Afetos alugados - Filhos e parentes



Em um primeiro instante fiquei estarrecida com a reportagem da Revista Piauí “Teatro Familiar Alugar Parentes é um Negócio que Floresce no Japão",  mas logo depois percebi a obviedade e banalidade da situação.

Essa situação é banal e óbvia do ponto de vista das trajetórias do capitalismo de mercado, no qual tudo é produto que pode ser consumido, mas é avassaladora enquanto despersonalização e redução da individualidade à condição de mera função representativa de seus pilares institucionais e afetivos. Sentir falta de um companheiro que morre, e alugar, de uma firma que trabalha nesse negócio, uma pessoa que decora um script, aprende hábitos e atitudes para ocupar o vazio da carência deixada pelo companheiro que morreu, é, no mínimo, revelador de compromissos e conveniências.

Nos atuais sistemas político-econômico-sociais tudo pode ser significado pela representatividade, nesse sentido, tudo fica reduzido à funcionalidade. Funcionar é estabelecer satisfação, é preencher vazios, é capacitar para manutenção das ordens que apenas exigem estar bem, estar adequado aos padrões. Quando afetos, vivências, memórias são triturados neste cadinho, solução homogeneizante, surgem mil e uma possibilidades. Imaginação, simbolização e realidade são resumidos nas funções representativas dos mesmos. Assim como se paga prostitutas para ter prazer, também se paga cidadãos que se habilitam para representar e manter o que nunca existiu ou mesmo deixou de existir. A onipotência de realizar fantasias, tornadas densas e consistentes pelos suportes de mentiras e aparências que as afivelam, se transforma em praxe redentora. Para esses seres humanos apenas se coloca o ser capaz de comprar, alugar, mentir, representar.

No Japão é vantajoso copiar e imitar e assim se estruturou uma das maiores economias capitalistas. Também é corrente o fato de que o que aparece é o que significa, ou seja, aparecer é tudo açambarcar, tudo esgotar. As opressões imperiais permitiam mimetizações, possibilitando aos japoneses os refúgios na imitação, no fazer de conta que criavam, fazer de conta que existiam em seus personagens desejados. Esse mimetismo cria a representação transformada em reprodução de tudo, chegando ao extremo agora com o aluguel de famílias, de parentes, iniciando uma nova dinâmica: a função individual está definitivamente superada, apesar de existir enquanto desejo, delírio e solidão. As cerimônias do casamento “single” - o casar-se consigo mesmo - é outra proeza de desindividualização. Essas passagens de concordância com a sociedade são importantes e nelas quaisquer narrativas podem ser inventadas ou encenadas. Hamlet não mais se questiona e não mais segura a caveira, ser ou não ser não é a questão. A abolição de monólogos, de “vida interior”, de questionamento, de indivíduo diante dele próprio recoloca e muda uma série de questões ontológicas seculares.

Na reportagem de Elif Batuman para a Revista Piauí, é interessante reproduzir:

“Como muitos outros aspectos da sociedade japonesa, com frequência os parentes de aluguel são explicados por meio dos conceitos de honne e tatemae, isto é, os sentimentos individuais genuínos e as expectativas da sociedade. Autenticidade e coerência não são necessariamente valorizadas em si mesmas. A dissimulação da honne autêntica sob a tatemae convencional é muitas vezes vista como um ato de altruísmo e sociabilidade, e não como engodo ou hipocrisia. Um exemplo: o homem que alugou pais de mentira para seu casamento porque seus pais de verdade haviam morrido acabou por revelar a verdade à mulher. Funcionou muito bem. A mulher disse que compreendia que seu intuito não fora enganá-la, e sim evitar complicações na cerimônia. E chegou a agradecê-lo pela consideração.”

As não aceitações e carências também são expostas:

“Um casal contratou um filho para ouvir histórias sobre a má sorte do pai. O filho de verdade morava com eles, mas se recusava a ouvir aquelas histórias. Além disso, o neto já não era mais criança, e os avós sentiam saudade de tocar a pele de um bebê. Uma visita de três horas de um filho e uma nora de aluguel, de posse tanto de uma criança pequena como da paciência necessária para ouvir histórias tristes, custava cerca de 4.300 reais. Outros clientes incluíam um jovem casal que alugou avós para o filho, e um homem solteiro que contratou mulher e filha a fim de experimentar o tipo de núcleo familiar que vira na tevê.”

O Japão, sociedade tecnológica de ponta, é um dos principais representantes do capitalismo de mercado. O país sai na frente e inicia o processo de institucionalização da mercantilização de todas as instâncias sociais. Terá inúmeros seguidores pelo mundo afora e cada vez mais o ser humano será reduzido a funções econômicas, encoberto por roupas e aparências socialmente significativas que protegem e escondem suas carências, motivações, frustrações e alienações. Vive para comprar ou alugar, inclusive as singulares funções individualizantes. Nada é, pois tudo será. Do vazio surgiu o funcionamento permitido, confiável e sem atritos. Alugar individualidade alheia é um consumo possibilitado pela coisificação do capitalismo alienante e alugar a própria individualidade é o resíduo que sobra desse processo indistinto de funções falhadas, de funções preenchidas.

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