Receios e cautelas




Quando a vivência do futuro, a expectativa do que vai acontecer preside e organiza o cotidiano, o nível de insegurança aumenta. Tudo ameaça. Nenhum recurso pode ser esperdiçado. Para essas pessoas, viver é preparar o depois para quando não se consegue mais ter condições de agir. O medo de deixar filhos desamparados, a preocupação de ter uma velhice solitária ou sem ninguém ajudando, antecipa as próprias dificuldades temidas, que sequer são percebidas pois o indivíduo está instalado em seu futuro temido, ou almejado.

Viver para, ou viver por, aliena, desestrutura, tira o chão, faz perder significado, pois tudo é colorido por amargura e medo. Não sabe o que fazer a não ser juntar dinheiro, amizades e condições para o futuro, por exemplo.

Negar a própria vida e a própria realidade é uma maneira mágica de esperar recuperá-la mais tarde. Virar zumbi para conseguir sobreviver é um passo desesperado. Tudo evitar, tudo conseguir, tudo cuidar para ter condição mais tarde, é uma preocupação que angustia, que tira o melhor: a espontaneidade.

Achar que não há mais nada novo, que tudo já é conhecido e que só resta guardar e proteger isola o indivíduo do mundo e dos outros, tanto quanto de si mesmo, pois ele é seu duplo, vive para criar e dar amparo, é um artefato construído por seus medos e frustrações.

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