Thursday, August 27

Decepção

Sempre que as expectativas não são atendidas vivencia-se decepção e frustração. Estes momentos devem ser enfocados à luz de questionamentos, desde que a vivência de decepção sempre supõe avaliação, normas e regras.

Não se decepcionar, não se frustrar, é perceber e globalizar contradições que existem quando se está vivenciando o presente. Quando as vivências presentes são invadidas por passado (pela memória: regras, padrões) ou por futuro (pelas expectativas: esperanças e medos) sempre há possibilidade de decepção ou ratificação de compromissos e expectativas.

Decepcionar-se é um indicativo de autorreferenciamento, de exílios relacionais frequentemente não percebidos. Acreditar no outro pode ser resultado de compromisso, regra, obrigação, tanto quanto pode espelhar a apreensão de possibilidades e características do mesmo.

Ao enfatizar o que se espera, o que considera certo, o padrão, se escoa a individualidade do outro nos filtros dos próprios desejos e medos, assim como ao se perceber as possibilidades e impossibilidades, necessidades e circunstâncias do outro, se dilui estas evidências nos contextos estruturantes dos processos relacionais, e então não há falha, não há acerto, nada decepciona, nem atende ou corresponde a desejos. As coisas acontecem, estabelecendo proximidade, distância, sem valorizações atributivas; apenas se percebe mudanças, estranheza ou familiaridade. Não há o valorativo da decepção, da frustração. Todas estas dificuldades, frustrações, decorrem da necessidade de aproximação, do passo antecipado para transformar os obstáculos do estar-no-mundo, para transformar impasses.

Tudo que decepciona indica sempre expectativas não atendidas. Nos relacionamentos, se o problema do outro o atinge, o problema não é dele, é seu. Esta percepção se impõe e cria condições de questionamento, de mudança. Neste sentido, o futuro, a nova evidência, aparece como transformação, revitalizando desertos, alterando direções configuradoras de confiança e ilusão.




“A Sonata a Kreutzer”, de L. Tolstói

verafelicidade@gmail.com

1 comment:

  1. Olá! Acompanho o seu blog faz um tempo e adoro os seus textos. Criei um site que fala sobre felicidade e autoconhecimento e adoraria se você pudesse dar uma olhada. O site chama-se Realizando Mudanças (http://realizandomudancas.com/). Obrigado =]

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