Thursday, October 18

Fábrica de sonhos

Quando não se vive o presente, tudo é vivenciado como expectativa.

Viver dedicando-se à realização de objetivos, sonhos e propósitos é esvaziador, transforma o ser humano em um robô (objeto) programado para a realização de desejos e necessidades.

Inicialmente o processo de mecanização é vivenciado como bem-estar, tranquilidade, sorte, sucesso, acerto. Tudo que é necessário é programado e a eficiência dá bons resultados. Ganhar dinheiro, ser respeitado, ser considerado bom, estas aderências suprem a deficiência e a falta desencadeadoras dos sonhos e propósitos.

Sucesso e realização, nestas estruturas mecanizadas, resultam em vazio; realizar objetivos, sonhos é também estabelecer despropósito: não há mais por que lutar, não há o que empreender, não há o que fazer, só existe tédio, vazio.

Ao vivenciar este vazio, inicia-se um novo processo, frequentemente percebido como impasse: é preciso abrir mão do conquistado para conseguir bem-estar, sentir-se vivo. Viver é percebido como doloroso e esta vulnerabilidade requer proteção; reinicia-se o processo de realizar necessidades, criando novas mecanizações. Adaptação, adequação são conseguidas, eternizando o bem-estar sob condições padronizadas e estagnadas.

Sonhos são fabricados, procurados para suprir incapacidades, não aceitações e vazios, consequentemente são as bolhas de sabão que quando tocadas desaparecem. Ter um sonho, é ter uma meta, um propósito, é não viver o presente. Viver bem é vivenciar o que se vive, é viver o presente; negá-lo, jogando-o para depois, é um adiamento lesivo, esvazia e mecaniza, deixando o ser sem flexibilidade, endurecido na realização de seus propósitos e objetivos futuros.
 















"Ilusões Perdidas", Honoré de Balzac
"Horizonte Perdido", James Hilton


verafelicidade@gmail.com

20 comments:

  1. Oi Vera,

    estou com uma dúvida. Dentro da abordagem que tu propõe, existe a inteção de investigar o passado da pessoa, especialmente sua infância? Pergunto isso porque estou querendo compreender melhor em que momento (e como) as raízes dessa não-aceitação do presente começam a se estruturar, e o quanto essa investigação do passado pode ser de fato libertadora.

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    1. Oi Diego,

      Qualquer acontecimento na vida do outro, do cliente, importa; é a história de vida da pessoa, interessa sim; entretanto, não se faz uma investigação sobre isto e ainda, eu afirmo que se algum acontecimento passado é o estruturante da não aceitação, dos problemas da pessoa, isto não é passado, é o presente. Tudo que existe, existe enquanto presente. No presente, a pessoa se relaciona, via memória, com algo passado ou antecipa desejos, expectativas, certezas futuras.

      Não aceitação não é trauma, é contexto de vida estabelecido enquanto autorreferenciamento; por isso é impossível a pessoa globalizar as próprias não aceitações como processo, sem ser através do diálogo, do questionamento feito pelo outro; isso pela simples razão de que a pessoa não se percebe percebendo ou quando o faz já é em outras dimensões e contextos.

      O passado passou, se ele persiste, por memória, idéia fixa etc ele é presente. O presente é um novo contexto a partir do qual se percebe o ocorrido.

      Como dizia Kurt Lewin: “O passado não explica o presente, o passado não interfere no presente, o presente é que modifica o passado”.

      Abraços

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  2. Grato pela resposta Vera!

    Esclareceu um pouco minhas dúvidas, apesar de saber que ainda não consigo compreender todas as implicações do que escreveste. Enfim, acabo de encontrar um ótimo tema para refletir.

    abraços

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  3. Vera, interessante seu texto. Pensei que uma pessoa que vive uma situação onde não é aceita, vive sob pressão e cobranças, de uma mãe dominadora, por exemplo, é natural que enfrente isso e se movimente para mudar, que queira viver sendo o que é simplesmente, sem neurose, assumindo sua autonomia e responsabilidade. Acho que isso não é sonho, mas buscar a resolução de um problema.

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    1. Augusto, esse exemplo que você deu pode ser um caso típico de deslocamento. Nos processos psicoterápicos podem ser verificados os níveis de concessões, motivações e compromissos gerados pela não aceitação. O sonho é estruturante enquanto perspectiva do que se vivencia e desestruturante enquanto vontade de escapar das opressões sofridas. Por favor, complemente esta minha resposta a você com a que estou dando a Felipe Fernandes, abaixo.

      Abraço

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    2. Mto interessantes essas colocações...
      estão enriquecendo mto esse momento que estou vivendo.

      Mas Augusto, quanto ao que escreveste, parece que isso é uma postura para um adulto assumir (se é que é possível assumir isso voluntária e naturalmente ao ter sido "educado" por uma mãe dominadora).
      Mas enfim, e quanto à criança?
      Será que ela tem condições de formular tal pensamento, diante de uma circunstância onde ela não é aceita?
      Se os pais delas não aceitam ela do jeito que ela é, mas apenas do jeito que eles desejam que ela seja, o que ela pode fazer senão recalcar seus sentimentos? Afinal pra ela não é uma questão de sobrevivência estar próximo a essas pessoas que dizem a amar "incondicionalmente"?

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  4. Vera, concordo em partes.
    Acredito, sim, que os sonhos são uma fuga do presente, que amiúde se comporta como tédio e vazio. Entretanto, é inerente ao ser humano a busca pela melhoria do agora, logo ter sonhos, buscar metas leva o ser humano ao movimento, à vida. Viver sem sonhos leva o ser humano a uma dor, ao real tédio; creio que mesmo o trabalho é uma forma de sonhar.
    Vejo também que quando se acabam os sonhos, as expectativas de um futuro melhor, as pessoas são aí levadas a um desespero que algumas vezes se culmina em suicídio. O Sonho, a busca pelo futuro melhor são fundamentais à existência humana, acreditar que existe como melhorar nos faz buscar o melhor, seja pelo estudo, pelo trabalho, pelos relacionamentos, pela religião. Sem essa certeza instrínseca que cada um de nós temos que apesar de todos os percalços, poderemos ser vitoriosos, creio que não teríamos desenvolvido nada desde o homem das cavernas.
    O grande problema é a forma em que se encara o sonho, o futuro não-concluído; muitos esquecem que hoje é a vida e vivem por algo não realizado, colocam suas vidas complementamente voltadas a algo que não se sabe se vai se realizar, e, caso não haja êxito, há tanta dor quanto a ausência do "desejo de futuro".
    O equilíbrio tem que ser buscado, o termo em que você se equilibra com o que há hoje em sua vida e com seus sonhos e sua busca por sua realização. é fundamental não colocarmos nossas vidas em função de sonhos, como de nada, pois se não ocorrer como queremos, a frustação será desastrosa.

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    1. Oi Felipe,

      Motivação é o que dá continuidade à vida psicológica. O comportamento motivado está estruturado em dados, em contextos das próprias vivências (realidade) ou significa um deslocamento, um andaime construido para atingir o que falta. Sonhos são estruturados por motivações portanto podem estar contextualizados na vida que se leva (nível de realização) ou na vida que se deseja levar (nível de aspiração) totalmente desvinculada do que se vivencia.

      Consequentemente, sonhos, desejos são perspectivas ou são objetivos a alcançar totalmente distantes do que se vivencia. Sonho como meta, como desejo de superação, é sempre aniquilador do humano e por isso mesmo é fonte de manipulação própria ou alheia (o outro, o sistema). Sonhar com a casa própria, lutar pelo reconhecimento, suportar a opressão para um dia se livrar dela, são sonhos, deslocamentos indicadores de não aceitação.

      Continuar o que se vivencia é a perspectiva que permite realização. Não aceitar o que se vivencia e querer algo diferente desta vivência, gera expectativa, fabrica sonhos como esperança de melhor situação e assim apenas se consegue viver dividido, "esquizofrenizado" entre o que se suporta e o que se espera um dia ser alcançado.

      Enfrentar o que não se aceita é a antítese que gera questionamentos, permite mudança e mantém motivação. Sonhar sem este enfrentamento de realidade equivale a se drogar, a conseguir alívios gerados por ilusões, dependências e cautelas.

      Abraço

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  5. Adorei Vera! Entendi perfeitamente desta vez.
    Um abraço,
    Monica

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  6. A resposta para "Felipe" ainda ajuda a entender melhor!

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  7. Oi, Vera!

    Faz tempo que não escrevo aqui!

    Adorei esse texto e a resposta ao comentário de Felipe Fernandes foi muito boa, deu pra ver a abordagem ao tema por outra perspectiva.

    À primeira vista parece mínima ou até inexistente a diferença entre um sonho contextualizado em bases estruturantes e um sonho contextualizado em bases alienantes (posso dizer assim?). Mas na verdade não é. São dois mundos completamente diferentes. Quando se inicia o processo de questionamento na terapia vai ficando bem claro o que aliena e o que estrutura e depois é até fácil perceber; é engraçado como o complexo se mostra simples quando compreendido em sua totalidade (gosto muito do texto que trata disso).

    Os sentimentos que temos em relação aos sonhos dão alguns sinais do que eles realmente significam nas nossas vidas. Angustia por não alcançar, ansiedade para que aconteça logo sinalizam o quanto aquele sonho é vazio e esvazia, ao passo que um sonho estruturado/estruturante – em mim sempre é assim – é sentido como algo que flui, que faz parte, não requer batalha, querer alcançá-lo confunde-se com a dedicação ao processo, é tudo uma coisa só. Onde antes existia a mesmice da busca pela realização a qualquer custo, passa a existir uma infinidade de possibilidades, passa a existir tudo mais que não a meta e daí é possível ver as mínimas sutilezas, contemplar.

    É libertador perceber essa diferença.

    PS: Tenho sentido falta dos comentários certeiros e inteligentes de Ana T. Blooman, adoro lê-los. :)

    Beijos.

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    1. Oi Natasha, bom que você voltou a escrever aqui!

      Não existe base estruturante e base alienante; isto implicaria em conceitos de contexto, estrutura, deslocamento que quando não considerados, tipificam e criam dualismos onde terminaríamos falando de sonho bom e sonho mau. Você nomeou inadequadamente, porém, pensou e percebeu acertadamente.

      Sonhos são estruturados por motivações portanto podem estar contextualizados na vida que se leva (nível de realização) ou na vida que se deseja levar (nível de aspiração) totalmente desvinculada do que se vivencia.

      Beijos

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    2. Ah, Vera, entendi. Quando estava escrevendo, cheguei a pensar em sonhos bons e maus mesmos. rsrsrs... Obrigada. Beijo.

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  8. Oi Vera,
    Se "Viver dedicando-se à realização de objetivos, sonhos e propósitos é esvaziador, transforma o ser humano em um robô (objeto) programado para a realização de desejos e necessidades.", e o ser humano que não tem sonhos, que não tem nada que o move a lutar e que fica parado no tempo/espaço, estão no mesmo patamar... Então, o correto é ter sonhos dosados e não viver somente em razão deles?
    Alline.

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  9. Oi Aline,
    O que dá consistência e estrutura o humano é a realidade. Quando a realidade cria obstáculos ou desagrada, ela é enfrentada e mais consistência surge nos processos relacionais; quando não se consegue isto, desloca-se para sonhos, fantasias, mentiras, etc, o que esvazia o humano. O sonho, no sentido popular, nada mais é que o desejo, a meta, aquilo que vai suprir o que falta, é também esvaziador e problemático. Viver o presente não significa estar “parado no tempo/espaço”, o que nos movimenta é exatamente a realidade, o que se vivencia; o que se idealiza ou fantasia, sempre nos desequilibra e apequena à medida que nos referencia em função do sonhado.

    Vera

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    1. Grande ensinamento Vera. Vou pensar sobre o assunto!
      Obrigada!

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  10. Vera você ainda está aí?

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