Thursday, September 5

Aprisionado ao bem-estar

Adaptação, acomodação, adequação são frequentemente sinônimos de limites, renúncias e aprisionamentos.

Manter compromissos, negar a própria vontade, disfarçar desejos, esconder e negociar motivações é uma maneira de construir alienação, despersonalização. Nada mais tranquilo, neste contexto de alienação, do que o previsível, o certo e limitado. A organização realizada por aderências - padrões e regras - é o que existe de mais alienante e aprisionador.

Sem determinação não há iniciativa; vive-se a ilusão de ter iniciativa através da chamada escolha. Este acaso arbitrário - a escolha - é muito valorizado por trazer colorido à vida. Brincar disto ou aquilo, de sim e não, é fazer de conta que existem dúvidas conflitantes, que existem possibilidades de escolha. Nas vivências comprometidas não existem antíteses, nada destoa do bem-estar e adequação: dúvida entre comer carne ou peixe, por exemplo, quando se tem comida, não é desesperadora; enlouquecer por não conseguir escolher um dos dez ternos utilizados para reuniões de negócios, ameaça, mas não quebra a prisão do bem-estar, adequação e regras.

Manter-se seguro, protegido, exercer ajustes e adaptações, geralmente não é percebido como aprisionamento, é entendido como conforto, bem-estar. As implicações do processo, também não são percebidas devido às fragmentações posicionantes e ao não questionamento. Quando o excesso de deslocamentos ultrapassa os limites possibilitados pelas necessidades realizadas, surgem sintomas desconfortáveis, causadores de mal-estar. Inicia-se um processo de divisão, de alienação. Não se percebe que o mal-estar é uma resultante do bem-estar e aí, buscando uma terapia, os problemas podem ser globalizados e novas percepções surgem; ou buscando remédios para aplacar e neutralizar os sintomas, surgem níveis de sedação e fragmentação que alternam mal-estar e bem-estar e que fazem desejar o limitado e aprisionante bem-estar como felicidade suprema: conseguir dormir uma noite depois do tranquilizante é o nirvana, tanto quanto ter seu medo encoberto pelo remédio mágico é tudo de bom que se deseja.

Abrir as portas da prisão, destrancar as grades, aceitar que conforto e desconforto, tranquilidade e intranquilidade são lados da mesma moeda, aspectos e faces do estar no mundo com o outro, é liberdade, satisfação, contentamento.















- "Breve Tratado de Deus, do homem e do seu bem-estar" de Espinosa
- "A Era do Vazio" de Gilles Lipovetsky 


verafelicidade@gmail.com

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