, o espírito das leis, a criação de valores universais, os pilares religiosos aumentaram os níveis de sobrevivência, de despersonalização ao desenvolverem esses valores e normas, pois as medidas de avaliação do humano passaram a substituir o avaliado. A máscara, o invólucro tornaram-se definidores. Valores e regras são geradores de medo, raiva e apoio. Ter o que estabiliza, fazer parte do que brilha e apoia é o que se deseja. Quando a filiação às regras por outros ditadas é o básico vive-se em função de resultados, abrindo mão, atropelando o presente, o que existe. O Estado, a Igreja, a defesa do privado são constantes no espírito das leis, e, ...

Ser humano - III

Imagem
  No nível de sobrevivência os seres humanos são detidos na satisfação das próprias necessidades entendidas como propósitos, objetivos e contingências a realizar ou evitar. O outro, o semelhante é percebido como o que atrapalha ou como o que ajuda, o que tem que ser evitado ou cuidado. Sobreviver é sempre preponderante. A história das civilizações e culturas nos mostra isso, mas também mostra o ir além disso. Transcender esses limites é uma constante ao longo de nosso estar no mundo como seres humanos. Pontualizados na sobrevivência, passamos a ser manipulados pelos sistemas que nos permitem sobreviver. É o ciclo vicioso instalado. É a dialética do senhor-escravo de Hegel e as explicações do Estado e luta de classes de Marx, ou, ainda, é o que diariamente encontramos como desumanização, medo, insatisfação, angústias, raiva e violência. Gritos de socorro, guerras povoando nosso cotidiano. Perceber o outro é a solução e para isso é necessário deixar de olhar para o...

Contato

verafelicidade@gmail.com