Thursday, November 7

Mitos

Hobsbawm já escreveu sobre a invenção das tradições como fator importante nos processos ideológicos, nos processos históricos. A construção de identidades através dos mitos de origem são frequentes nas sociedades, gerando manipulações das mesmas para conseguir "benesses" dos poderes públicos, assim como possibilitando a criação de histórias que servem para deslocar não aceitações.

Reis, rainhas povoam o imaginário dos adeptos de Candomblé e muitos deles, oprimidos e escorraçados deslocam suas não aceitações, utilizam máscaras régias, fazem uma fusão entre os mitos, lendas de seus Orixas com sua personalidade. Têm sido tão frequentes estes processos no Brasil, que foi pesquisado por Monique Augras - psicóloga - como estudos de personalidade, no livro "O Duplo e a Metamorfose".

Temos outro exemplo na cultura indiana clássica, que engendra esta fusão entre mito, identidade e ideologia. Na India, com seus múltiplos deuses e avatares, a heroina Sita do Ramayana é o modelo de identidade feminina: mulher submissa, esposa, mãe, raptada, vítima injustiçada salva pelos deuses; identificação valorizada que serena e mantém a obediência às regras familiares. No âmbito das manipulações sociais, as divindades Kali e Durga, muito violentas, são modelos, são exemplos que se seguidos, possibilitam energia, força para enfrentar conflitos e por isso mesmo, servem à manipulação política do imaginário popular nas lutas entre grupos religiosos.

Nas sociedades ocidentais em geral, baseadas na tradição greco-romana, a identificação com os mitos desta tradição já não é operativa.  Atualmente se insere no mundo contemporâneo ocidental, a idéia de vidas passadas (Karma), por exemplo, de reencarnação como explicitação de situações paradoxais, inesperadas e não aceitáveis, mas, que justificam identidades.

Quando os mitos são deslocados de sua função resultante, decorrente de perguntas diante dos "mistérios" do mundo e passam a ser utilizados como background, como base, surge uma inversão penosa, desagregadora. Enganos são estabelecidos, reis, rainhas, deuses abundam, mitigando o desespero, criando deslocamentos, produzindo válvulas de escape para drenar a não aceitação que congestiona, deslocamentos expressos em frases como: "sou pobre, mas minha família era latifundiária", "venho de origem real da Nigéria", "ser mulher é assim mesmo, eu sei sofrer", "é o meu karma, por isso sou assim" etc.

Quanto mais é mantido o mito como explicação da identidade, mais alienação e ilusão se estabelecem. Psicologicamente, este deslizamento de conceitos é importante para entender os contorcionismos gerados pela não aceitação. De tanto repetir, se acredita e assim se organizam comunidades que sobrevivem deste saber, desta tradição reinventada; cenários que obrigam a desempenhos e camuflam não aceitações, além de se constituirem em ilhas de fantasia enganosa.



- "A invenção das tradições" de Eric Hobsbawm e Terence Ranger
- "O Duplo e a Metamorfose - a identidade mítica em comunidades nagô" de Monique Augras
- "The Buddhist Saints of the forest and the cult of amulets" de Stanley Jeyaraja Tambiah


verafelicidade@gmail.com

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