Thursday, April 14

Dissimular

Uma das estratégias frequentes de sobrevivência é a dissimulação. Negar os próprios desejos, fazer de conta que não tem necessidades, tampar carências, medos ou dificuldades é uma atitude valorizada. Nas esferas economicamente menos privilegiadas, quanto mais se sente discriminado, mais se mantém no faz de conta, mais aparenta ser o que não é, mais valoriza o fingimento. Dizer o que pensa, expressar fraquezas, discutir é considerado “feio”, “é grosseria”.

Não vivenciar faltas e problemas, tanto quanto negar as experiências desagradáveis, se constitui em comportamento desejável. Estas atitudes omissas privilegiam crimes e desrespeitos à individualidade. Apanhar do marido e esconder é uma maneira de continuar a ser uma família respeitável; ocultar os abusos sexuais presenciados é um sacrifício valorizado para manutenção da ordem familiar. É a submissão às agências públicas, ao que pode ser considerado bom, o equivalente do “arrumar para dominar”. Criar e manter aparências, nelas se escondendo, é manter condições de ser considerado, é também uma forma de ficar à mercê de demagogos, dos que prometem melhorias e salvação, sejam os políticos, que iludem com riquezas e oportunidades, sejam os religiosos que prometem vida e salvação eternas, propiciando ainda algumas vantagens neste “vale de lágrimas” mundano.

Indivíduos assim estruturados, valorizam o faz de conta, a mentira, a superficialidade. Situações onde conflitos aparecem os desnorteiam, criam maniqueísmos, pois é o diferente do que eles valorizam, promete sofrimento e é rejeitado. Estas atitudes motivam regras ditatoriais, permitem “caça às bruxas”, tanto quanto motivam, pelo populismo, os indigentes e marginalizados. Aprofundamento e conflitos vivenciais também não são suportados; quando surgem são taxados de falta de educação, agressão, prepotência e arrogância, além de serem caracterizados como loucura ou como “coisa de rico”, de quem não sabe o que faz, de quem “acha que tudo pode”.

Dissimular, fingir é a maneira encontrada para se adequar aos vazios criados pela ignorância. Sem acompanhar as implicações processuais, posicionam-se em clichês característicos de contingências que dividem: para eles, o bem e o mal sempre têm alguma face que ajuda o reconhecimento. Neste processo, entre aparências, mentiras e vazios, situações insólitas e absurdas surgem, como: “vou ter que lhe estuprar, é uma experiência tipo laboratório para minha tese de doutorado, não gosto disto, vou ter que ser violento… estou explicando para você saber”. A vítima sente-se amedrontada, mas também considerada, a situação de estupro é maquiada “os fins justificam os meios” ou seja, tudo pode desde que se mantenha aparência e harmonia fictícia.


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