Relativismo sem fulcro



Coerência e lógica são parâmetros produtivos para se estabelecer critérios, consequentemente, comportamentos. Quando tudo é feito por ser necessário ou por se desejar, a circunstancialização dos atos, dos comportamentos cria verdadeiros comprometimentos, anula possibilidades e converge tudo a atos aleatórios nos quais apenas se exercem vontades pessoais, desejos autorreferenciados.

Qualquer comportamento do indivíduo expressa suas fragmentações, divisões, circunstâncias ou sua unidade. Quanto maior a fragmentação, maior o descontínuo, o desconexo. Tudo se relaciona a tudo e tudo está disperso, perdido. Os polarizantes que situam podem estar no mesmo plano dos que fragmentam. Quando tal acontece, isso é mais um fragmentador. Querer sempre ser o melhor, o mais lúcido, ter a verdade e determinar o certo e o errado, é uma maneira de fragmentar, de discriminar, pois tudo é referenciado no certo/no errado, para o bem/para o mal, do próprio indivíduo. A existência do prévio, a própria vontade, tanto quanto a própria experiência é dinamitadora e fragmenta. A ideia, por exemplo, de que só com a violência se resolve os desmandos da marginalidade, que só assim a sociedade se organiza para a tranquilidade dos cidadãos, é a unilateralização da solução, a crença estabelecida em função de ideais preconceituosos e discriminatórios.

Pensar o porquê sim, implica também em pensar o porquê não. É a única maneira de não se referir às situações com padrões a elas alheios ou que reflitam apenas intenções pessoais, por exemplo. Ver só um lado é não globalizar, é ficar sem fulcro, sem ponto de questionamento, de antíteses. É conseguir a parcialização, a fragmentação em um lado. Não há lados. Essa divisão é mera didática para aliciar, é quebrar as implicações transformando-as em miscelâneas de certezas a partir das quais se realiza afirmações e comprometimentos. É como se fossem criadas mil pernas que partem do mesmo centro. É aglutinação. Isso só se faz quando se tem um propósito prévio, é o excesso do porquê sim ou do porquê não, comprometidos com a ideia do que deve unificar e centralizar os processos.

Nas famílias, quando se duvida: “é bom fazer uma festa de comemoração do sucesso conseguido por nosso filho? Por que sim? Por que não?”. O “porquê não” se impõe para neutralizar a dúvida na visualização dos vários aspectos, criando continuidades que, assim, acabam com a dúvida fragmentadora. Da mesma forma, nas instituições, por que manter certas regras ou dispensá-las? Por que modificá-las?

Dúvidas em relação a desejos, propósitos, medos ou soluções são neutralizadas quando questionadas, quando tudo é globalizado sem reduções de conveniência ou vantagem. Essa base é o fulcro que dá consistência às decisões, acabando com contingências alçadas à condição de definitivas.

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