Thursday, March 19

Desânimo e imobilidade

Referenciais, regras, padrões, encontrados ou construídos, sinalizam direções e impedimentos, restringem e ampliam os espaços, os contextos relacionais e, assim, tudo que é percebido e pensado como possibilitador, como bom e congruente, harmoniza, organiza e tranquiliza; enquanto o que é considerado impeditivo, desafiador, incongruente, desorganiza e fragmenta, gerando ansiedade.

O a priori da familiaridade, da congruência, tanto quanto da estranheza, da incongruência são estabelecedores destes sistemas de referência. Colocar referenciais, regras, como resultantes de a priori é negar qualquer imanência constitutiva das mesmas. Esta situação paradoxal e artificial é frequentemente vivenciada no autorreferenciamento, que reduz tudo que o circunda e referencia às próprias constatações, desejos, medos, acertos e dificuldades. Os sistemas de referência, neste caso, no autorreferenciamento, são organizadores ou desorganizadores. Deslocamentos são criados para fugir dos impasses, dos impedimentos que desorganizam. A ansiedade, o medo, o pânico são frequentes nestas configurações. Conseguir poder - alavanca para o sucesso - é um objetivo constante, pois ser aceito, considerado, ameniza dificuldades.

Organizar a vida, o cotidiano, desejos e medos em função de imagem aceitável, de bons resultados conseguidos é ancorar medos e frustrações nas flutuantes circunstâncias, é abrir mão de si mesmo. Abrir mão de si mesmo é um processo não conflitivo para o indivíduo autorreferenciado. Contextualizado em posicionamentos, gerados e mantidos para evitar o insatisfatório e buscar o satisfatório, o indivíduo, assim polarizado, se transforma em um pêndulo, um objeto de si mesmo; o ir e vir estrutura sua motivação, percepção e crises, nada existe além disto. Este processo de coisificação é alienante, só se percebe e deseja o que é bom, evita-se o que vai destoar. Busca-se o bem-estar contínuo e assim se consegue o mal-estar frequente, pois as dinâmicas relacionais foram negadas, neutralizadas. Para manter a organização desta aparente tranquilidade, evita-se o que atrapalha, agarrando o que é bom para si, e assim se perde quaisquer possibilidades de questionamento e mudança, tanto quanto fica-se à mercê de frustrações responsáveis pelo desânimo, imobilidade e depressão.




- Phenomenology of Social Existence, de Remy C. Kwant


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