Thursday, March 1

Infinito abrigado pelo finito

O organismo humano enquanto necessidade, limitado pelo seu próprio desgaste é uma contingência biológica que fragiliza o homem e revela sua precariedade. Viver em função dessa necessidade é sobreviver, é fazer convergir todas as suas possibilidades relacionais para este foco: sobrevivência. O organismo humano é também possibilidade relacional. O homem percebe o outro, o mundo e a si mesmo, categoriza, questiona-se, comunica-se, perpetua-se pela escrita, pelo desenho, pelo que cria e produz, expressa vivências. Neste processo o ser humano é imortal, é infinito. Transcendendo suas necessidades biológicas, exercendo suas possibilidades relacionais, rompe com a finitude de seus limites, atingindo assim o ilimitado, o infinito.

O Corpo, o organismo perece, mas as expressões relacionais afetivas eternizam-se. Questionamentos, explicações, dúvidas perpassam séculos ao desequilibrar os limites vigentes.

Esforçando-se por sobreviver da melhor forma ou de qualquer forma, o ser humano esvazia-se enquanto possibilidade relacional. Esse posicionamento na sobrevivência cria os que buscam prazer, bem-estar, notoriedade não importa como. Sobreviventes exercem sua desumanização em várias situações, das mais corriqueiras e cotidianas às consideradas perversões como os pedófilos, torturadores, enganadores, demagogos, gananciosos, deprimidos, todos compõem a galeria dos que estão reduzidos à sobrevivência.

Ultrapassar os padrões limitadores, abrir perspectivas é a maneira de realizar a infinita possibilidade humana de ser no mundo.

Perceber este antagonismo entre necessidade e possibilidade sem globalizar gera inúmeras visões religiosas e espiritualistas, criando assim o além de, o depois da vida, depois da morte como redenção final para o homem, por exemplo. Os paraisos buscados via religião foram também apreciados pelos usuários de diversas químicas: ópio, heroina etc.

Aceitar as necessidades e transformá-las, não se reduzir às mesmas é o que nos permite realizar a infinitude do estar com o outro no mundo sem posicionamentos nem fragmentações alienadoras.






"Alice no País das Maravilhas",
Lewis Carroll
"O Último Teorema de Fermat", Simon Singh
"A Janela de Euclides", Leonard Mlodinow

verafelicidade@gmail.com

10 comments:

  1. Vera,
    Esse texto parece mesmo ser uma continuação do anterior (A eternidade está no presente) e tão incrível quanto.
    Aceitando e portanto transcendendo as nossas necessidades, os nossos limites, abrem-se infinitas possibilidades relacionais. Exercendo essas possibilidades deixamos de ser sobreviventes, pois não estamos mais presos às metas, aos esforços diários para nos manter jovens e belos, para conseguir e manter coisas, relacionamentos, mascarando o que de fato somos.
    Como voce disse no comentário do texto anterior: "é realmente surpreendente como a reversibilidasde dos contextos permite mudança de percepçao, consequentemente de pensamento e de vivencias: limites podem ser transformados em liberdade etc."
    Obrigada.
    Bjs.

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  2. Oi, seria possível dar-me um exemplo de reversibilidade de contextos; limites transformados em liberdade?
    grato!

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    1. Diego,

      Para entender reversibilidade de contextos, basta pensar em Figura-Fundo, lei basica da percepçao.

      O que é Figura-Fundo? Toda percepção se dá em termos de Figura-Fundo, estabelece a Psicologia da Gestalt. O percebido é a Figura, o Fundo nunca é percebido, quando o é transforma-se em Figura. Exemplo: você agora está percebendo letras (brancas) ( Figura), sob elas existe um textura colorida (preto), quando chamo atenção esta cor (preta) é percebida , é Figura, houve reversibilidade perceptiva.

      Exemplo de limites tarnsformados em liberdade: a dificuldade sexual de alguém (limite), quando é aceita permite a realização ou renúncia de desejos (relacionados à dificuldade), liberdade por exemplo.

      Abraço

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    2. Essa lei da percepção, quando a entendi, me confirmou um dito que o tamanho da dificuldade é o mesmo da facilidade. Abraço

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    3. grato pela lembrança, Augusto.

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  3. Olá Vera, ler seus artigos, acompanhar seu pensamento é ter acesso a uma fonte infindável de questões fundamentais e respostas extasiantes. É tão impressionante como a lida cotidiana pode ser cheia de "pequenas maldades" que deixam tantas cicatrizes; é tão impressionante ver semelhantes exercendo "grandes maldades" que vêm a público na mídia escandalizando a todos. Fico extasiada (no bom sentido da palavra) de ver como você consegue transcender dualismos e valorações, como a que descrevi acima, e mostrar que o posicionamento na sobrevivência é o denominador comum destas situações, é o que nos limita e desumaniza, o que nos reduz a um organismo, o que nos "animaliza".

    Às vezes acho tudo um caos - incoerências, impossibilidades, desorganizações, belos discursos X péssimas ações, maldades descomunais - fico achando que nós "humanos" não temos solução; aí tenho que vir ler seus artigos, um alento...

    Abraço

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    1. Bom Ana, que perspectivas sempre existem.

      Abraços

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  4. Bom dia Vera, talvez esteja fora do contexto como aceitar que não se aceita? Como viver esta não aceitação ?

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    1. Rosélia, para aceitar que não se aceita é preciso se deter no problema, se deter na não aceitação; resistir às necessidades de deslocamento da não aceitação.

      Beijos

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