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A tábua de salvação é a única saída do sem saída

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    A tábua de salvação é a única saída quando não se tem saída. É paradoxal, é um oximoro. A única saída não é uma saída. A situação se neutraliza, mas quando se inventa, sonha ou arbitra uma “tábua de salvação”, acredita-se que o objeto, a tábua, vai mudar o processo.   Não há saída, não existem mais recursos, pontos ou esboços. A realidade é a não saída, é o fim. Criar uma tábua, arbitrá-la como salvadora só subsiste nos universos não reais, no mundo da fé, por exemplo, ou no das transformações arbitrárias onde o que não existe passa a existir. Sonhar abre portas exatamente por não existirem portas, tudo é sonho.   A trajetória, os caminhos das tábuas de salvação são preenchidos pelas esperanças, colorindo medos e remendando frustrações... e assim as vidas prosseguem.   Adiar, procrastinar, esperar são atitudes que fundamentam a criação de expectativas e apostas nas situações salvadoras.   “Quem sabe faz a hora, não espera acontecer” já dizia

Blindagens e distorções do autorreferenciamento

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  Inúmeros indivíduos se sentem com dificuldades de lidar com pessoas e/ou situações, se vitimizam se sentindo incompreendidos e desamparados, e nesse contexto a alienação impera e não há a percepção de si mesmos, dos próprios problemas, não há constatação ou questionamento, o mundo começa e acaba na própria pessoa e tudo é percebido em função de suas satisfações e insatisfações, seus desejos, suas conquistas e fracassos, avaliando e decidindo em função dessas pontualizações. Percebendo o mundo, os acontecimentos, a partir dos próprios referenciais, das próprias necessidades, tudo é categorizado nesse contexto. É o autorreferenciamento – essa maneira distorcida de neutralizar não aceitações – se posicionando no que é valorizado, no que entende como importante e sinalizador de sucesso e aceitação.   Esse processo resulta necessariamente em surgimento e ampliação de sintomas – tonturas, tiques nervosos, pânico, ansiedade, depressão etc. – em posicionamentos sob

Delimitações e impermeabilizações

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      Inúmeras vezes o isolamento, o estar separado do que ocorre aqui e agora, do outro, do mundo enfim, resulta de estar protegido ou protegendo-se, de estar sempre verificando possibilidades e avaliando, buscando o melhor para si, gerando em última instância, impermeabilização característica do autorreferenciamento, das respostas contextualizadas em referenciais próprios.   Rezar, torcer para que tudo dê certo, apoiar-se no pensamento positivo, criar redes de afeto e proteção através de atitudes consideradas transcendentais são exemplos de delimitações que impermeabilizam. A meditação, por exemplo, considerada pelos espiritualistas como um instrumento de ultrapassagem de variáveis do estar no mundo, cria impermeabilização sustentada pelas bases residuais do que se ultrapassou. Isso acontece com qualquer delimitação, seja busca de transcendência, seja busca de situações mundanas a alcançar e a evitar. Tudo que é transformado em contexto para estabelecer participação, em pon

Mentiras são necessárias?

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    “Se privar uma pessoa comum de sua mentira vital você também a privará de sua felicidade”   - Henrik Ibsen -   Lendo O Pato Selvagem, de Ibsen, pensei nessa verdade/mentira. A ambiguidade da situação, uma ambiguidade quase quântica que é gerada pela própria colocação do problema. A mentira, no caso, é considerada por Ibsen como vital, isso porque ele acredita que através da mentira os próprios sonhos são realizados.   Acontece que a mentira exime a culpa, tanto quanto esconde e amordaça a impotência. E sendo assim como afirmo, fazer de conta que tem condição, quando não se tem, não é salvador, pelo contrário, é aniquilador. Essa pessoa sem sua mentira é apenas uma pessoa com sua realidade - provavelmente significadora de frustração, recheada de medos e vacilos. Sem a mentira ela percebe seu problema, e ao percebê-lo ela tem condição de não o suportar. Ao contrário, quando tolera se desumaniza, se aniquila. Ficando privada da felicidade construída na mentira, ela percebe

Quando tudo é explicado por a priori, nada é explicado - 2

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    Da mesma maneira que preconceitos com relação à nossa origem ( “portugueses degenerados”, “negros tribais escravizados” e “indígenas selvagens” ) são abordagens repulsivas e apriorísticas que distorcem e impedem a compreensão de nossa cultura, a visão oposta, de enaltecimento da herança de determinadas características culturais desses mesmos povos, nada explicam ou contribuem para o entendimento de nossa identidade cultural, nossos problemas sociais e suas possíveis soluções.   Cheios de boas intenções, imaginando neutralizar preconceitos e discriminações, muitos exaltam os saberes proporcionados pelos povos originários - os indígenas -, o acervo cultural trazido pelos africanos, suas danças, comidas, seus deuses, sua religião enfim, como chaves para nos desembaraçar de nossas atribulações.   Esse se voltar para o passado, escolher excelências formadoras de motivação e comportamento e considerá-las significativas no processo, é também um questionável

Quando tudo é explicado por a priori, nada é explicado - 1

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    É muito comum, muito difundida a noção de que a causa dos nossos problemas sociais atuais está na herança de comportamentos de nossos antepassados e que a solução desses problemas estaria, em grande parte, no enfrentamento de preconceitos.   Explicar o presente pelo passado é um vício, uma rua sem saída. O antes não explica o depois. A continuidade de consequências, o querer entender o que acontece pelo que aconteceu cria explicações de causa e efeito, perguntas/respostas nas quais se sacrifica e nega a ideia de totalidade e contextualização. Explicar a dificuldade que a criança tem de aprender pelo fato de ter um pai muito rico, um pai muito pobre, uma mãe russa ou ainda uma mãe indígena é estabelecer um sistema de bodes expiatórios falantes e explicadores do fenômeno.   Qualquer análise histórica, política, social, comportamental psicológica deve se ater às forças estruturais do que está sendo estudado. Não são as funções, os símbolos, os padrões que determinam compo

Entendendo a imposição dos fatos

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    O conhecimento ou desconhecimento do que ocorre não é responsável pelo que ocorre. Na visão idealista é a ideia que cria a matéria. Nesse axioma, tomar conhecimento de um problema, de uma catástrofe climática que nos atinge, por exemplo, é o que trará mudança. Não é verdade. Quase três décadas de conferências sobre o clima apenas servem para gerar etiquetas, criar rótulos e vender selos de sustentabilidade e boa imagem para governos, países e empresas.   O que é claro é que apenas por meio de mudanças de atitudes governamentais é que é possível encarar a questão climática de forma eficiente. Para isso teríamos que não subordiná-la a interesses econômicos. Isso requer uma nova ordem econômica mundial. É uma mudança que não depende de desejos. É uma necessidade que surgirá quando forem inviabilizados os interesses atingidos pelas questões climáticas. Não depende de opiniões pessoais. Não é uma questão subjetiva, é uma questão estrutural do atual sistema cap

Imperativo categórico, grande insight kantiano

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    As pessoas podem ser bestiais, desumanas e cruéis quando agem em função de seus interesses e conveniências, enfim, quando não agem livremente, quando estão submetidas a injunções pragmáticas, políticas, a conveniências e circunstâncias.   Como agir livremente quando se está imerso e submerso em sociedades, empresas, famílias, clãs? Kant dizia que só agimos livremente quando agimos de acordo com o imperativo categórico e não de acordo com imperativos hipotéticos, pois os imperativos hipotéticos estão ligados a compromissos, ou a atingir resultados vantajosos, a fugir de situações estressantes, ou a preparar para algum objetivo conveniente posteriormente. O imperativo hipotético faz com que nossa vontade não seja determinada por nós e sim por forças externas, por nossas necessidades circunstanciais, por desejos. Só através da autonomia, ele dizia, podemos escapar dos ditames da natureza e das circunstâncias, e agirmos com liberdade, segundo leis universais e determinação que no

Abrigo

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  O abrigo, inúmeras vezes, é o encontro do presente que transforma e define trajetórias de continua solidão, de frustração estruturante de dúvidas e omissões.   Quando ansiedade e medo habitam o cotidiano, sem saber o que fazer, sem saber para onde ir, nem o que acontece, o indivíduo se desespera, se desgasta, se omite. Essa omissão é implosiva. Sozinho, sem se comunicar, surge o isolamento. Tudo ameaça. É o deserto sem oásis. Nesse desespero, nessa solidão, quando se encontra um apoio - o abrigo - as coisas mudam. O inóspito começa a ser povoado. As reestruturações se impõem. É o novo trazendo transformação.   Encontro amoroso, vivências psicoterápicas, descoberta de problema engendram soluções. Novos sentidos são configurados, os processos continuam e assim são descobertas novas dimensões individualizantes, e essa continuidade personalizada destrói o abrupto das imposições, das ameaças e violências. É a mulher que se sente livre, é a criança risonha, é o me

Torcendo que aconteça

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  Apostar no futuro é gerar expectativa. Esperar é temer quando se imagina que nada do necessário e prometido vai acontecer, tanto quanto esperar é comemorar o que já está para acontecer, o que se deseja que ocorra. Valorar como positivo ou negativo o que vai acontecer cria ansiedade à medida que antecipa acontecimentos. As antecipações funcionam como apostas. É o indivíduo com ele mesmo decidindo. Esse autorreferenciamento implica sempre em divisão. O indivíduo se transformou em outro que é o juiz, a vítima, o que vai decidir o processo. São criados os atores, outros eus resultantes da divisão suportada por contextos e atmosferas de ansiedade.   As vivências voltadas para resultados sempre são apoiadas em ansiedade e é por essa condição desvinculada da realidade que elas angustiam e atritam, é a poeira que cega. Não há discernimento, não se sabe o que está acontecendo, nem mesmo como acontece.   Aspectos culturais incorporam vivências. Existem ciclos e datas