Thursday, August 14

Educação

A educação é necessária para organizar, sistematizar e desenvolver potencialidades, tanto quanto para “polir arestas”, possibilitando encaixes sociais e civilizatórios. Na reversibilidade dos processos, frequentemente só se consegue isto através de matrizes sistêmicas, artefatos que se constituem em formas, receptáculos de contenção que modulam, contém e reprimem dispersões idiossincráticas, anômalas.

Contradições não resolvidas, cerceadas pelos mecanismos educacionais, transformam propostas individualizantes em regras massificadas.

O “mens sana in corpore sano”, os idéiais hipocráticos de saúde e estética, as transcendências preocupadas com equilíbrio e o bastar-se a si mesmo do yoga, as idéias de autonomia e as descobertas psicoterápicas foram transformadas em kits de sobrevivência, moduladores midiáticos e comportamentais, onde o como fazer pragmático impera.

Educados para sobreviver e conseguir melhor status econômico e poder de manipulação, somos transformados em função de objetivos a realizar - neste ponto a educação desumaniza consentida ou aleatoriamente. Kafka dizia que a educação o prejudicou em vários sentidos, lembrando dos mestres que o orientavam e cobravam adaptações, transformações, exigindo que fosse diferente do que era, que convivesse com o que o alienava. Estas reflexões kafkanianas eram um grito, uma denúncia da integridade que desintegrava. Quando, no processo educativo, se enfatiza sinalizações unilaterais e valorativas, educar transforma-se em selecionar para possibilitar ajuste, adaptação e eficiência e o processo educativo passa a se resumir em regras e soluções de como fazer, deixa de ser fundamentalmente um processo de enfrentamento e vivência de contradições.

Educar é conduzir, criar caminhos, é fundamental para estabelecer desenvolvimento de condições restritas a referenciais polarizados em conseguir e não conseguir, em conhecer e desconhecer. Alcançado este desenvolvimento, amplia-se o campo, o contexto; heterogeneíza-se o antes homogêneo, surgem diferenciações criadoras de novos impasses.

É necessário vivenciar impasses, manter questionamentos, enfim, educar não é resolver, é problematizar; quanto mais se lê por exemplo, mais se conhece e mais se percebe quanto fica por conhecer. Educação é um processo que cria condições de aberturas relacionais, de perspectivas; ela não leva a nenhum ponto, apenas é isto: condição de exercer possibilidades sem se deter em necessidades sobreviventes. Estrutura-se, assim, disponibilidade e capacitação para o exercício de qualquer atividade, sendo também o início de questionamento e constatação de superação imediata, mesmo quando posicionado na administração de acúmulos e referenciais de saber fazer.

Educar é enfileirar, organizar e consequentemente homogeneizar dúvidas, incapacidades e criatividade; é um processo necessário, ferramenta que permite sociedade, civilização, mas, educar é possibilitar, também, desorganização, heterogeneização, desencadeando questionamentos. Não adianta privilegiar apenas um aspecto contido nesta reversibilidade ou esperar que questionamentos venham mais tarde - na vida adulta, por exemplo -, à medida que o básico foi conseguido pelos processos educacionais. Desde o início do processo educativo, e sempre, a totalidade não pode ser reduzida às parcializações necessárias, sobreviventes e contingentes.

O ser no mundo pode caminhar, mas é necessário que encontre chão, espaços, que ele não ande em círculos, não seja cooptado em função de instituições educativas, enfim, que não se criem jaulas como forma de proteger e ser protegido.

Somos educados para consentir, deveríamos ser educados para o questionamento: mudar a própria percepção do eu, do ego, por exemplo, quando mantido por prêmios, elogios e aplausos dos educadores e pais. O ser bem sucedido é uma máxima anestesiante e padronizadora.


















- “A Memória, a História, o Esquecimento” de Paul Ricoeur
- “O Processo Civilizador” de Norbert Elias


verafelicidade@gmail.com

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