Thursday, January 5

Compensações

Nos processos de esvaziamento do humano decorrentes de vivências de escassez, de vivências de sobrevivência, as pessoas podem passar a se caracterizar pela falta, pelo medo de não ter, pelo receio de continuar sem nada. Quando não são destruídas, quando sobrevivem, vivenciam a sobrevivência árida como intolerável e se esforçam para sair desta situação a qualquer custo, desenvolvendo avidez, objetivo constante de adquirir, de conseguir, de abastecer-se. Neste contexto, a falta de dinheiro, a pobreza, cria uma necessidade de tudo aproveitar. Vivem, por exemplo, pedindo objetos, dinheiro, consultas gratuitas, remédios, vagas em escolas e creches públicas. Manter o trabalho, mesmo  inseguro, rastejar, agradar o patrão são caminhos que acreditam levar às melhorias. Competições, medos, falta de escrúpulos caracterizam seus comportamentos.

Por outro lado, pessoas que vivem sem dificuldades econômicas e até com fartura de bens materiais, podem ter uma outra vivência de falta, igualmente despersonalizante: a carência, o desejo de ser amado e considerado. A carência afetiva - quando não aceita - cria atitudes dependentes, ávidas. Traições, mentiras, enfim, estratégias para conseguir ser considerado, para ter opiniões consideradas, passa a ser uma constante. Esta carência, esta falta, se caracteriza pelo medo de ficar só, de não conseguir sobreviver, e assim, sem limites, sem compaixão, o carente dependente, vitimado, transforma o outro em muleta para o próprio apoio, em chão para sustentá-lo. Dependências afetivas, e muitas vezes ordens familiares são construídas com estes posicionados e também são mantidas por pessoas que, acostumadas a mendigar, manipulam filhos e companheiros para manter estas ordens transformadoras de seres humanos em artefatos aglutinadores de propósitos e dificuldades.

Mentiras, avidez, perversões são frutos das faltas preenchidas por oportunismo, ganância e medo. Inúmeras atitudes consideradas de menor gravidade como viver em busca de boa aparência mesmo que enganosa; manter relacionamentos pró-forma, mas socialmente valorizados; se dividir e culpar-se por relacionamentos escondidos; todas estas atitudes, frequentemente toleradas, se originam na mesma falta e esvaziamento humano que criam a voracidade, a cobiça e a manipulação perversa. Fidelidade, integridade, compaixão não existem nestes universos, pois foram substituídas por oportunas combinações de desonestidade e maldade.


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