Wednesday, August 3

Somatização ou descorporificação

A percepção do corpo, no contexto do presente, é instantânea e responsável por sentirmos bem-estar/mal-estar.

Percebo meus músculos, meus nervos, tendões, percebo o movimento muscular, percebo volume, densidade. Quando o contexto destas percepções, o meu corpo, é prolongado em outros referenciais que não os do meu corpo, surgem os significados, surgem as categorizações. Destaco o meu corpo e o observo, avalio, instrumentalizo. Esta descorporificação se constitui no que é conhecido como somatização. Quando meus músculos tremem, percebo-os tremendo; caso me posicione, destaque o tremor e com ele comece a me relacionar, aparecem os prolongamentos perceptivos tipo: meu corpo está tremendo, é falta de cálcio, é stress, ou meu medo está se exteriorizando, tenho de escondê-lo etc. Estes posicionamentos passam a significar. São índices contabilizados enquanto aceitação ou não aceitação. Quebrou-se a continuidade. É a descorporificação ou somatização. O processo de descorporificação estabelece o pânico: não tenho mais controle sobre meu corpo: vou desmaiar, meu corpo vai parar, vai explodir, etc.

É interessante determo-nos no conceito de somatização e descorporificação.

Somatização é o processo pelo qual enchemos o corpo de "resíduos emocionais", transformamos nossas frustrações e mágoas em tremores, dores, etc. É a colocação dos problemas no corpo, é como se aumentássemos o nosso corpo - além de nervos, vísceras, músculos, também passamos a ter queixas, ódios guardados - esta é a idéia popular, psicanalista e psicologicamente corrente; enfim, somatizar é aumentar o corpo, transformando-o em terreno gerador/armazenador do "psicológico mal resolvido".

O que se imagina que seja causado pela somatização, o corpo presente, é justamente o oposto. A quantidade de fenômenos e processos resumidos no termo somatização cria o corpo ausente. Ao somatizar perdemos o corpo, descorporificamos. Nosso corpo vira um objeto diante de nós, não somos o corpo, perdemos o corpo. A perda do corpo, é a perda do contexto, do fundo estruturador das percepções proprioceptivas, estereoceptivas, cinestésicas e cenestésicas. Os processos orgânicos, a movimentação muscular, a orientação espacial, a dor, as vísceras, a percepção de calor, de frio, permanecem, só que são percebidas em outros referenciais que não os do corpo. O calor, por exemplo, pode ser percebido, no contexto das definições dos livros sobre doença, como se fosse característico do início da meningite; o tremor dos olhos indica que todos vão saber que estou às vésperas de uma falência, etc.

Descorporificados, sobrevivemos em busca de uma capa, uma âncora; procuramos massagens que nos façam sentir vivos; nos aplicamos em exercícios que nos devolvam pernas e braços; corremos atrás de meditações que nos situem, coloquem nossos pés no chão.

A descorporificação é um processo grave e frequente que só pode ser globalizado se configurarmos as relações estruturantes do ser-no-mundo.

Só o homem consegue esta mágica: descorporificar-se. O ser humano, não exercendo suas possibilidades, ao se reduzir ao nível de necessidades, de contingência, transforma o corpo em um obstáculo, nele se autorreferenciando. Os animais jamais transformam o corpo em obstáculo, pois que é através do mesmo que eles realizam sua necessidade de sobreviver. Não há no animal a dimensão transcendente, existencial-contemplativa, existe apenas o nível de sobrevivência, tudo para isto converge; o corpo, o organismo, está estruturado para sobreviver. Nos animais, os prolongamentos perceptivos (memória, pensamento) são mínimos em decorrência da estrutura neurológica cerebral. (pags. 46 a 48)

A não satisfação sexual, é um processo estabelecedor de descorporificação, é a amputação. A impotência sexual, a frigidez, a percepção de sexo como pecado, como "coisa suja", provocam descorporificação. A não aceitação da não aceitação do processo de descorporificação, esta atitude desesperada e onipotente, é o que se chama de hipocondria. O hipocondríaco quer controlar, evitar tudo que o faça perceber que não tem corpo. É como se, o tempo todo, pensasse: "Viver faz mal à saúde, provoca doença". O apego aos remédios, a busca das pílulas (tranquilizantes, antidepressivos etc), a ligação com as drogas, é uma tentativa de colocar pedras, construir alicerces, muralhas de segurança cujos blocos, tijolos, são os tranquilizantes, os antidepressivos, as drogas motivadoras e relaxadoras. A base do desespero é a aquisição de capas, roupas maravilhosas, trapos protetores, a fim de esconder ossos salientes, já descarnados.

Descorporificados, passamos a nos perceber como fantasmas e isto nos assusta, advindo daí inúmeros desequilíbrios e várias tentativas de equilibrar o perdido. Quando temos de cuidar do corpo, já o perdemos.

Em psicoterapia gestaltista, o processo de recuperação do corpo começa quando os sintomas, os deslocamentos, são questionados. A percepção do processo, a inclusão da pontualização sintomática, no contexto da não aceitação, promove a recuperação do corpo. Questionar as necessidades contingentes, perceber a infinita possibilidade de ser-no-mundo, dinamiza, quebra os posicionamentos autorreferenciados e estabelece relacionamentos com o outro, com o mundo, com o próprio corpo, isto promove integração, recuperação do corpo. Acontecendo isto e havendo permanência do contexto de não aceitação, outros problemas surgem, desaparecem os sintomas e surge a grande cratera, o vazio gerador da descorporificação. (pags. 50 e 51)

- Transcrito do meu livro: Desespero e Maldade


"Desespero e Maldade" - Vera Felicidade A. Campos

verafelicidade@gmail.com

6 comments:

  1. Oi Vera este texto é maravilhoso, especialmente o último parágrafo.

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  2. Estava eu aqui no trabalho a tossir sem parar. Pensei então em fazer uma coisa boa, ficar quieta um pouco. Entrei no face, li seu texto.
    Ah, que delícia Vera, até abri a boca de sono, relaxei. Muuuitto bom
    !!! Bj

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  3. Ah! Patricia. Não sabia que o escrito tinha este poder... mas, na realidade, quando se percebe as implicações das próprias vivências tudo é possível. Parabens pelas sacações.
    Beijos,
    Vera

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  4. Parabéns pela excelente matéria. Conhecer as manifestações emocionais do corpo é tão importante e que não deve restringir-se só aos médicos, ela deve fazer parte do sistema básico do auto conhecimento humano .

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  5. Olá, obrigada pelo comentário. Que bom que você pensa assim.
    Abraço

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