Proselitismo



Os prosélitos, os que foram atraídos e recém convertidos para religiões, partidos, seitas ou doutrinas são também os neófitos, ou ainda, os arrebanhados por catequeses e acenos de vantagens propiciadoras de poder ou de bem-estar. Quem mais arrebanha e aumenta suas fileiras é aquele que constrói poder, que ganha força para deliberar, rejeitar e aceitar. Lutar e catequizar são maneiras de conseguir prosélitos, fanáticos, militância aguerrida para manter suas conquistas de poder, trabalho, dinheiro ou vida eterna, a felicidade no reino dos céus.

A acomodação, o se apegar às tábuas de salvação, identifica e ampara os prosélitos. Não podem perder o conquistado, não podem deixar o reino de Deus ser ameaçado (amaldiçoado); partem, então, para criminalizar, destruir, matar o que ameaça, o que já foi conseguido; nada pode desacomodar o que foi conquistado. Acomodação é um dos mais perigosos sinais de alienação. É por meio dela que o outro é destruído: “imigrantes vão tirar nosso conforto” dizem os felizes acomodados, “descriminalização do aborto vai virar de pernas para o ar a nossa família”, “liberação de drogas trará desgraças e sofrimentos para os nossos filhos”. Defender com unhas e dentes o que acomoda é manutenção do medo, é exercício de terror e agressão ao semelhante que pensa diferente. Toda ditadura - exercício unilateral do poder - é estribada na pasteurização do humano, do necessário e inovador.

Ditar regras é criar proselitismo, legião de pessoas que tudo fará para manter o conseguido que acomoda e exclui. São funcionamentos previsíveis e facilmente conseguidos, bastando polarizá-los em torno de pseudo soluções - aparentemente óbvias - necessárias e saneadoras e, assim, os efeitos são conseguidos. A multidão cega e manipulada consegue apenas destruir: punir e quebrar o que individualiza e define a liberdade de ir e vir.

A criação de rotas, às vezes, é uma segmentação de caminhos fragmentadores das possibilidades infinitas de estar no mundo. Sem polarização, a unificação das pseudo verdades equivale a ser anodizado por correntes anticorrosivas que promovem oxidações superficiais, revestimentos protetores que apenas escondem estruturas comprometidas. Assim, tudo se iguala para melhor ser posicionado, utilizado pelos manipuladores. Esse é o mundo do prosélito que nada discerne, tudo discrimina, decide e aprova. Estouro de boiada, uníssona destruição na qual tudo é quebrado quando submetido a tais manobras, unilateralizações preconceituosas e clichês.

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