Thursday, May 1

Urgência

Acidentes são insinuados ou, às vezes, são alheios e estranhos, ocorrendo em estruturas que não os engendraram. O inesperado, quando não resulta de contextos responsáveis por seu aparecimento, surpreende e pode gerar urgência em relação ao que ocorre.

Urgências relacionais geradas, por exemplo, pelo susto de descobrir a filha gravida, o filho drogado, o marido vivendo com a melhor amiga, criam desespero, um motor para a ansiedade, também acionador de depressão ou raiva. A solidez, as certezas se desfazem, surgem buracos, vazios, abismos a serem transpostos participando do que emergiu, do novo avassalador e destruidor da confiança. Neste contexto, entender e ao mesmo tempo ter pressa, são situações díspares, mas, que têm um ponto em comum: são geradas pela urgência, pela quebra do estabelecido.

Catastrofes naturais, sublevações sociais, guerras são também urgências, contextos específicos que obrigam abandono, solidariedade, pressa e ações repentinas.

Nas urgências, pressa e ansiedade se confundem, entretanto, diferem ao serem confrontadas com seus estruturantes. A pressa é desencadeada em relação ao dado, ao que ocorre, enquanto a ansiedade é um prévio que abriga e contém o que ocorre. Vetor e receptáculo estabelecem diferenças. Na ansiedade, surgem posicionamentos usados como trampolim para avaliação e superação dos acontecimentos; estes posicionamentos impedem ação espontânea, são movimentos comprometidos, inadequados para enfrentar as variações e vicissitudes das novas situações, das dinâmicas agora surpreendentes. Medos e ganâncias criados pelas atitudes ansiosas, funcionam como blindagens diante do inesperado, impedem participação e solidariedade.

Vivenciar o que ocorre, o que gera  urgência, com disponibilidade e aceitação é estruturante de transcendência, solidariedade e questionamentos. A urgência em transpor obstáculos, neles se apoiando, é o turning point, o pulo do gato necessário à transcendência de referenciais obsoletos e defasados; é a crise que gera mudança, é a avalanche que destrói paisagens, é a participação no que está acontecendo.














- “Diário do Hospício - Cemitério dos Vivos” de Lima Barreto
- “O Céu que nos Protege” de Paul Bowles


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