Thursday, March 15

Não se tem neurose, se é a neurose

Frequentemente se diz que existem problemas, que existe neurose, mas que isto é apenas um aspecto da personalidade. Pensar assim expressa a visão de que o indivíduo está bem, mas tem um distúrbio, são enfatizados os aspectos saudáveis, não neuróticos. Comprometidos com a ideia de que a totalidade é a soma de seus vários constituintes, acreditam na doença, na neurose, como uma parte, um aspecto da personalidade, que existe mas não compromete o que nela é saudável.

O todo não é a soma de suas partes; qualquer coisa que aconteça, acontece em sua estrutura, em sua totalidade. É sempre assim em qualquer organismo, em qualquer totalidade. Não há como falar em partes boas e partes más e achar que desta maneira se percebe a problemática psicológica do homem.

Na clínica psicoterápica, a visão de que se é a neurose, de que ela não é uma aderência, é uma visão  fundamental para o resgate do humano. Neurose é não aceitação que cria autorreferenciamento, distorção perceptiva e deslocamentos. Estar triste, deprimido, ansioso é resultante de processos de não aceitação do que se vivencia. A dificuldade de se comunicar, por exemplo, de se expressar não é simplesmente um aspecto psicológico que caracteriza a vivência neurótica. A dificuldade de conversar, de se expressar é uma das características do processo de não aceitação que afeta tudo. Não sendo aceito, o desenvolvimento do indivíduo é realizado através de posicionamentos criadores de divisão - eu e o outro, eu e os meus desejos, eu e o mundo. Nesta divisão surgem posicionamentos autorreferenciadores. Começa a separação: "No trabalho e com os amigos está tudo ótimo, não tenho problemas; só tenho problemas em casa com a família e quando fico só comigo mesmo".

Frequentemente ser é substituído por ter; desta operação surgem mais parcializações, mais alienação, e conclusões como esta de que não se é neurótico, se tem neurose. Uma das implicações deste reducionismo elementarista - generalizado pela visão psicanalista que vê o homem como formado por id, ego e superego - é a soma de instintos e desejos; constitui-se em terreno fértil para a medicalização: não se é, se tem problema. A dessubjetivação denunciada pelos psicanalistas foi gerada por eles mesmos. Quando se pensa "tenho neurose" equivale a "tenho dor no peito, tenho dor de cabeça". Para curar isto, toma-se remédio.

Não se tem neurose, se é a neurose. A neurose não é um atributo, ela é a estrutura que caracteriza todo o relacionamento e trajetória do ser-no-mundo quando ele não aceita seus limites, suas necessidades e possibilidades.




















"La Naturaleza Humana a La Luz de La Psicopatologia" - Kurt Goldstein
"Por que a Psicanálise?" - Elisabeth Roudinesco

verafelicidade@gmail.com

8 comments:

  1. Não é um pouco perigoso esse pensamento, pois rotula as pessoas?

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  2. Prezado (a) anônimo (a),

    Diagnóstico não é rótulo. Comunidade científica tem referências diferentes das do leigo onde o significado das coisas sempre ameaça. Você nunca ouviu falar nos diagnósticos psicológicos, nos diagnósticos médicos e psiquiátricos, na classificação americana das doenças mentais? Neurose é doença não é rótulo.

    Vera

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  3. Vera,
    Esse texto é bastante esclarecedor e fundamental, pois muda completamente a maneira de entender a doença psicológica. Quando você começa a "se ver como o problema" e não como "tendo um problema", acho que é o começo da mudança. Na verdade, sem perceper isso, nada muda, não é mesmo?
    Penso que essa é uma das grandes distorções de muitas psicoterapias e da psiquiatria em geral: querer tratar os problemas psicológicos como se fossem aderentes. Assim, receita-se "práticas" ou remédios específicos para cada sintoma: pânico, depressão, ansiedade, timidez, déficit de atenção, etc. E o paciente segue se sentindo sempre vítima dos "seus" problemas, muitas vezes diagnosticados como incuráveis pela psiquiatria (como a depressão), garantindo o lucro da mega indústria de psicotrópicos.
    Quanto ao comentário anterior, quem conhece sua teoria sabe que você é completamente anti-rótulos, anti-classificações dos problemas humanos, pois a idéia de que "o todo não é a soma das partes" (presente coerentemente em toda sua obra) é incompatível com tais divisões.
    Bjs.

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    1. Perfeito, Ioná a parcialização e transformação dos problemas psicologicos em aderências, mantendo o "politicamente correto", é a melhor maneira de administrar situações e lidar com o homem como objeto, desumanizando-o consequentemente.

      Beijos

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  4. Olá Vera, seu pensamento tem a beleza própria da coerência, aquele tipo especial de nexo e proporção que nos enleva (como a arte). Pessoas originais como você, certamente nadam contra a corrente (dos politicamente corretos, dos compromissados com a própria imagem e conta bancária, dos que empurram para debaixo do tapete as questões fundamentais e perturbadoras etc).

    Enfim, os simplórios precisam de muitos exemplos para entender certas idéias; para os incautos, basta pensarem numa laranja com um pedacinho estragado, não adianta cortá-lo fora e fazer a laranjada com o resto porque o gosto do estragado continua presente em toda a laranja... enorme simplificação do seu artigo, mas dá para qualquer um entender que a neurose, a não aceitação, compromete tudo.

    Para os bem intencionados e que realmente queiram entrar em contato com um pensamento novo e revolucionário, o exemplo que me vem à mente é a visão da Vitória de Samotrácia: um pensamento que simplesmente por existir, desafia os ventos correntes num movimento de maestria impressionante.

    Abraço

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    1. Ana, todo pensamento decorre da percepção e no autorreferenciamento os pensamentos são bem pontualizados, nada abstratos, como você bem exemplificou ao mencionar os "simplórios", os focados em dificuldades e facilidades.

      Sua lembrança da estátua traz um momento de beleza, obrigada.

      Abraço

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  5. Vera,
    Este artigo é para mim mais uma grande possibilidade de entender e reafirmar pontos fundamenstais da sua teoria,sobre a neurose, esta doença que tanta inviabiliza o ser humano, e de como enfrentá-la.
    Sobre o comentário a respeito de rótulo,etc,etc, apesar de tudo já ter sido colocado,reafirmo as palavras anteriores de Ioná e ainda, acrescento que,quem tem o privilégio de conhecer o seu trabalho, sabe que é justo o contrário, a sua atitude é sempre de romper com os rótulos e classificações, conduzindo o indivíduo a enfrentar sua doença.
    bjos
    Ana Cristina

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    1. Ana Cristina, obrigada pelo seu comentário.Beijos

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